====== CONHECIMENTO ====== //[[.:start|Ibn Arabi]], William Chittick// **O objetivo básico nos escritos de Ibn ‘Arabi** O objetivo fundamental de Ibn ‘Arabi em seus escritos é mostrar o caminho para a vida do coração, despertando a intuição do tawhid que está na raiz do ser. * O propósito não é fornecer uma teoria exaustiva, mas sim instigar os leitores a irem além da aprendizagem mecânica e alcançarem a compreensão por si mesmos. * O comando divino “Dize: ‘Meu Senhor, aumenta-me em conhecimento’” (Q. 20:114) é dirigido a cada alma humana. * As opiniões de especialistas, estudiosos e cientistas não têm relevância para a verdadeira consciência. * A vida do coração pertence apenas à autoconsciência, e o local da autoconsciência só pode ser o próprio si mesmo. **Conhecimento** O conhecimento (‘ilm) não pode ser definido, pois é pressuposto por toda definição, e o conhecimento verdadeiro se apega à “essência” (dhat) da coisa, que é sua entidade fixa. * O Wujud Real tem consciência permanente de sua própria realidade; Ele conhece Sua Essência, Seus atributos e Seus atos. * Ibn ‘Arabi fala dos “quatro pilares” da Divindade: Vivo, Conhecedor, Desejante e Poderoso. * Deus é “o Uno/Múltiplo” (al-wahid al-kathir): uma única realidade nomeada por muitos nomes. * Sa‘id ad-Din Farghani usou a expressão wahdat al-wujud (“a Unidade do Ser”) para discutir dois princípios em Deus: a unidade do wujud de Deus e a multiplicidade dos objetos de Seu conhecimento. * Como atributo humano, o conhecimento designa os seres humanos na medida em que estão conscientes de si mesmos e dos outros. * “Não há nível mais eminente do que o nível do conhecimento” (F. III 448.7). * O dito do Profeta é invocado: “Busco refúgio em Deus de um conhecimento que não tem benefício.” **Benefício** O conhecimento benéfico é aquele que está de acordo com o Real e beneficia o homem no retorno a Deus, à luz dos três princípios da fé: tawhid, profecia e o retorno. * “O homem de pensamento correto não tem aspiração exceto para o conhecimento d’Ele” (F. IV 129.6). * Em uma carta a Fakhr ad-Din Razi, Ibn ‘Arabi afirma que o conhecimento genuinamente valioso é apenas o conhecimento de Deus que vem por meio de “concessão” (wahb) e “testemunho” (mushahada). * A pessoa inteligente deve buscar apenas dois conhecimentos especificamente: conhecimento de Deus e conhecimento das moradas do além-mundo (R. 6-7). * O conhecimento da Shariah é necessário apenas na medida em que é útil para guiar o indivíduo na adoração, mas não tem uso no próximo mundo. * O conhecimento de Deus e das moradas do além-mundo “conduzirá seu conhecedor a uma preparação para o que é próprio de cada morada” (F. I 581.29). **A forma de Deus** O argumento mais básico de Ibn ‘Arabi sobre o conhecimento benéfico é “antropológico”, fundamentado em “Deus criou Adão em Sua forma” e “Ele lhe ensinou os nomes, todos eles” (Q. 2:31). * A “forma” (sura) é a aparência externa de uma coisa, e o “significado” (ma‘na) é sua realidade invisível. * “Não há nada no wujud exceto a Presença Divina, que é Sua Essência, Seus atributos e Seus atos” (F. II 114.14). * O conhecimento que Adão recebeu é a própria “forma” do significado (Deus), e esse conhecimento é o próprio ser que o sustenta. * A alma humana tem um começo, mas não tem fim, pois não pode haver fim para o conhecimento que se desdobra de sua entidade fixa. * As palavras “cosmos” (‘alam), “conhecimento” (‘ilm) e “marca” (‘alama) derivam da mesma raiz: “Mencionamos o ‘cosmos’ com esta palavra para dar ‘conhecimento’ de que com ela queremos dizer que Ele o fez uma ‘marca’” (F. II 473.33). **Conhecimento confiável** O universo é o reino da possibilidade, em contraste com o Wujud Necessário de Deus e a impossibilidade da pura inexistência. * “O conhecimento do reino possível é um oceano abrangente de conhecimento que tem ondas magníficas dentro das quais os navios naufragam. É um oceano que não tem costa exceto seus dois lados” (F. III 275.15): Necessidade e impossibilidade. * “É impossível para qualquer coisa que não seja Deus obter conhecimento do cosmos, do próprio ser humano ou do si mesmo de qualquer coisa por si mesma” (F. III 557.4). * “Eles não abrangem nada de Seu conhecimento, exceto o que Ele quer” (Q. 2:254). * A razão é inadequada para alcançar o verdadeiro entendimento, pois todo conhecimento obtido pelo pensamento racional é obscurecido por limitações criadas. * “A coisa não conhece nada além de si mesma, e nada conhece nada exceto a partir de si mesma” (F. III 282.34). **Seguindo autoridade** Todo conhecimento vem de fora do si mesmo cognoscente, forçando a dependência e a confiança nos outros, o que é “seguir autoridade” (taqlid). * Nas ciências intelectuais, seguir autoridade é contrastado com tahqiq ou “realização”, que é conhecer as realidades por si mesmo na realidade transcendente do Intelecto Universal. * “Uma vez que foi afirmado que outro que não Deus não pode ter conhecimento de nada sem seguir autoridade, sigamos a autoridade de Deus, especialmente no conhecimento d’Ele” (F. II 298.3). * “O dia em que Deus reunirá os mensageiros e dirá: ‘Que resposta recebestes?’ Eles dirão: ‘Não temos conhecimento; Tu és o Onisciente das coisas ausentes’” (Q. 5:109). * “Ninguém tem qualquer conhecimento exceto aqueles a quem Deus ensinou. Além deste caminho divino no ensino, não há nada além da predominância da conjectura, saber por acaso ou ser convencido pela fantasia” (F. IV 80.33). **Realização** A realização (tahqiq) é a atualização plena do conhecimento benéfico, que é o conhecimento verdadeiro do Wujud Real, recebido seguindo a autoridade de Deus. * Para alcançar a realização, deve-se transcender as limitações de todos os modos de conhecer, exceto o modo que reconhece a validade relativa de cada modo sem ser vinculado por nenhum – a “estação da não estação” alcançada pelos “muhammedanos”. * A palavra haqq significa real, verdadeiro, próprio, apropriado, justo; é um nome divino alcorânico (o Real, a Verdade, o Direito). * O haqq é tipicamente justaposto com khalq (“criação”) e com batil (“irreal, falso, nulo, absurdo”). * “O haqq chegou e o batil desapareceu” (Q. 17:41). **A ambiguidade da criação** A criação tem um status ambíguo, pendurada entre Real e irreal, Deus e nada, certo e errado. * Duas questões fundamentais surgem da situação humana: “O quê [ma]?” e “Para quê [lima]?”. * O versículo “Nosso Senhor é Aquele que deu a cada coisa sua criação, então guiou” (Q. 20:50) fornece respostas. * Quando se considera o comando gerador de Deus (o “Sê!”), deve-se concluir que as criaturas são haqq (reais, verdadeiras, apropriadas). * O propósito na criação é seguir a orientação de Deus: “Eu criei os gênios e a humanidade apenas para que Me adorassem/servissem” (Q. 51:56). * O propósito humano só pode ser alcançado respondendo positivamente ao “comando prescritivo” (al-amr at-taklifi) transmitido pelos profetas. **Dando às coisas o seu haqq** O hadith “Sua alma tem um haqq contra você, seu Senhor tem um haqq contra você, seu convidado tem um haqq contra você, e seu cônjuge tem um haqq contra você. Então, dê a cada um que tem um haqq o seu haqq” define tahqiq. * “Dê a cada um que tem um haqq o seu haqq” é a realização: reconhecer a realidade, verdade, justeza e propriedade das coisas e, com base nesse reconhecimento, dar-lhes o que é apropriado e devido. * “Criamos os céus e a terra e o que está entre eles apenas através do haqq” (Q. 15:85). * Cada haqq “contra nós” representa nossa responsabilidade para com Deus, a pessoa ou a coisa. * “Com o haqq Nós o enviamos, e com o haqq ele desceu” (Q. 17:105). **Os direitos de Deus e do homem** O primeiro haqq que as pessoas devem reconhecer é o do próprio Deus, o Haqq Absoluto, a base para todos os huquq (direitos). * O Alcorão critica aqueles que negligenciam o haqq de Deus e chama essa atitude de kufr (incredulidade, ingratidão), zulm (erro) e fisq (improbidade). * “Dizei: ‘Se vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, vossas esposas, vossa parentela, vossas posses que ganhastes, o comércio que temeis que decline, e as moradas que amais – se estes são mais amados para vós do que Deus e Seu Mensageiro e a luta em Seu caminho, então aguardai até que Deus traga Sua ordem. Deus não guia o povo ímpio’” (Q. 9:24). * Em um hadith bem conhecido: “O haqq de Deus contra os servos... é que eles devem adorá-Lo e não associar nada a Ele... e o haqq dos servos contra Deus” é que “se eles fizerem isso, Ele os levará ao paraíso”. **O haqq da alma** O hadith dos haqqs começa com “Sua alma tem um haqq contra você, seu Senhor tem um haqq contra você”, indicando que, após o tawhid, o primeiro objeto cujo haqq é esclarecido é o si mesmo humano. * “Aquele que reconhece a si mesmo reconhecerá o seu Senhor.” * Ao instruir sobre a súplica, o Profeta disse: “Comece por si mesmo!” * “Deus impõe a uma alma apenas o que está ao seu alcance” (Q. 2:286). * A realização é “o conhecimento verdadeiro do haqq que é exigido pela essência de cada coisa” (F. II 267.17). * “Uma condição para o possuidor desta estação é que o Real seja sua audição, sua visão, sua mão, sua perna e todas as faculdades que ele usa. Ele age nas coisas apenas através de um haqq, em um haqq e para um haqq. Esta descrição pertence apenas a um amado...” * “Deus mostra ao realizador todos os assuntos como estabelecidos pela sabedoria divina. Aquele a quem foi dado este conhecimento recebeu o que é necessário para cada uma das criaturas de Deus...” * “O que é desejado da realização é o conhecimento do que é justamente exigido por cada assunto, seja ele inexistente ou existente. O realizador até dá ao irreal [batil] o seu haqq e não o tira de seu lugar apropriado” (F. II 267.17).