===== DÎVÂN ===== //HMAP// **Sobre a destruição do califado de Bagdá.** O céu derramaria justamente lágrimas de sangue sobre a terra, pois o poder de Mo’tacim, emir dos crentes, chegou ao fim. Maomé! se deves erguer a cabeça ao sair da terra, no dia do Juízo final, ergue-a sem demora! contempla este julgamento entre o teu povo. Sem piedade, ondas de sangue transbordaram o limiar do harém onde viviam as mulheres encantadoras; nossas lágrimas de sangue tingem nossas mangas. Teme as revoluções do mundo, as mudanças da fortuna! Ninguém poderia imaginar como tal coisa se transformará. Ergue os olhos, tu que viste o esplendor da Casa sagrada, quando os imperadores de Bizâncio e da China ali se prostravam. O sangue dos descendentes do tio do Profeta (Abbās) foi derramado sobre o solo onde os sultões apoiavam a fronte! Sobre o sangue desses seres puros, ó desgraça!, a mosca se lança: que até o Juízo final o mel lhe pareça amargo à boca! Doravante, não se deve mais esperar repouso no mundo. Quando a pedra dele caiu, o anel não tem mais que cimento. A água do Tigre está misturada com sangue; doravante, se continua seu curso, amassa com sangue o terreno do palmeiral de Bathā. E o mar crispou sua face diante desse triste acontecimento; em sua face reconhecem-se as rugas marcadas pelas ondas. As lágrimas são sem proveito; e lavar em abundância a dor no coração do homem é tão vão quanto querer apagar uma marca a ferro em brasa gravada na garupa de um cavalo. Mas, sendo bom crente, cheio de compaixão, o coração do amigo consome-se quando perdeu aquilo que ama. Não convém lamentar o sangue de todos esses mártires; para eles, o paraíso sublime será o menor dos bens. Aguarda! amanhã virá o dia de equidade, de ressurreição: esses mortos sairão de seus túmulos, ainda cobertos de sangue de feridas. O pó de seus pés, na terra, era para os olhos um colírio; no Juízo final, seu sangue tingirá a face das huris. Se, com o corpo ferido, rolaram na terra e no sangue, que temer? Sua alma pura está junto aos favores do Senhor dos mundos. Não convém confiar e entregar o coração ao mundo, pois do céu se recebe, ó irmão!, ora o amor, ora o ódio. Dir-se-ia que a terra e o céu que gira são as duas mós de um moinho entre as quais, dia e noite, o coração dos homens é reduzido a pó. No dia fixado para a morte, o braço da coragem não tem força; quando o destino chega, não resta vigor algum ao espírito firme; a espada afiada não sai da bainha, no dia do combate, quando a morte em emboscada espera, oculta, o homem valente. A experiência é inútil quando a fortuna se desviou; que ganha em atacar aquele cuja sela escorregou? Quando os abutres guerreiam pela carniça que é este mundo, permanece à parte, se és sábio, ó irmão!, imita o grifo. Que vale, pois, o império do mundo? Nossa única necessidade é esta: que Deus assegure para nós o império da fé, da certeza. **Dignidade do homem.** O corpo do homem é digno pela alma que lhe é própria. Não é um belo traje que simboliza a humanidade. Se o homem fosse apenas pelo olho, pela língua, pelo ouvido e pelo nariz, em que diferiria de um desenho traçado na parede? Comer, dormir, desejo, cólera são ruído, ignorância e trevas; e o animal não tem noção de alma nem de humanidade. Sê homem na realidade; caso contrário, não és senão um papagaio que repete as mesmas palavras na língua de um ser humano. Viste a ave alçar voo; portanto, das cadeias do desejo liberta-te, pois verás o impulso de tua humanidade. Não eras um ser humano cativo do demônio, enquanto o anjo não atinge esse estado de humanidade? Se esse instinto de violência puder morrer em tua natureza, passarás toda a tua vida com uma alma de homem. O homem pode alcançar o grau em que nada mais vê senão Deus: considera a que grandeza chega o estado de humanidade! Sê homem pelos conselhos, não por ti mesmo, pois Saadi aprendeu de outro homem o que é a humanidade. **Confiança em Deus.** A porção que não foi fixada por Deus antes que fôssemos dotados de existência, todos os esforços que empreendemos para obtê-la são tão vãos quanto um sopro. Pois Deus guarda a chave dos tesouros deste mundo; e ninguém os conquista pela força do braço. É necessário, portanto, obedecer e saber aceitar; o que o Senhor faz é sempre justo. Se mostra uma pintura aos olhos dos homens perversos, esses homens julgarão que não é obra de um mestre. Se fores perspicaz, verás que de Deus procedem o bem e o mal; se vês em duplicidade, é teu olho que olhou de modo torto. Ora, foi Deus quem criou as culturas e as palmeiras para assegurar tua subsistência, criando também os gafanhotos. Se observares bem aquele que se lamenta, seu mau natural é causa de suas queixas. Mas tu, ó irmão!, sê puro, sem temor de ninguém; guarda na memória estes conselhos que foram recebidos do pai: «Ainda que apresses teus passos, ainda que te apresses em pensamento, Deus não te concederá um único dia além daqueles que fixou de antemão. A Deus pertencem a grandeza e o poder absoluto; Ele os empresta sem os dar àqueles que vês reinar neste mundo inferior. Se fores inspirado, voltarás teu coração para o além, e não para este mundo ruinoso, que não é senão morada de tormento. Homem! não avances sobre a terra com graça e alegria, pois este solo que pisas está todo formado de seres semelhantes a ti. Este mundo inferior repousa sobre a água; os homens de entendimento sabem bem que nada de estável se funda sobre a superfície da onda. Saadi! sabe contentar-te com o decreto promulgado por Deus: aquele que se reconhece seu servo liberta-se de seus semelhantes.» **Recorda que morrerás!** Ó tu que passaste cinquenta anos e dormes! saberás fazer uso dos poucos dias que restam? O vento desse orgulho, o ardor dessa cólera, até quando? Sente vergonha, tu que não és senão um pouco de água. Tu que és homem feito, permaneces criança; e, tornado velho, fazes-te jovem. Sentado, brincas, enquanto à direita e à esquerda vão as flechas do céu resplandecente. Enquanto, do rebanho que somos, restar algum carneiro, o destino não cessará de exercer o ofício de açougueiro. Colocaste tua tocha no caminho do vento; és como uma casa no curso de uma torrente. Ainda que te elevasses até o céu de Saturno; que possuísses a beleza do sol e da lua; ou que superasses o vento em vigor; ou que te lançasses como o relâmpago impetuoso; ainda que te fosse permitido transmutar a pedra bruta em ouro puro pela alquimia, não poderias, por tua arte e astúcia, escapar da mão do anjo da morte. Toda perfeição termina por um declínio; e a rosa se desfaz quando estava fresca. Ó tu que, sobre o seio daquela que amas, repousas a cabeça, lembra-te do tijolo que será teu travesseiro na noite do túmulo! **Tudo passa.** Este mundo inferior está fundado sobre a água; os homens são joguetes do vento; portanto, torna-se servo humilde de quem não se apega a ele. O palácio dos bens do além deve ser teu túmulo supremo; considera, pois, se o solo é sólido quando te dispões a construir. Este mundo inferior não é durável; feliz, portanto, a alma de um homem de quem permanece, após a morte, uma boa lembrança neste mundo! Como viver neste jardim, onde o vento do termo fatal não cessa de arrancar o buxo de haste ereta? A existência é apenas uma morada emprestada e construída sobre o curso de uma torrente; nossa vida é como uma lâmpada numa janela, exposta ao vento. Sem nós, muitas vezes, o sol se levantará e se porá; muitas vezes, à primavera sucederão o verão e o outono. Não prendas, pois, teu coração ao que passa: o Tigre continuará a correr em Bagdá muito depois da morte do califa... O destino brinca com todos nós como se fôssemos crianças; usa para conosco de astúcia... Lançará muitos olhares carregados de arrependimento aquele que nada preparou para sua ressurreição. Não levou o vento o trono do rei Salomão? todo trono, onde quer que esteja, não termina do mesmo modo? Conserva, pois, em teu ouvido este preceito; e conduz-te bem; sabe-se que, após a morte, de mim guardarás boa lembrança. **Quousque tandem...** Ó coração de pedra! enfim, até quando seremos nós, tu sem cuidado por mim, eu atormentado por ti? Suspira-se, de longe, contemplando uma rosa, com o espinho no pé, e, depois, da água da juventude, volta-se sedento: isso, até quando? O ouvido cativo por tuas doces palavras, e o olho surpreendido por teu encanto, isso, até quando? A todo instante, teme-se emitir alguma queixa; finge-se paciência e corrói-se o coração em segredo: isso, até quando? Levantas a cabeça, todos os dias, com graça; mas eu, até quando deverei afundar-me em reflexões sobre tua iniquidade? A cor de tua mão não vem da hena, mas do sangue de meu coração; até quando beberás o sangue do coração dos homens? Saadi sucumbirá um dia sob teus golpes; até quando deverá suportar tuas violências ou permanecer afastado de ti? **A natureza atesta um Criador.** Ao alvorecer, quando a noite e o dia se confundem, experimenta-se deleite ao contemplar o campo na primavera. Ó sufi! sai de tua cela para erguer a tenda no roseiral; não é tempo de permanecer ocioso na morada. Os rouxinóis, no tempo das rosas, vieram para gemer de amor; não és menos inebriado que eles, suspira, pois, ó grande espírito! Toda a criação oferece ensinamento àquele que possui um coração; dele carece quem não reconhece que crê no Senhor. A montanha, o mar e todos os vegetais cantam o louvor de Deus; mas nem todos podem, ao escutá-los, compreender tais mistérios. E todos esses admiráveis desenhos traçados no muro da existência não são senão desenhos para aquele que não sabe meditar. Eles advertem, os pássaros nos prados, dizendo: «Ó dormente! ergue enfim a cabeça do travesseiro da negligência. Aqueles que não veem hoje a marca do poder de Deus, na maior parte, após a morte não poderão gozar de sua visão. Até quando, como a violeta, abaixarás a cabeça negligente? É grande perda dormir quando o narciso está desperto.» Quem, dos ramos das árvores, faz surgir os frutos rubros? Quem, do caule espinhoso, faz nascer a rosa de cem pétalas?... Ó Deus santíssimo e impecável! à tua potência soberana submeteste a lua, o sol, a noite e o dia... És tu que fazes brotar a fonte da rocha; és tu que fazes cair do céu a chuva; por ti a abelha produz o mel, a pérola surge do mar. Falou-se longamente sobre este tema, dizendo, contudo, muito pouco acerca de um assunto infinito. **O homem de Deus.** Aquele que não possui nem fogo nem morada pode residir em qualquer cidade; o pobre encontra sua habitação onde quer que a noite o surpreenda. O homem sem casa, sem família, que nada possui além do amor de Deus, não se deve chamá-lo mendigo, pois o príncipe é seu mendigo. O homem de Deus não é estrangeiro nem ao oriente nem ao ocidente, pois, em qualquer lugar a que se dirija, o reino de Deus é seu. Aquele que se tornou estranho às grandezas, honras e riquezas encontrará companheiros em qualquer país a que chegue. Todos os mortais de visão curta buscam apenas repouso; o iniciado, porém, procura a prova, pois nela encontra seu bem-estar. O amante que chegou a contemplar o Amigo celeste não vê senão seres monstruosos em todos aqueles que depois contempla. Renuncia ao que possuis; vai além, pois isto nada é; são poucos os dias de existência aos quais a morte se segue. A todo ser humano que foi atingido pela espada do amor divino, dize: «Não te aflijas! o império da eternidade compensará teu sacrifício.» Da mão do Amigo celeste, tudo o que recebes é doce; procura, pois, agradar-Lhe, ó Saadi!, sem pensar em ti mesmo. **Contemplando a amada.** A vida é boa, mas melhor à beira das águas. O vinho parece melhor ao canto do rouxinol. Como é agradável dormir junto ao jasmim em flor! A flauta é doce junto a uma amiga perfumada. Renuncia-se à harpa, aos cantos do músico: prefere-se conversar com a amada. Não te desvies para contemplar a planície, afastando-te de tua fiel amada: ela é mais agradável. Semelhantes aos elos de uma cota de malha, seus cabelos, todos torcidos e ondulados, superam em graça as ondulações da água ao vento. Saadi, conhecerias o valor de tua amada sem haver sofrido? É mais agradável obter o que se deseja quando isso foi buscado.