===== RETORNO DOS CORPOS ===== //"Se rendre immortel suivi du "Traité de la résurrection" par Mollâ Sadrâ Shîrâzî", Fata Morgana, 2000// * O capítulo cinco do Tratado da ressurreição abre com uma nova meditação sobre o Real em sua essência, acentuando a unidade ontológica do ato de ser — na realidade, nada é real exceto o ato de ser —, e a diversidade das coisas não se sustenta em diferenças essenciais, mas numa diferenciação de intensidade, de causalidade e de atualidade. * A escala das intensidades vai da perfeição à imperfeição — o encadeamento causal distribui anterioridade e posterioridade, e a atualidade distingue o necessário do possível * A haqîqa — realidade efetiva — é uma com al-haqq, o Real, e com a unitude (al-ahadîya) — nome que Mollá Sadrá toma emprestado de Ibn Arabi * Os nomes divinos são um com a essência divina e a exprimem sem multiplicá-la * O grau de ser da Inteligência, mundo do Jabarût, é assim chamado porque é "restaurado" ou "emendado" (injabarat) pela Luz do Real eterno, sem nenhum traço de potencialidade * A "restauração" da Inteligência na unitude se faz pela "dominação oriental" (al-tasallut al-ishrâqî) * Os graus de menor intensidade, onde a imperfeição e a potencialidade obscurecem o ato de ser, vão até os corpos naturais — que estão no mínimo de intensidade concedido a um existente dotado de forma —, e é preciso distinguir o "renovamento" dilacerante dos corpos e o devir positivo que os inscreve no seio da remontada e do retorno. * O estado habitual dos corpos é o renovamento permanente — mas essa fluidez e mutação incessante não são intensificação, mas fraqueza ontológica e fixidez do movimento de crescimento em direção ao Um * O renovamento não priva os corpos de uma existencialidade (wujudîya) que é a realidade efetiva da unitude, exprimindo-se nos atributos de perfeição * Os corpos têm, portanto, a possibilidade de fazer retorno ao seu centro existencial * Os corpos velam a existencialidade pela qual são unificados — "estendem-se e se dividem nos espaços materiais" e estão a distância de si mesmos nas durações temporais —, e essa extensão e essa distância provam que o espaço e o tempo são os signos da perda de si. * A duração dos movimentos é um aniquilamento — a extensão material é uma privação * A extensão — seja espacial, seja temporal — é deficiência porque é divisibilidade * A partição segundo as dimensões é submissão ao múltiplo, que é não-ser na medida em que disjunta e faz cada corpo afastar-se do outro e de si mesmo * O mundo dos corpos é um mundo de separação, de distanciamento e de impossível união — o espaço e o tempo são os testemunhos da estranheza —, e a "separabilidade" desse estado material anda de par com o esquecimento de si, o corpo sendo ignorante de si mesmo assim como a corporalidade é tenebrosa por ser estranheza e alienação. * O corpo se ausenta de si — ser em não relação consigo é ser outro que si * Os corpos são separados de sua "esfera fundamental" e estão em estado de amnésia em relação ao conjunto dos atos de presença (hodûrîya) * A extensão espacial ou temporal é a verdadeira tumba dos corpos — não se trata apenas de que sejam biologicamente mortais ou fisicamente destruíveis, mas que a extensão enquanto tal é uma tumba * No corpo eclode um conflito entre sua morte metafísica e sua existencialidade fundamental * Somente as almas são lugares de reminiscência — porque se movem sempre em si mesmas, em direção ao ponto central do inteligível, sem estar a distância de si mesmas * O corpo é o obstáculo à memória viva — é o inconsciente * A "rivalidade" — cujo termo árabe significa "ser múltiplos uns em relação aos outros" — é o oposto do espelho: na imagem refletida pelo espelho a realidade se reúne, enquanto a multiplicidade corporal em sua matéria é esquecida do modelo e rivaliza consigo mesma * A salvação dos corpos está, porém, neles mesmos — eles são receptáculos para a realidade efetiva da Luz —, e a forma do corpo é um revestimento (kiswa) — cujo nome mesmo evoca o revestimento do templo da Caaba — que protege, nutre, vivifica, aumenta e aperfeiçoa o corpo, intensificando-se e transformando-se em vida psíquica e depois em vida inteligível. * "Para a vida mais nobre e a perfeição mais elevada que se escoa neles" — os corpos são receptáculos dessa efusão * A forma é fundamentalmente estável e mobilizadora — permite que se efetue sempre uma vida mais nobre, sob "uma forma mais simples e mais concentrada" * Ao termo de sua ascensão, a forma se torna intelecto adquirido — "companheira da Inteligência agente" * Atravessando o corpo e metamorfoseando-o numa ícone de beleza, a forma se torna alma e intelecto — o devir do corpo é libertação em relação à sua própria corrupção ontológica, no evento da alma * A forma se diz em dois sentidos — há uma forma inferior e uma forma de perfeição que é seu esotérico e que a mantém no ser —, e essa forma de perfeição pertence ao mundo imaginal, sendo ontologicamente anterior ao corpo e à sua forma deficiente, segundo os próprios princípios de Aristóteles. * A forma de perfeição não é a Inteligência agente nem uma Inteligência dentre os senhores das espécies — como creem os discípulos de Sohravardi * A anterioridade do ato em relação à potência demonstra que a forma de perfeição é ontologicamente anterior ao corpo * O movimento intra-substancial transforma toda matéria em forma e toda forma de perfeição em matéria para uma forma ainda mais perfeita, numa atualização intensiva que atravessa e metamorfoseia todos os reinos da natureza — há um devir animal do vegetal, um devir humano do animal, um devir anjo do homem —, e a criação inteira se recolhe no coro angélico. * "A obscuridade duvidosa que se vê no mundo" é o exotérico das formas de perfeição imaginais — para as quais as formas mais humildes farão retorno numa conversão que as metamorfoseia * A comparação com o incrédulo que abraça o islã exprime o valor ético do movimento intra-substancial — a conversão para a forma superior é análoga à conversão religiosa que muda o homem no mais profundo de si * O par constituído pela forma deficiente e pela forma de perfeição vale para todos os graus da gradação — a forma física é deficiente, a forma psíquica é sua perfeição, a forma inteligível é a perfeição da forma psíquica * Os universos do além-mundo reproduzem em suas hierarquias as do mundo da natureza * Todo existente natural tem uma forma de perfeição que reduplica sua forma deficiente — uma forma imaginal do além-mundo * A forma sensível é o exotérico da forma imaginal, que é o princípio de seu retorno e a finalidade de seu movimento