===== SABEDORIA DA EMINÊNCIA NO VERBO DE MOISÉS ===== //Fusus, RABW// **As Relações entre Moisés e Faraó e entre Moisés e al-Khidr** Este capítulo complexo trata de muitos assuntos, merecendo destaque especial a relação entre Moisés e Faraó e a relação entre Moisés e al-Khidr, além de aspectos do desejo divino de criar o Cosmos em um movimento de amor. * No Alcorão, Faraó é o arquétipo do homem incrédulo, arrogante, injusto e autodeificador, que conhece a verdade da Unidade divina em seu coração, mas deliberadamente suprime essa verdade para arrogar a si os direitos e poderes que são propriamente de Deus. * Faraó representa o abuso último da função viceral do homem ao buscar governar em seu próprio nome e ignorar a Lei do Céu, sendo sua arrogância resumida em duas palavras: kufr (ignorar ou ocultar deliberadamente a verdade para seus próprios fins) e zulm (opressão arbitrária e injustiça, marca de todo tirano). * Moisés, na situação descrita no Alcorão, representa o compromisso humano e a conformidade com a Lei divina, mas sem o poder pessoal para aplicá-la; enquanto Moisés tem rango e autoridade espirituais, Faraó tem rango e autoridade reais neste mundo. * Apesar da aparente impiedade de Faraó, a realidade de seu poder não pode ser outra senão uma realização particular, no contexto humano, do poder como uma função da Vontade divina de criar, implicando que, interiormente, Faraó conhece a verdade divina, mas cumpre à força sua função cósmica de acordo com sua própria predisposição in divinis, mesmo que essa função pareça inteiramente repreensível do ponto de vista do Desejo divino exposto por Moisés. * A realidade interior da fé de Faraó é reafirmada no momento de sua morte. * Na relação entre Moisés e al-Khidr (o nome tradicionalmente atribuído à pessoa sem nome que Moisés encontra no Alcorão), tem-se uma ilustração da tensão perene entre a Lei Sagrada, representada por Moisés e expressando o Desejo divino, e o conhecimento místico ou esotérico da gnose que percebe não apenas a necessidade e validade dessa Lei, mas também a validade e necessidade inescapáveis daqueles aspectos do devir cósmico que escapam à Lei, assim como a síntese de ambos na Unidade do Ser. * Moisés, como expositor da Palavra revelada como Lei, falha em compreender, ou parece falhar, tanto o escopo e a relevância da Vontade divina quanto a Unidade fundamental na qual o conflito Espírito-mundo é resolvido. * Al-Khidr, por outro lado, embora perceba essa falha de Moisés, respeita seu rango espiritual como profeta, reconhecendo também a inevitabilidade de sua aparente parcialidade como sendo necessária para a tensão entre os polos da Realidade divina. * Há certas coisas reveladas interiormente pela gnose que o profeta e apóstolo, como no caso de Noé (Capítulo 3), não pode levar em conta exteriormente como representante do polo espiritual, estando comprometido por sua função com a rejeição de tudo, embora atualizado pela Vontade divina, que não esteja em conformidade com o Desejo divino. **O Amor, a Efemeridade Cósmica e a Perplexidade Espiritual** O movimento de saída da criação é impulsionado pelo Amor (mahabbah), isto é, o Amor, anseio ou desejo divino de conhecer a Si mesmo, de amar a Si mesmo e, em última análise, de unir-Se a Si mesmo na consumação da Realidade. * Esse movimento amoroso em direção ao Autoconhecimento através da criação de Seu reflexo cósmico implica a necessidade inescapável do que é chamado de “efêmero” como um elemento essencial para a obtenção desse Autoreconhecimento, sendo aquela formulação cósmica necessária, como objeto, daquilo que Ele é em Si mesmo, latente e essencialmente. * Essa polaridade do Cosmo essencialmente implícito na Divindade e, por outro lado, de Deus espiritualmente implícito nas formas cósmicas, com todas as tensões e conflitos aparentemente irreconciliáveis inerentes a tal polaridade, apresenta ao intelecto humano um dilema terrível que só pode ser resolvido pela maior de todas as realizações, que é adquirir percepção e experiência da Unidade do Ser. * A consciência dessa mutualidade polar de Deus-Cosmo, Desejo-Vontade, Espírito-Natureza lança o aspirante em um estado de perplexidade avassaladora (hairah) no qual ele só pode afogar-se em si mesmo, abandonando todas as certezas parciais e afundando no oceano das realidades divinas, assim aniquilando-se a si mesmo, apenas para subsistir nEle. * Para tal pessoa, não há “nós” e “Ele”, nenhuma dualidade ou tensão, mas apenas nós nEle em nós nisso em uma experiência inefável da Unidade.