====== Fontes ====== //STRUBEL, Armand. Guillaume de Lorris, [[.:start|Jean de Meun]], Le roman de la rose. Paris: Presses universitaires de France, 1984.// **Intertextualidades: modelos e “fontes” do Romance da Rosa** * O estudo das obras ou tipos de obras que puderam inspirar — ou mesmo suscitar — o Romance da Rosa, que foi durante muito tempo a única preocupação da crítica, coloca um problema fundamental para a literatura medieval: o da tópica, da circulação, da adaptação e do rearranjo dos temas e técnicas. * Por sua relação com a tradição, como ponto de chegada ou ponto de partida, um poema como o Romance da Rosa supõe um imenso campo de intertextualidade, do qual só se podem esboçar as linhas de força. * Dois registros fornecem a Guillaume de Lorris materiais e procedimentos de desenvolvimento: o grande canto cortês e o romance sobretudo arturiano, a quem Chrétien de Troyes concedeu suas cartas de nobreza. * Jean de Meun se vincula, além disso, à veia filosófico-poética de Bernardo Silvestre e Alano de Lille. * O tom de uma grande parte de sua obra inscreve Jean de Meun em uma corrente viva durante toda a Idade Média, a da sátira e da paródia. **Guillaume de Lorris e o registro romanesco** * Reduzido à sua expressão mais simplista, o romance arturiano combina três ingredientes: o amor, a aventura e o maravilhoso, narrando os feitos de um indivíduo que conquista seu lugar na sociedade e ganha os favores de uma “amiga”. * As trocas entre o Romance da Rosa e o corpus romanesco são complexas, pois o poema utiliza modelos de desenvolvimento narrativo típicos do romance, como itinerário e busca, com uma estrutura que prepara peripécias inquietantes. * A partida matinal do sujeito sonhado lembra o início de toda aventura que é a ruptura com a corte, a cidade ou a família, como no exemplo patético do “Conte du Graal”. * O maravilhoso se instala em espaços predestinados como castelo, floresta ou vergel, às vezes separados do resto do mundo por uma “fronteira úmida”, longínquos avatares do Outro Mundo céltico. * O vergel da aventura, o castelo de Ciúme e a fonte muito próxima à de “Yvain” podem ser considerados zonas de interferência com o romance. * O romance também é um modelo de elaboração da significação, e a distinção em Chrétien entre “matéria”, “sentido” e “conjuntura” não é estranha à duplicidade fundamental da escrita alegórica. * O romance ensina técnicas de amplificação, como a descrição decorativa ou explicativa, criando a tonalidade e particularizando os atores, recurso usado por Guillaume na evocação do vergel. * A “análise psicológica” romanesca, exposição das motivações da ação, também influencia a escrita de Guillaume de Lorris. * Os intercâmbios com o lirismo cortês são ainda mais determinantes para a arquitetura do poema de Guillaume de Lorris do que sua relação com o romance arturiano. * A intriga amorosa do Romance da Rosa é uma projeção narrativa e uma amplificação do esquema lírico, com a oferta da “rosa”, no mês de maio, através das provas de aproximação e recusa, da doce souffrance e do mal d’aimer. * O início do poema, com a descrição da natureza no “tenso énorme, cheio de alegria”, onde o canto dos pássaros tem papel capital, desenvolve o motivo de abertura do canto lírico. * O espaço da aventura, o vergel, é um lugar significativo do imaginário lírico, sendo o lugar da espera, do encontro e da realização fictícia do desejo. * Os atores do Romance têm nomes que parecem hipóstases de palavras poéticas que fazem a textura do canto lírico. * As cenas da ferida pelas flechas de Amor, da submissão ao Deus e do fechamento do coração resultam da elaboração dramática de metáforas tradicionais do lirismo. * O balé em torno das roseiras, com seus movimentos de aproximação e afastamento, é uma amplificação, pelos meios da alegoria, das ações sugeridas pela dialética do canto. * O lirismo carrega os germes dessa evolução em sua propensão aos termos abstratos empregados sem artigo como sujeitos de verbos concretos. * O vocabulário do sentimento e de seus efeitos reproduz a interminável variação do canto sobre o tema da doença de amor, como descrito por Amor nos versos 2253-2748. **O intertexto imediato** * Essa necessária referência aos registros dominantes não prejudica interferências mais precisas com obras contemporâneas, testemunhas de uma evolução que permite situar a originalidade do Romance da Rosa. * As transformações da forma alegórica no início do século XIII conduziram a poemas onde o procedimento manifesta sua maturidade e sua capacidade de criar um duplo sentido coerente. * O “Songe d’Enfer” de Raoul de Houdenc é o primeiro a utilizar, para a totalidade da narração, a ficção do sonho verdadeiro e a metáfora da viagem em um além, povoado de personificações frequentemente grotescas. * O “Tournoiement Antechrist” de Huon de Méry utiliza o esquema da “psychomachia”, com enfrentamento simétrico de Vícios e Virtudes, e integra motivos arturianos e a linguagem cortês. * O “Roman de Miserere” do Reclus de Molliens oferece um repertório de temas de Guillaume de Lorris, como o paraíso em forma de “bel vergié” cercado por altas muralhas e personagens como Paors e Oisouse. * A “Queste del Graal” dá o exemplo de uma reestruturação sistemática do material romanesco em vista de uma “senefiance”, com o Graal ocupando um lugar comparável ao da rosa. **Jean de Meun e a poesia filosófica latina do século XII** * As obras de Prudêncio e Capella provaram a eficácia da alegoria na representação de conceitos muito abstratos, e as especulações dos teólogos de Chartres encontraram ali um modo de expressão original. * O projeto de Bernardo Silvestre e Alano de Lille é ilustrar a criação do universo, o lugar do homem, a harmonia do micro e macrocosmo e as perturbações do sistema. * A dinâmica desses textos reside menos na força de uma metáfora do que na riqueza de uma entidade, a Natureza, cujos discursos constituem o essencial da invenção poética. * O “De Mundi Universitate” de Bernardo descreve as duas fases da Criação após uma queixa da Natureza sobre a confusão da “prima materia”. * No “Anticlaudianus” de Alano, a Natureza convoca as Virtudes para moldar o “juvenis”, o homem novo. * O “De Planctu Naturae” toma como argumento a deploração dos transtornos causados pelo homem na ordem da geração, com Vênus e Cupido encarregados de restaurar a ordem. * Jean de Meun deve a essas obras o uso imodesto do discurso e a própria concepção de Natureza, assistida por seu capelão Génius, mas o empréstimo não impede a deformação. **Jean de Meun e a tradição satírica** * Os discursos do Amigo, da Velha e de Falso Semblante revelam uma crítica do comportamento humano e uma vontade de denunciar os desvios escandalosos em relação a um modelo ideal, testemunhando a vitalidade das tradições antigas da sátira. * As afinidades da alegoria com a sátira são evidentes, pois ambas utilizam desvios de expressão que mascaram o ataque e personificações que são caricaturas. * Pelo quadro impiedoso dos “costumes femininos” que coloca na boca de suas personagens, Jean de Meun reencontra o cinismo de Ovídio, Juvenal ou da comédia latina. * Jean de Meun denuncia na idealização do amor, fundamento da poesia cortês, os jogos hipócritas da astúcia, da cupidez e da busca do prazer. * O clero é outro alvo favorito da sátira, e através de Falso Semblante, Jean de Meun ataca uma categoria precisa, as ordens mendicantes. * A sátira integra a atualidade e o evento à perspectiva fundamentalmente utópica e acrônica da alegoria, traindo a posição ideológica do poeta. * Com Jean de Meun, o distanciamento irônico e o espírito paródico fazem oscilar, por momentos, o mistério poético de seu predecessor e os prestígios de sua própria escritura.