====== EPÍLOGO ====== //HCARV// ** Epílogo ou Perspectivas Avicenistas ** A designação de epílogo permite a extensão das meditações sem o encerramento definitivo de suas perspectivas. * A forma dada às pesquisas reconhece a complexidade aparente dos temas tratados. O objetivo não reside em delimitar a experiência íntima do homem Ibn Sina ou impor definições sobre sua natureza. * O desejo de classificar um grande homem sob normas comuns e esperadas é inadequado a um destino pessoal. * Ibn Arabi estabeleceu a conexão desses filósofos com a grande família do Gnosticismo. * A situação dos filósofos na comunidade islâmica sempre apresentou dificuldades significativas. O florescimento da escola de Mir Damad em Isfahan, no século dezessete, atesta circunstâncias favoráveis no Irã. * O avicenismo e o suhrawardismo experimentaram uma renovação duradoura naquele contexto. * Existe uma relação entre Ibn Sina e Suhrawardi iluminada por seus relatos místicos e pelo uso da composição em primeira pessoa. * O projeto de Suhrawardi nutre-se da fonte oriental e da Luz de Glória, conceito da antiga Pérsia desconhecido por Ibn Sina. * O Relato do Exílio Ocidental encontra seu ponto de partida no último episódio do relato de Hayy ibn Yaqzan. * A orientação da espiritualidade iraniana nos séculos seguintes foi marcada por essa relação reconhecida. ** Avicenismo e Imamismo ** A tradição iraniana identifica Ibn Sina entre os Ahl-e Erfan, evitando o julgamento sobre sua qualidade de místico. * O trabalho do filósofo deve falar por si mesmo, sendo acolhido com simpatia e não com suspeita. * Os personagens dos relatos, como íntimos do autor, comunicam a qualidade original de seu misticismo. * A delimitação arbitrária do conceito de místico para excluir o filósofo representaria um racionalismo extemporâneo. * A fronteira entre filosofia e misticismo nos Hukama não se presta a dogmatismos ou exegeses de tribunal. * A exegese da alma e seus símbolos busca descobrir o horizonte apontado por um gesto, em vez de fixar o olhar no dedo que aponta. * A conjunção entre avicenismo e suhrawardismo realizou-se no imamismo iraniano graças aos exegetas da alma. O pensamento de Ibn Sina foi compreendido e vivenciado de forma positiva entre os avicenistas xiitas no Irã. * Hostilidades por parte de teólogos e juristas existiram de forma análoga ao ocorrido no Ocidente. O sentimento de oposição do Islã ortodoxo manifesta-se em relatos como o sonho de Majduddin Baghdadi. * No sonho, o Profeta afirma sobre Ibn Sina: Ele é um homem que alegou atingir a Deus sem minha intermediação. Então eu o afastei assim, com minha mão. E ele caiu no inferno. * A rabies theologica mística manifesta um sentimento hostil coletivo sob a figura do Profeta. * Muhammad Baqir Khwansari dedica um longo capítulo a Ibn Sina em sua obra. * Reza Quli Khan comenta sobre Majduddin Baghdadi, discípulo de Najmuddin Kubra. * Alauddawla Semnani relata o sonho em sua obra Quarenta Majlis, coletada por Iqbal Sejestani. * No sonho em Mossul, o Profeta responde sobre Ibn Sina: Ele é um homem a quem Deus causou a perda do caminho por força do conhecimento. * Shihabuddin Suhrawardi é mencionado no mesmo sonho como um seguidor de Abu Ali Sina. * A afinidade entre os dois mestres da filosofia oriental excede as expectativas ao comprometer Ibn Sina com o mestre assassinado. O interesse reside na aplicação do tawil, para o qual os pensadores xiitas possuem aptidão congênita. * A vocação filosófica permitiu manter o avicenismo vivo por meio de novos exercícios espirituais e do sentimento religioso. * O conceito de Imam estimulou a especulação e a consciência espiritual em Isfahan. * Mir Damad, o Magister tertius, e sua posteridade espiritual devem ser examinados para compreender essa vivência. * Aristóteles é o Magister primus e al-Farabi o Magister secundus. O testemunho de Sayyid Qazi Nurullah Shushtari exemplifica o desejo de vincular grandes vultos aos Santos Imames. * Conhecido como o terceiro Mártir, Shushtari morreu por sua fé xiita por ordem de Jahangir. * O primeiro Mártir foi Shamsuddin Muhammad ibn Makki Amili e o segundo foi Zaynuddin ibn Ali Shami. * Shushtari buscou incluir os simpatizantes entre os Ahl-e Iman, ou pessoas da fé. * A teologia xiita professa o assentimento à unidade divina, aos Profetas e aos Imames, conforme Nasiruddin Tusi e Allama Hilli. * A fervorosa intuição de Shushtari revela indicações superiores à crítica histórica positivista. Sayyid Ahmad Alawi representa o pensador que valoriza a filosofia da antiga Pérsia e a piedade pelos Imames. * Discípulo e genro de Mir Damad, Alawi funde o avicenismo suhrawardiano com o imamismo religioso. * Qutbuddin Ashkevari comparou a concepção zoroastrista do Saoshyant com a ideia xiita do retorno do Décimo Segundo Imam. * O avicenismo iraniano recebe características específicas da imamologia e da teosofia ismaelita. A significância da filosofia de Ibn Sina para o imamismo transcende a questão da sua fidelidade sectária. * Nurullah Shushtari investiga se Ibn Sina era xiita de nascimento e se sua concepção de Islã harmonizava-se com o xiismo. * A questão essencial é o significado do conceito de Imam para o sábio avicenista. * É provável que Ibn Sina tenha nascido no xiismo, dado o território Samânida e seu serviço a príncipes xiitas. * Os emissários da propaganda ismaelita eram bem recebidos no Khorasan. * Ibn Sina relatou a Juzjani que seu pai e irmão tentaram, sem sucesso, ganhar sua adesão à causa ismaelita. * Khwansari concluiu erroneamente que Ibn Sina era sunita por não tratar de todos os tópicos xiitas. O testemunho de pensadores como Shushtari e Alawi demonstra que o pensamento xiita recebeu novo significado da doutrina avicenista. * Recordar o anátema dos juristas sunitas auxilia a despertar simpatia pelo filósofo entre os pensadores imames. * Atribui-se a Ibn Sina um quarteto persa incisivo: A descrença de um homem como eu não é coisa comum ou fácil. Não há fé mais firme que a minha fé. Apenas um homem como eu no curso de todo o tempo, e ele um descrente? Muito bem, então, é porque no curso de todo o tempo não houve um único muçulmano! * O anátema resultou de teses como a eternidade do mundo, a hierarquia de inteligências angélicas e a negação da ressurreição corporal. * Majlisi aponta a oposição dessas teses à teologia ortodoxa, mas cita o texto de Ibn Sina sobre a eficácia das preces. * Shushtari argumenta que tais teses pertencem ao Shifa, onde o filósofo expõe os antigos sábios, diferindo de outras obras. A meditação sobre as últimas linhas do Shifa conduz à representação do Imam como arquétipo do sábio ou gnóstico perfeito. * O Imam é proposto como o objeto mais alto da gnose mística e o Homem Perfeito. * O avicenismo suhrawardiano desenvolveu a imamologia como uma antropologia metafísica e mística. * O significado espiritual esotérico afasta-se do xiismo confessional e da ligação estrita à letra da lei. A concepção plena do imamato corresponde ao ideal de uma cidade perfeita sob autoridade espiritual e temporal. * O Imam é o herdeiro espiritual do Profeta e depositário do sentido oculto da Revelação. * Shushtari cita a resposta de Ibn Sina a Abul Hasan Amiri: Aquele que deve governar animais não deve ser ele mesmo um animal. Não é certo que aquele que governar a massa seja ele mesmo um da massa. * O fracasso temporal do imamismo intensifica o sentido escatológico do Imam oculto. * O Imam oculto é o polo da humanidade e a realeza invisível do sábio perfeito. * O drama de Salaman e Absal e o Relato da Ave podem ser lidos como a busca pelo Imam oculto. Ibn Sina descreve que aquele que une sabedoria especulativa e prática torna-se quase um Deus em forma humana. * O texto afirma: Ele é o Rei do mundo terrestre, o califa de Deus neste mundo. * Shushtari e Alawi aplicam essa descrição a Ali ibn Abi Talib, o primeiro Imam. * Numa discussão sobre o califado, Ibn Sina examina o caso de um governante que deve recorrer a um sábio, como ocorreu com Umar. A exegese de Ahmad Alawi utiliza o Miraj-Namah para exaltar a investidura do Imam a um plano metafísico. * O Profeta dirige-se ao primeiro Imam: Enquanto o comum dos homens se aproxima do Criador por todo tipo de piedade, aproxima-te Dele por toda forma de inteligência: tu estás diante de todos eles. * Outra exortação afirma: O Ali! enquanto os homens tomam tanto trabalho para multiplicar seus atos de adoração, atende ao Conhecimento do mundo inteligível, para que estejas diante de todos eles. * O Imam é para os companheiros o que o inteligível é para o sensível. * O culto filosófico e o serviço divino constituem o conhecimento para o sábio. O Imam aparece como o gnóstico perfeito que realiza o tipo humano ideal. * Ahmad Alawi combina os vocabulários avicenista e suhrawardiano na sua caracterologia. * A progressão leva do Relato de Hayy ibn Yaqzan ao Relato do Exílio Ocidental e à resolução em Salaman e Absal. * O prefácio da Sabedoria da Iluminação de Suhrawardi descreve o sábio perfeito em termos reconhecíveis pelo imamismo. O sábio é investido de uma virtualidade hierática através de seu intelecto material em sua primeira criação. * Na segunda criação, a dignidade perfeita é atualizada no intelecto adquirido. * O sábio torna-se um universo inteligível, termo equivalente ao saeculum intelligibile latino. * O sábio teosofânico mutaallih combina a perfeição do conhecimento com a experiência da teose. * Ele integra as qualidades proféticas do Mensageiro e a dignidade espiritual do Legatário. A homologia situa o Imam em relação à humanidade como o inteligível está para o sensível. * O inteligível é o mundo das inteligências angélicas ou mundo da Luz, enquanto o sensível é o mundo do fenômeno e das trevas. * A meta do conhecimento sofânico é atualizar na alma uma perfeição que permanece pela perenidade da alma. * O Imam é o objetivo original pelo qual a alma perfeita torna-se perene e adornada com os ornamentos da fé. * A gnose do Imam resume toda a esperança dos desejos e a segurança da fé. A imamologia define e representa o objetivo da antropologia mística. * A exegese esotérica da fenda da lua figura a conjunção da alma com a Inteligência Ativa. * Cada místico pode tornar-se o selo da profecia ou o Imam do Antropos, o Adão espiritual. * O Imam de cada período é a tipificação visível do décimo dos Querubins na teosofia ismaelita. * Um cripto-ismaelismo no Irã encorajou a interpenetração de doutrinas sob a forma do sufismo. * A vinda do Imam significa a abrogação da Lei e o advento da pura religião da Ressurreição, como proclamado em Alamut. As intenções dos filósofos formularam-se secretamente através da terminologia do imamismo. * Shahrazuri, no século treze, cita um sermão do primeiro Imam: A Terra nunca está sem um Mantenedor que mantém suas Provas, seja pública e abertamente ou em segredo e sob opressão. * O número desses mantenedores é diminuto, mas seu valor não tem preço; eles transmitem as provas aos seus pares. * O sábio perfeito é o rei místico do mundo que mantém a presença de uma sabedoria vital. * O imamismo espiritual do sábio estilhaça limites e integra o conhecimento de forma superior à conversão sectária. * Ibn Sina recusou o ismaelismo organizado para permanecer livre na aplicação do tawil pessoal. * Nasiruddin Tusi, defensor de Ibn Sina contra Shahrastani, enfatiza que o verdadeiro conhecimento do Imam não é o de sua genealogia corporal. * O conhecimento real é o do Eu que é o Imam, percebendo a realidade de suas qualificações. * No budismo, isso se assemelha ao conhecimento dos Budas em seu corpo de Essência, o Dharmakaya. ** Simbolismo e Presença ** A percepção da realidade imâmica ocorre através de um órgão psíquico que apreende a figura eterna do Imam. * O ensinamento de que se deve ver o Imam em Hurqalya refere-se ao mundo intermediário entre o cosmos físico e as inteligências arcanjélicas. * Nesse mundo, ocorre a transmutação de todas as coisas em símbolos através da Imaginação metafísica ativa. * O Oriente é o mundo das Animae coelestes, onde a alma alcança seu símbolo pessoal. A lição de Ibn Sina para o presente reside na interiorização e na exegese da alma. * O tawil suspende a letra para trazer à vista o significado espiritual assimilável pela consciência. * A alma integra o mundo a si mesma em vez de subordinar-se a uma realidade externa. * Esse processo requer a transmutação do modo de percepção, onde a alma questiona a si mesma e não mais os eventos externos. * O simbolismo avicenista abre o caminho para a pura Presença e a libertação do mundo. A debilidade de muitos comentários reside no retorno perpétuo a níveis de ser já transcendidos pelo símbolo. * O mundo intermediário da Imaginação simbólica possui realidade plena, autônoma e objetiva. * Os símbolos revelam conteúdos permanentes correspondentes a uma estrutura psíquica fundamental, não sendo meras fantasias. * Recorrências em culturas distantes, estudadas por C. G. Jung, demonstram que esses símbolos não são arbitrários. O símbolo é mediador porque é silêncio, falando o que somente ele pode expressar. * Substituir o símbolo por uma significação inteligível definitiva destrói a dramaturgia mental dos relatos. * O intelecto humano não realiza abstrações, mas recebe a iluminação do Anjo. * A segunda hierarquia angélica, das Almas celestiais, garante a objetividade do mundo dos símbolos em Hurqalya. * O averroísmo no Ocidente provocou soluções diferentes para os problemas da exegese simbólica. Ver eventos em Hurqalya é distinto de percebê-los no plano histórico sensível. * O historiador puro não percebe o significado simbólico do evento; este é transmutado pelo tawil. * O evento ocorre espiritualmente como um evento da alma, o que possibilita sua reocorrência futura. * A iniciação de Hayy ibn Yaqzan vai além do cosmos físico e atinge a visão do símbolo central do Eu. A visão mental contempla uma Figura cuja realidade pessoal é o lugar de epifania da Imaginação. * A tipologia ocidental muitas vezes opõe a experiência de um Deus pessoal a uma experiência natural do Eu. * A comunicação divina postula uma individuação necessária que se manifesta na forma do Anjo. * Toda epifania divina só pode ter a forma do Anjo, conectando a angelologia à imamologia. * O imamocentrismo xiita assemelha-se ao cristocentrismo, particularmente na concepção gnóstica de Christos-Angelos. * O Anjo nos relatos de Suhrawardi é o Espírito Santo ou Inteligência Ativa, identificado como a Natureza Perfeita. * A resistência de Guilherme de Auvergne ao conceito do Anjo possui valor simbólico. A descoberta do Dador de formas liberta a alma ao identificar o doador dos dados da consciência. * O intelecto possível da alma recebe a iluminação do Anjo, de onde emana a luz constitutiva de seu ser. * A ação cogitativa é, antes, uma paixão; o Cogito é, na realidade, um Cogitor, conforme a expressão de von Baader. * Reconhecer a ação da Inteligência Ativa é o conhecimento oriental, origem de todo saber. * G. Furlani comparou a ficção de Ibn Sina sobre a consciência da alma ao Cogito de Descartes. * O homem sem o Anjo é escravo dos companheiros sinistros mencionados por Hayy ibn Yaqzan. * Ahmad Alawi discerniu a corrupção demoníaca da escuridão que pesa sobre a gradação das inteligências. * A mística de Attar e o mistério do Simurgh ilustram a inversão do sujeito necessária para atingir essa consciência. A mística persa valoriza as imagens, indo contra os ensinamentos que prescrevem o despimento da alma. * Santo Inácio de Loyola, no Ocidente, utilizou a ativação de imagens em seus Exercícios Espirituais. * O avicenismo não é puro aristotelismo nem puro platonismo, oferecendo o mundo intermediário como saída. * Ruzbehan Baqli de Shiraz analisou a experiência mística onde amor e beleza se transmutam em adoração. * A visão simbólica postula a espontaneidade da Imaginação como órgão de metamorfose. * Os poetas persas, como Jami, modificam temas transmitidos para refletir a espontaneidade não arbitrária dos símbolos. O tempo de Ibn Sina apresenta-se como uma imediatez originada na êxtase das inteligências arcanjélicas. * A fenomenologia da consciência angélica une a cosmologia à experiência mística. * A angelologia avicenista é frequentemente negligenciada por estar ligada a uma astronomia antiga. * Sob o nome persa de Ravanbakhsh, o Anjo do Conhecimento identifica-se com o Espírito Santo e a Virgem de Luz do maniqueísmo. * A Beatrice de Dante typifica a Inteligência Ativa ou Sabedoria-Sofia, assim como a Madonna Intelligenza de Dino Compagni. * Luigi Valli estudou a linguagem secreta dos Fiéis do Amor e a identidade dessa inteligência amorosa. * A união entre o intelecto humano e o Anjo Dador de formas é vivenciada como uma união de amor. A figura da Inteligência Ativa domina o horizonte da consciência acima dos dogmas teológicos. * A crítica ao estudo exclusivo de Averróis oculta a importância do avicenismo latino. * É um erro negar a realidade terrestre das damas dos Fiéis do Amor ou reduzi-las a meras metáforas. * A percepção do Fiél do Amor transmuta a epifania de uma figura terrena na visão do Anjo. * O sensível é transmutado em símbolo e o inteligível revela-se através de uma imagem-símbolo. A mediação da Inteligência Ativa significa uma revelação individual renovada para cada alma. * O adepto que se une ao Anjo Gabriel torna-se o selo da profecia. * Esse processo de individuação liberta a existência individual de formas coletivas e institucionais. * A Igreja, ao herdar a função da Inteligência Ativa, não pode substituir a relação pessoal com o Anjo. * Cada indivíduo deve decidir seu destino decifrando o documento de sua própria alma, como as aves de Attar. * Não há fórmula técnica para o encontro, mas se ele ocorrer, o homem viaja em companhia do Mensageiro do Rei.