====== THOMPSON ====== //THOMPSON, Stith. The folktale. Berkeley: Unv. of California Pr, 1977.// ** UNIVERSALIDADE DO CONTO POPULAR [FOLKTALE] ** * O narrador de histórias sempre encontrou ouvintes ávidos em todos os lugares e épocas para satisfazer desejos de informação, diversão ou edificação religiosa. * Relatos de acontecimentos recentes, lendas antigas ou ficções elaboradas como meio de alívio para a monotonia da vida. * Narrativas sobre o presente, o passado misterioso, animais, deuses e heróis mantêm pessoas sob encanto em diversas regiões geográficas. * Aldeias da África Central, barcos no Pacífico, matas da Austrália e sombras de vulcões havaianos. * A prática de contar histórias enriquece a conversa cotidiana e a vida social em ambientes climáticos extremos. * Iglus esquimós sob lâmpadas de óleo de foca, selvas tropicais do Brasil e totens da costa da Colúmbia Britânica. * O amor por uma boa história e a honra ao narrador habilidoso unem diferentes classes sociais e ocupações no Oriente. * Japão, China e Índia. * Sacerdotes, estudiosos, camponeses e artesãos. * A arte da narração tem sido cultivada em todos os níveis da sociedade ocidental por pelo menos quatro milênios. * Odisseu entretendo a corte de Alcínoo com suas aventuras. * Páginas de cabelos longos liam romances de cavalaria intermináveis para entreter damas durante a ausência de seus senhores em cruzadas. * Sacerdotes medievais utilizavam anedotas antigas e novas, nem sempre edificantes, para ilustrar seus sermões. * Camponeses idosos passam as noites de inverno com contos de maravilhas, aventuras e as operações do destino. * Enfermeiras e babás narram para crianças as histórias de Cachinhos Dourados ou a Casa que Jack Construiu. ** NATUREZA E FORMAS DO CONTO POPULAR ** * A narrativa continua a se manifestar através de novas mídias e contextos sociais modernos, apesar da mudança nas formas artísticas. * Poetas escrevem épicos e romancistas escrevem romances. * Cinemas e teatros levam histórias diretamente ao ouvido e ao olho por meio de vozes e gestos de atores. * Anedotas orais florescem em salas de fumantes de trens, navios a vapor e mesas de banquetes. * O foco do estudo se restringe ao conto tradicional em prosa, transmitido através das gerações por via escrita ou oral. * Distinção entre contos tradicionais e outras formas narrativas como baladas, épicos, histórias, romances, dramas e contos curtos. * A investigação do conto popular abrange todas as partes da terra e remonta aos primórdios da história escrita. * Recusa das histórias em serem limitadas exclusivamente a formas de prosa ou verso. * O termo conto popular inclui todas as formas de narrativa em prosa, escritas ou orais, que se tornaram tradicionais ao longo dos anos. * Uso frequente do termo para se referir a contos domésticos ou contos de fadas, conhecidos em alemão como Märchen. * Exemplos citados de Cinderela e Branca de Neve. * O narrador de contos populares orgulha—se da capacidade de transmitir o que recebeu, em oposição à busca moderna por originalidade de enredo. * Desejo de impressionar ouvintes com a autoridade da fonte, seja um grande narrador ou uma pessoa idosa. * Escritores até o final da Idade Média dependiam de autoridades para seus enredos, chegando a inventar originais para evitar suspeitas de inovação injustificada. * Chaucer e a prática de citar autoridades para seus enredos. * O estudo das fontes de grandes escritores conduz diretamente ao fluxo da narrativa tradicional. * Chaucer e Boccaccio. * Coleções escritas da Antiguidade e do período medieval são majoritariamente tradicionais, baseadas na cópia e adaptação de contos. * Produções da Índia, do Oriente Próximo, do mundo clássico e da Europa Medieval. * A trajetória de uma história através de diferentes línguas e manuscritos apresenta uma complexidade elevada devido às reticências e mudanças no enredo. * Passagem de contos da Índia para a Pérsia, Arábia, Itália, França e Inglaterra. * Alterações realizadas por narradores habilidosos ou desastrados em cada recontagem. * A inclusão de narrativas literárias sob o termo conto popular justifica—se pela impossibilidade de separar completamente as tradições escrita e oral. * Desprezo comum pela originalidade do enredo e pelo orgulho da autoria em ambas as tradições. * A compreensão das tradições narrativas não exige uma separação total, visto que histórias circulam livremente entre a fala e o registro escrito. * Contos coletados de narradores iletrados entram em grandes coleções literárias. * Elementos literários clássicos e contos de fadas lidos em livros entram no fluxo oral e perdem sua associação original com a página impressa. * Fábulas de Esopo, anedotas de Homero e legendas de santos. * Contos de fadas de Perrault ou Grimm. * Uma história pode ser registrada em documento literário, atravessar continentes e séculos para depois retornar ao repertório de um artista popular. * O conto oral não precisa ter sido sempre oral, mas assume as características da arte de narrar ao se estabelecer na transmissão verbal. * A narrativa oral torna—se algo para ser contado a uma audiência em vez de lido, produzindo efeitos diretos através da performance. * Uso de expressões faciais, gestos, repetições e padrões recorrentes testados por gerações. * A arte oral de contar histórias é anterior à história escrita e atende a necessidades sociais e individuais básicas em todas as civilizações. * O entretenimento nas horas de lazer encontra no conto uma das atividades mais satisfatórias, exceto onde a civilização urbana moderna penetrou profundamente. * A curiosidade sobre o passado atrai ouvintes para contos que fornecem o conhecimento histórico disponível para o homem simples. * Lendas crescem com a narração e frequentemente evoluem para um passado heróico que gratifica o orgulho tribal. * A religião desempenha um papel fundamental no encorajamento da arte narrativa ao tentar compreender as origens e seres sagrados. * Desenvolvimento de cosmologias inteiras e hierarquias de deuses e heróis nessas lendas. * As formas estruturais assumidas pela narrativa oral, como contos de heróis e anedotas de animais, possuem caráter mundial. * Presença universal do conto de herói, da lenda explicativa e da anedota de animal. * Certos padrões ficcionais são restritos a áreas culturais específicas, servindo como índice dos limites dessas áreas. * A semelhança no conteúdo das histórias de povos variados evidencia a antiguidade e a ubiquidade do conto popular. * Dispersão mundial de tipos de contos e motivos narrativos semelhantes. * O reconhecimento dessas semelhanças aproxima o estudioso da compreensão da natureza da cultura humana. * Questionamentos sobre os motivos de empréstimos de contos entre povos e a função do conto no grupo social. * O estudo do conto popular exige uma multiplicidade de talentos e o conhecimento de diversas disciplinas acadêmicas. * Necessidade de críticos literários, antropólogos, historiadores, psicólogos e estetas. * Investigação sobre por que contos são feitos, como são inventados, a arte de sua narração e como mudam ou morrem. ** FORMAS DO CONTO POPULAR ** * A análise acadêmica corre o risco de ser excessivamente sutil ao tentar categorizar narrativas que os narradores originais não distinguem. * Embora existam esforços inúteis para estabelecer termos exatos, algumas denominações gerais são necessárias para a discussão do tema. * Situações básicas da vida humana produzem contos com estruturas semelhantes em todos os lugares, comparáveis a ferramentas físicas da cultura. * Comparação com o pote, a enxada ou o arco e flecha. * As formas narrativas recebem nomes ao longo do tempo para facilitar a referência e o debate acadêmico. * O conceito alemão Märchen é um dos mais frequentes no estudo mundial do conto popular, embora sem tradução exata em inglês. * Tradução usual como conto de fadas ou conto doméstico. * Uso do termo conte populaire pelos franceses. * O termo Märchen descreve histórias como Cinderela, Branca de Neve ou João e Maria, caracterizadas por serem ambientadas em um mundo irreal. * Ausência de fadas na maioria desses contos, apesar do nome comum. * Heróis humildes derrotam adversários, herdam reinos e casam—se com princesas em terras imaginárias. * Proposta do nome quimerato para uso internacional, devido ao caráter quimérico do mundo narrado. * A novella assemelha—se ao Märchen em estrutura, mas ocorre em um mundo real com tempo e lugar definidos. * Exemplos literários em As Mil e Uma Noites ou Boccaccio. * Presença frequente na tradição oral de povos do Oriente Próximo. * As aventuras de Simbad, o Marujo como exemplo de novella. * Existem sobreposições entre novella e Märchen, resultando em classificações híbridas dependendo da região. * O termo conto de herói é mais abrangente, podendo situar—se tanto no mundo fantástico quanto no pseudo—realista. * Refere—se geralmente a uma série de aventuras de um mesmo herói. * Lutas sobre—humanas de personagens como Hércules ou Teseu. * Popularidade entre povos primitivos ou em eras heróicas, como os antigos gregos ou povos germânicos durante as migrações. * O termo alemão Sage é amplamente adotado para designar relatos de acontecimentos extraordinários considerados verídicos. * Equivalentes em inglês e francês como tradição local, lenda local, lenda migratória e tradição popular. * A Sage pode estar ligada a localidades específicas, personagens históricos ou encontros com criaturas maravilhosas. * Crenças em fadas, fantasmas, espíritos da água e o diabo. * Exemplos incluem o Flautista de Hamelin, o cavaleiro de Ichabod Crane, Barbarossa dormindo na montanha e lendas de amantes indígenas na América. * Estrutura geralmente simples, contendo apenas um motivo narrativo. * O conto explicativo ou etiológico foca na origem de elementos geográficos, fenômenos naturais ou características de seres vivos. * Outros termos: Natursage ou história do porquê. * Explicações sobre montanhas, rios, animais, plantas, estrelas e instituições humanas. * Frequentemente, a explicação é apenas um acréscimo final para dar um desfecho interessante a outras formas narrativas. * O termo mito é considerado confuso por ter sido discutido em muitos sentidos diferentes ao longo da história. * O mito define—se como uma narrativa ambientada em um mundo anterior à ordem atual, envolvendo seres sagrados e origens. * Conexão íntima com crenças e práticas religiosas. * Sistematização de lendas heróicas ou etiológicas com significado religioso. * Heróis relacionados a panteões e deuses. * Animais desempenham papéis centrais em contos populares, assumindo muitas vezes características e pensamentos humanos. * Contos de animais não mitológicos focam na esperteza de um animal contra a estupidez de outro, visando o humor e o engano. * Ciclos do coiote entre indígenas americanos e do lobo e da raposa na Europa. * Exemplos conhecidos na América como os contos do Tio Remus. * O conto de animal com propósito moral explícito é classificado como fábula. * Coleções literárias de Esopo e o Panchatantra. * Presença ou não de uma máxima final, sendo a intenção moral o fator distintivo. * Anedotas curtas com fins humorísticos são universais e conhecidas por termos como chiste, conto alegre ou Schwank. * Temas comuns incluem atos absurdos de tolos, enganos de todos os tipos e situações obscenas. * Tendência de formação de ciclos em torno de um personagem que atrai diversas aventuras cômicas ou estúpidas. * Facilidade de propagação e memorização através de milênios e continentes. * Duas formas narrativas primariamente literárias, a legenda e a saga, exigem precisão terminológica para evitar confusões. * Uso de legenda de santo para histórias piedosas, algumas das quais entram na tradição oral. * Restrição do termo saga para contos literários de eras heróicas, especialmente da Escandinávia e Irlanda. * Diferenciação necessária entre a saga literária e a Sage alemã. * As formas do conto popular não são rígidas e frequentemente se fundem umas nas outras durante transmissões geográficas e temporais. * Transformação de contos de fadas em mitos, contos de animais ou lendas locais. * Estabilidade e persistência do enredo em comparação à fluidez da forma e do estilo.```