====== 7 Tema ====== //FLIEGER, Verlyn. Splintered Light: Logos and Language in Tolkien's World. Grand Rapids: Eerdmans, 1983. (Edição revista e ampliada: Kent: Kent State University Press, 2002).// **Tema e variações** 1. A rebelião do livre-arbítrio criado antecede, nessa mitologia, a criação do próprio mundo. 2. A Música estabelece o princípio e o desígnio da criação quando Eru convida os Ainur a desenvolver seu tema, mas Melkor, insatisfeito com essa participação, introduz uma composição própria e provoca o primeiro conflito entre harmonia e dissonância. 3. A concepção combina a rebelião de Lúcifer com a tradição pitagórica da harmonia celeste, segundo a qual as proporções e os movimentos dos astros constituem uma ordem musical que permaneceu influente durante a Idade Média e além dela. 4. A integração entre harmonia cósmica e discórdia rebelde transforma em realidades literais elementos que seriam metafóricos no Mundo Primário, recombinando referências cristãs, pré-cristãs e exteriores ao cristianismo numa cosmologia própria. 5. Diferentemente de concepções em que o mal ingressa num mundo originalmente criado sem essa corrupção, a rebelião anterior à existência de Eä introduz elementos discordantes no próprio projeto subcriativo, tornando possível, desde o início, a queda de seus habitantes e de suas formas. 6. A discórdia de Melkor modifica o projeto do mundo ainda em potência, pois a Música não constitui sua realização material, mas o modelo que Eru torna visível aos Ainur e cuja concretização autoriza por meio da palavra criadora Eä. 7. A união entre a luz do Gênesis e o Logos do Evangelho de João permite conceber música, ordem e visibilidade como aspectos de um mesmo princípio criador, concentrado em Eä como palavra que concede existência ao mundo. 8. A atenção filológica de Tolkien aos sentidos e às implicações das palavras encontra sua expressão máxima na mitologia inteira, que pode ser compreendida como o desenvolvimento das possibilidades contidas na palavra Eä. 9. Ao ingressarem no início do Tempo, os Valar precisam realizar materialmente o que a Música e a Visão apenas anteciparam, mas sua atuação já distancia o mundo da unidade originária de Eru, produzindo luzes diferenciadas e progressivamente menos intensas. 10. O enfraquecimento da luz acompanha as transformações dos povos e das línguas, exprimindo uma crescente experiência de perda e afastamento mediante a qual se exploram o significado e as consequências da Queda como separação da luz divina. 11. A apresentação da luz como realidade tangível permite recuperar imaginativamente a unidade entre sentidos literais, metafóricos e simbólicos, recriando a participação originária postulada por Barfield mediante uma fantasia que a narrativa realista dificilmente tornaria convincente. 12. A subcriação exige trabalho, reflexão e habilidade para conferir consistência interna ao Mundo Secundário, pois imaginar ou enunciar algo extraordinário não basta para produzir a crença secundária necessária ao encantamento. 13. A linguagem humana possui uma aptidão particularmente fantástica porque torna visíveis as aparências, mas seu emprego na construção de um mundo exige elaboração rigorosa e uma capacidade artística comparável ao artesanato élfico. 14. A habilidade linguística de Tolkien abrange tanto o inglês da narrativa quanto as línguas inventadas, cuja existência exige povos, culturas e mitos correspondentes, formando uma reciprocidade na qual esses elementos se sustentam e conferem consistência ao mundo criado. 15. A linguagem constrói o mundo, caracteriza seus habitantes e incorpora seus temas, mas as primeiras comunicações entre Eru e os Ainur devem ser compreendidas como uma relação espiritual anterior à fala corporal e às palavras propriamente ditas. 16. A comparação da Música dos Ainur com instrumentos e coros apenas antecipa a linguagem, cuja realização efetiva surge muito depois com os Elfos e mantém uma relação originária com a luz. 17. A rebelião de Melkor deforma o projeto inicial e continua a perturbar a formação material da Terra, até que uma ordem provisória permita a Yavanna semear o mundo e torne necessária a luz para seu florescimento. 18. Aulë constrói duas grandes lâmpadas, Varda as preenche de luz e Manwë as consagra, colocando-as sobre pilares ao norte e ao sul da Terra-média para iluminá-la como num dia constante. 19. A luminosidade primordial das Lâmpadas permanece intensa e contínua até sua destruição por Melkor, cujo ataque altera terras e mares e liberta um fogo devastador que o mundo imperfeito não consegue suportar, extinguindo uma luz que não poderá ser restaurada. 20. A nova iluminação nasce do canto de Yavanna nas Árvores Laurelin e Telperion, mas sua origem natural e sua geração por uma única voz produzem uma luz mais suave e menos abrangente que a das Lâmpadas. 21. As Árvores iluminam apenas Valinor e alternam períodos de brilho dourado e prateado, cujos ciclos de crescimento e declínio se sobrepõem parcialmente, concretizando a diferenciação e a diminuição que atravessam toda a mitologia. 22. A alternância luminosa introduz um ritmo próximo ao tempo mensurado e adapta a luz à vida do mundo, enquanto a claridade de Valinor representa uma arte ainda unida à razão, capaz de reconhecer a bondade e a beleza das coisas científica e imaginativamente. 23. A concentração da luz em Valinor deixa a Terra-média sob a claridade distante das estrelas e torna o esclarecimento uma realidade física que precisa ser procurada mediante deslocamento efetivo, restituindo literalidade ao que seria uma metáfora de transformação interior. 24. A passagem das Lâmpadas às Árvores antecipa a fragmentação pela diminuição do brilho e pela diferenciação das cores, mas a divisão se concretiza quando Varda utiliza o orvalho luminoso de Telperion para formar estrelas mais brilhantes, distribuindo aos futuros habitantes parcelas da luz. 25. O aparecimento dos Elfos ocorre coletivamente, sem um ancestral individual fundador, e sua criação, seu despertar e sua primeira resposta à luminosidade das estrelas apresentam-nos como um povo unido diante do mundo. 26. A fala permite aos Elfos reconhecerem a si mesmos e distinguirem sua existência dos fenômenos circundantes, iniciando um desenvolvimento perceptivo e linguístico que corresponde à progressiva diferenciação da consciência descrita por Barfield. 27. Os Elfos e suas línguas tornam-se instrumentos centrais de uma subcriação que acompanha a fragmentação da luz, da percepção, da sociedade e do indivíduo, permitindo reconhecer novamente o mundo humano e entrever possibilidades de transformação ainda não realizadas. {{tag>Tolkien folktale Flieger}}