====== 1 ====== //ATL// ** PRIMEIRO CAPÍTULO, QUE MOSTRA QUE A VERDADEIRA LUZ É DEUS, E QUE O NOME DE LUZ APLICADO A OUTRO SER É PURAMENTE METAFÓRICO E NÃO DEVE SER TOMADO EM SENTIDO PRÓPRIO ** Para demonstrar que Deus é a luz suprema e última, é preciso primeiro determinar a significação da palavra “luz” (nûr) segundo três acepções: a do homem comum, a daqueles com qualificações espirituais particulares e a da elite espiritual. * Para o homem comum, a palavra “luz” designa aquilo que é visível por si mesmo e que torna visível outra coisa, como o sol, aplicando-se tanto aos corpos luminosos quanto ao que é difundido por eles. * A percepção visual depende tanto da existência da luz quanto do olho dotado de vista, sendo que o nome de “luz” mereceria mais ser aplicado ao que vê (o olho) do que ao que é visto. * O olho externo possui sete imperfeições: não se vê a si mesmo; não vê o que é muito distante; não vê o que está atrás de um véu; vê o exterior das coisas mas não seu interior; vê certos seres e não todos; não vê o que é ilimitado; e frequentemente se engana no ato da percepção. * Existe no coração (qalb) do homem um olho (ayn) chamado de intelecto (aql), espírito (rûh) ou alma humana (nafs insâni), que escapa por sua elevação a essas sete imperfeições. * O intelecto percebe a si mesmo e aos outros, move-se livremente através dos véus, penetra o interior e a natureza profunda das coisas, seu domínio são todos os seres, percebe o que é ilimitado e não comete os erros da visão externa. * Os cinco sentidos externos são os observadores do intelecto, que possui ainda outros servidores internos como a imaginação (khayâl), a faculdade estimativa (wahm), a faculdade cognitiva (fikr), a faculdade de evocação (dhikr) e a memória (hifzh). * Os objetos da visão do intelecto incluem conhecimentos necessários (como a impossibilidade de uma coisa ser ao mesmo tempo eterna e ter um começo temporal) e verdades de ordem especulativa, que necessitam de estímulo. * A mais magnífica das sabedorias é a Palavra de Deus, particularmente o Corão, cujos versículos são para o olho do intelecto o que a luz do sol é para o olho externo, pois é por ela que a visão se atualiza. * Há duas espécies de olhos: o olho externo, que pertence ao mundo sensível e visível, e o olho interno, que pertence ao mundo do Reino celestial (Malakût), cada qual com seu sol e sua luz correspondentes. * O mundo visível, relativamente ao mundo do Reino celestial, é como a casca em relação ao núcleo, como a forma em relação ao sopro que a anima (râh), como as trevas em relação à luz. * O mundo visível é um símbolo do mundo do Reino celestial, sendo que o efeito não pode deixar de corresponder à causa, revelando-se ao coração desta verdade as significações ocultas dos símbolos do Corão. * O que vê a si mesmo e vê os outros, e além disso torna os outros visíveis, merece mais o nome de “luz”, sendo digno de ser chamado “flamboieiro que ilumina” (sirâj munîr), propriedade que pertence ao espírito santo profético (al-rûh al-qudsî al-nabawî). * O flamboieiro terrestre empresta sua luz originalmente das luzes superiores, sendo a fonte luminosa dos flambeiros terrestres o Espírito divino eminente (al-Rûh al-ilâhiyya al-ulwiyya), descrito como um Anjo com setenta mil rostos e setenta mil línguas cada. * As luzes celestiais se ordenam hierarquicamente, remontando a uma Fonte primeira, que é a Luz em si mesma e por si mesma, que não recebe luz de outro, mas por quem brilham todas as outras. * O termo “luz” aplicado a outra coisa que não a Luz principial é pura metáfora (majáz), pois todo ser que não Ela, considerado em sua essência, não tem luz própria, sendo sua natureza luminescente emprestada de um outro. * O Ser verdadeiro (al-mawjûd al-haqq) é Deus, assim como a Luz verdadeira é Deus, sendo que a existência que pertence ao ser por causa de um outro é uma existência emprestada que, considerada em sua essência, é puro não-ser. * Os sábios (ârifûn), após terem aperfeiçoado sua ascensão espiritual, veem pela contemplação direta (al-muchâhada al-iyâniyya) que não há na existência senão Deus, e que “toda coisa é perecível exceto Sua Face”, não em um momento, mas eterna e perpetuamente. * Cada coisa tem duas faces: uma voltada para si mesma (que é nada) e uma voltada para seu Senhor (que existe), de modo que não há outro existente senão Deus e Sua Face. * A profissão de fé “Nul lui, excepté Lui!” é a daqueles que têm a vocação espiritual (khawâçç), sendo mais perfeita e apropriada que a do comum dos crentes (“Nul divinité, excepté Dieu!”), levando à Singularidade divina (fardâniyya). * O termo da ascensão das criaturas é a Singularidade divina, onde a multiplicidade desaparece, a Unidade é realizada, as relações são suprimidas e não há mais nem alto nem baixo, nem quem desce ou sobe. * Deus é a luz dos céus e da terra, sendo que os céus e a terra são preenchidos por luzes exteriores e visíveis (como os astros) e por luzes interiores e inteligíveis (substâncias angélicas, a vida e a luz humana). * Aqueles dotados de visões interiores (baçâ’ir) não veem nenhuma coisa sem ver Deus junto dela, havendo aqueles que veem as coisas por Ele (homens de contemplação) e aqueles que primeiro veem as coisas e depois O veem por elas (homens de dedução por provas). * Deus está com toda coisa como a luz que acompanha as coisas, sendo Ele “antes” de toda coisa e “acima” de toda coisa, e aquele que faz aparecer toda coisa, não estando separado do que é assim tornado aparente.