====== Valor dos contos ====== //[[..:start|Formação das Lendas]]// * Em todas as civilizações, das mais rudimentares às mais complexas, a tendência à atividade se exprime por atos, cantos ou palavras, sem que nenhum desses modos de expressão possa ser classificado à parte dos outros como autônomo ou anterior. * Na criança, esse entrelaçamento se manifesta com toda a violência e espontaneidade da idade jovem — ela salta, bate, trabalha, canta, fala, inventa e narra ao mesmo tempo, tanto mais feliz quanto mais sua vitalidade se manifesta a si mesma e aos outros sob múltiplas formas simultâneas. * O mesmo vale para as sociedades, no sentido de que não se pode, para compreender sua razão de ser e seu mecanismo, dissociar arbitrariamente a atividade literária das demais atividades — política, econômica, religiosa, jurídica — pois quem deseja alcançar uma inteligência real das regras de criação, fixação, transmissão e desaparecimento dos mitos, lendas e contos deve levar em conta as outras manifestações intelectuais. * O estudo dos temas literários isolados é insuficiente — se nos últimos anos se chegou a noções mais precisas em matéria de literatura dita popular, foi porque a etnografia e a ciência das civilizações fizeram progressos rápidos, graças aos quais se pôde modificar a interpretação dos elementos utilizados nos temas. * O conhecimento aprofundado dos tesouros de arte plástica medieval, obtido por meio de laboriosas pesquisas em arquivos e inventários críticos, revelou um vínculo íntimo, primordial e constante entre a vida material e social das populações da Idade Média e sua produção literária — lendas, canções de gesta, epopeias. * Os estudiosos reconheceram a necessidade de estudar paralelamente os ritos especiais que constituem o culto dos santos, pois lendas e ritos hagiológicos formam um todo cujos elementos devem ser considerados simultaneamente, em razão de suas incessantes interações. * Observação semelhante vale para as lendas e mitos relativos às divindades, aos heróis civilizadores e aos demônios — sua recitação é em si mesma um rito essencial de diversas cerimônias, sem o qual estas não teriam nenhuma ação sobre o mundo sobrenatural. * A recitação de contos, fábulas ou lendas não ocorre em qualquer momento do dia — ora constitui um dos atos destinados a aliviar as fadigas cotidianas, ora serve de estímulo durante a ação como a marcha no deserto ou na floresta, ora prepara para a ação como a caça ou a batalha — o que é verdadeiro sobretudo para todos os relatos ritmados, tanto em prosa quanto em verso. * A conquista importante da etnografia e do folclore no domínio literário consistiu em revelar que a produção literária dita popular é uma atividade útil e necessária à manutenção e ao funcionamento da organização social, por seu vínculo com outras atividades materiais — sendo, sobretudo em suas origens, um elemento orgânico e não uma atividade estética supérflua ou um luxo. * O conto amoral não é mais antigo que o conto moral — ao contrário, uma concepção amoralista do mundo só é possível com um desenvolvimento intelectual muito elevado, pois os semicivilizados são os mais profundamente morais de todos os homens, a ponto de não considerarem moralmente indiferentes nem mesmo os fenômenos naturais. * A lenda de Adão e Eva, punidos por transgredir interdições divinas, e a lenda do Dilúvio, que pune os homens por sua desobediência às ordens de Deus, têm por objeto essencial fazer os ouvintes compreenderem a razão superior de sua situação atual, penosa e dolorosa, e submetê-los ao princípio de dependência e obediência diante do poder divino. * Quando um relato americano enumera as prescrições seguidas por um herói civilizador para ter êxito na pesca ao salmão ou na caça ao cervo, isso significa que os ouvintes devem submeter-se às mesmas prescrições — qualquer transgressão seria seguida de insucesso. * A moral primitiva não se ocupa apenas das relações entre os homens, mas das relações dos homens com as potências extra-humanas — fenômenos naturais como o trovão e a chuva, o mundo animal e vegetal especialmente os totens, os ancestrais míticos, os heróis civilizadores, os reis divinos e os deuses — e ao longo dos séculos a moral, como tudo, se laicizou. * O estágio intermediário se marca no conto animal, no apólogo e na fábula, cujos heróis, embora dotados de corpo animal, têm modos de ser híbridos e cuja moral é diretamente transponível à atividade humana, coletiva ou individual. * A importância vital da força, da astúcia e da engenhosidade é muito grande em civilizações como a dos negros africanos ou dos tibetanos, e era ainda maior na Idade Média do que nas civilizações modernas, onde a complexidade das ações e reações frequentemente mascara o caráter dinâmico brutal. * As fábulas de La Fontaine conservam esse valor primitivo; as de Florian são adaptadas ao sistema cristão; outros casos de adaptação são fornecidos pelos relatos budistas chamados jatakas. * Na parábola, os temas são em seu núcleo um bem popular, mas a intervenção individual se marca na aplicação que deles se faz — os personagens são humanos ou pelo menos as relações visadas são as relações entre os homens como tais. * O simples conto, que não serve mais nem a instruir nem a moralizar, mas apenas a divertir, representa o estágio extremo ao qual pode chegar, em seu desenvolvimento, um indivíduo ou um povo — o de conceber uma atividade pelo prazer e de obedecer conscientemente às tendências profundas de seu temperamento, fazendo dessa obediência uma regra de vida. * Uma epopeia ou canção heroica russa, ou uma canção de gesta que desenvolve no ouvinte virtudes guerreiras, é anterior ao conto de fadas e à novela, por ser mais utilitária. * Ao se estabelecer uma hierarquia de valores em matéria de atividade literária, o conto propriamente dito se coloca ao lado da própria poesia, pois tem como característica própria interessar a todos os homens, qualquer que seja seu país, sua raça, seu desenvolvimento intelectual ou a qualidade técnica de sua civilização. * Quem não repetisse com o poeta — "Se Pele de Asno me fosse contado, nisso teria um prazer extremo" — tampouco teria prazer, e sobretudo não um prazer extremo, nos poemas homéricos, na Divina Comédia, em Shakespeare, no Fausto ou em Verlaine. * La Fontaine é mencionado como o autor dos versos sobre Pele de Asno — conto de Perrault tomado como exemplo da universalidade do conto. * Assim como a poesia, o conto possui um valor amplamente humano — exprime por meios muito simples e muito rudimentares as imagens e os sentimentos de que vive a humanidade inteira.