===== SABEDORIA DO SUBLIME NO VERBO DE ISMAEL ===== //Fusus, RABW// **A Relação entre Servo e Senhor** O tópico principal deste capítulo é a relação entre o servo e o Senhor, que representa a particularização da relação universal, discutida anteriormente, entre Deus e o Cosmo. * Assim como ocorre com o termo “Deus”, o termo “Senhor”, na visão de Ibn Arabi, tem significado apenas dentro do contexto de sua relação com o conceito de servo; não pode haver senhorio ou domínio sem servidão. * Essa relação denota a polaridade do servo, como a coisa criada, individual e existente, e do Senhor, como o aspecto particular de Deus que cria e determina o destino daquela coisa de acordo com sua realidade essencial latente em Deus. * Porque cada ser criado é e não pode ser outro senão aquilo que seu Senhor determina, conforme informado por sua própria predisposição eterna, cada coisa deve necessariamente ser, como diz o Alcorão, “agradável ao seu Senhor”, independentemente de essa aprovação ontológica parecer, ao olhar não instruído, como louvor ou culpa, recompensa ou punição. * O Senhor não pode deixar de aprovar o que Ele quis que fosse, nem o servo pode, na realidade, desaprovar o Senhor que, na prática, o determina apenas de acordo com aquilo que ele mesmo inevitavelmente é em essência. **Senhorio, Nomes Divinos e Autoconhecimento** O senhorio é um conceito que deriva do conceito dos Nomes divinos, que denotam a infinita complexidade e multiplicidade de relações particulares como aspectos da relação universal entre Deus e o Cosmo. * Cada senhor é um Nome divino particular que define a qualidade de uma relação aspectual particular dentro do contexto da relação universal que é qualificada pelo Nome universal, Deus. * Cita-se a Tradição do Profeta: “Quem conhece a si mesmo conhece seu Senhor”, interpretada à luz de sua visão da relação: “Quem quer que se conheça como ele é in divinis, conhece seu Senhor particular como agente de sua própria libertação na existência”. * Busca-se tornar clara a distinção entre o termo “Deus”, que implica polaridade e relação, como também dualidade, triplicidade e multiplicidade, e o termo “Essência”, que denota o Uno em Si Mesmo, Sozinho e absolutamente único, além da necessidade de qualquer alteridade polarizante, por mais contingente que seja. * As noções de Deus e Senhor não estão relacionadas àquela de Essência divina. **A Unidade e a Distinção como Aspectos Necessários** Enfatizada a mutualidade dos termos servo e Senhor e a unidade essencial de todos os Nomes divinos, busca-se também corrigir qualquer equívoco no leitor de que o princípio da distinção e diferença entre conceitos e as realidades que eles denotam é redundante ou sem importância. * Uma visão completa e total da Realidade, do modo como as coisas realmente são, exige que tanto a verdade da unidade da universalidade quanto a verdade da unidade da singularidade e unicidade sejam apreendidas juntas em síntese, cada uma corrigindo e compensando a outra como aspectos necessários da experiência da Realidade de Si Mesma. * De um ponto de vista, o servo é o Senhor é Deus não é outra coisa senão a Realidade; do outro ponto de vista, o servo não é o Senhor não é Deus não é a Realidade, no sentido de que cada um, embora interior e essencialmente em estado de identidade inexorável com todos os outros, reserva para si, válida e legitimamente dentro do contexto da Realidade, suas próprias características especiais e peculiares. * Cabe ao gnóstico, como servo, reconhecer não apenas sua identidade eterna com Deus, como essência latente, mas também que ele não é e nunca pode ser Deus como tal; que cabe a ele adorar e a Deus ser adorado, seja qual for seu grau de realização ou gnose. **A Misericórdia Essencial e a Punição no Inferno** De acordo com a declaração corânica de que a misericórdia divina é mais forte do que a ira divina, a noção de punição no Inferno, que significa uma separação terrível de Deus, não pode, em última análise, ser mais do que uma consequência secundária da ignorância. * Todos os seres existentes, final e ultimamente, compartilham da misericórdia da realidade essencial nEle.