===== UNIDADE ===== CAPÍTULO II Do Tawhid, seus diversos graus e daqueles que os possuem. Do segundo capítulo do livro primeiro do Tarjumat al-’Awârif. O Tawhid tem vários graus: o primeiro corresponde à fé (imân), o segundo à ciência (‘ilm), o terceiro ao estado (hâl) e o quarto a Deus. O grau da fé consiste em crer com o coração e confessar com a língua que só há um ser ao qual convém o Nome de Deus e que merece ser objeto de nosso serviço de adoração, conforme indicam os versículos do Corão e as tradições (akhbâr). Isto é uma consequência da confiança que se tem na veracidade daquele que fala e da convicção da verdade do que ele diz. Este grau é o produto da ciência exterior (‘ilm az-zâhir): estar fixado nele representa estar isento de politeísmo manifesto (shirk jalî) e estar compreendido no âmbito do Islã (silk al-Islâm). Todos quantos aspiram ao título de mutasawwif compartilham necessariamente este grau com todos os autênticos crentes (mu’minûn) por consequência de sua fé, mas há outros graus que lhes são particulares e especiais. O grau do Tawhid que corresponde à ciência é o produto da ciência interior (‘ilm al-bâtin), que se chama ciência da certeza (‘ilm al-yaqîn). Este grau consiste em que o servidor de Deus, quando começa a caminhar pela via do sufismo (tarîq at-tasawwuf), saiba com certeza (yaqîn) que não há ser verdadeiro (mawjûd haqîqî) nem causa eficiente absoluta (mawthar mutlaq) senão o Senhor dos mundos; que saiba que as essências (dhawât), as qualidades (sifât) e as ações (af’âl) são puro nada diante de Sua Essência, Suas Qualidades e Seus Atos; que compreenda absolutamente que toda essência não é senão um reflexo da luz de Sua Essência, toda qualidade um raio de luz de Sua Qualidade, de modo que por toda parte onde se veja um saber (‘ilm), um poder (qudrah), um querer (irâdah), uma faculdade de ouvir (sam’) ou de ver (basar), se saiba que não é senão uma das marcas (âthâr) do saber, do poder, do querer, da audição e da visão de Deus, e assim com todas as qualidades e todas as ações. Este grau não é senão o princípio dos graus dessa confissão da Unidade que caracteriza os privilegiados (ahl al-khusûsiyyah) e os homens compreendidos sob o nome de mutasawwifah por seu início, este grau coincide com o fim do grau do comum dos homens (al-’âmmah). Existe um grau que guarda alguma semelhança com este, e que a gente de pouca compreensão chama Tawhid da ciência, ainda que não o seja de modo algum: não é mais que um Tawhid puramente de forma (rasm) e que não é digno de consideração alguma. É o caso de quando alguém, por meio de uma mente sutil e cheia de sagacidade, forma na imaginação, seja pela leitura, seja ao ouvir outros, uma ideia do que é o Tawhid, e a imagem dessa figura concebida na imaginação se imprime em sua alma. Sucede assim, por vezes, que, em discussões ou disputas, tais pessoas pronunciam palavras vazias, nas quais não há sinal algum do estado próprio ao Tawhid. Ainda que o Tawhid da ciência seja um grau inferior ao do estado, contém, todavia, uma mistura deste último, de tal modo que se lhe pode aplicar este texto do Corão: «... misturado com água de Tasnim, fonte da qual beberão os aproximados», LXXXIII, 27-28. Daí provém que aquele que alcançou este grau se encontre muito frequentemente em um estado de prazer (dhawq) e felicidade (surûr); pois, dada a mistura do estado que experimenta, uma parte das trevas (zulumât) produzidas nele pelas formas exteriores (rusûm) se dissipa, de modo que, em certas ocasiões, age conforme à sua ciência, e já não vê, entre Deus e os atos, os meios que constituem as causas segundas (rawâbit) destes. Muito frequentemente, contudo, por causa do que ainda permanece nele das trevas de sua própria existência, a visão das consequências de sua ciência lhe é ocultada como por um véu, e assim, com este grau de Tawhid, encontra-se certo politeísmo oculto (shirk khafî). Passa-se agora ao Tawhid do «estado». Neste grau, o Tawhid torna-se uma qualidade (wasf) inerente e inseparável do «unitário» (muwahhid). Todas as trevas produzidas pelas formas da existência desaparecem e se evaporam praticamente na luminosidade (ishrâq) que emana da luz do Tawhid. Esta luz se oculta e se confunde na luz do estado do unitário, do mesmo modo que a luz das estrelas se confunde na do sol: «E quando aparece a aurora, seu resplendor, ao manifestar-se, absorve o da luz dos astros». Nesta estação, a existência do unitário está de tal modo submersa pela união (jam’) mais perfeita na contemplação (mushâhadah) do Ser único (wujûd wâhid), que suas visões contemplativas (shuhûd) não veem senão a Essência e os Atributos do Único. Isto se dá de tal modo que essa confissão que ele faz da Unidade lhe parece também uma qualidade do Único, e não uma qualidade que ele possa atribuir a si mesmo; e que esta própria compreensão que ele tem disso é ainda, aos seus olhos, uma qualidade desse Ser único. Assim, sua própria existência cai, como uma gota de água, sob o domínio das ondas do oceano do Tawhid, e permanece submersa no mar da união (jam’). Nesse sentido, disse Junayd: «O Tawhid é um inteligível (ma’nâ) no qual se desvanecem as formas (rusûm) e no qual se unem e se confundem as ciências (al-’ulûm), e Deus é aquele que era desde a origem». O produto deste grau do Tawhid é a luz da contemplação (mushâhadah), e o produto do grau do Tawhid da ciência é a luz da vigilância (murâqabah). Neste grau do Tawhid do estado, a maior parte das formas da humanidade (rusûm al-bashariyyah) desaparece, ao passo que, no grau do Tawhid da ciência, apenas uma pequena parte é suprimida. A finalidade pela qual ainda permanece algo das formas no Tawhid do estado é que a retidão das ações e a correção das palavras possam proceder do unitário. Daí resulta que, nesta vida, o Tawhid nunca atinge um grau de perfeição ao qual nada falte; e por isso disse Abû ‘Alî ad-Daqqâq: «O Tawhid é um credor ao qual nunca se paga tudo o que se lhe deve, e um estrangeiro ao qual não se trata como deveria ser tratado». Acontece por vezes aos unitários mais perfeitos, já nesta vida, que um raio deste Tawhid puro (sirf), no qual todos os vestígios e todas as formas da existência se desvanecem subitamente, brilha para eles como um fulgor rápido, e depois desaparece e se extingue de imediato, após o que os restos das formas reaparecem e se mostram de novo. Neste estado de iluminação passageira, os restos do politeísmo oculto desaparecem por completo. Não existe para o homem, nesta vida, grau mais elevado de Tawhid ao qual se possa chegar. O Tawhid de Deus consiste em que Deus foi qualificado, por Si mesmo, e não pelo reconhecimento de outro, em toda a eternidade sem começo (al-azal), pela qualidade (wasf) da Unidade (al-wahdâniyyah) e pelo epíteto (na’t) da Singularidade (al-fardâniyyah), como exprimem as palavras: «Deus era e com Ele não havia coisa alguma» (kâna Allâhu wa lam yakun ma’ahu shay’); e em que agora, como antes, possui a qualificação do Único (wâhid) e Singular (fard), como exprimem as palavras: «e Ele é agora como era» (wa huwa al-ân kamâ kâna); e em que, enfim, durante toda a eternidade sem fim (al-abad), conservará esta qualificação, como foi dito: «Toda coisa perece, exceto Sua Face» (Corão, XXVIII, 88). Observe-se que se diz perece, e não perecerá, para que se saiba que a existência de toda coisa, já agora, se perde na Existência de Deus. Mas a contemplação (mushâhadah) própria deste estado, cujo gozo fica para o porvir, está velada em Deus; de outro modo, seria, para aqueles que possuem visões intuitivas (basâ’ir) e que gozam por vezes da contemplação, homens que escaparam às limitações do espaço e do tempo, seria, pois, uma promessa cumprida de imediato. Este é o Tawhid de Deus, ao qual nada falta, enquanto o que provém das criaturas é defeituoso, porque a existência destas lhe adere como imperfeição. O shaykh al-Islâm concluiu o livro intitulado Manâzil as-sâ’irîn com estes três dísticos: Nenhum daqueles que afirmam a Unidade afirmou realmente a Unidade do Único Pois todo aquele que afirma Sua Unidade é um negador dela A confissão da Unidade por parte de quem tenta exprimir Sua qualificação é uma frase vã anulada pelo Único. A confissão de Sua Unidade que Ele mesmo faz é a confissão de Sua Unidade, mas a qualificação de quem pretende qualificá-Lo é equivalente a uma negação.