====== DESVELAMENTO DOS EFEITOS DA VIAGEM ====== //Ibn Arabi, tr. Denis Gril. [[https://www.lyber-eclat.net/lyber/ibnarabi/voyage.html|ONLINE]]// ** § 1 — Invocação e enumeração das viagens divinas e proféticas ** A louvor pertence a Deus, que residia na Nuvem e se estabeleceu sobre o Trono após o acabamento da criação; que fez descer o Corão na Noite do Destino até o céu mais próximo; que fez viajar os planetas nas mansões do misto e da purificação, proclamando assim Seu próprio louvor pelas determinações de Sua onipotência. * Deus fez o Profeta Muhammad viajar de noite desde a Mesquita Sagrada até a Mesquita mais distante, e daí até "a distância de dois arcos ou mais perto", para lhe mostrar alguns de Seus sinais * Deus fez cair Adão até a terra de Sua provação e o fez sair de Seu Paraíso, morada de Suas delícias * Deus elevou Idris (Enoque) desde o mundo das criaturas e o fez "descer" ao Lugar elevado no mais central de Seus graus * Deus transportou o profeta Noé no fragor das ondas sobre o mar de Seu dilúvio, na arca de Sua salvação * Deus fez partir Abraão, Seu amigo íntimo, para lhe dispensar Sua orientação e Seus dons miraculosos * Deus fez sair José para separá-lo de seu pai e depois os fez reunir, para confirmar José na visão da mais feliz de Suas boas-novas * Deus fez viajar de noite Ló e sua família para salvá-lo de Suas vinganças * Deus fez Moisés apressar-se e deixar seu povo quando veio encontrar seu Senhor no tempo por Ele fixado; fez brilhar para ele uma luz em forma de fogo e lhe chamou a partir de suas necessidades, para depois enviá-lo como Profeta * Deus fez descer o Espírito Fiel (Gabriel) sobre os corações daqueles que receberam Suas profecias * A graça e a paz são sobre Muhammad, o melhor dentre os que realizaram a qualidade de Seus Nomes e Seus Atributos ** § 2 — Tipologia das viagens e das rotas ** As viagens reconhecidas por Deus são três em número — e não quatro — : a viagem vinda d'Ele, a viagem em direção a Ele e a viagem em Ele; esta última é a viagem do extravio e da perplexidade, sem fim. * A viagem vinda d'Ele tem por ganho o que se encontrou ser; a viagem em Ele não rende ao viajante senão a si mesmo; as duas primeiras têm um término ao qual se chega e para, ao passo que a terceira, a do extravio, é sem fim * A rota seguida pelos viajantes é de dois tipos: por terra e por mar; o Corão (10:22) menciona a terra antes do mar, e essa ordem foi reafirmada com insistência * Umar ibn al-Khattab dizia: "Não fosse esse versículo — e ele recitava 'É Ele quem vos faz ir por terra e por mar' — eu teria golpeado com esse nervo de boi quem viajasse por mar" * Nenhuma das três viagens se realiza sem exposição ao perigo, a menos que o viajante seja conduzido como no Viagem Noturna; quem é levado em viagem está assegurado da salvação; quem viaja por si mesmo está em perigo ** § 3 — A viagem como lei universal da existência ** A existência tem por origem o movimento; não pode portanto haver imobilidade nela, pois se ficasse imóvel retornaria à sua origem, que é o nada — e a viagem nunca cessa, no mundo superior e no inferior. * As realidades divinas estão incessantemente em viagem, indo e vindo, como a descida senhorial em direção ao céu mais próximo e o estabelecimento ascendente em direção ao céu * No mundo superior, as esferas arrastam em sua rotação perpétua, sem qualquer repouso, os seres que contêm; se se imobilizassem, a criação seria reduzida ao nada * O movimento dos quatro elementos, dos seres engendrados a cada instante, a mudança e as transformações geradas a cada sopro, a viagem dos pensamentos nas categorias do louvável e do censurável, a viagem dos soflhos emitidos por quem respira — tudo isso é, sem dúvida, viagem para todo homem dotado de inteligência * Alguns consideram que o mundo dos corpos, desde o instante em que Deus o criou, não cessa em sua totalidade de descer, no vazio sem fim * Quando te aparece uma morada, dizes: eis o termo; mas a partir dela se abre outra via que te fornece um viaticum para uma nova partida — a penas chegado, não tardas a sair para retomar a rota ** § 4 — A viagem do ser humano através das fases da criação ** Inúmeras viagens já foram realizadas através das fases da criação — desde o estado de sangue no pai e na mãe até o esperma, a aderência, o pedaço de carne, os ossos, a carne que os recobre, o nascimento, a infância, a juventude, a adolescência, a força juvenil, a maturidade, a velhice e a decrepitude. * Da decrepitude passa-se ao estado intermediário entre este mundo e o outro, e desse estado parte-se em viagem em direção ao Ajuntamento Final * Depois vem a viagem em direção ao Sirát — seja a um jardim paradisíaco, seja a um fogo infernal; caso contrário, a viagem do Inferno ao Paraíso e do Paraíso à Duna da visão divina * A partir daí, não se cessa de ir e vir entre o Paraíso e a Duna, para sempre * No Fogo, os condenados viajam sem cessar de cima para baixo e de baixo para cima, como pedaços de carne numa panela sobre o fogo — "Cada vez que suas peles forem cozidas, Nós as substituiremos por outras, para que provem o castigo" (Corão 4:65) ** § 5 — A alternância perpétua dos estados e das realidades divinas ** Não há imobilidade alguma; o movimento neste mundo é contínuo — a noite e o dia se sucedem, assim como se sucedem os pensamentos, os estados e as disposições segundo a alternância das realidades divinas em todas essas coisas. * Ora essas realidades divinas descem sobre o nome divino o Muito-Misericordioso, ora sobre o nome Aquele-que-chama-ao-arrependimento, ora o Muito-Perdoador, ora o Muito-Provedor, ora Aquele-que-dá-sem-medir, ora o Vingador — assim com todos os nomes da Presença divina * Esses nomes fazem igualmente descer sobre o ser humano o que contêm de dom, de provisão, de vingança, de chamado ao arrependimento, de perdão e de misericórdia * Há portanto descida da parte do ser humano em direção a essas realidades divinas, por meio de sua demanda; e descida da parte delas sobre ele, pelo dom ** § 6 — O retorno do servidor sobre si mesmo e a distinção entre as viagens ** O servidor deve fazer um retorno sobre si mesmo, refletindo e meditando sobre a distinção entre a viagem à qual a Lei divina lhe impõe preparar-se e aquela à qual ela não lhe impõe tal preparo. * A viagem à qual a Lei impõe preparação — e em cuja preparação reside a felicidade — é a viagem em direção a Ele, em Ele e d'Ele, todas instituídas pela Lei * A viagem à qual a Lei não impõe preparação é aquela de percorrer a terra com propósito lícito, para o comércio deste mundo e a frutificação dos bens * A viagem do próprio sopro — inspiração e expiração — não é imposta nem instituída pela Lei, sendo exigida apenas pela constituição física do ser humano ** § 7 — Tipologia dos viajantes: os que vêm d'Ele, os que vão a Ele e os que viajam em Ele ** Os viajantes vindo d'Ele são de três tipos, e os que viajam em direção a Ele são igualmente três; os que viajam em Ele se dividem em dois grupos. * Dentre os viajantes vindo d'Ele: o primeiro é rejeitado — como Iblis e todo associador; o segundo não é rejeitado, mas sua viagem é uma viagem de vergonha, como a dos pecadores; o terceiro realiza uma viagem de distinção e eleição, como a dos enviados que retornam d'Ele às criaturas e a dos herdeiros que retornam da contemplação ao mundo das almas * Dentre os viajantes em direção a Ele: o primeiro associa outra divindade a Deus e Lhe atribui corpo e semelhança com as criaturas — esse jamais O verá; o segundo professa a transcendência de Deus mas não cessa de cometer transgressões — esse, ao chegar, encontrará a reprovação mas não o véu nem um castigo perpétuo; o terceiro é impecável ou preservado — Abraão, os profetas, os santos — e a intimidade divina os porá à vontade * Dentre os viajantes em Ele: o primeiro viajou em Ele pelo meio da reflexão e do intelecto e desviou-se do caminho inevitavelmente — são os filósofos e os que seguem sua abordagem; o segundo foi conduzido em viagem em Ele — são os enviados, os profetas, os eleitos entre os santos como Sahl ibn Abdallah (al-Tustari), Abu Yazid (al-Bistami), Farqad al-Sabakhi, al-Junayd ibn Muhammad e al-Hasan al-Basri ** § 8 — A multiplicação do desvelamento nos tempos atuais e a redistribuição da ciência ** O tempo de hoje não é o mesmo de outrora, pois se aproxima da morada do além — o desvelamento se multiplica nos homens da época atual, os cintilamentos das luzes começam a brilhar e a aparecer. * Os homens do tempo presente beneficiam-se de um desvelamento mais rápido, de uma visão mais frequente, de um conhecimento mais abundante, de uma apreensão mais perfeita das realidades superiores — porém suas obras são menos numerosas que as dos homens de outrora * Os Companheiros que foram iluminados pela Luz divina tinham essa visão, mas eram um número muito pequeno — como Abu Bakr, Umar e Ali ibn Abi Talib * Uma única raka (unidade de oração) realizada hoje equivale à adoração de um homem de outrora durante toda a sua vida; o Profeta disse a esse respeito: "Aquele dentre eles que obras realizar receberá a recompensa de cinquenta homens realizando obras comparáveis às de vocês" * A ciência, ao mesmo tempo única e difusa, tem necessidade de homens que a carreguem; quando esses são numerosos, a ciência é partilhada entre eles — é por isso que ela não é abundante naqueles que nos precederam * Quando são poucos os que podem carregar a ciência, por causa da corrupção do comum dos homens, o santo a recebe em abundância, pois a parte de cada homem corrompido lhe cabe como herança ** § 9 — Anúncio do conteúdo do tratado ** O presente breve tratado mencionará as viagens conhecidas por ciência e visão direta — viagens realizadas pelos profetas, viagens divinas, viagens das entidades espirituais — a fim de mostrar o que se deve desejar como viagem. ** § 10 — Viagem senhorial desde a Nuvem até o Trono ** A tradição relata que se perguntou ao Enviado de Deus onde estava o Senhor antes de criar a criação, ao que ele respondeu: "Numa nuvem acima e abaixo da qual não havia ar." * Essa Nuvem é a Enceinte da Pessoa divina, obstáculo imenso que impede os seres de alcançar a Divindade absoluta e Esta de alcançar os seres — do ponto de vista das definições essenciais * A partir dessa Nuvem procede a palavra divina: "A palavra não muda junto a Mim" (Corão 50:29), e a ela fazem alusão versículos como "E teu Senhor virá" (89:22) e "[Esperam eles senão que Deus e os Anjos venham a eles] na sombra da nuvem?" (2:210) * A expressão do ser criado ao querer reencontrar a Divindade absoluta é ilustrada pela palavra do Profeta: "Não posso enumerar os louvores que Te dirijo" e pela sentença de Abu Bakr o Confirmador da verdade: "A impotência de perceber a percepção é uma percepção" ** § 11 — O estabelecimento do nome o Todo-Misericordioso sobre o Trono ** Uma vez existenciada a esfera que abraça todos os seres — chamada Trono ou Assento real muito santo — era preciso um rei; a qualidade de todo-misericordiosidade devia reger essa separação entre o divino e o humano. * O nome o Todo-Misericordioso se estabeleceu sobre o Trono na Enceinte da Nuvem, como convém à qualidade divina de todo-misericordiosidade, que é um aspecto da Nuvem senhorial * Essa viagem da qualidade de todo-misericordiosidade desde a Nuvem senhorial até o estabelecimento sobre o Trono procede da Generosidade, da mesma forma que tudo o que está aquém do Trono emana d'Aquele que se estabeleceu sobre ele * Ao longo da viagem do nome o Todo-Misericordioso, viajaram com ele todos os nomes ligados à criação — seus oficiais, serventes e emires — como o Provedor, o Socorredor, o Vivificador, Aquele que faz viver, Aquele que faz morrer, o Prejudicial, o Benéfico e todos os nomes de atos em particular ** § 12 — Os limites da reflexão diante da Divindade absoluta ** Quando se deseja viajar em direção ao conhecimento do que está além dos nomes de atos, refletindo sobre esses nomes, essas reflexões saem da esfera do Trono sem todavia abandoná-la e separam-se dela, buscando atingir a Dignidade divina muito santa. * Essas reflexões caem então no território inviolável, a Enceinte da Nuvem, e são prostradas; mas para aquele que chega a Deus, brilham alguns lampejos fulgurantes da Divindade absoluta, trazendo-lhe um certo conhecimento * Abu Bakr chamou esse conhecimento de "percepção" e o Verídico o designou pelas palavras: "Não posso enumerar os louvores que Te dirijo" * Os homens da especulação estão numa nuvem, assim como os homens do desvelamento — todos os seres estão numa nuvem, todos na cegueira, e o todo está à imagem do Todo * Essa viagem em seu espírito e sentido é a passagem da transcendência ao Lótus da similitude, para que aqueles a quem se dirige o discurso divino possam compreender ** § 13 — A viagem da criação e da ordem ** Deus disse: "Em seguida Ele se estabeleceu em direção ao céu, que era então uma fumaça, e lhe disse, assim como à terra: — Vinde de bom grado ou à força. Elas responderam: — Viemos de plena vontade" (Corão 41:11-12). * A criação da terra e a determinação de seus sustentamentos se deram em quatro dias da Obra divina: dois dias para o ser sensível e essencial da terra, um para sua exterioridade e manifestação e outro para sua interioridade e ocultação; dois dias para os sustentamentos, não manifestados e manifestados, depositados na terra * Depois do acabamento da criação dos sete céus em dois dos dias da Obra, Deus inspirou a cada céu sua ordem e aí depositou tudo de que os seres engendrados necessitam para sua composição, dissolução, substituição, transformação e passagem de um estado a outro através dos ciclos e das fases * Essa ordem se instaurou pela colocação em movimento das esferas para que se manifeste a produção dos seres nos elementos, segundo a ordem contida nesse movimento e nessa esfera ** § 14 — O ornamento do céu mais próximo e os luminares ** Uma vez desligados, os céus entraram em rotação; sendo transparentes em essência e em volume para não ocultar o que está além deles, os olhares avistaram os luminares estrelados da oitava esfera e os imaginaram no céu mais próximo. * Deus disse: "Ornamos o céu mais próximo de luminares" (41:12) — o ornamento de uma coisa não está necessariamente nela * "Como proteção" faz alusão às lapidações que ocorrem na esfera do éter para queimar os demônios que escutam às escondidas; Deus dispôs para isso "uma chama de sentinela" (72:9) — as estrelas cadentes * Deus dotou cada um dos sete céus de um astro que nele navega: "Cada um navega numa esfera" (21:33 e 36:40); as esferas são produzidas pelo movimento dos astros e não pelo dos céus ** § 15 — A correspondência microcósmica: o homem como réplica do cosmos ** Quando foi concluída a construção humana e assegurado seu equilíbrio, e quando a orientação divina produziu a insuflação superior no movimento da quarta das sete esferas, esse ser chamado "o homem" recebeu, graças à perfeição de seu equilíbrio, sozinho, o segredo divino. * O homem acedeu às duas estações: a da Forma divina e a da lugartenência * A terra do corpo aperfeiçoada, Deus "determinou seus sustentamentos" (41:10), conferindo-lhe suas faculdades próprias enquanto ser animal e vegetal: a atrativa, a digestiva, a retentiva, a repulsiva, a aumentativa e a nutritiva, e "desligou" suas sete camadas: a pele, a carne, a gordura, as veias, os nervos, os músculos e os ossos * O segredo divino que se propaga no homem com o sopro do espírito se estabeleceu em direção ao mundo superior do corpo e aí "desligou" sete céus: o céu mais próximo ou os sentidos, que Ele ornou de estrelas e luminares como os olhos, o céu da imaginação, o da reflexão, o do intelecto, o da lembrança, o da memoração e o da potência imaginativa ** § 16 — A inspiração da ordem em cada céu interior ** A Deus inspirou a cada céu sua ordem — a percepção das coisas sensíveis depositada nos sentidos, a representação das coisas imaginadas na imaginação e a das inteligíveis no intelecto. * Em cada céu foram depositadas as percepções correspondentes à sua natureza, pois os habitantes de cada céu são criados a partir dele * Em cada um dos sete céus interiores Deus criou um astro navegando em correspondência com os outros planetas nomeados, à semelhança dos atributos: a Vida, a Audição, a Vista, o Poder, a Vontade, a Ciência e a Palavra * Cada faculdade percebe apenas aquilo para o qual foi criada especificamente: "a vista não vê senão as coisas sensíveis e visíveis e se retorna 'despeitada'" ** § 17 — O sentido da palavra 'viagem' (safar) e o desvelamento ** Essa viagem desvelou seu rosto, indicou a transcendência de seu Mestre e produziu a manifestação do mundo superior; a viagem é chamada safar porque desvela (yusfiru) os caracteres dos homens, fazendo aparecer os caracteres censuráveis e louváveis que todo homem encerra em si. * Diz-se também "a mulher desvelou seu rosto" (safarat 'an wajhiha) quando ela retira seu véu e aparece sua beleza ou sua fealdade; Deus diz, dirigindo-se aos Árabes: "E pela aurora quando ela desvela" (72:34) — o que os olhares descobrem * É no curso de tal viagem ou de outras semelhantes que o Senhor desce ** § 18 — A viagem do Corão incomparável ** Deus fez descer o Corão na Noite do Destino, em uma única vez até o céu mais próximo; depois ele desceu sobre o coração de Muhammad de forma fragmentada — e essa viagem nunca cessa, enquanto as línguas recitam o Corão interior e externamente. * A Noite do Destino que perdura em realidade para o servidor não é outra senão sua alma tornada pura e sem mácula * Por transposição, o coração representa o céu mais próximo para onde o Corão desceu reunido em sua totalidade, para redevenir distinção à medida daqueles a quem o discurso se dirige * Ibn Arabi declara: "Eu o constatei em mim mesmo em meus começos. Eu o vi também em meu mestre Abu l-Abbas al-Uryabi, da cidade de al-Ulya, a Oeste de al-Andalus" * Abu Musa al-Dunbuli relatou que Abu Yazid al-Bistami não morreu sem saber o Corão de cor, embora nenhum mestre lho tivesse ensinado pela via habitual ** § 19 — A descida contínua do Corão sobre os corações ** A descida contínua do Corão sobre os corações dos servidores é provada pela impossibilidade do acidente de durar dois tempos seguidos e de se transferir de um lugar a outro. * A memorização do Corão por Zayd não se transfere a Amr; quando o ouvido ouve o mestre projetar um versículo nele, Deus o faz descer sobre o coração e o discípulo o retém * Se o coração deste último estiver distraído por uma preocupação, o mestre retoma e a descida se repete — o Corão está portanto sempre em vias de descer * Se alguém afirmasse "Deus fez descer sobre mim o Corão", ele não mentiria, pois o Corão viaja sem cessar em direção ao coração daqueles que o retêm ** § 20 — A conveniência espiritual do Profeta ao receber o Corão ** Quando Gabriel vinha trazer o Corão, o Profeta se apressava a recitá-lo antes que a inspiração fosse decretada — graças ao poder de seu desvelamento, ele tinha a intuição do que Gabriel trazia e sua língua apressava a chegada. * Mas seu Senhor lhe inculcou a conveniência espiritual e a tornou excelente nele: "Não apresses a vinda do Corão antes que a inspiração tenha sido concluída" (20:114) * Deus lhe ordenou respeitar as conveniências com Gabriel, que lhe ensinava como receber a Palavra excelente pela obra piedosa — em alusão a Corão 35:10: "Vers Ele sobe a palavra boa e a obra piedosa, Ele a eleva" ** § 21 — O Homem total como Corão incomparável ** O Homem total, segundo a realidade essencial, é o Corão incomparável descido da presença de si mesmo em direção à Presença de seu Existenciador — que é também a Noite bem-aventurada por sua não-manifestação. * O coração corresponde ao céu mais próximo para onde o Corão desceu reunido em sua totalidade; aí se tornou "distinção" (furqan) e desceu sob forma fragmentada, segundo as realidades divinas * Não cessa de descer sobre o coração a partir do Senhor, sob forma fragmentada, até que o ser humano se reúna, deixe o véu para trás, ultrapasse o "onde" e o ser criatural e se ausente da ausência * Quando se interrogou Aisha — Deus a agrace — sobre o caráter do Profeta, ela respondeu: "Seu caráter era o Corão" — os Sábios explicam que ela visava a palavra divina: "Certamente tu és segundo um caráter magnífico" (68:4) ** § 22 — A viagem da visão através dos sinais divinos e da transposição simbólica ** "Glória a Aquele que fez viajar de noite Seu servidor da Mesquita Sagrada até a Mesquita mais distante, em torno da qual pusemos Nossas bênçãos, para lhe mostrar alguns de Nossos sinais" (17:1). * Deus ligou a glorificação a essa viagem noturna para ôter do coração dos que professam a similitude e a corporeidade de Deus o que imaginavam acerca de Deus como direção, limite e localização * Deus fez o Profeta viajar de noite para confirmá-lo em sua eleição à estação do amor, pois O tomou como amigo íntimo e bem-amado; acrescentou "de noite" ainda que isra' designe em árabe uma viagem de noite, para levantar a dúvida e para que não se imaginasse que apenas seu espírito foi conduzido * A noite é o momento mais caro aos amantes porque nela se reúnem e o encontro a sós com o bem-amado se realiza à noite * Se a ascensão tivesse ocorrido de dia, a visão dos sinais não teria sentido para quem ouvisse esse relato — é por isso que a viagem ocorreu de noite * Ao dizer "de noite", Deus confirma que o Profeta viajou com seu nobre corpo; o verso citado em exemplo confirma: "Ó vós que partis em direção ao Eleito de Mudar, vós o visitastes com vossos corpos, mas nós com nossos espíritos" ** § 23 — O significado da servitude e das duas mesquitas ** "Seu servidor" é precedido da partícula bi por duas razões, segundo os conhecedores da Realidade: por causa da correspondência entre a servitude — que é humilhação — e a partícula do "rebaixamento" e da "ruptura", pois todo ser humilhado é quebrado. * Deus ligou o servidor ao Si, enquanto o versículo não comporta nenhum nome aparente para designar Deus senão um nome semivérbal que não toma sentido senão pela proposição relativa e o pronome implícito no verbo * O pronome de terceira pessoa diz-se em árabe "pronome do ausente"; logo há "ausência na ausência" — como se Ele mesmo fosse o Si * Masjid (mesquita) é um nome de lugar designando o lugar onde o homem se prostra; a prostração é servitude; "o sagrado" implica a interdição e a restrição e convoca portanto a servitude; "a mais distante" lembra que a servitude se encontra num afastamento extremo das qualidades da senhoria * A servitude total que confere o conhecimento perfeito exige de não ser condicionada por um nome divino; ela solicita ao contrário da divindade absoluta uma elevação e uma transcendência semelhantes * Deus disse: "Prova! Certamente tu és o todo-poderoso, o muito-generoso" (44:49) e "Assim Deus apõe um selo sobre o coração de todo ser orgulhoso e tirânico" (40:35) ** § 24 — Os sinais vistos pelo Profeta: nos horizontes e em si mesmo ** Os sinais vistos pelo Profeta são de dois tipos: uns nos horizontes, outros nele mesmo — "Nós lhes mostraremos Nossos sinais nos horizontes e neles mesmos" (41:53). * "A distância dos dois arcos" (53:9) é um dos sinais dos horizontes — por meio dele o Profeta realizou a estação do servidor face a seu Senhor; "ou mais perto ainda" designa a estação do amor e da eleição pelo Si * "Ele revelou então a Seu servidor o que lhe revelou" (53:10) representa a estação do entretien noturno ou o si do Si e a ausência da ausência * O coração interior (fu'ad) é o coração do coração — como o coração tem sua visão, o coração interior tem a sua; o coração interior não pode ser atingido de cegueira pois não conhece a criação, só está ligado a seu Senhor * "O coração interior não desmentiu o que viu" — pois a mentira só intervém no mundo da similitude e da multiplicidade, e aí não há similitude alguma ** § 25 — Os sinais do Profeta em si mesmo e nos horizontes ** Os sinais que o Profeta viu em si mesmo são sua conformidade ao si do Si em razão da servitude absoluta da servitude absoluta, na ausência da ausência, pelo olho do coração do coração ou do coração interior. * Quanto aos sinais dos horizontes, são tudo o que o Profeta disse ter visto: as estrelas, os céus, as escadas superiores, o "Coxim" mais próximo, o rangido dos cálamos, o lugar do estabelecimento sobre o Trono e aquilo pelo qual Deus recobriu o Lótus do limite * A bênção da estação não é precisada porque é indizível, dada a não-similitude; essa estação é tão inacessível que os homens são dela arrancados ** § 26 — A viagem da provação ou a queda do alto ao baixo ** O que ocorreu a Adão e Eva em aparência é uma viagem procedente d'Ele, como a de Iblis — mas enquanto no curso de sua viagem este último encontrou a realeza e o repouso que o conduzirão finalmente ao infelicidade eterna, Adão experimentou pena, fadiga e imposição legal que o conduzirão à felicidade. * A elevação de sua viagem foi a de ir do desejo sensual de sua alma em direção ao conhecimento de sua servitude; o Paraíso é destinado apenas aos desejos sensuais * Deus completou o veste de Adão aqui-baixo, pois ele não possuía no Paraíso senão um único veste, a "pluma", e não conhecia o gosto do "veste do temor protetor" * Quando Adão desceu do Paraíso, o veste para cobrir sua constituição e o do temor protetor lhe foram revelados; em seguida recebeu interdição, ordem e imposição legal ** § 27 — O esquecimento de Adão, a desobediência e o papel de Iblis ** Adão não prestou atenção à restrição divina que lhe proibia comer o fruto da árvore — o lugar do Paraíso não impõe a restrição, e a restrição intervinha num lugar que não a exigia. * A desobediência foi atribuída ao único Adão e não a sua esposa na palavra divina "E Adão desobedeceu a seu Senhor" (20:121), embora a interdição se dirigisse a ambos — pois Eva sendo uma parte dele mesmo, é como se houvesse apenas ele; e também porque Adão era mais propenso que Eva a lembrar-se da Ordem divina * O esquecimento de Adão se devia apenas à hostilidade de Iblis — Adão não podia imaginar que alguém prestasse juramento por Deus de maneira mentirosa; como Iblis havia jurado por Deus que lhes dava a ambos um conselho sincero, eles tomaram o fruto da árvore proibida * Há aí uma alusão ao fato de que o esforço de reflexão pessoal não convém quando existe uma indicação escriturária sobre uma questão dada * O blame se liga à forma do ato, não a seu autor — se o blame se ligasse a este último, detestaríamos os que desobedecem a Deus; detestamos apenas a desobediência, objeto de aversão enquanto desobediência a Deus ** § 28 — O sentido da descida de Adão e o acabamento de sua constituição ** A descida de Adão e Eva à terra é em aparência uma viagem procedente d'Ele, como a de Iblis — mas enquanto este último encontrou realeza e repouso que o conduzirão ao infortúnio eterno, Adão experimentou pena, fadiga e imposição legal que o conduzirão à felicidade. * Este mundo é uma morada de acabamento e o outro, de perfeição — não há mais nada a buscar após a perfeição, da mesma forma que após a morada derradeira não há outra morada * Deus completou o veste de Adão aqui-baixo, revelando-lhe o veste para cobrir sua constituição e o do temor protetor ** § 29 — Os conhecimentos adquiridos por Adão graças à imposição legal ** No curso dessa viagem, Adão continuou a adquirir os conhecimentos que não teria podido obter sem a imposição legal — este mundo constitui para o servidor uma morada de acabamento e de aquisição dos conhecimentos reflexivos. * Apenas este mundo os lhe proporciona, enquanto a constituição do Paraíso é toda ela desvelamento; Adão começou por adquirir os conhecimentos do governo de si mesmo, da distinção, do bem, do melhor, do mais conveniente e do mais adequado * Sahl ibn Abdallah (al-Tustari) dizia: "A inteligência não tem outra função no homem senão a de repelir o poder de seu desejo sensual. Se este último prevalecer, a inteligência fica sem autoridade" * Deus fez ver nos segredos íntimos, por Sua inspiração mais transcendente, que os anjos foram criados "nos" conhecimentos, assim como os minerais e os vegetais, enquanto o animal foi criado "nos" conhecimentos e no desejo sensual; o homem foi criado "nos" conhecimentos necessários, o desejo sensual e a inteligência ** § 30 — Os conhecimentos adquiridos por Adão por meio da desobediência ** Graças à desobediência e à sua viagem, Adão adquiriu o conhecimento dos nomes de seu Senhor e dos efeitos produzidos por eles, assim como sua contemplação — como o Muito-Perdoador e o perdão, que ele ignorava até então. * Se Deus é também o Todo-Perdoador, é por causa da gravidade de sua desobediência, que — tendo em conta sua estação — equivale a mil desobediências cometidas por outro; mas Ele permanece para qualquer outro Muito-perdoador * Adão obteve assim a eleição, o arrependimento, o pedido de perdão, a absolvição, o temor e a segurança que sobrevém após o temor — pois a segurança proporciona um gozo maior do que quando ela acompanha um estado {{tag>Gril "Ibn Arabi"}}