====== 1.1 Lenda arturiana ====== //Maria Gabriela Carvalhão Buescu. Perceval e Galaaz, Cavaleiros do Graal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991// **A formação da lenda arturiana** 1. Segundo M. Rodrigues Lapa, a Matéria da Bretanha é um dos capítulos mais complicados de toda a literatura medieval, pois o processo de formação da lenda arturiana é extremamente complexo e há grande controvérsia sobre sua origem. 2. A problemática sofreu notáveis modificações desde os estudos de Rodrigues Lapa, tornando-se o arturianismo campo de aprofundadas pesquisas literárias, históricas e arqueológicas, sobretudo por investigadores anglo-saxões, embora o caso ibérico e em especial o português permaneça domínio ausente ou quase esquecido nessas investigações. 3. Tendo em conta os mais recentes estudos, a criação do corpus que dá origem à lenda cristalizada nos textos provém da convergência de três temas fundamentais, cada um com origem, genealogia, evolução e trajetória diferentes, envolvendo a temática complexa ou compósita: Artur, a Mesa ou Távola Redonda e os seus Cavaleiros, e o Graal. **Artur** 1. Em relação ao Rei Artur, figura central embora muitas vezes grande ausente, já que não participa na Demanda e chora por ser coagido a permanecer no reino de Logres, é preciso distinguir entre sua dimensão histórica e sua dimensão mítico-lendária, sendo magras as referências e determinações factuais a seu respeito, perdendo-se na obscuridade dos tempos e das crónicas. 2. Atribui-se a Gildas, em De Excidio et Conquestu Britanniae, composto cerca de 547, a primeira referência que pode remeter para Artur, embora seu nome não esteja ainda especificado, e os acontecimentos registados, nomeadamente uma grande vitória dos Bretões sobre os Saxões cerca do ano 500, são geralmente identificados pelos arturianistas como fazendo parte do que virá a ser, literariamente, a Matéria da Bretanha, citando-se a observação de Amélia Hutchinson sobre a curiosa omissão do nome de Artur na obra de um contemporâneo. 3. O primeiro registo do nome de Artur remonta a Nennius, na sua Historia Brittonum, escrita por volta de 810, embora ainda aí Artur não tenha assumido a dimensão de rei, sendo apenas um dux bellorum, isto é, um general ou chefe militar, e a obra de Beda contribui também para a explicitação da figura e do nome de Artur, colocando-o no centro do quadro da guerra entre Bretões e Saxões e delineando seu perfil como chefe cristão, devoto da Virgem e da Santa Cruz, cercado já por certo número de personagens, como Medrant e Ambrosius, respectivamente identificáveis com Mordred ou Morderet e com Merlim, que surgirá pela primeira vez na obra de Geoffrey of Monmouth, autor da Historia Regum Britanniae e do poema Vita Merlini. 4. É por volta do século XII que a figura mitificada de Artur emerge em toda a sua dimensão, pois a circulação da lenda, de que a tradição oral se apropriara, levara longe Artur, com base sobretudo além do popular Monmouth numa segunda obra de Nennius, Mirabilia, em que se contam as maravilhas aventurosas de Artur, tal como na obra de Monmouth, uma das mais importantes, embora controversas, fontes da lenda arturiana, importando sublinhar que é precisamente a Historia Regum Britanniae, redigida por volta de 1136, que irá refletir-se diretamente nos textos mais antigos da cronística portuguesa, como o Livro de Linhagens do Conde de Barcelos, escrito numa primeira versão entre 1325 e 1340 e numa segunda versão entre 1340 e 1344. 5. A genealogia dos reis da Bretanha e de Artur é descrita no Título II, que dá conta, de modo expressivo e envolvente, na sua sugestão de morte misteriosa e não confirmada, do desaparecimento de Artur, segundo o qual el-rei Artur teve o campo e foi mal ferido de três lançadas e de uma espadada que lhe deu Mordech, fazendo-se levar a Islavalom por saur, e daqui adiante não se falará dele, se é vivo se é morto, nem Merlin disse dele mais, nem eu sei ende, mas os Bretões dizem que ainda é vivo. 6. Após estas considerações, pode-se sintetizar os vários passos que vão de Artur, obscuro chefe bretão, ao mítico Rei Artur, paradigma de todas as maravilhas e aventuras da Cavalaria Errante, sendo que dos textos escritos existentes sobre a problemática da lenda arturiana o principal foi, sem dúvida, a Historia Regum Britanniae de Geoffrey of Monmouth, escrita por volta do ano 1137 e dedicada ao filho de Henrique I, mas já anteriormente, por volta dos séculos VIII-IX, o clérigo e historiador bretão Nennius, bispo de Bangor no País de Gales, tinha composto a Historia Brittonum, em que narra a origem dos Bretões, a ocupação romana, a chegada dos Saxões e as doze batalhas do rei Artur, obra em que se basearia Geoffrey of Monmouth, sendo Nennius por isso considerado o primeiro autor que se refere ao nome de Artur, figura lendária, ao qual se referia anteriormente, embora de modo muito pouco explícito, São Gildas, monge da Grã-Bretanha cognominado o Sábio e que viveu no século VI. 7. É Geoffrey of Monmouth que, com a sua coleção de lendas, em larga medida invenções de cariz histórico que no entanto afirma serem verdadeiras, dá forma por escrito à lenda arturiana, tendo sem dúvida de se basear nas referidas tradições célticas, que se refletiram profundamente no seu trabalho recheado de imaginação e poder criativo, sendo muito provável que tal tenha ocorrido, já que o autor tinha sido educado no mosteiro beneditino perto de Monmouth no País de Gales, onde escreveu a sua obra, apresentando-se a si próprio como um cronista isento e verdadeiro e alegando traduzir um antigo e desconhecido livro inglês, apoiando-se em certa medida nas grandes linhas da história dos Bretões de Nennius, mas sendo inegável, e todos os críticos estão de acordo nesse ponto, que grande parte do seu trabalho é fruto de um grande processo imaginativo, criativo e simultaneamente proveniente do conhecimento das tradições históricas do País de Gales. 8. Jean Marx afirma que, se Geoffrey de Monmouth dá sobretudo uma obra de retórico cujas fábulas e descrições se inspiram em modelos clássicos latinos, o sucesso de sua obra não deixou de criar um meio favorável para poemas que tinham sua origem em outro lugar e cujo maravilhoso se alimentava de outras fontes, e, ao popularizar o nome de Artur e ao juntar à sua lenda a do encantador Merlin, Geoffrey criava no meio francês dos conquistadores da Inglaterra uma ambiência favorável para os contadores do País de Gales e da Cornualha inglesa, conhecidos no País de Gales sob o nome de Cyvaryddon, que exerciam sua arte junto aos chefes e às pequenas cortes nas quais se concentrara o espírito de resistência bretã contra os invasores saxões. 9. Segundo essa perspectiva, pode-se inferir que a colocação de fábulas e narrativas que constituem a Historia Regum Britanniae de Geoffrey of Monmouth abriu caminho aos contadores e recitadores galeses, os Cyvawiddon, nas cortes de França, sublinhando Jean Marx a esse respeito que é totalmente natural que os contadores, recitadores, cantores e jograis galeses tenham aprendido o francês para buscar um auditório mais amplo e patronos mais generosos. **A Mesa ou Távola Redonda** 1. Embora a designação de Mesa Redonda traduza de modo legítimo as expressões Round Table e Table Ronde, a designação Távola Redonda tem, na tradição literária portuguesa, uma recorrência significativa, note-se por exemplo a produção, já em 1567, de um texto português intitulado Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda, tendo a oposição Mesa/Távola decerto um valor conotativo, já que Mesa remete para um quotidiano prosaico e profano, não compatível com a conotação cavaleiresca e até mística do termo Távola. 2. É o tema da Távola Redonda que vem associar-se à lenda arturiana tal como, a partir do século XII, ela irá desenvolver-se e difundir-se, e, segundo Legouis e Cazamian, tese que parece muito verosímil, teria sido um simples e desconhecido trovador, Geoffrey Gaimar, quem teria adaptado pela primeira vez em verso francês a história de Monmouth, dando a primeira sugestão para a convergência do tema da Távola Redonda associado à lenda arturiana, ao contrário do que Bruneti e outros arturianistas afirmam, ao atribuir essa primeira referência ao poeta normando Wace. 3. Em 1155 Wace, um clérigo de Jersey, produziu uma tradução da Historia de Geoffrey of Monmouth, o Roman de Brut, contudo essa tradução ou adaptação havia sido precedida, por volta de 1140, por uma primeira tentativa de associação dos dois temas, atribuída a Geoffrey Gaimar e infelizmente perdida, adaptação empreendida a pedido de Constância, mulher de Ralph Fitz Gilbert, e só mais tarde, na década seguinte, a versão de Gaimar teria sido substituída pelo célebre Roman de Brut de Wace, dedicado à nova rainha de Inglaterra, Leonor da Aquitânia, sendo essa substituição devida, segundo Foulon, à superioridade qualitativa do poema de Wace em relação ao texto de Gaimar, que não passava de um medíocre e desconhecido trovador, referindo-se também Jean Marx a esse elo pouco conhecido na articulação da temática arturiana, reconhecendo que não foi Wace a estabelecer a ponte entre a lenda arturiana propriamente dita e a Távola Redonda, que se lhe torna indissociável. 4. Nem por isso o mérito de Wace esmorece, pois a ele se deve, mercê da vivacidade testemunhal que imprime aos seus relatos, coloridos de pitoresco, por vezes anacrónico, a grande fortuna da sua obra e a sua enorme descendência literária. 5. O tema da Távola Redonda tende a instituir-se como um dos mais significativos instrumentos ideológicos da Cavalaria, isto é, a igualdade de tratamento entre os Cavaleiros, como pares, e a obliteração das regras de precedência, sugerindo a ideia de Wace, como inspiração, a forma redonda, atribuída no seu tempo à Mesa da Última Ceia, ainda que a iconografia medieval posterior venha a representá-la como retangular, e, por outro lado, segundo a tradição celta, a forma redonda, como demarcação sacralizada, é uma forma privilegiada, sabendo-se que os chefes celtas usavam mesas redondas nos banquetes e as próprias casas das citânias apresentam uma forma circular, parecendo também significativo que, como réplica da Mesa da Última Ceia, o número dos Cavaleiros, doze, corresponda ao número dos Apóstolos, também doze, fazendo a progressiva cristianização da ou das lendas que convergem para a cristalização definitiva, de que a Demanda portuguesa é um dos documentos, parte da trajetória graálica, já presente no Perceval ou Li Contes dou Graal de Chrétien de Troyes. 6. A forma circular parece, por outro lado, testemunhar a origem céltica deste módulo constitutivo da massa ficcional, segundo expressão de Loomis, da Matéria da Bretanha, tornando-se a Távola Redonda, de certo modo, como que a representação metonímica da Idade do Ouro da Cavalaria, dos seus ideais, regras e mandamentos, tendo Eduardo III de Inglaterra instituído, entre 1344 e 1348, a Ordem da Jarreteira como revivalismo do espírito da Távola Redonda, e, por essa mesma época, algumas décadas mais tarde, segundo o testemunho de Fernão Lopes, também em Portugal esse espírito está presente no significativo episódio que, pelo seu pitoresco, parece relevante transcrever, sem esquecer quanto o seu protagonista, D. João I, estava profundamente ligado à Inglaterra e aos seus estilos e modelos de comportamento. 7. Eis o que diz Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, a propósito do cerco de Cória, mal sucedido para os Portugueses, segundo o qual el-rei, na tenda, não foi bem contente dalguns que se não chegaram como ele quisera, e, falando nas cousas que se no combate aconteceram, veio a dizer como em sabor que grande mingua lhe fizeram hoje ali os bons cavaleiros da Távola Redonda, pois certamente, se eles ali estivessem, tomariam aquele lugar, palavras que não pôde ouvir com paciência Mem Rodrigues de Vasconcelos, que ali estava com outros fidalgos, e logo respondeu dizendo que senhor, não fizeram ali mingua os cavaleiros da Távola Redonda, mas fez-lhes ali grande mingua o bom rei Artur, flor de lis, senhor deles que conhecia os bons servidores, fazendo-lhes muitas mercês por que haviam talante de o bem servir, e el-rei, vendo que o haviam por injúria, respondeu então e disse que nem ele esse não tirava fora, ca assim era companheiro como cada um dos outros. **O Graal** 1. Segundo a opinião expressa por Almir Bruneti, opinião não partilhada por todos os arturianistas, é no Perceval ou Li Contes dou Graal de Chrétien de Troyes que pela primeira vez o Graal surge associado à lenda de Artur, já por sua vez ligado, como visto, à tradição da Távola Redonda, tendo Chrétien de Troyes morrido antes de terminar a aventura de Perceval, e a popularidade da sua obra tornado-se, de certo modo, num desafio para se encontrar uma conclusão, existindo portanto quatro continuações de autorias diferentes, a saber: a Primeira Continuação, de autor desconhecido, geralmente designada por pseudo-Wauchie; a Segunda Continuação, de autor também desconhecido, atribuída no entanto por alguns arturianistas a Wauchier de Denain; a Terceira Continuação, por Manessier, dedicada a Jeanne, Condessa de Flandres; e a Quarta Continuação, por Gerbert de Montreuil. 2. A obra de Chrétien conheceu uma enorme fortuna, de que aliás as Continuações mencionadas são significativo testemunho, e foi a partir dela que rapidamente a organização dos três temas, Artur, Távola Redonda e Graal, passou a constituir um edifício conjunto e indissociável, tornando-se parte e modelo inesgotável no conjunto da literatura europeia medieval, sendo de resto essa temática compósita que, como se verá, terá como derivação ou recriação a Demanda do Santo Graal em medievo-português. 3. Contudo, segundo alguns arturianistas, e anteriormente a Chrétien de Troyes, surgira a lenda do Graal associada à lenda arturiana com Walter Map, que viveu entre 1140 e 1209, a quem é atribuído, embora com algumas reticências, um romance em prosa sobre Lancelote do Lago, no qual Walter Map apresenta as personagens, nomeadamente a Rainha Ginebra, a esposa de Artur, como uma adúltera, amante de Lancelote, que, pecador, é indigno de levar a cabo a Demanda do Santo Graal, tarefa que estaria reservada a seu filho, Galaaz, esboçando-se assim as grandes coordenadas por que se pautará um pouco mais tarde o grande escritor francês Chrétien de Troyes ao escrever Perceval ou Li Contes dou Graal. 4. Loomis interroga-se sobre os percursos da difusão da Matéria da Bretanha no continente e especialmente em França, concluindo que, se por um lado o conhecimento da tradição céltica não pode ser devido a viagens de franceses às terras célticas, por outro lado os manuscritos célticos não são suscetíveis de ser lidos fora da Bretanha, concordando por essa razão com a já referida tese de Jean Marx, afirmando que a difusão da Matéria da Bretanha é um assunto da maior importância, pois sem alguma compreensão clara de como ela ocorreu muito será incompreensível ou será mal interpretado. 5. Loomis acrescenta que se testemunha um espetáculo muito incomum em controvérsia, pois os estudiosos que mais vigorosamente se opuseram às reivindicações dos Bretões são seus compatriotas franceses, Ferdinand Lot, Joseph Loth e Jean Marx, enquanto entre aqueles que as defenderam estão dois grandes historiadores literários galeses, Thomas Stephens e W. J. Gruffydd, e que, apesar de alguns erros, eles estabeleceram um caso que comprova a parcela preponderante dos Bretões na popularização da lenda arturiana nas cortes e salões baroniais da França e da Inglaterra durante o século XII. 6. Acerca da difusão da Matéria da Bretanha, Loomis afirma ainda que a onda normanda, o anglo-normando William of Malmesbury e o galês Giraldus concordam em atribuir aos Bretões a circulação de histórias sobre Artur, sua Távola Redonda e sua passagem para Avalon, e que confirmação adicional da transmissão bretã da matéria arturiana aos franceses e anglo-normandos é fornecida pela marcada semelhança entre certos romances e os lais bretões. 7. Ao admitir a hipótese de transmissão da Matéria da Bretanha através dos próprios Bretões, incluindo certos lais, Loomis vai mais longe, estabelecendo afinidades entre algumas obras de Chrétien de Troyes e alguns lais bretões, entendendo dessa forma a passagem da Matéria da Bretanha ao continente e a sua difusão nas cortes inglesas e francesas. 8. No entanto, como já referido, essa teoria gera inúmeras controvérsias, discordando Jean Marx por completo do ponto de vista de Loomis, ao sustentar que os contadores galeses, os cywarddon, explicam por si só a génese dos poemas e dos romances arturianos, sem haver por isso necessidade de recorrer a intermediários bretões, como fazem Loomis e Foerster, tendo para essa ocorrência contribuído certamente a já referida versão da Historia de Monmouth atribuída a Wace, o Roman du Brut, em que o poeta normando terá incluído a inovação temática, supostamente atribuída a Walter Map, da associação da lenda do Graal à lenda arturiana. 9. A esse respeito, Bruneti diz que o poema de Wace, baseado na Historia de Geoffrey of Monmouth e escrito em francês, tenta dar à lenda uma feição artística e cortês, uma vez que era destinado aos nobres da corte e produzido sob o patrocínio do rei Henrique II, e, com efeito, ainda segundo Bruneti, o poeta Wace, ao escrever o seu poema em francês, tinha como principal objetivo a sua difusão nas cortes francesas, surgindo por essa razão pela primeira vez uma produção sobre a lenda arturiana já com uma certa componente. {{tag>Buescu Graal}}