====== Alma e Corpo ====== //[[.:start|MARTINS, Mário]]. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969// ** Cap. XI — Pleitos da Alma e do Corpo ** * Todo historiador da literatura medieval conhece o Debate da Alma e do Corpo e sabe como ele principia, em versos arcaicos franceses, frequentemente impressos junto com a Dança Macabra. * Título original em francês: Débat de l'âme et du corps * Versos de abertura traduzidos: "Num sábado à noite, adormecido em minha cama, / vi, enquanto dormia, uma grande visão." * O texto deriva da Visio Philiberti, obra na qual a visão é atribuída a um eremita francês chamado Fulberto ou Filiberto, conforme os manuscritos. * Versos latinos traduzidos: "Havia outrora um homem que fora eremita, / Filiberto, de origem franca, cuja vida doce, / enquanto vivia no mundo, assim se conduzia; / pois as palavras que proferiu eram sábias. / Este era verdadeiramente filho de rei, / retirou-se em seu tempo de todos os males, / quando no mundo decaía e fugia da vida; / pois tal visão lhe apareceu a si mesmo." * Referência bibliográfica: F. J. E. Raby, A History of Secular Latin Poetry in the Middle Ages, t. 2, Oxford, 1934, p. 303, nota 1 * O que se tem ali é uma Altercatio Animae et Corporis — isto é, uma disputa da alma com o corpo, ou pleito —, onde cada parte atira as responsabilidades sobre a outra, à semelhança de cúmplices desavindos no tribunal, cada qual a salvar a pele. * Raby publica outra interpretação poética do mesmo tema, a partir de um manuscrito do Museu Britânico, onde a visão é de um bispo e a alma toma a forma de um menino, e não de uma ave. * Versos latinos traduzidos: "Soube que uma visão desse tipo havia sido feita / durante o sono a certo pontífice: / pela metade da noite do sábado seguinte, / vira em sonho o corpo morto de um homem, / posto em sarcófago de mármore / e coberto de azulado sudário, / e viu assistir, bem longe do corpo do homem, / sua alma em forma de criança." * Nesses versos, como na Revelación de un Hermitaño — de que se falará adiante —, vê-se o cadáver tornar a si, erguer a cabeça e responder às invectivas da alma, sua irmã e inimiga. * Versos latinos traduzidos: "Enquanto a alma se queixava assim / e lamentava com voz dolorosa, / o pontífice viu maravilhas em sonho: / viu, de fato, o cadáver sem vida / como que reviver de repente / e erguer a cabeça / eminente sobre os ombros, / acima do mármore sepulcral; / com rosto pálido, / retirado o sudário..." * O cadáver replica e disputa com a alma segundo uma ordem de argumentos, respondendo-lhe com acusação direta. * Versos latinos traduzidos: "Ó infelicíssima, / tendo plena consciência do bem / e das alegrias que a vida te oferecia, / perdes por culpa própria / e me reprovas todos os meus vícios, / e anotas miseravelmente / para mim as tuas obras, / como se foras quase inocente e justíssima / em todo o espaço de nossa vida; / assim podes lançar sobre mim / todo o peso de teu crime / e a ti mesma isentar?" * O debate entre a alma e o corpo prolonga-se longamente, até que surgem dois demônios negros, cheirando a pez e a enxofre, para levar ao Inferno a alma miserável e gemebunda, e o bispo acorda assustado, reconhecendo que era um sonho — mas sonho para não esquecer. * Versos latinos traduzidos: "Arrastavam-na pelos braços / com mão ímpia, / e ela, qual cordeirinha / posta entre lobos, / pálida sob os repetidos golpes, / clamava muitas vezes; / cuja voz miserável / moveu de tal modo o coração do bispo / que pôs fim ao sonho." * Referência: Raby, ob. cit., pp. 301-302 e p. 302 * Em forma de confissão, Pedro de Blois compôs uma Cantilena de Lucta Carnis et Spiritus — Canção da Luta entre a Carne e o Espírito —, na linha dos versos de Jacopone de Todi, mas com a diferença de que, no poeta italiano, predomina o propósito bélico da ofensiva da alma contra o corpo, enquanto Pedro de Blois mantém uma atitude recipiscente, mais humana e quase suplicante. * Versos latinos traduzidos: "Cessa, caro, de ser lascivo, / pois o dia da ira se aproxima. / Que o mundo não te arrebate, / que não te cerque / a fraude do espírito impuro. / Esta vida nos abandonará / e passará como sombra / a figura deste mundo." * Referência: PL, t. 207, cols. 1127-1130 e col. 1130 * O Debate da Alma e do Corpo correu mundo em vários manuscritos e línguas, inclusive no anglo-normando e em castelhano do século XIII. * Verso castelhano traduzido: "Num sábado estando, domingo amanhecendo, / vi uma grande visão, em meu leito dormindo." * Referência: Menéndez Pelayo, Antología de Poetas Líricos Castellanos, t. 1, Santander, 1945, p. 143 * A Revelación de un Hermitaño, em castelhano de quatrocentos, representa um dos muitos arranjos do tema central da Visio Philiberti e do Débat de l'âme et du corps, e os movimentos essenciais dessa poesia merecem ser apresentados ao leitor. * Referência: José Simón Díaz, Bibliografía de la Literatura Hispánica, t. 3, Madrid, 1953, nos. 1594-1598; segue-se a edição de Menéndez Pelayo * A introdução em prosa que antecede a Revelación de un Hermitaño afirma ter sido escrita por um solitário de santa vida, conhecedor da "ciência gaia", em rimas; mas não se pode afirmar com certeza que a visão ocorreu durante a oração, pois os versos declaram que o protagonista tentava dormir, deitado, e que o sonho lhe veio de madrugada, após adormecer. * Expressão da prosa introdutória questionada: "estava rezando uma noite" * Versos castelhanos traduzidos: "Depois da primeira hora passada, / no mês de janeiro, a primeira noite, / no ano 1400 e vinte durante a hora, / estando deitado, ali em minha pousada, / não pude dormir essa madrugada; / de manhã um sonho me veio, / vereis, senhores, o que me aconteceu / enquanto passava o amanhecer. // Num vale fundo, escuro, apartado, / espesso de giestas, sonhei que andava / buscando saída e não a encontrava, / topei com um homem que jazia finado. / Estava muito mal, pois estava inchado, / os olhos quebrados, a face enegrecida, / a boca aberta, a barba caída, / de vermes e moscas muito acompanhado." * Referência: Menéndez Pelayo, Antología de Poetas Líricos Castellanos, t. 4, Santander, 1944, p. 263; a Revelación de un Hermitaño abrange as pp. 263-267 * O que o eremita viu a seguir foi uma ave branca — a alma do morto —, de voz estridente e encolerizada, que se aproximou do cadáver a apodrecer, andou à volta dele, batendo as asas e lamentando-se por estar destinada ao Inferno, tudo por culpa do corpo. * O corpo ergueu a cabeça, queixou-se da miséria da morte e, por seu lado, deitou as responsabilidades para cima da alma — ela governava, ele apenas obedecia —, mas a alma replica e os argumentos equilibram-se penosamente. * Só então aparece um demônio, a fim de levar o espírito inquieto do pobre morto, e levá-lo-ia, não fosse a intervenção do anjo da guarda; e assim o homem escapou do Inferno e compreendeu a vaidade do mundo, chamando-lhe todos os nomes feios: mundo falso, mesquinho, vil, sem valor e cheio dos sete pecados mortais, tudo nele é vento e névoa que passa. * Versos castelhanos traduzidos: "Vejo que reis e imperadores, / papas, mestres e cardeais, / suas magnificências e pontificais, / todos perecem em vãos sabores. / Condes, duques, bispos, priores, / conforme obraram assim serão julgados, / e os letrados então verão / os maus juízos tornarem-se em favores." * Referência: Menéndez Pelayo, ob. cit., pp. 266-267 * Nesses versos salta aos olhos o tema nodal da Dança Macabra — a meditação da morte —, pois à luz do sepulcro a alma contempla a inanidade das grandezas terrenas e teme os juízos terríveis de Deus, que há de julgar pelos atos e não pela grandeza do estado ou condição de cada um. * Para melhor compreensão da Revelación de un Hermitaño e de escritos parecidos, recorda-se, de passagem, que em algumas aldeias de Portugal ainda se acredita ficar a alma por algum tempo no local da morte — o que possibilita o diálogo entre ela e o cadáver. * Nas laudes italianas entram elementos dramáticos apreciáveis, e outras formas literárias dessas disputas merecem atenção; na Laus pro Defunctis, balada e diálogo entre um vivo e um morto sob a forma de lamento pelos finados, com o coro a insistir no doloroso refrém, tem-se uma breve peça de teatro. * O vivo — versos traduzidos: "Dize, irmão, quem não te responde / a tua companhia, antes tão alegre? / De tanta dor o coração se confunde, / pois a morte te roubou." * Coro — versos traduzidos: "Tu escapaste do mundo falaz, / em dor e em pranto, irmão, nos deixaste." * O morto — versos traduzidos: "Ora sois vós, caros meus irmãozinhos, / que ficais tão frescos e belos, / quando fui envolto nessas entranhas / e numa vil vala fui sepultado." * Referência: Mário Apolonio, Storia del Teatro Italiano, t. 1, Florença, 1943, pp. 156-158 * O drama vai-se desenrolando com o cadáver comido pelos vermes e cada vez mais repugnante, para lição dos vivos. * O morto — versos traduzidos: "Viestes me meter, irmãozinhos, na vala; / mostraram os vermes toda a sua força, / comeram a carne até os ossos / mas veis como assim fui consumido." * Os antigos belos olhos deixaram de brilhar no rosto, as cores desapareceram, e o morto transmite o conselho supremo de que todos haverão de morrer — embarcados na vida, um dia chega-se ao porto da morte. * Sentença do morto: "pensai sempre em vir a tal porto" * Às vezes os poetas punham a dialogar, ainda em vida, a alma e o corpo — ela de olhos fitos no outro mundo, ele apegado ao reino dos cinco sentidos. * O franciscano Jacopone de Todi, morto em 1306, escreveu uma disputa desse gênero antecipando a morte com a mortificação, sob o título Contenzione infra l'anima e corpo. * Versos italianos traduzidos: "Ouvi uma disputa — que é entre a alma e o corpo: / batalha que dura demasiado — até os consumir. // A alma diz ao corpo: — Façamos penitência, / para que possamos fugir — daquela grave sentença, / e ganhar a glória — que é de tão grande deleite: / levemos toda a gravidade — com deleitoso amar." * Referência: Iacopone da Todi, Le Laude, Bari, 1930, p. 6; abrange as pp. 6-8 * O debate de Jacopone de Todi não teria sido referido se não houvesse passado da literatura italiana à portuguesa, através de Frei Marcos de Lisboa, morto em 1591, entre outras poesias traduzidas do mesmo poeta. * Frei Marcos de Lisboa traduziu o texto e o incluiu na Parte Segunda das Chrônicas da Ordem dos Frades Menores, Lisboa, 1615, fl. 276 * Título da tradução portuguesa: Cântico V moral, da contenda da Alma com o Corpo * A alma diz ao corpo — versos traduzidos: "Façamos já penitência, / porque possamos fugir / à sentença sem clemência, / e ganharemos a glória / de eterno gosto e eminência; / levemos nojo em paciência, / com o deleitoso amar." * O corpo responde — versos traduzidos: "Diz o corpo: estou perturbado / disso que te ouço dizer; / criado sou em deleites, / não no poderia sofrer, / o cérebro tenho fraco, / posso vir a enlouquecer, / não cuides em tal fazer / nem nisso mais me falar." * A alma replica — versos traduzidos: "Ó cujo malvado corpo, / dissoluto, guloso, / a toda nossa saúde / sempre surdo e rebelde, / sofre por tanto este açoite / deste modo cordão, / som discorde que te dão / a que te convém dançar." * O corpo clama — versos traduzidos: "Socorrei-me, agora, vizinhos, / que a alma me tem morto, / ferido e ensanguentado / e disciplinado a torto. / Ó desapiedada e cruel, / que me trouxeste a tal porto, / farei de prantos um horto, / já não me posso alegrar." * A alma conclui — versos traduzidos: "Esta morte é assim breve / que esse teu pranto não sinto, / porque estou deliberada / fazer este experimento: / tirar dos cinco sentidos / todo outro deleite / e nenhum aprazimento / tenho em vontade te dar. // A camisa deita fora, / este cilício veste, / a penitência não quer / que vos deleiteis aqui..." * Referência: Frei Marcos de Lisboa, Parte Segunda das Chrônicas da Ordem dos Frades Menores, Lisboa, 1615, fl. 276; a poesia termina no fl. 276 v. * A discussão entre a alma e o corpo se alonga muito, mas a cada objeção do segundo respondia a primeira com redobrado vigor — ameaças de privar o corpo de vinho ao jantar e à ceia, de manto e de calçado no inverno. * O corpo cede e evoca uma donzela — versos traduzidos: "Lembro-me de uma donzela / que era branca e muito corada, / bem vestida, ornada e bela, / por graça maravilha olhada; / de suas belas feições / muito o coração se agrada, / tenho grande pena passada / sobre poder-lhe falar." * A alma replica — versos traduzidos: "Ora espera o prêmio digno / disso que agora has pensado: / o manto te tirarei / este inverno, ora coitado / os sapatos logo deixa / por esse nécio cuidado; / e serás disciplinado, / até dela não te lembrar." * Referência: fl. 276 v.; a pontuação e alguns acentos foram racionalizados para mais fácil leitura * Por fim, o poeta — ou a tradução portuguesa — declara haver ainda mais batalhas entre a alma e o corpo, mas que não deseja enfastiar ninguém e por isso encerra. * Na Revelación de un Hermitaño o debate se desenrola na zona intermédia entre a morte e a condenação ou salvação final, como se houvesse um tempo especial além do tempo comum e para aquém da eternidade — um caminho indeciso a percorrer; em Jacopone de Todi a alma e o corpo discutem no vigor da existência. * Diálogos semelhantes incluem a Prática d'Alma com a Carne, muito proveitosa para todo fiel Cristão, feita por hum devoto contemplativo, impressa no século XVI em caracteres góticos, sem declaração de data nem de lugar * A Prática d'Alma com a Carne é um diálogo compreensivo, sem discussão propriamente dita nas suas 16 folhas, configurando um severo colóquio espiritual com a alma no alto e o corpo em baixo — e este aceita docilmente o ensinamento da companheira sob o signo da ideia central de que tudo passa e vem a morrer. * A alma argumenta: Deus fez a Carne por sua mão, da terra e da lama — e a Carne ficou dependente de Deus que tanto a beneficiou * Humilde e sabedora, a Carne põe-se de acordo e canta uma lamentação dolorosa e pessimista da sua baixeza e dos seus pecados — vangloria-se por tudo e por nada, vinga-se, é tão fútil que todos a escarnecem, tão leviana que todos a iludem. * Referência: Prática d'Alma com a Carne, muito proveitosa para todo fiel Christão, fls. 3 v.-4 * Longa parece a ladainha dos defeitos confessados pela Carne: nela ou junto dela não existe nenhum prazer sem sobressalto, nenhuma paz sem discórdia, nenhum amor sem suspeita, nenhum repouso sem desassossego, nenhuma abundância sem pobreza. * A Carne confessa a sua inconstância radical — se é pobre quer ter, se é rica quer valer, se está em baixo quer subir, se a afrontam deseja vingar-se, se está mimosa deseja folgar sempre, sendo a incerteza a coisa mais certa que há nela. * Ao escutar essas e outras confissões, a Alma alegra-se da sabedoria de tais palavras e louva a pobre Carne, que por seu turno presta delicada homenagem à alteza da Alma, destinada a dominar: "Tu és a senhora, eu sou a escrava. Conheço-te, porque ando contigo, desde que nasci. Tu és espírito divino, criado pelo Altíssimo." * Referência: ob. cit., fl. 5-5 v. * A Alma espanta-se de que a Carne fale tão bem, e diz que gostaria de a valorizar se as suas obras fossem tão boas como as palavras; por que a contraria e lhe desobedece — prazeres, honras, passatempos, tudo é terra. * Por fim a Alma ensina à Carne uma regra de ascese: preferir antes deixar de rir um pouco do que chorar muito depois, não buscar honras a fim de evitar desonras, renunciar ao contentamento para não ter de arrepender-se, pois os desejos carnais são tições que se ajuntam para neles arder. * Referência: ob. cit., fls. 10 v.-11 * A Carne entra no bom caminho e pede à alma que não a poupe — os trabalhos cansam-na, a oração doma-a, os jejuns servem para a moderar, o pouco sono quebra-a e o pouco falar serve-lhe de freio. * Referência: ob. cit., fls. 12 v.-13 * A Alma, sua dona e senhora, deve trazer a Carne debaixo de olho, como à ladra de casa, nunca se fiar dela e andar sempre com uma pedra na mão. * A Alma escuta gostosamente essas palavras cheias de verdade e pede desculpa à Carne de a fazer sofrer, embora o faça para bem de ambas; e que Deus as ajude — some-se depressa o prazer da vida, eterno é o castigo, a penitência terá fim e a felicidade no Céu durará para sempre. * Referência: ob. cit., fls. 15 v.-16 * Com razão, Bossuat insere essas obras na literatura espiritual e acrescenta que a sua popularidade prova a existência de um público fácil de satisfazer, a quem basta uma série de lugares-comuns repetidos por autores medíocres — observação válida para a Idade Média, mas que poderia ser aplicada igualmente ao século XVI, pelo menos em Portugal, e até ao século XVIII. * Robert Bossuat: Histoire de la Littérature Française. Le Moyen Âge, Paris, 1931, p. 242 * Na primeira metade do século XVIII apareceu em Portugal outra obrinha semelhante, a Prática sentida entre o Corpo e a Alma, traduzida do castelhano por Diogo da Costa Ulisbonense e impressa num pequeno folheto sem lugar nem ano. * Referência: ob. cit.; o título completo declara conter duas obras admiráveis: a primeira, a Prática sentida entre o Corpo e a Alma; a segunda, o Rosário da Virgem Santíssima * Que Diogo da Costa seja um pseudônimo, como afirma Barbosa Machado, pouco importa; o que interessa é o que se pode chamar relatividade literária — uma obra pode não encontrar eco no público de certo nível cultural e, no entanto, comover de verdade a gente simples, e vice-versa. * Barbosa Machado: Biblioteca Lusitana, t. 4 * Daí deriva a relativa segurança — e insegurança — da avaliação estética, impossível de reduzir a uma bitola única e absoluta: qualquer obra de arte vale historicamente em função do público, e é isso que justifica e enobrece vastos setores da literatura de cordel. * Muitos leitores do século XVIII, espanhóis e portugueses, continuavam a simpatizar com essa corrente literária que vinha da Idade Média, quase no primitivismo das suas feições antigas; de fato, em Lisboa no ano de 1794 tornava a aparecer em letra de forma a citada Prática sentida entre o Corpo e a Alma, o que supõe uma resposta ao desafio do sentimento popular. * Versos do Corpo à Alma, às portas da morte, traduzidos: "Lembra-te, Alma adormecida, / de vícios mundanos farta, / que está a hora oferecida / de deixarmos nossa vida, / pois a morte nos aparta. // Que deleites mais gostosos, / Alma, já são acabados; / já os faustos mais pomposos, / com os dias mais vistosos, / de mil prazeres cercados. // [...] // Caçando pelos outeiros, / com passa-tempo e folgar; / com criados e monteiros / correndo como toureiros, / sem na mesa cuidar." * A portada desse opúsculo em português afirma que foi vertido do castelhano — mas talvez fosse melhor dizer traduzido e um pouco adaptado. * Em data incerta, Luís Siges imprimiu em Madrid um folheto em quintilhas com o título: Aquí se contienen dos obras maravillosas: La primera un diálogo entre el cuerpo y el alma, y la segunda un juego de esgrima á o divino * Referência: Biblioteca de Autores Españoles, t. 35, Madrid, 1855, pp. 392-395 * A versão portuguesa é de fato uma versão do folheto espanhol, como se pode verificar comparando as quintilhas castelhanas com as portuguesas correspondentes — e em vão se procura no original espanhol a referência gráfica ao bobo. * Quintilhas castelhanas correspondentes, traduzidas: "Isso de comidas certas / com as viandas sobradas / fora mais bem empregadas / quando chegava a tuas portas / o pobre dando pancadinhas. // Desnudaste-te a ti / de toda graça divina, / e com música malina / gorjeavas para mim, / que sou hedionda piscina." * Referência: ob. cit., p. 393 * Apesar das diferenças, a obra permanece substancialmente a mesma nos seus ritmos gerais, e em ambos os casos falta a concordância que une as personagens do diálogo quinhentista atrás citado — tanto no castelhano como no português a Alma chama cruel ao Corpo, lamenta-se de ter feito tudo para lhe agradar e ouve, em paga, iguais recriminações. * Versos portugueses traduzidos: "As comidas que me destes, / de viandas tão sobradas, / eram mais bem empregadas / quando na porta tinhas / o pobre, dando aldrabadas. // Ao bobo enriquecestes, / por sua loucura invicta; / e à miséria pobresita / esmola nunca lhe destes, / por mais que a visses aflita." * À maneira do que acontece nas Cantigas de Santa Maria, a Mãe de Deus, soberana imperadora, livra a Alma de tão grande aperto, pois ela rezava sempre a coroa em honra da Virgem do Rosário. * Referência: ob. cit., p. 3 * Nossa Senhora, depois de muito dialogar com Jesus e de lhe pedir a salvação da Alma pelo leite que mamastes, consegue mais um ano de vida para que a alma e o corpo mudem de rumo. * Referência: ob. cit., pp. 5-6 * Tanto no folheto de setecentos como no do século XVI, o problema é o mesmo da Idade Média: o eterno conflito que divide o homem em dois partidos adversos e o põe a si contra si, num dualismo dramático, a lembrar dois presidiários acorrentados à mesma grilheta, com sorte igual à do outro. * Como já se insinuou, em Jacopone de Todi verifica-se a antecipação à morte pela mortificação — e o que na Revelación de un Hermitaño é conclusão torna-se na Prática sentida princípio, meio e fim; por trás desses versos de agreste energia adivinha-se a meditação da morte, um correr em vida ao encontro dela, renegando por vontade o que na última hora se terá de largar por força. * Sem pretensões literárias, mas de profundo significado histórico, encontra-se o esboço do debate entre a alma e o corpo na atual poesia anônima do povo. * O corpo — versos traduzidos: "Diz-me para onde vais, / minha leal companheira, / sempre me tens acompanhado / e deixas-me desta maneira." * A alma — versos traduzidos: "Fica-te para aí, corpo, / que só és cinza e pó, / eu vou dar contas a Deus / e lá me acharei só; / seguiste os teus apetites / e bem nunca lhe encontrei, / e as maldades que fizeste / agora as pagarei." * Referência: Pe. Álvaro Proença, Como o povo reza, Lisboa, 1941, pp. 99-100 * Nesse caso, porém, o corpo não replica; o anjo da guarda limita-se a entregar a alma ao julgamento de Deus e a pedir a Nossa Senhora que interceda por ela, mas Jesus, inexoravelmente, declara que fará justiça e nada mais — o prêmio pertence aos bons e o castigo aos maus. * Seja como for, em todas essas poesias sopra o mesmo vento glacial da morte, o homem curva-se e sente, já em vida, o terror dos juízos de Deus e das responsabilidades do corpo e da alma como dois cúmplices à entrada do outro mundo; e esse horror, nascido de uma nova mundividência às portas da morte, será descoberto com maior amplitude nos versos realistas da Dança Macabra.