===== SUBMISSÃO ===== //[[..:start|ṬŌSĪ, Moḥamad ben Moḥamad Naṣīr al-Dīn]]; JAMBET, Christian. La convocation d’Alamût: somme de philosphie ismaélienne. Lagrasse Paris: Verdier Unesco, 1996.// * O sentido de Rawdat al-taslim ultrapassa a semântica literal da submissão ao deslocar o eixo da obediência da legislação religiosa para a figura do Imam e do Ressuscitador. * A tradução literal como O Jardim da Submissão mascara a ruptura com a aceitação passiva da Shariat. * O ato de obediência transmuta-se em reconhecimento daquele que detém a realidade efetiva e anuncia a Ressurreição. * A mudança de objeto — da norma jurídica para o ente espiritual — altera radicalmente o significado da ação humana. * O ato de obediência ismaelita exige um aniquilamento do eu em favor de uma identificação ontológica com a vontade do Imam, fundando-se na liberdade absoluta em vez de no rigor de uma lei exterior. * O taslim demanda o abandono total de si e o combate incessante contra as tendências do ego individual. * A vontade do fiel deve tornar-se indistinguível da vontade do Imam por meio de uma disciplina interior rigorosa. * A renúncia aos carcans da religião legalitária permite o encontro com a liberdade infinita comunicada pela Convocação. * A natureza humana original predispõe o indivíduo a um vínculo espiritual onde o livre-arbítrio atinge sua plenitude apenas através da entrega total ao Guia. * A disposição originária do homem vincula-se espiritualmente ao Instaurador através do conceito de Fitrat. * O livre-vouloir ou Ekhtiyar manifesta-se plenamente na obediência absoluta, distanciando-se das ilusões do arbítrio próprio. * A aparente liberdade de seguir os próprios desejos é identificada como o ponto de maior afastamento da essência do ser. * O conceito de taslim distingue-se da servidão ontológica por basear-se na liberdade como estatuto indelével do ser, em contraste com a submissão perpétua da criatura perante o criador. * A ubuda ou servidão descrita por Michel Chodkiewicz na obra de Ibn Arabi define um estatuto de submissão permanente. * O servo do Imam exerce obediência fundamentada no fato de que a origem de sua instauração no existente é a própria liberdade. * A reversibilidade entre a obediência sem limites e a liberdade completa impede a tradução de taslim como mera submissão passiva. * A finalidade última da doutrina reside na busca pela realidade efetiva, promovendo uma transição do estado relativo da criatura para a condição absoluta da substância divina. * A Haqiqat — o Real — substitui a Shariat, que passa a ser vista apenas como um véu ou uma estrutura limitadora. * O ismaelismo de Alamut propõe uma realização pessoal da Ressurreição que desperta uma efetividade real no fiel. * A transição envolve a superação da condição criatural em direção ao estado substancial e absoluto do ser. * O processo de divinização humana e o retorno ao Um inserem o fiel em um plano providencial onde o homem atua como testemunha da forma divina e agente de redenção. * O retorno ao princípio original visa a reintegração do Homem Perfeito na unidade primordial. * O ser humano torna-se o testemunha da Forma humana de Deus, colaborando na redenção do próprio Impulso divino. * A gnose ismaelita designa este sistema providencial como Din — a religião em seu sentido verdadeiro. * A estrutura da obra organiza-se em vinte e sete seções denominadas representações, termo que remete à atividade da imaginação na configuração de formas filosóficas. * O título Tasawwurat refere-se ao ato de se representar uma imagem ou dar forma a um conceito. * A atividade imaginativa configura as formas a partir dos dados do senso comum e da intuição intelectual. * Cada tasawwur constitui uma unidade de representação filosófica que divide o corpo do texto. * A disposição dos capítulos reflete uma gradação pedagógica voltada ao discípulo já convertido, funcionando como uma suma filosófica para a compreensão da própria adesão. * A sucessão dos capítulos apresenta uma ordem iniciática cuja chave reside nas seções finais da obra. * O conteúdo varia em extensão, compreendendo desde páginas isoladas até tratados internos complexos. * O objetivo principal é fornecer ao iniciado a ciência necessária para fundamentar sua adesão espiritual prévia. * A obra apresenta-se como um levantamento do véu sobre a sabedoria do Ressuscitador, cumprindo uma ordem de revelação de segredos imamológicos durante o período de ocultação. * O autor justifica a escrita como o cumprimento de uma ordem do Imam para revelar a potência e a sabedoria divina. * A entrega desses ensinamentos ocorre no contexto da ocultação para sustentar a vida teológica da comunidade. * O texto atua como um instrumento de mediação entre o silêncio da ausência e a necessidade de instrução dos fiéis. * A fundamentação das teses apoia-se na exegese espiritual do Alcorão e nos ditos dos Imames, recorrendo também a tradições proféticas e escrituras cristãs para validar a natureza messiânica do Guia. * A exegese espiritual ou ta'wil dos versículos corânicos fornece a base de autoridade para as proposições filosóficas. * As tradições proféticas são mobilizadas especificamente para legitimar o imatado e o anúncio da Ressurreição. * A inclusão de referências às escrituras cristãs e falas atribuídas a Cristo reforça a dimensão messiânica e universal do Imam. ---- A estrutura do texto parece-nos ser a seguinte: Capítulos I a VII: ontologia, teoria geral da emanação da Inteligência, da Alma e da Natureza, a partir do Imperativo divino. Capítulos VIII a XII: antropologia mística. Capítulos XIII e XX: teoria dos tipos de conhecimento. Capítulos XIV e XIX: teoria dos três mundos, dos três modos de ser e dos três “povos”. Capítulos XV e XXI: o paraíso, o inferno e o Retorno. Capítulo XVI: revelação e exegese de Adão, Eva e Iblis. Capítulos XVII e XVIII: Pessoas do Real e Pessoas da falsidade. Capítulo XXII: tratado de moral segundo os princípios da Ressurreição espiritual. Capítulo XXIII: os tipos de obediência moral. Capítulos XXIV e XXV: profecia e imamato. Doutrina da linguagem em função da essência da profecia e do imamato. Capítulo XXVI: a história “no céu” tornando-se história sacrossanta da humanidade. Capítulo XVII: debate com os adoradores dos astros e dos seres espirituais: primazia espiritual do homem. Assim, o primeiro capítulo inicia uma abordagem do Real como origem absoluta, enquanto o último capítulo se encerra com o Retorno integral, caracterizado pelo destino único do homem, cuja condição é transmutada pela ação e pela pessoa do Ressuscitador.