====== Contos de Grimm ====== //PULLMAN, Philip. Grimm Tales: For Young and Old. London: Penguin Classics, 2012.// **Resumo da Introdução** 1. A saturação provocada pelas refinadas narrativas contemporâneas desperta a nostalgia de uma narração pura, própria das lendas e dos contos de fadas, de tom polido ao longo de séculos e transmitida de avó a neto de modo sereno e anônimo, o que leva ao desejo de uma história límpida e inteira, povoada por figuras convencionais quase livres de personalidade e passado, como a bruxa, o ermitão e os jovens amantes inocentes evocados por Grimm, Jung, Verdi e a commedia dell'arte. 2. Na abertura de "O livro de Efraim", primeira parte do poema longo The Changing Light at Sandover (1982), James Merrill identifica, ao refletir sobre o modo de contar sua própria história, dois traços essenciais do conto de fadas: a voz serena e anônima da narração e o repertório de figuras convencionais que o habitam. 3. A simples menção a Grimm basta para evocar todo um universo, pois para leitores e escritores ocidentais dos últimos dois séculos o Kinder- und Hausmärchen (Contos para crianças e famílias) constitui a fonte e a origem do conto de fadas ocidental, sendo a coleção mais vasta e mais difundida em inúmeros idiomas e a morada de tudo o que se percebe como singular nesse gênero de narrativa. 4. A coleta dos contos não dependia exclusivamente dos irmãos Grimm, já que outros empreendiam trabalhos semelhantes num início de século XIX alemão marcado por intensa efervescência intelectual, quando juristas, historiadores e filólogos debatiam o significado de ser alemão num território sem unidade política, fragmentado em mais de trezentos estados independentes herdados do Sacro Império Romano. 5. A vida de Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) Grimm, filhos de um próspero advogado de Hanau, educados nos clássicos e na Igreja Calvinista Reformada, seguiu um percurso pouco notável: destinados à carreira jurídica do pai, viram a família depender dos parentes maternos após a morte súbita dele em 1796, ingressaram no Lyzeum de Kassel com a ajuda da tia Henriette Zimmer, formaram-se em primeiro lugar em suas turmas e viveram com grande frugalidade durante os estudos na Universidade de Marburg. 6. Em Marburg, a influência do professor Friedrich Carl von Savigny, para quem a lei brotava naturalmente da língua e da história de um povo e não deveria ser imposta arbitrariamente de cima para baixo, conduziu os Grimm à filologia e os aproximou do círculo de Clemens Brentano e Achim von Arnim, interessado no folclore alemão e responsável pela coletânea de canções e poemas folclóricos infantis Des Knaben Wunderhorn (A flauta mágica da juventude), cujo primeiro volume, de 1805, obteve sucesso imediato. 7. O interesse dos Grimm por essa obra veio acompanhado de crítica, como mostra a carta de Jacob a Wilhelm de maio de 1809, que desaprovava os cortes, acréscimos, modernizações e reescritas livres feitas por Brentano e Von Arnim, embora mais tarde os próprios Grimm, sobretudo Wilhelm, viessem a ser censurados exatamente pelo mesmo tratamento dado ao material do Kinder- und Hausmärchen. 8. A decisão de coletar e publicar contos de fadas não constituiu um fenômeno isolado, mas integrou uma preocupação amplamente difundida naquela época. 9. As fontes dos contos eram tanto orais quanto literárias, sem que houvesse peregrinações pela zona rural para transcrever palavra por palavra as histórias de camponeses: algumas narrativas vieram de textos escritos, como "O pescador e sua mulher" e "O junípero", enviadas pelo pintor Philipp Otto Runge em dialeto do baixo alemão, enquanto a maior parte proveio oralmente de pessoas da classe média, entre elas Dortchen Wild, filha de farmacêutico e futura esposa de Wilhelm, e, embora seja impossível aferir a exatidão das transcrições, como ocorre com qualquer coletânea anterior ao gravador, importam sobretudo o vigor e o entusiasmo das versões publicadas. 10. As contribuições dos Grimm à filologia mostraram-se grandes e duradouras, como a Lei de Grimm, formulada por Jacob para descrever alterações sonoras na história da língua alemã, e o primeiro grande dicionário alemão, elaborado pelos dois, e o episódio mais dramático de suas vidas ocorreu em 1837, quando, ao lado de cinco colegas, recusaram o juramento de fidelidade ao rei Ernst August de Hanover, que havia dissolvido ilegalmente a constituição, perdendo por isso seus postos universitários e passando a trabalhar ocasionalmente na Universidade de Berlim. 11. A memória dos Grimm repousa sobretudo no Kinder- und Hausmärchen, publicado pela primeira vez em 1812 e reeditado seis vezes, com Wilhelm à frente da maior parte do trabalho editorial, até a sétima e última edição de 1857, obra que só encontra rival em As mil e uma noites como coletânea de contos folclóricos mais importante e influente, e cujos contos, ao longo do século XIX, tornaram-se nas mãos de Wilhelm mais longos, por vezes mais elaborados, às vezes mais pudicos e certamente mais piedosos. 12. Estudiosos de literatura, folclore, história cultural e política, bem como teóricos de orientação freudiana, junguiana, cristã, marxista, estruturalista, pós-estruturalista, feminista, pós-modernista e outras, encontraram imensa riqueza nos duzentos e dez contos, e diversos desses estudos, arrolados na bibliografia, influenciaram a presente leitura e reinterpretação de maneiras nem sempre plenamente conscientes. 13. O interesse principal reside no funcionamento dos contos como histórias, de modo que o propósito consiste em recontar os melhores e mais interessantes, removendo tudo o que impeça seu fluxo livre, sem transpô-los para cenários modernos, sem interpretações pessoais nem variações poéticas, buscando uma versão límpida como água e guiada pela pergunta sobre como se contaria a história ao ouvi-la de outra pessoa e desejar passá-la adiante, com pequenas alterações no texto ou sugestões de mudanças maiores nas notas quando parecia possível alguma melhoria, como no caso de "Milpeles", que no original se mostra apenas meio completa. **"Repertório de figuras convencionais"** 1. O conto de fadas dispensa a psicologia, pois seus personagens têm escassa vida interior e motivações claras e evidentes, sendo bons quando bons e maus quando maus, e mesmo a súbita e ingrata traição da princesa de "As três folhas da cobra" é revelada no instante em que ocorre, de modo que os tremores da consciência, os sussurros da memória, os impulsos de remorso, dúvida ou desejo semicompreendido, tão centrais no romance moderno, estão inteiramente ausentes, a ponto de quase se poder afirmar que esses personagens não são de fato conscientes. 2. Os personagens raramente possuem nomes próprios, sendo em geral designados pela ocupação, pela posição social ou por uma particularidade da vestimenta, como o moleiro, a princesa, o capitão, Pele de Urso e Chapeuzinho Vermelho, e, quando recebem nome, costuma ser Hans, assim como Jack é o herói de todos os contos de fadas britânicos. 3. A representação visual mais adequada dos personagens de conto de fadas encontra-se menos nas belas edições ilustradas de Grimm do que nas pequenas figuras de papelão recortado do teatro de brinquedo, imagens planas e sem volume, das quais se vê apenas o lado necessário, sendo o outro vazio, e que aparecem em poses de intensa atividade ou paixão, permitindo que seu papel no drama seja facilmente lido à distância. 4. Certos personagens surgem em conjuntos de múltiplos quase indistinguíveis, como os doze irmãos, as doze princesas de "Os sapatos que dançaram até virar farrapos" e os sete anões de Branca de Neve, numa lógica semelhante à da commedia dell'arte retratada por Giandomenico Tiepolo, cujos desenhos mostram Polichinelo como um enxame de patetas idênticos a fazer sopa ou a observar perplexos um avestruz, o que revela que o realismo não comporta a noção de múltiplos e que tais figuras habitam um reino inteiramente outro, entre o estranho e o absurdo. **Celeridade** 1. A rapidez constitui uma grande virtude do conto de fadas, que avança com velocidade onírica de acontecimento em acontecimento, detendo-se apenas no estritamente necessário, de modo que os melhores contos exemplificam com perfeição o que é preciso e o que é dispensável, à semelhança da imagem de Rudyard Kipling do fogo que arde com brilho porque todas as brasas foram reunidas. 2. A abertura dos contos ilustra essa celeridade, pois basta a fórmula "Era..." para que a viagem comece, como em "As três folhas da cobra", em que o filho de um homem pobre, ao perceber que é um fardo para o pai, decide sair de casa para ganhar a vida. 3. Poucos parágrafos bastam para que esse mesmo herói já esteja casado com a filha do rei, e igual rapidez marca o início de "Hans Meu Ouriço", em que um fazendeiro rico, mas sem filhos e escarnecido pelos vizinhos por não conseguir o que seu gado faz com regularidade, perde a paciência e jura ter um filho, nem que seja um ouriço. 4. A rapidez estimula, mas só é possível quando não se carrega muito peso, razão pela qual faltam ao conto de fadas as informações típicas da ficção moderna, como nomes, aparência, formação e contexto social, o que explica em parte a ausência de relevo dos personagens, já que importa muito mais o que lhes acontece ou o que eles fazem acontecer do que sua individualidade. 5. A distinção entre os eventos necessários e os supérfluos nem sempre é fácil na composição de um conto, e o melhor modelo de estudo para quem deseja aprender a contar histórias é "Os músicos de Bremen", ao mesmo tempo uma historinha sem sentido e uma obra-prima, em que nenhum grama da narrativa é desnecessário e cada parágrafo faz a ação avançar. **Imagens e descrição** 1. Os contos de fadas recorrem apenas às imagens mais óbvias, como branco feito neve e vermelho feito sangue, e dispensam descrições detalhadas da natureza ou das pessoas, bastando dizer que a floresta é profunda, a princesa é bonita e seu cabelo é dourado, pois, quando o desejo é saber o que acontece a seguir, os ornamentos descritivos só causam irritação. 2. Uma rara passagem de "O junípero" une com sucesso bela descrição e encadeamento de eventos de forma indissociável, ao vincular, após o desejo da mulher por um filho vermelho como sangue e branco como neve, cada mês de sua gravidez à passagem das estações, do degelo ao verdejar, ao florescer, ao canto dos pássaros, ao perfume do junípero sob o qual ela cai de joelhos de alegria, ao amadurecimento dos frutos que ela come até se sentir mal e triste, até o oitavo mês, quando, chorando, pede ao marido que a enterre sob a árvore caso morra. 3. A maravilha dessa passagem é peculiar, pois nenhum contador consegue melhorá-la, devendo ser narrada exatamente como está ou, ao menos, preservando as características distintas de cada mês, cuidadosamente ligadas ao crescimento da criança no ventre materno e esse crescimento ao junípero, que será decisivo para sua ressurreição posterior. 4. Tal passagem constitui, contudo, uma exceção rara, pois na maioria das histórias as descrições estão ausentes assim como os personagens são planos, e mesmo com a narrativa algo mais ornamentada e inventiva das últimas edições de Wilhelm o interesse continua centrado no que acontece e no que vem depois, sendo as fórmulas tão comuns e o desinteresse pela particularidade das coisas tão generalizado que causa verdadeiro choque uma frase de "Jorinda e Joringel" sobre uma tarde adorável, com o sol aquecendo os troncos contra o verde-escuro da floresta e pombos arrulhando tristemente nas velhas faias. 5. Com essa frase, a história subitamente deixa de soar como conto de fadas e passa a soar como literatura de um romântico como Novalis ou Jean Paul, pois a narração serena e anônima cede lugar a uma sensibilidade individual que sentiu, imaginou e registrou aquela impressão da natureza, e, embora o domínio das imagens e o dom descritivo tornem um escritor único, os contos de fadas não nascem inteiros da mente de autores individuais, de modo que singularidade e originalidade não lhes interessam. **Isto não é um texto** 1. Obras literárias como O prelúdio, de William Wordsworth, ou Ulisses, de James Joyce, existem antes de tudo como texto, consistindo nas próprias palavras impressas na página, cabendo ao editor ou crítico examiná-las com atenção e esclarecer as divergências entre edições, para que o leitor tenha acesso exato ao texto que constitui a obra. 2. O conto de fadas, ao contrário, não é um texto desse tipo, mas a transcrição, feita em uma ou mais ocasiões, das palavras de um entre muitos contadores, sujeita a toda sorte de interferências, como a variação de inspiração ou cansaço de quem narra, as limitações de quem transcreve, que pode estar resfriado, ouvir mal ou interromper a escrita com espirros e tosses, ou ainda o acaso de um bom conto cair na boca de um contador pouco dotado. 3. A variação de talentos, técnicas e atitudes dos contadores tem grande importância, como mostra o caso de Dorothea Viehmann, que impressionou os Grimm ao repetir uma história com as mesmas palavras, facilitando a transcrição, e cujos contos se destacam pela estrutura especialmente cuidadosa e pela precisão maravilhosa, qualidade igualmente admirada no trabalho de reescrita para este livro. 4. Cada contador possui inclinação própria, para a comédia, o drama e o suspense ou o páthos e o sentimento, escolhendo naturalmente os contos que realçam seus dons e inventando detalhes cômicos ou episódios aterrorizantes que, lembrados e repassados, alteram a história e passam a integrar sua tradição, até serem esquecidos, embelezados ou aprimorados por outros. 5. O conto de fadas encontra-se em perpétuo vir-a-ser e transformação, de modo que fixar uma única versão ou tradução equivale a prender um pássaro numa gaiola, cabendo a quem deseja recontar qualquer dessas histórias a liberdade de não ser excessivamente fiel, de inventar novos detalhes e, mais do que isso, o dever de apossar-se da história, pois um conto de fadas não é um texto. **"Um tom polido"** 1. A aproximação do tom ideal sereno e anônimo de James Merrill nem sempre é desejada por quem escreve uma versão de conto de fadas, havendo e devendo haver muitas versões repletas das obsessões sombrias, da personalidade brilhante ou das paixões políticas de seus autores, que os contos suportam bem, e mesmo quando se busca serenidade e anonimato é provavelmente impossível alcançá-los, já que as digitais estilísticas pessoais acabam impressas em cada parágrafo sem que se perceba. 2. Resta buscar a clareza e abandonar a preocupação, pois contar essas histórias é um prazer que a ansiedade só estragaria, e um grande alívio, comparável ao ar fresco que reanima o jovem conde de "A menina dos gansos na fonte", envolve quem percebe que não precisa inventar, uma vez que a substância do conto já existe como a sequência de acordes de uma canção para o músico de jazz, cabendo apenas seguir de acorde em acorde, de evento em evento, com leveza e suingue, já que contar histórias, como o jazz, e também escrever, são artes de performance. 3. Quem deseja contar essas histórias não deve temer a superstição, podendo usar uma caneta da sorte ou meias de cores diferentes se isso fortalecer sua voz, e a superstição mais valiosa diz respeito à voz da narrativa, na crença de que cada história é protegida por seu próprio duende, velho ou moço, homem ou mulher, sentimental ou cínico, cética ou crédulo e inteiramente amoral, cuja voz se incorpora ao narrar e que, como os espíritos do ar que ajudaram Hans Forte a escapar da caverna, serve a quem quer que possua o anel, isto é, a quem conte a história, sendo melhor abordá-lo com respeito e cortesia, e à objeção de que basta a imaginação humana responde-se que é exatamente assim que a imaginação funciona. 4. Todo esforço dedicado a essas histórias pode revelar-se insuficiente, pois as melhores parecem possuir a qualidade que o pianista Artur Schnabel atribuía às sonatas de Mozart: fáceis demais para crianças e difíceis demais para adultos. 5. Os cinquenta contos reunidos representam a nata do Kinder- und Hausmärchen, tratados com o máximo cuidado possível diante dos duendes que zelam por cada um, em sintonia com Dorothea Viehmann, Philipp Otto Runge, Dortchen Wild e todos os demais contadores cuja obra os grandes irmãos Grimm preservaram, na esperança de que contadores e ouvintes vivam felizes para sempre. {{tag>Pullman folktale}}