====== BARZAKH ====== //[[.:start|MORA, Fernando]]. Ibn ’Arabi: vida y enseñanzas del gran místico andalusí. 1. ed ed. Barcelona: Ed. Kairós, 2011.// ** O Barzakh: Noção Central na Metafísica Akbari ** O barzakh — palavra que significa barreira, istmo, intermundo — é uma noção central no edifício metafísico akbari, citada várias vezes no Alcorão como expressão de uma condição intermediária que divide duas realidades que nunca se encontram, mas que também reúne as qualidades dos domínios que separa. * Três passagens corânicas fundamentam o conceito: "Além deles há uma barreira até o Dia de sua ressurreição" (23:100); "Ele colocou entre eles uma barreira e um limite intransponível" (25:53); "Ele fez fluir os dois grandes corpos de água, e eles se encontram, mas uma barreira os separa que eles não cruzam" (55:19-20) * Ibn Arabi define: "A palavra barzakh é uma expressão que se refere àquilo que separa duas coisas sem jamais tornar-se nenhuma delas — como, por exemplo, a linha que separa a sombra da luz do sol; esse intermediário inteligível é precisamente o barzakh, pois cada uma dessas duas coisas, quando adjacentes, requer um barzakh que não é igual a nenhuma delas, mas que implicitamente possui o poder de cada uma delas" * Com exceção da face interior ou não-manifesta de Deus, tudo o mais constitui um estado fronteiriço entre o ser e o não-ser; esse estado intermediário — formado pela totalidade das possibilidades e chamado de "barzakh supremo" — é a Nuvem opaca da qual o cosmos é criado, também denominada imaginação ilimitada ou absoluta, realidade das realidades e Sopro do Clementíssimo * Em sentido teológico mais restrito, o barzakh designa a existência pós-morte ou período do além-túmulo entre o momento da morte e o Dia da Ressurreição; enquanto o espírito do falecido habita esse estado intermediário, permanece confinado na forma de seus atos: "Todo ser humano no barzakh é 'mantido em cativeiro por aquilo que cometeu' (52:21; 74:38), preso nas formas de seus atos, até ser ressuscitado dessas formas" * O estado de sonho constitui outro tipo de barzakh; o profeta Muhammad chama o sono de "irmão da morte", enquanto o Alcorão torna explícita a relação entre as duas condições: "Deus chama as almas quando elas morrem, e quando não estão mortas, elas dormem" (39:42) * Ibn Arabi escreve sobre o sonho: "Neste mundo, o homem vive num sonho. Por isso lhe foi ordenado que interpretasse, pois o sonho pode ser interpretado dentro do próprio sonho. 'O homem está adormecido, mas quando morre, desperta'" ** O Mundo como Imaginação e a Imaginação como Mundo ** A imaginação apresenta-se em três modalidades distintas, todas ligadas ao seu caráter mediador: a imaginação ilimitada (al-khayal al-mutlaq), a imaginação limitada ou descontínua (munfasil) e a imaginação contígua (muttasil). * A imaginação ilimitada é sinônima do barzakh supremo e do Sopro do Clementíssimo; estende-se como uma ponte entre o ser e o nada, sendo um qualificativo aplicado à totalidade da realidade, visível e invisível * A imaginação limitada — chamada também de mundus imaginalis — constitui, juntamente com os domínios inteligível e sensível, um plano macrocósmico de realidade dotado de existência autônoma; é aqui que os místicos ascendem em espírito, deixando para trás seu envoltório material, e onde as inteligências imateriais descem para assumir formas concretas * A imaginação contígua forma o elo entre corpo e espírito e corresponde à própria faculdade imaginativa; recebe esse nome por estar conectada à percepção do observador, de modo que, quando este deixa de prestar atenção à imagem mental em questão, ela se dissolve * "O barzakh é a presença mais extensa da existência e o ponto de encontro dos dois oceanos, o oceano dos significados e o oceano do sensível. A presença da imaginação — que chamamos de ponto de encontro entre dois mares — incorpora os significados e refina os objetos sensíveis" * O cosmos não é inteiramente ilusório, mas, por seu caráter imaginal e por ser confluência de ser e não-ser, possui um estatuto ontológico ambíguo: "o cosmos é nada mais do que uma fantasia desprovida de existência real — e esse é um dos significados da Imaginação" * Teósofos islâmicos como Suhrawardi chamaram esse domínio independente de "oitavo clima" — além dos sete climas nos quais os geógrafos islâmicos subdividiam as diferentes regiões do planeta — e "país do em-nenhum-lugar"; Ibn Arabi o designa como "a vasta terra de Deus" ou "Morada dos Símbolos" * Segundo a tradição islâmica, essa vasta terra de Deus provém do barro excedente do qual Adão foi criado; esse excedente forneceu antes o material para a criação da palmeira, árvore sagrada no Islam, à cuja sombra Maria deu à luz Jesus * Ibn Arabi afirma: "Eu próprio tenho adorado Deus ali desde o ano 590 [1194] e hoje estamos no ano 635. Aquela terra é imperecível e imutável" * A "vasta terra" não está localizada em lugar algum exterior, mas no centro do próprio corpo humano — o coração do conhecedor: "A terra do teu corpo é a real 'vasta terra' sobre a qual o Real te ordenou que O adorasses. Ele criou nela uma Caaba, que é o teu coração — e o coração do ser humano dotado de fé é capaz de conter o conhecimento de Deus" ** A Luz da Imaginação ** Ibn Arabi descreve a imaginação absoluta como uma trombeta corniforme feita de luz, pela qual sopra o arcanjo Israfil, arauto da morte e um dos guardiões do Trono divino; a palavra árabe sur (trombeta) é também o plural de sura, significando forma. * "Deus criou a imaginação como uma 'luz' através da qual a assunção de formas por todas as coisas, quaisquer que sejam, pode ser percebida. Sua luz penetra o nada absoluto e o infunde com a forma de uma existência" * A luz é o denominador comum de todas as faculdades de conhecimento: "Os gnósticos consideram todos os nomes das faculdades como nomes da luz através da qual a percepção ocorre. Quando ouvimos sons, chamamos essa luz de 'audição'. Quando vemos objetos visuais, chamamos essa luz de 'visão' [...]. Assim, não há objeto de conhecimento senão Deus" * Os conteúdos mostrados pela imaginação são sempre verdadeiros; o que pode ser errôneo é a interpretação que se lhes atribui, responsabilidade da faculdade racional: "A imaginação percebe com sua luz, sem emitir julgamentos, tudo o que percebe. O julgamento pertence a outra instância, a saber, a faculdade racional; portanto, o erro não pode ser atribuído à imaginação. Logo, não há 'imaginação falsa'" ** Adoração e Imagem ** Uma das principais contribuições de Ibn Arabi à história do pensamento universal é chamar a atenção para o valor epistemológico da imaginação — órgão que permite atribuir atributos positivos a Deus, em contraste com a razão, que só fornece um vislumbre frio e asséptico do que Ele não é. * A adoração de Deus como se se O visse é não apenas permitida, mas imperativa: "Se o preceptor da Revelação não soubesse que há em vós uma realidade chamada 'imaginação', que possui esse poder imenso, não vos teria dito: 'Adorai Deus como se O vísseis'" * Ibn Arabi cita o versículo: "Para onde quer que vos volteis, aí está o Rosto de Deus" (2:115) — e o "rosto" de algo é sua realidade e sua essência individual; "assim a imaginação dá forma a Aquele que, segundo os argumentos do intelecto, de modo nenhum pode ser concebido ou receber qualquer forma" * A perfeição da fé consiste em adorar Deus como se se O visse — "pois se não O vês, Ele te vê" —, evocando o versículo corânico: "Os olhos não O veem, mas Ele vê os olhos" (6:103) * Santa Teresa de Jesus (m. 1582) escreve em consonância: "Não vos peço que penseis Nele, nem que façais grandes e delicadas considerações em vosso entendimento; não quero mais do que olhá-Lo" * O processo de adoração deve conduzir a uma visão direta (ruʾya) da realidade suprema: "Deus tem servos a quem permite ver-Lo nesta vida sem ter de esperar pela vida futura"; e, para a vasta maioria dos mortais, no Dia da Ressurreição: "Naquele Dia haverá rostos radiantes que verão seu Senhor" (75:22-3) * Qualquer ato de adoração é, portanto, necessariamente um ato de imaginação: quem purifica sua adoração, despindo-a da ideia de qualquer recompensa, é um hanif e segue o caminho direto, pertencendo ao mundo da luz e não ao mundo da recompensa * O profeta Abraão — que o Alcorão define como genuíno hanif, unitarista primevo e "jovem cavalheiro" (al-fatah) — representa o arquétipo de quem quebrou todos os ídolos externos e internos, incluindo o ídolo do próprio ego; uma vez removido esse último apego, apenas Deus permanece como objeto e sujeito da adoração: "É Ele, de fato, que adora a Si mesmo numa espécie de 'unidade dual', pois a adoração sempre requer um objeto e um sujeito" ** Os Limites da Imaginação ** A imagem da trombeta corniforme — larga numa extremidade e estreita na outra — simboliza com precisão tanto a vastidão quanto os limites da imaginação. * A largura de uma das extremidades remete ao fato de que a imaginação ousa conceber qualquer coisa — Deus, seres contingentes, o nada: "Ela exerce suas propriedades, por meio de sua realidade, sobre todas as coisas existentes e não-existentes. Dá forma ao nada absoluto, ao impossível, ao necessário e ao possível. Transforma o existente em não-existente e o não-existente em existente" * A estreiteza da extremidade oposta exprime sua incapacidade de acessar realidades imateriais e espirituais sem vesti-las de formas concretas; por isso lhe é negado acesso ao domínio dos puros inteligíveis: "A imaginação não pode receber nada — seja coisas sensíveis ou suprassensíveis, relações, atribuições, a Majestade divina ou Sua Essência — exceto por meio de uma forma" * "A imaginação é o ser mais extenso de todos os objetos de conhecimento e, no entanto, apesar da imensidão de sua capacidade, que se estende sobre todas as coisas, é incapaz de receber significados desprovidos de qualquer substrato, tais como são em si mesmos" * Apenas Deus escapa a essa limitação: "Nada na existência pode ser descrito pela ausência de limites... exceto Deus sozinho, sobre Quem foi dito: 'Não há nada semelhante a Ele'" (42:11)