====== Gawain ====== //MATTHEWS, John. Sir Gawain: Knight of the Goddess. Wellingborough: Aquarian Press, 1990.// **Gawain, cavaleiro da deusa** 1. Gawain foi outrora o cavaleiro mais importante da corte de Artur, exemplo luminoso de tudo o que havia de melhor na cavalaria da época, mas à medida que a popularidade dos romances arturianos crescia ao longo da Idade Média sua estrela declinou, até que, quando Sir Thomas Malory escreveu sua grande obra Le Morte d'Arthur em 1485, ele se tornara pouco mais que um personagem convencional, mais notado por sua atitude leviana para com as mulheres que por sua cavalaria, transformação cujo curso e sobretudo cujas razões merecem ser explorados e mapeados. 2. As respostas estão indissoluvelmente ligadas à questão da verdadeira identidade de Gawain e de sua fidelidade à grande Deusa soberana da Grã-Bretanha, fatos progressivamente obscurecidos com o passar do tempo, cuja elucidação exige examinar as evidências contidas nas muitas histórias em que Gawain figura como herói ou anti-herói, incluindo contos heroicos célticos, elegantes romances medievais e o justamente célebre poema em inglês médio Sir Gawain e o Cavaleiro Verde. 3. A partir dessas evidências traça-se o curso da ascensão e queda de Gawain e de seus grandes anos intermediários, quando superava em posição todos os demais cavaleiros da corte de Artur, inclusive o recém-chegado Sir Lancelote do Lago, mostrando-se que ele alcançou outrora o ponto mais alto a que um herói arturiano podia aspirar, a conquista do Graal, e que seu serviço a todas as damas significava outrora um serviço de outra natureza. 4. Busca-se por fim desvendar o mistério do papel original de Gawain no grande ciclo mítico de Camelot, restituindo-lhe a posição outrora incontestada de primeiro entre os cavaleiros da Távola Redonda. 5. Dada essa importância, surpreende que relativamente pouco se tenha escrito sobre Gawain, embora, além do próprio Artur, os dois personagens onipresentes sejam o sobrinho de Artur, Gawain, e o senescal Kay, que acompanham Artur desde o início e figuram, como Gwalchmai, o Falcão de Maio, e Kai, entre os principais guerreiros da corte arturiana nas versões mais antigas conservadas do mito. 6. Mais tarde, no apogeu da literatura arturiana, Gawain ocupou mais espaço e teve mais aventuras atribuídas a si do que qualquer outro cavaleiro, superando em número de aparições até Perceval, que como cavaleiro vitorioso na demanda do Graal figura em numerosos textos. 7. Vários comentadores assinalaram a mudança significativa sofrida pelo caráter de Gawain ao longo de sua carreira literária, que vai da descrição do antigo conto galês Culhwch e Olwen, segundo a qual ele nunca voltava para casa sem ter cumprido a demanda que fora buscar, era o melhor dos caminhantes e dos cavaleiros, sobrinho de Artur, filho de sua irmã e seu primeiro companheiro, até o relato de Le Morte d'Arthur sobre sua participação no assassinato do rei Pellinore, ou ainda sobre a morte que infligiu a uma mulher inocente nas primeiras páginas do mesmo texto. 8. Estudiosos como J. D. Bruce, Jessie Weston, R. S. Loomis, J. B. Whiting e Raymond Thompson chamaram a atenção para essa curiosa situação, mas, com exceção de Miss Weston, nenhum apresentou uma razão satisfatória, contentando-se em supor que o surgimento de Lancelote como representante do elegante Amor Cortês desalojou Gawain de sua posição de primazia, quando na realidade foi outra rivalidade, mais fundamental que a moda literária, a responsável por sua queda, pois no coração do mistério está o papel original de Gawain como Campeão da Deusa, cuja própria história determina a de seu cavaleiro, já que, à medida que o cristianismo se tornou a força dominante na terra, a crença nas antigas deusas mudou, esmaeceu e por fim se ocultou, convertendo-as de figuras de culto e adoração em objetos de vilipêndio e símbolos do mal. 9. Tudo isso torna muito difícil dizer com alguma certeza o que os próprios celtas entendiam pelo termo Deusa, ou o que ele significava para certas pessoas na Idade Média, já que as crenças religiosas célticas ainda são pouco compreendidas, embora se saiba que os celtas cultuavam divindades dos bosques e das águas, do céu e do mar, sendo cada elemento de importância primordial para eles, de modo que, ao falar de deusas, provavelmente pensavam no que hoje se chamaria um princípio abstrato representado sob forma de mulher. 10. O melhor exemplo disso é a Deusa da Soberania, com quem Gawain mantinha uma relação particular, pois para os celtas, especialmente os irlandeses, a soberania e a realeza implicavam um vínculo único com a própria terra, acreditando-se que o rei se unia literalmente à Deusa da Terra, representante sobrenatural da região que governava, sem cuja sanção não podia reinar com sabedoria e honestidade nem garantir que o reino permanecesse forte e viril, concepção que faz parte de uma ideia muito mais antiga sobre a sacralidade da própria terra, que talvez num passado remoto tenha dado à luz o povo que a pisava, donde o conceito de Mãe Terra. 11. Na Idade Média grande parte disso fora esquecida ou ao menos reassimilada, pois são necessárias centenas de gerações para que um novo conjunto de crenças religiosas substitua um estrato anterior, e durante esse processo existe uma situação em que as formas sombrias das tradições anteriores se misturam às da nova. 12. Essa situação perdurou durante a maior parte do tempo em que os romances de Gawain foram compostos e provocou duas reações distintas: a dos que tomavam as histórias recebidas sobretudo de cantores e contadores itinerantes e simplesmente as transformavam em romances medievais vestindo-as com as modas da época, e a dos que viam nessas mesmas histórias a oportunidade de apresentar os princípios do cristianismo de forma singular e reconheciam a origem pagã de grande parte do que encontravam, sendo a estes últimos que se deve a visão degradada de Gawain, pois viam nele um campeão dos antigos costumes e procuravam desacreditá-lo aos olhos do mundo. 13. Convém lembrar que a crença, a fé e o ensino teológico ocupavam na sociedade culta um lugar muito mais destacado que hoje, e que, embora as histórias que formaram a Matéria da Bretanha tenham nascido entre o povo comum, ao se tornarem criações literárias sofreram considerável mudança e adaptação para se ajustarem à época e ao público. 14. Como esse público era composto em sua maioria pelas classes cavaleirescas e nobres, que amavam acima de tudo ouvir aventuras de cavalaria, as epopeias medievais ocuparam-se de batalhas, torneios e combates singulares, e quando mais tarde surgiu o conceito de Amor Cortês, também esse elemento foi lançado ao caldeirão para acrescentar seu sabor à já inebriante mistura. 15. O último elemento foi o religioso, manifesto no súbito interesse pela história do Graal, que até o início do século XII existia como parte de um obscuro conjunto de contos célticos e apócrifos cristãos, mas que no fim do século XIV se tornara um dos temas mais importantes e mais amplamente tratados da época. 16. Gawain, como Campeão da Deusa, sofreu uma erosão de caráter semelhante à da própria Deusa, embora mais sutil, o que explica a frequente incapacidade dos escritores anteriores de perceber a verdade, havendo no entanto um corpo significativo de evidências que liga Gawain à Deusa e mostra tanto seu papel original de campeão quanto as etapas de seu rebaixamento até o libertino vitoriano retratado por Tennyson no século XIX, e embora se tenha argumentado que ele foi desalojado de sua supremacia pelo novo código do Amor Cortês, que preferia as paixões ilícitas de Lancelote e Tristão aos amores mais casuais de Gawain, que de fato não era um amante cortês apesar de sua famosa cortesia, sendo provável que os autores medievais, achando-o material intratável para o novo gênero literário, tenham buscado seus heróis em outra parte em prejuízo de sua carreira, é curioso, para não dizer irônico, que sua reputação tenha permanecido sobretudo a de amante. 17. Jessie Weston observou já em 1898, em The Legend of Sir Gawain, que deveria ser possível destacar entre as diversas versões das aventuras de Gawain certos traços que, por sua recorrência frequente nos romances a ele dedicados e por sua analogia com a antiga tradição céltica, poderiam com probabilidade ser considerados parte de sua história original, e que, embora dificilmente se possa construir um relato coerente e apontá-lo como a história original de Gawain, seria possível especificar certos episódios como pertencentes a Gawain e a nenhum outro cavaleiro do rei Artur, partes necessárias e integrantes de sua história. 18. Essa convicção fundamenta o presente estudo, pois, embora se tenha tornado costume criticar Miss Weston por seus voos de fantasia, nesse caso, como em outros, ela estava próxima da verdade, e ainda que a investigação atual frequentemente se afaste da dela, é ao espírito de seu estudo pioneiro que ela é dedicada. 19. Outro autor mais recente dedicou seu estudo de Gawain a trazê-lo da Terra das Fadas para o mundo dos homens reais e de seus assuntos, mas não há nenhuma evidência de que Gawain tenha tido algo a ver com o mundo real, exceto na medida em que isso afetou seu papel na Matéria da Bretanha, parecendo ter nascido na Terra das Fadas, vivido a maior parte da vida em seus limites e saído dela apenas o tempo suficiente para morrer, pois todo o seu caráter, seus feitos e seu comportamento o marcam como figura do Outro Mundo, mais propriamente descrita como Cavaleiro Verde do que seu adversário desse nome, já que Gawain foi de fato o Cavaleiro Verde em Camelot, representante da Deusa na Terra, Campeão da Soberania, Filho da Mãe. {{tag>Matthews Graal Gawain deusas}}