====== NOMES DE DEUS ====== //SPK// ** Os Nomes de Deus ** O fio condutor do Corão não são as narrativas proféticas nem as injunções legais, mas os Belíssimos Nomes divinos, que constituem o centro do pensamento teológico islâmico e o fundamento da dialética de Ibn al-Arabi. * A maior parte do pensamento teológico islâmico gira em torno dos nomes revelados no Corão * Os proponentes do Kalam — os Mutazilitas e os Asharitas — preferiam o termo "atributo" no lugar de "nome", mas o resultado era o mesmo * Os filósofos peripatéticos, mesmo evitando referências corânicas em obras estritamente filosóficas, falavam de Deus em termos corânicos * Ibn al-Arabi, ao colocar os nomes divinos no centro da cena, apenas torna explícito o que já estava implícito no pensamento islâmico ** Nomes, Atributos e Relações ** A Presença Divina abrange a Essência, os Atributos e os Atos divinos, sendo os nomes o istmo entre a Essência e o cosmos, e os únicos meios de se obter conhecimento de Deus. * A Essência é Deus em Si mesmo, sem referência a relações com as coisas existentes ou inexistentes * Os Atos são as coisas criadas * Os atributos ou nomes são o barzakh — o istmo — entre a Essência e o cosmos * Os nomes são chamados de "nomes" pela Lei, de "relações" pelas faculdades racionais sãs, e de "atributos" pelas faculdades racionais imperfeitas — isto é, pelos proponentes do Kalam ** (1) Os Nomes dos Nomes ** As palavras humanas que designam os nomes divinos não são os próprios nomes, mas os "nomes dos nomes", revelados por Deus através das escrituras, e possuem uma dupla realidade ontológica. * Ibn al-Arabi afirma: "Os nomes divinos que possuímos são os nomes dos nomes divinos. Deus nomeou a Si mesmo por meio deles na condição de Falante" * A Revelação, por meio da qual se aprendem os nomes dos nomes, torna conhecida a natureza das coisas; sem ela, o verdadeiro conhecimento da existência é impossível * A Revelação é uma forma exterior, enquanto o conhecimento que Deus tem de Si mesmo e do cosmos é o sentido interior — o espírito e a vida por trás da forma * As formas externas do cosmos refletem o nome "Misericordioso" — al-rahman —, cujo Sopro é o substrato do universo * Os nomes dos nomes possuem dupla realidade ontológica: são criaturas e, ao mesmo tempo, palavras que nomeiam Deus e foram reveladas nas escrituras * Deus diz no Corão 17:110: "Invocai Allah ou invocai o Misericordioso; qualquer que seja o nome pelo qual O invocardes, a Ele pertencem os Belíssimos Nomes" * Todo nome tem dois aspectos: na língua árabe, "Allah" é invocado pelo sentido do nome, enquanto "o Misericordioso" é invocado pela forma do nome * Na língua árabe o nome pelo qual Deus se nomeia na condição de Falante é "Allah", em persa "Khuday", em etíope "Waq", na língua dos francos "Criador" — e assim em toda língua * O Corão não seria venerado nem desprezado se não fosse pela denotação; portanto, o que se tem nas mãos são apenas os nomes dos nomes ** (2) Relações ** Os nomes divinos são relações, não entidades existentes, e a pluralidade dos nomes não implica pluralidade na Divindade, pois os efeitos são múltiplos nas criaturas, mas Deus não se torna múltiplo por meio deles. * Ao se justapor Deus e o cosmos, percebe-se uma relação entre os dois: Deus criou o cosmos, portanto é seu Criador e Autor; guiou alguns pelo caminho reto, portanto é o Guia e o Benfeitor * Em todo nome de Deus mencionado no Corão, uma relação com as criaturas pode ser vislumbrada * Os nomes não são entidades existentes que possam ser colocadas ao lado de Deus como coisas separadas; são relações, atribuições, correlações * As relações não são entidades nem coisas; em respeito às realidades das relações, são qualidades inexistentes * As relações são não-entidades dentro de entidades, pois não têm entidades próprias, mas suas propriedades governam a existência * Deus conhece os nomes por conhecer todo objeto de conhecimento; nós os conhecemos pela diversidade de seus efeitos em nós ** (3) As Duas Denotações dos Nomes ** Todo nome divino significa duas realidades — a Essência Divina e uma qualidade específica que o distingue dos demais nomes —, e em última análise cada nome denota todos os nomes, por ser idêntico à Essência. * Perguntar quem é o Misericordioso, o Criador, o Sabedor — a resposta é sempre o próprio Deus, a Essência * Dizer que Deus é Vivo não é o mesmo que dizer que é Poderoso, pois os dois nomes denotam qualidades específicas que diferem em aspectos importantes * Isso fica especialmente claro ao contrastar nomes divinos opostos: Deus é ao mesmo tempo Perdoador e Vingador, Dador de Vida e Destruidor, Exaltador e Humilhador * Abu'l-Qasim ibn Qasi afirmou no Khal al-na'layn: "Cada nome divino é nomeado e descrito por todos os nomes divinos" — porque cada nome denota tanto a Essência quanto o significado que lhe é próprio * O nome é o Nomeado em relação à Essência, mas difere do Nomeado em relação ao significado específico que transmite * Abu Yazid Bastami chorou ao ouvir a recitação do verso corânico 19:85 — "No dia em que reuniremos os tementes a Deus para o Misericordioso em bandos" — e exclamou: "Que estranho! Onde será reunido aquele que já está sentado com Ele?" * Ibn al-Arabi respondeu a Abu Yazid: o "servo temeroso" está sentado com o nome Opressor — al-jabbar —, que concede castigo; mas o nome Misericordioso não possui castigo em seu aspecto próprio, pois o Misericordioso concede brandura, gentileza, perdão e indulgência * Cada nome tem duas denotações: uma denotação do Nomeado e uma denotação de sua própria realidade, pela qual se distingue de todos os demais nomes ** (4) Realidades, Raízes e Suportes ** A "realidade" — haqiqa — de um nome é a Essência Divina considerada em relação a uma relação particular que assume com as criaturas, e tudo no cosmos pode ser rastreado até essas realidades divinas, que são imutáveis. * Ibn al-Arabi emprega o termo "realidade" de modo mais ou menos sinônimo de nome, mas com sentido mais amplo — podendo se referir a versículos corânicos ou hadiths que descrevem Deus sem mencionar um nome específico * Não há coisa possível existente fora de Deus que não esteja conectada às relações divinas e às realidades senhoriais conhecidas como os Belíssimos Nomes * Toda realidade divina possui uma propriedade no cosmos que não pertence a nenhuma outra; o Sabedor tem uma relação com a realidade do conhecimento diferente de sua relação com a realidade do poder * Ibn al-Arabi refere-se frequentemente a uma realidade como "raiz" ou "suporte", falando dos fenômenos deste mundo como "sustentados" pelos nomes * A "raiz" do poder de transmutação de certos amigos de Deus é o poder de "transmutação" — tahawwul —, atribuído a Deus em um hadith do Sahih Muslim sobre o Dia da Ressurreição * Ibn al-Arabi afirma: "Em Seu conhecimento somos como formas em uma nuvem de poeira" * Como o conhecimento de Deus é idêntico à Sua Essência e Sua Essência não muda, as realidades e raízes também não mudam * "Como pode um ser humano deixar de ser humano ou um anjo deixar de ser anjo? Se isso pudesse acontecer, as realidades seriam subvertidas, Deus deixaria de ser deus, o Real se tornaria as criaturas e as criaturas o Real" * "É impossível que as realidades mudem; portanto, o servo é servo e o Senhor é Senhor; o Real é o Real e a criatura é criatura" ** (5) Propriedades e Efeitos ** Os nomes divinos são o istmo entre Deus e o universo, e os "efeitos" ou "propriedades" dos nomes são os próprios fenômenos do cosmos — as criaturas enquanto tornam os nomes divinos manifestos. * "Os nomes divinos são o barzakh entre nós e o Nomeado. Olham para Ele porque O nomeiam, e olham para nós porque nos conferem efeitos atribuídos ao Nomeado" * Ibn al-Arabi emprega dois termos quase sinonimamente: "efeito" — athar — e "propriedade" — hukm * O sentido literal de athar é resto, traço, marca, sinal, vestígio — empregado em versículos corânicos como "Eis os efeitos da misericórdia de Deus: como Ele faz a terra reviver após sua morte" (30:50) * O termo hukm é frequentemente empregado no Corão no sentido de julgamento ou decisão, e Ibn al-Arabi o usa para se referir ao poder governante dos nomes divinos no cosmos * "Não há propriedade que se manifeste na existência sem uma raiz no Lado Divino pela qual seja sustentada" * "Se não fossem as coisas possíveis, nenhum efeito dos nomes divinos se manifestaria. E o nome é idêntico ao Nomeado, especialmente quando se trata dos nomes divinos" * O nome divino é o espírito de seu efeito, enquanto o efeito é sua forma; a visão não pode ver o nome, apenas seu efeito, que é sua forma * Alguém pode objetar que entre as relações está a pobreza — iftiqar —, e Abu Yazid, segundo a narrativa, disse que Deus lhe revelou em uma visão: "Aproxima-te de Mim por meio do que Eu não possuo — humildade e pobreza" * Ibn al-Arabi responde: Deus possui misericórdia, perdão, generosidade, indulgência e vingança; é impossível que os efeitos desses nomes existam dentro Dele; portanto, o Criador Deus exige coisas criadas, e as coisas criadas exigem o Criador ** Os Nomes da Existência Engendrada ** As coisas engendradas recebem inúmeros nomes, e a questão de quantos deles podem ser atribuídos a Deus é regulada pelo princípio teológico da "condicionalidade" — tawqif —, que exige que apenas os nomes revelados pelo próprio Deus sejam usados. * Os nomes só são atribuídos a Deus na condição de terem vindo d'Ele; portanto, Ele não é nomeado exceto como nomeou a Si mesmo * Deus decretou tudo isso para que as criaturas aprendessem cortesia — adab — para com Ele * Ibn al-Arabi afirma também que, em última análise, todos os nomes devem ser atribuídos a Deus, pois os atos de Deus O denotam enquanto propriedades e efeitos de Seus nomes * "Os nomes se tornam inteligíveis por meio do que é exigido pela existência engendrada. Mas a existência engendrada nunca cessa de vir a ser, portanto não há fim para os nomes" * "Deus tem noventa e nove nomes... Estes são as 'mães', como os 360 graus da esfera celeste. Então toda entidade possível tem um nome divino específico que a contempla" * "Os nomes de Deus são infinitos, pois se tornam conhecidos por meio do que deles é engendrado, e isso é infinito" * Entre os nomes estão os que podem ser apropriadamente designados e os que não podem; por exemplo, "o Zombador" e "o Escarnecedor" não foram revelados, embora Deus zombe e escarneça de quem quiser entre Seus servos * Nomes como "mentiroso" — al-kadhib — pertencem especificamente ao servo e não podem ser atribuídos ao Real, pois Ele diz a verdade em todo aspecto * Da mesma forma, o nome "ignorante" — al-jahil — é um nome da existência engendrada e não é apropriado para o Lado Divino * Deus se auto-revela — tajalli — ao amante tanto nos nomes da existência engendrada quanto em Seus Belíssimos Nomes * Quando o amante entra em Deus pelo que supõe serem seus próprios nomes, vê os sinais que os profetas viram em suas jornadas espirituais — isra — e ascensões — miraj — "nos horizontes e em si mesmos" (Corão 41:53), e compreende que todos são Seus nomes ** Causas Secundárias ** As causas secundárias — asbab — preenchem o cosmos como formas e véus, ou seja, efeitos e propriedades dos nomes divinos, sendo que a pobreza em relação a elas é, em verdade, pobreza em relação à Causa Primeira. * O termo sabab — singular de asbab — significa literalmente "corda" ou "cordão", por extensão aplicado a fatores de conexão, meios de acesso ou causa incompleta ou incidental * Muitos sufis consideravam censurável levar as causas secundárias a sério, pois isso significaria desviar o olhar do Causador das Causas Secundárias — musabbib al-asbab —; Ibn al-Arabi, porém, reinstala as causas secundárias como elementos fundamentais do cosmos * "Deus não estabeleceu as causas secundárias sem propósito" * As causas secundárias são importantes porque são nomes de Deus pelos quais O conhecemos; sem elas, não teríamos acesso a Ele * "Deus estabeleceu as causas secundárias e as tornou como véus. Portanto, as causas secundárias conduzem de volta a Ele todo aquele que sabe que são véus. Mas bloqueiam todo aquele que as toma como senhores — arbab" * Deus enviou a chuva, as pessoas lavraram a terra e semearam o grão, o sol espalhou seus raios, o grão brotou e foi colhido — todos esses são véus estabelecidos, as mães das causas secundárias menores abaixo delas; os ouvidos de uma pessoa devem rasgar todos esses véus para ouvir a palavra "Seja!" — kun * As coisas possíveis são pobres em suas próprias essências; portanto, Deus estabeleceu as causas secundárias por meio das quais as coisas possíveis podem adquirir aquilo de que são pobres * Deus diz no Corão 35:15: "Ó povo, vós sois os pobres para com Deus" — e ao se dirigir às pessoas dessa forma, Deus Se nomeia por todo nome possuído por algo em relação ao qual há pobreza * A pobreza em relação a todas as coisas é o que Ibn al-Arabi chama de estação do homem perfeito — al-insan al-kamil * "O nível cósmico mais elevado é a independência por meio de todas as coisas; ou, se preferirem, chamem-na de 'pobreza em relação a todas as coisas'. Este é o nível do homem perfeito, pois tudo foi criado para ele e por sua causa" ** Hierarquia nos Nomes ** Os níveis divinos remontam ao fato de que os nomes divinos denotam a Essência e uma realidade específica, e o nível mais elevado pertence ao nome que designa a mais ampla dessas realidades — o nome Allah, que denota a Divindade. * A palavra martaba ou "nível" deriva da raiz r.t.b., cujo significado básico é ser constante, firme e imóvel; uma martaba é um locus no qual algo está fixado — grau, nível, hierarquia * Um nível se estabelece em relação a outras coisas ou outros níveis, sendo portanto uma relação; as relações pertencem à inexistência — umur adamiyya —, pois não são entidades * Há uma relação entre um pai e seu filho baseada no fato de que o filho veio a existir por meio do pai; "paternidade" e "filiação" são relações, não entidades existentes * Ibn al-Arabi encontra referência clara à raiz divina dos níveis cósmicos no nome "Exaltador de Graus" — rafi al-darajat, Corão 40:15 * "Todo nome divino possui um nível não possuído por nenhum outro. E toda forma no cosmos possui um nível não possuído por nenhum outro. Portanto, os níveis são infinitos, e são os 'graus'" * "Ai'sha — esposa do Profeta — aludiu àquela estação com suas palavras: 'Deus colocou as pessoas em suas estações'" * Os níveis mais elevados pertencem ao nome que designa a realidade mais abrangente; o nome Alive — al-hayy — possui o grau mais tremendo entre os nomes, pois é a pré-condição para a existência dos nomes * O conhecimento do Sabedor — al-alim — é mais abrangente em conexão e mais tremendo em alcance do que o Poderoso — al-qadir — e o Desejante — al-murid * Há dois níveis fundamentais: Deus e o cosmos, independência e pobreza, ou Senhorio — rububiyya — e servidão — al-ubudiyya * "O mais tremendo dos níveis é a Divindade, enquanto o mais baixo dos níveis é a servidão. Portanto, existem apenas dois níveis, pois há apenas um Senhor e um servo" ** A Classificação dos Nomes: Nomes de Incomparabilidade e Nomes dos Atos ** Os nomes divinos dividem-se em duas categorias — os que negam determinadas descrições de Deus e os que afirmam que Ele possui atributos —, correspondendo à incomparabilidade e à similaridade. * Os teólogos muçulmanos frequentemente classificam os nomes divinos em categorias; Ibn al-Arabi não é exceção * A distinção fundamental é entre os nomes que negam — salb — várias descrições de Deus e os nomes que afirmam — ithbat — que Ele possui atributos * A incomparabilidade — tanzih — significa que a Essência não pode ser julgada, medida ou conhecida por nenhuma das criaturas * A similaridade — tashbih — significa que Deus, como possuidor dos nomes, estabelece certas relações com as coisas que podem ser conhecidas até certo grau * Os nomes de incomparabilidade são os que a Essência exige em Si mesma — como Independente — al-ghani — e Uno — al-ahad * Os nomes de similaridade são os que a Essência exige enquanto é um deus — como Compassivo, Perdoador, e tudo aquilo pelo qual o servo pode verdadeiramente ser qualificado * "Os nomes são de dois tipos: um tipo é todo luzes — anwar —, que são os nomes que denotam qualidades ontológicas. Outro tipo é todo trevas — zulam —, que são os nomes que denotam incomparabilidade" * "Não temos conhecimento de Deus exceto por meio de atributos de incomparabilidade ou atributos dos atos" ** A Essência e a Divindade ** A Essência Divina é Deus em Si mesmo, sem referência às relações com as criaturas, enquanto a Divindade é a Essência considerada em relação às coisas criadas, e apenas atributos negativos podem ser ascriados à Essência. * Ibn al-Arabi às vezes afirma que nenhum nome pode ser aplicado à Essência, pois Ela é absolutamente incognoscível; mas considerada como Divindade, Deus aceita todos os nomes e atributos * Como nível, a Divindade deve ser considerada em relação a outros níveis — criatura, servo, vassalo e "escravo divino" — ma'luh * O Shaykh frequentemente critica os teólogos por afirmarem possuir conhecimento positivo do próprio Deus, enquanto a "independência" de Deus do mundo exige que Ele esteja além da compreensão racional * "Nenhuma inter-relação — munasaba — entre o Real e a criação é inteligível nem existente. Nada vem d'Ele em relação à Sua Essência. Tudo o que é denotado pela Lei ou tomado pela faculdade racional como denotação está conectado à Divindade, não à Essência" * A Divindade é uma das propriedades que as faculdades racionais são capazes de perceber por si mesmas; a Essência do Real, porém, está fora desse julgamento, pois é testemunhada antes de ser conhecida * Ibn al-Arabi critica os pensadores racionais: "Quantos homens racionais entre os pensadores contemplativos, alegando possuir uma faculdade racional firme, sustentaram ter adquirido conhecimento da Essência em sua consideração reflexiva! Mas estão enganados" * O ma'luh — "escravo divino" — é literalmente aquilo que é "deificado", o objeto em relação ao qual um deus é um deus; é quase sinônimo de marbub — "vassalo" * "A Essência Divina não pode ser compreendida pela faculdade racional, pois não há nada 'outro' — siwa — senão Ela. Mas a Divindade e o Senhorio podem ser compreendidos por essa faculdade, pois os 'outros' em relação a eles são o escravo divino e o vassalo" * "Deus, na condição de Amante — al-muhibb —, não tem nome que possa denotar Sua Essência. O escravo divino contempla Seus efeitos em si mesmo e O nomeia por esses efeitos. O Real, por sua vez, aceita a forma pela qual o escravo O nomeia" * "Como o cosmos não tem subsistência exceto por meio de Deus, e como o atributo da Divindade não tem subsistência exceto por meio do cosmos, cada um dos dois é a provisão — rizq — do outro" ** A Incognoscibilidade da Essência ** Deus é conhecido por meio das relações e correlações que se estabelecem entre Ele e o cosmos, mas a Essência é desconhecida, pois nada se relaciona a Ela — e a Shari'a proibiu a reflexão sobre a Essência de Deus. * Ibn al-Arabi frequentemente cita o versículo corânico 3:28,30 — "Deus vos adverte sobre Seu Ser Próprio" — em conexão com o dito profético: "Refleti sobre todas as coisas, mas não reflitais sobre a Essência de Deus" * "Em relação a Si mesma, a Essência não tem nome, pois não é o locus de efeitos, nem é conhecida por ninguém. Não há nome para denotá-la sem relação. [...] Os nomes existem por nós e para nós" * A existência engendrada não tem nenhuma conexão com o conhecimento da Essência; a única coisa conectada a ela é o conhecimento do Nível — isto é, o que é nomeado Allah * Ibn al-Arabi critica explicitamente um grupo de teólogos asharitas — incluindo Abu Abdallah al-Kattani, Abu'l-Abbas al-Ashqar e al-Darir al-Silawi — por imaginar que conheceram o Real por meio de um atributo positivo da Essência * Esses teólogos criticaram inclusive Abu Sa'id al-Kharraz e Abu Hamid al-Ghazali pela afirmação "Ninguém conhece Deus senão Deus" * Os pensadores racionais acrescentaram desobediência à Lei ao se lançarem no que lhes era proibido — um disse que Ele é um corpo, outro que não é; um disse que está em uma direção, outro que não está * "Se este conhecimento concedido pela reflexão sobre Deus fosse uma luz, como se supõe, a escuridão da ofuscação e do ceticismo — tashkik — nunca entraria no coração; mas ela entra" * O Profeta Muhammad foi visitado por seu Senhor em sonho e perguntado sobre o que o plênio superior disputava; inicialmente não soube responder, e só obteve a revelação após a intervenção divina ** A Independência da Essência ** Deus é "Independente dos mundos" em relação à Essência — o termo ghina significa independência, riqueza e ausência de necessidade —, enquanto a pobreza — faqr — é o atributo essencial e inerente de todas as coisas criadas. * Tudo diferente de Deus está constantemente necessitado d'Ele, não apenas em sua existência, mas também em todo atributo positivo que manifesta, pois esses atributos são propriedades e efeitos dos nomes divinos * "Deus relatou sobre Si mesmo que possui duas relações: uma relação com o cosmos pelos nomes divinos que afirmam as entidades do cosmos, e a relação de Sua independência do cosmos" * "A Perfeição Essencial possuída pela Essência é a independência absoluta de tudo isso" * A liberdade — hurriyya — é uma estação da Essência, não da Divindade; nunca pode ser plenamente entregue ao servo, pois ele é servo de Deus por uma servidão que não aceita emancipação * Abu Yazid costumava dizer: "Não tenho atributos" — portanto, é muito mais apropriado negar qualquer delimitação por atributos do Real, pois Ele é Independente do cosmos * Segundo o Shaykh, Deus na condição de Divindade deve criar o cosmos, embora na condição de Essência seja Independente do cosmos * "Assim que dizemos 'Divindade', dissemos também 'cosmos'" * Há três relatos da cavalaria divina — futuwwa: um corânico ("Criei os jinn e os homens apenas para Me adorar", 51:56), e dois proféticos — incluindo o famoso hadith qudsi: "Eu era um Tesouro, mas não era conhecido. Então amei ser conhecido, e criei as criaturas e Me dei a conhecer a elas. Então elas Me conheceram" ** O Nome "Allah" ** O nome "Allah" é o nome "abrangente", que designa todos os nomes e atributos de Deus, reunindo tanto a Essência quanto a Divindade e sendo a "coincidência dos opostos" — jam al-addad. * Ibn al-Arabi considera normalmente "Allah" um nome próprio — ism alam —, recusando-se a derivá-lo da raiz '.l.h., por cortesia para com Deus em relação ao Seu mais importante nome revelado * A Presença Divina correspondente ao nome Allah inclui a Essência, os atributos e os atos — abrangendo o Ser, a existência e a inexistência * Na prática, ninguém pode invocar Allah em relação à abrangência total do nome; todo aquele que O invoca tem de fato um nome ou outro em vista * "Quando se diz 'Allah', esse nome reúne as realidades de todos os nomes divinos, portanto é impossível que seja pronunciado em um sentido não delimitado. Portanto, os estados — al-ahwal — devem delimitá-lo" * "Em relação ao que o nome Allah denota, não pode ser descrito, pois reúne coisas contraditórias — al-naqiqayn" * Quando alguém necessitado de provisão diz "Ó Allah, provê-me!" — enquanto Allah é também Retentor — al-mani' —, através de seu estado essa pessoa busca apenas o nome Todo-Provedor; o significado do que disse é simplesmente "Ó Todo-Provedor, provê-me!" * Segundo os Verificadores — al-muhaqqiqun —, é impossível ter o estado de intimidade — uns — com Allah; só se pode ter intimidade com um nome divino específico e designado * Uma das propriedades do nome Allah é a independência dos mundos, assim como uma de suas propriedades é a manifestação do cosmos e o amor de Deus por essa manifestação ** A Conferência dos Nomes ** Em várias passagens, Ibn al-Arabi descreve como os nomes divinos se reuniram e discutiram sua situação "antes" que suas propriedades e efeitos se manifestassem — uma cena que o próprio Shaykh chama de "A Conferência, Discussão e Concordância dos Nomes Divinos na Arena do Debate". * Ibn al-Arabi adverte: "Saibais que 'nomes divinos' é uma expressão para um estado concedido pelas realidades. [...] O que queremos explicar nesta seção é apenas a hierarquia das realidades inteligíveis, que são muitas em relação às relações, mas não em relação à existência real" * Os nomes se reuniram na presença do Nomeado, contemplaram suas próprias realidades e buscaram a manifestação de suas propriedades para que suas entidades se tornassem distintas por seus efeitos * Criador, Sabedor, Governador, Autor, Dador de Forma, Provedor, Dador de Vida, Destruidor e todos os demais nomes divinos não encontraram nada criado, governado ou nutrido — e disseram: "O que pode ser feito para que essas entidades se manifestem?" * Os nomes recorreram ao nome Autor, que disse: "Isso cabe ao nome Poderoso, pois estou sob seu escopo" * O nome Poderoso disse: "Estou sob o escopo do nome Desejante; não posso trazer nenhum de vós à existência sem sua especificação" * O Desejante disse: "Não tenho notícias sobre a propriedade do nome Sabedor em relação a vós — ele tem conhecimento prévio de que recebereis existência? Estou sob o escopo do Sabedor" * O Sabedor disse: "O Desejante falou a verdade. E tenho conhecimento prévio de que recebereis existência. Mas a cortesia deve ser observada. Temos uma presença que nos vigia, e esse é o nome Allah" * Todos os nomes se reuniram na Presença de Allah; o nome Allah consultou o Objeto de sua denotação — a Essência —, que disse: "Saí, e dizei a cada um dos nomes que se conecte ao que sua realidade exige entre as coisas possíveis. Pois Eu sou Uno em Mim mesmo. [...] Todos os nomes divinos pertencem ao Nível, não a Mim, exceto apenas o nome Uno — al-wahid. É um nome que pertence exclusivamente a Mim" * O Sabedor, o Desejante, o Falante e o Poderoso estabeleceram suas conexões, e a primeira coisa possível se tornou manifestamente existente por meio da especificação do Desejante e da propriedade do Sabedor ** O Conflito Divino ** A multiplicidade de relações discerníveis em Deus resulta em uma multiplicidade de relações no cosmos, e mesmo o conflito, a discórdia e a guerra encontrados nas coisas criadas têm suas raízes em Deus. * "As propriedades dos nomes divinos, enquanto nomes, são diversas. O que Vingador, Terrível no Castigo e Opressor têm em comum com Compassivo, Perdoador e Gentil? Pois o Vingador exige a ocorrência de vingança em seu objeto, enquanto o Compassivo exige a remoção da vingança do mesmo objeto" * Deus disse ao Profeta no Corão 16:125: "Disputa — jidal — com eles da maneira mais bela — ahsan"; Deus o comandou a disputar à maneira exigida pelos nomes divinos, isto é, da maneira "mais bela" * Um nome divino chama alguém governado pela propriedade de um segundo nome divino quando sabe que o prazo da propriedade do segundo nome na pessoa chegou ao fim; então esse nome que chama assume o controle * "Tudo diferente de Deus é chamado por um nome divino a vir a um estado engendrado — hal kawni — ao qual esse nome busca prendê-lo. Se o objeto da chamada responde, é nomeado 'obediente' e se torna 'feliz' — said. Se não responde, é nomeado 'desobediente' e se torna 'mísero' — shaqi" * A ignorância — jahl — pertence ao próprio ser de quem é chamado, pois os nomes divinos conferem apenas existência, não inexistência; e a ignorância é uma qualidade pertencente à inexistência — amr adami ** A Unidade da Essência ** Os nomes são múltiplos apenas em propriedades, não em existência, pois cada um é idêntico em existência à Essência, e a multiplicidade não é um atributo intrínseco dos nomes, apenas do que manifesta suas propriedades. * Em relação ao Ser Divino, à Entidade Una, não pode haver multiplicidade; mas em relação às relações estabelecidas com a criação, numerosos nomes e atributos podem ser vislumbrados * "Os nomes do Real não se tornam plurais e múltiplos exceto dentro dos loci de sua manifestação. Mas em relação a Ele, a propriedade do número não governa sobre eles" * Não pode haver hierarquia nas coisas divinas, pois uma coisa não pode ser considerada superior a si mesma; as realidades e relações divinas não podem ser classificadas umas acima das outras, exceto enquanto são atribuídas a algo no cosmos * "A relação de Allah com todas as criaturas é uma relação dentro da qual não há hierarquia, pois a hierarquia exige multiplicidade" * Ibn al-Arabi dirige todos os seus ensinamentos ao tawhid — a afirmação da Unidade de Deus e da consequente unidade de todas as coisas que existem * "Os que afirmamos são as próprias relações. A Lei se refere a elas como nomes. [...] Os Verificadores as chamam de 'relação' — nisba. [...] É melhor torná-las nomes, sem dúvida, pois a Lei Divina não mencionou atributos ou relações em relação ao Real, apenas nomes. Deus disse: 'A Deus pertencem os Belíssimos Nomes' (Corão 7:180)" ** As Disputas dos Anjos ** O nome Allah é a "totalidade dos nomes contrários" — majmu al-asma al-mutaqabila —, reunindo o Perdoador e o Vingador, o Humilhador e o Exaltador, e essa é a raiz do Conflito Divino e de toda contenda que se manifesta no cosmos. * Abu Sa'id al-Kharraz, ao ser perguntado "Por meio de quê conheces Allah?", respondeu: "Pelo fato de que Ele reúne os opostos — jam'uhu al-qiddayn"; então recitou o versículo corânico 57:3: "Ele é o Primeiro e o Último, o Manifesto e o Não-Manifesto" * O Profeta Muhammad relatou que seu Senhor veio a ele de noite e perguntou sobre o que o plênio superior disputava; Ele disse que disputavam sobre as expiações — kaffaraт —, e explicou que eram: ir a pé às congregações, permanecer na mesquita após as orações e realizar as abluções plenamente em circunstâncias difíceis * "Sabemos que os membros do plênio superior disputam. [...] Os membros do plênio superior se opõem àqueles objetos de misericórdia que são seus oponentes. E é por isso que foram criados — para a oposição — khilaf —, pois os nomes divinos são hierarquizados" * "A raiz do conflito e da aversão mútua são os nomes divinos: Dador de Vida e Destruidor, Exaltador e Humilhador, Prejudicador e Benfeitor" * "Aquilo que é o produto de opostos mutuamente contrários não pode evitar o conflito interno, especialmente o que é produto dos quatro elementos" ** Incomparabilidade e Similaridade ** Ibn al-Arabi alterna constantemente entre dois pontos de vista — a incomparabilidade e a similaridade —, sustentando que o verdadeiro conhecimento de Deus e da criação só pode advir da combinação das duas perspectivas. * Tanzih deriva da raiz n.z.h. — estar longe de, ser intocado por, ser livre de; significa declarar que Deus transcende qualquer atributo possuído por Suas criaturas * Tashbih deriva da raiz sh.b.h. — ser similar ou comparável; significa afirmar que certa similaridade pode ser encontrada entre Deus e a criação * Ibn al-Arabi emprestou os dois termos do Kalam, onde havia longa história de disputas sobre eles; como Wolfson apontou, as duas perspectivas devem ser consideradas um problema anterior ao próprio Kalam * Os teólogos dominantes criticavam a similaridade como posição herética, citando como oponentes vários pensadores obscuros que afirmavam, por exemplo, que Deus tinha um corpo corporificado * Para o Shaykh, a incomparabilidade e a similaridade derivam necessariamente da Essência, por um lado, e do Nível da Divindade, por outro * Os pensadores racionais — especialmente os proponentes do Kalam — Asharitas e Mutazilitas — e os filósofos como Avicena, superenfatizaram a incomparabilidade, ao ignorar a imaginação, que é a única capaz de perceber o verdadeiro significado das representações corânicas de similaridade * "A faculdade racional veio com a metade do conhecimento de Deus — a declaração de incomparabilidade. Mas o Legislador trouxe notícias de Deus afirmando o que as provas da faculdade racional negaram d'Ele" * A declaração de incomparabilidade é diversa de acordo com a diversidade dos mundos; cada conhecedor declara o Real incomparável na medida de seu conhecimento de si mesmo * "O povo comum se situa na estação da declaração de similaridade, o Povo do Desvelamento declara tanto similaridade quanto incomparabilidade, e os pensadores racionais declaram apenas a incomparabilidade. Assim Deus combinou os dois lados em Seus eleitos" * Ibn al-Arabi identifica a declaração de incomparabilidade com o conceito corânico de tasbih — "glorificação" —, citando versículos como "Glória a Deus acima do que descrevem!" (23:91, 37:159) * "É impossível que a Essência do Real se una com a coisa possível em qualquer atributo [...] Portanto, resta apenas um compartilhamento de terminologia — ishtiraq fi'l-lafz" * A combinação das perspectivas de razão e imaginação é tão difícil que só pode ser alcançada por meio da inspiração divina; "Sede tementes a Deus, e Deus vos ensinará" (Corão 2:282)