===== CARACTERES DO CONHECIMENTO MÍSTICO ===== //[[.:start|Vitray-Meyerovitch]], MPI// ** 1. A imediatez ** A intuição de certeza é uma visão que proporciona uma certeza subjetiva absoluta, sendo um conhecimento imediato e intuitivo que não dá margem a interpretações. * Rumi observa que os significados literais ou metafóricos podem receber diferentes interpretações, as quais são fonte de vãs imaginações. * O místico afirma que “esta conhecimento que é imediato e intuitivo não deixa lugar a nenhuma interpretação”. * Essa intuição mística se abre como um vislumbre, uma apreensão fulgurante que se acende por meio de uma imagem espiritual que arde no subliminar. * Em tal experiência imediata (waqt), a sensação do tempo é abolida, como quando se afirma: “Quando por um tempo permaneci... na contemplação (muraqabah) e me separei de mim mesmo, / Naquela hora, meu espírito foi liberado das horas”. * Aquele cujo coração está embriagado pelo Amado nada sabe sobre caminho, etapa, distância curta ou longa, pois estas são atributos do corpo e a viagem em espírito é de outra espécie. * A viagem do espírito é incondicionada em relação ao tempo e ao espaço, e este conhecimento, “aos olhos do vidente, é uma experiência imediata”. * Santo Agostinho diz: “No instante mesmo em que, pela palavra da verdade, és tomado por um relâmpago, permanece se puderes”. * Os Sufis em geral, e Rumi em particular, recordam a palavra atribuída ao Profeta: “Tenho ‘momentos’ com Deus nos quais nenhum querubim nem profeta enviado pode rivalizar comigo” (lî ma’a-llahi waqtun lâ yasa‘uni fihi malakun muqarrabun wa-lâ nabbiyyun morsalun). * Essa apreensão direta acompanha-se de um sentimento de presença, pois a alma, ao encontrar a eternidade no instante, aceita e reconhece como tal a transcendência que nela irrompe. * A respeito da teoria platônica, indica-se que o sentimento de contato com o ser existente é o signo distintivo da contemplação, a qual “só pode visar um ser visto pelo nous, sentido como presente em uma espécie de encontro que ultrapassa o conhecimento noético”. * Tauler precisa que, quando o divino se torna objeto de uma experiência, sua presença se reconhece por um certo gozo, um certo gosto (in schmackender Wise), que é o dhawq dos Sufis. * A “presença” (hudur) é definida pelos Sufis como “presença do coração, enquanto prova da fé intuitiva (yaqîn), de modo que o que lhe está oculto tem a mesma potência que o que lhe é visível”. * Rumi indica que nenhuma prece é completa sem esse sentimento de presença (hudur) e afirma que o conhecimento tradicional não passa de tagarelice comparado a essa experiência imediata: “Em verdade, esses ditos não são senão um substituto da visão, destinam-se àquele que está ausente, e não àquele que está presente”. * Rumi define a presença como presença a si mesmo, e Al Hallaj define a Sabedoria esotérica: “A Sabedoria (ma‘rifat) é a introdução gradual da consciência íntima (sirr) entre as categorias do pensamento”, ou seja, “a apresentação do ‘subconsciente’ no domínio da reflexão”. * Para Rumi, a presença é concebida como o encontro fora do tempo da consciência empírica com o Eu profundo (sirr) transconsciente, pois ele define o coração do homem como Lâ-makan, aquilo que transcende as categorias espaciais e temporais. * Afirma Rumi: “Fica outra coisa a dizer, mas é o Espírito Santo que dele te fará o relato sem mim. / Ou melhor, és tu mesmo que o dirás ao teu próprio ouvido — nem eu, nem outro que não eu (te o dirá), ó tu que és eu mesmo”. * Questiona o místico: “Qual é aquele em meu ouvido que escuta minha voz, qual é aquele que profere palavras por minha boca? Quem em meus olhos toma emprestado meu olhar? Qual é, enfim, a alma da qual sou a veste?” ---- ** 2. A transmutação dos sentidos ** Existe uma faculdade ou órgão inato na alma de cada pessoa, pelo qual se aprende, sendo necessário converter-se com a alma inteira até que se suporte o esplendor do ser. * Djalal-ud-Din Rumi observa que cada categoria de percepções requer um sentido particular e que existe no ser humano um outro instrumento oculto com o qual se pode perceber Deus. * Shabestari precisar que, além da razão, o homem possui uma certa faculdade graças à qual percebe os mistérios ocultos, a qual Deus colocou no corpo e na alma do homem, como o fogo na pederneira e no aço. * A noção do olho espiritual aparece constantemente em místicos orientais e ocidentais: Hugo de São Vítor chama esse sentido interior de olho da inteligência; Santo Agostino afirma que a inteligência tem seus olhos, que são os sentidos da alma; Hâtef, poeta persa da época safávida, escreve: “Abre o olho do coração (Tchashm-e del) para ver claramente o que não é visível”. * Rumi retoma essa ideia afirmando que o ser humano não é o corpo, mas sim esse olho espiritual, e que o homem é essencialmente olho, sendo o resto apenas carne, e aquilo que seu olho contemplou, ele é essa mesma coisa. * Rumi declara que o homem não é nada além da pupila de seu olho, que o olho externo é apenas a sombra desse olho interior, e que é preciso distinguir a falsa da verdadeira aurora para que, desses olhos que veem as sete cores, a paciência e a espera façam nascer um olho espiritual. * O místico ordena: “Purifica o olho do teu coração”, “acostuma teu olho à luz, se não és um morcego; olha nessa direção”, e afirma que o homem é um olho e a vista consiste em ver o Amado. * Rumi ensina que a visão é a única coisa que importa em ti, e que é preciso transformar todo o corpo em visão, tornar-se olhar. * Uma espécie de visão apenas avista dois hectares de estrada, enquanto outra contempla os dois mundos e a Face do Rei. * Atribui-se a Bayazid Bistami a palavra que Rumi põe na boca de um “rei espiritual” sem nomeá-lo: “Ninguém se torna um gnóstico (carif) antes que cada um de seus cabelos se tenha tornado um olho que vê”. * Edward Carpenter observa que a percepção mística parece ser de tal sorte que todos os sentidos se unem em um só. * Rumi descreve o “Começo da iluminação do gnóstico pela Luz que vê o mundo invisível”: quando um dos sentidos afrouxou seus laços, todo o resto dos sentidos se transforma; quando um sentido percebeu coisas que não são objetos de percepção sensorial, o que é do mundo invisível torna-se aparente a todos os sentidos. * Rumi compara os sentidos a ovelhas: quando uma ovelha do rebanho saltou sobre o riacho, todas saltam por sua vez; é preciso conduzir os sentidos ao pasto nos prados verdejantes da Realidade, para que cada sentido se torne um apóstolo para os outros e os conduza ao Paraíso, e então esses sentidos dirão seu segredo aos sentidos, sem palavras. * O que Rumi chamava de “tornar-se todo inteiro olhar” representa uma transmutação, sendo preciso aguardar pacientemente que os sentidos corporais sejam transmuados para que se possa ver o que está oculto. * No comentário que dá à história dos Três Príncipes e da Cidadela maravilhosa, Rumi fala dos cinco sentidos espirituais que o homem possui além dos sentidos corporais, e afirma que seu coração tem cinco sentidos, sendo os dois mundos a cena dos sentidos do coração. * Esses cinco sentidos espirituais (hawas-e del) têm uma mesma origem, provêm do Espírito Universal (aql-i-kulli) e se correspondem: todos os cinco provêm de uma mesma raiz; a força de um dá vigor aos outros; a visão aumenta o poder da palavra, e a palavra inspirada torna a visão mais penetrante; a clarividência aguça cada sentido, de modo que a percepção das coisas espirituais se lhes torna familiar a todos. * Ibn ul-Farid descreve essa metamorfose: “Meu olho falava enquanto minha língua olhava; meu ouvido conversava e minha mão escutava; / E enquanto meu ouvido era um olho para contemplar tudo o que era mostrado, meu olho era um ouvido que escutava um canto”. * Para descrever essa transmutação, Rumi recorre à linguagem da alquimia: a espada da realidade é uma das armas dos santos, e vê-los e associar-se com eles é tão precioso quanto o Elixir (Kimîya); é bem conhecido que o cobre pela alquimia se torna ouro, e o cobre da existência foi transmuado por essa alquimia maravilhosa. * Rumi exorta a buscar a transmutação, a contemplar os alquimistas do Céu, a escutar a cada instante as palavras que provêm dos fabricantes espirituais da pedra filosofal. * Afirma o místico: de Teus olhos provêm maravilhosas transmutações; de Tua largueza infinita veio, à alma-falcão que voava para Ti, um olho interior; de Ti, seu nariz adquiriu esse sentido interior do olfato, e seu ouvido essa audição interna; a cada sentido foi alocada uma parte desse sentido espiritual que estava repartido entre todos. * Rumi declara que, uma vez que Tu deste a cada sentido o meio de aceder ao Invisível, esse sentido espiritual não está submetido à fragilidade da morte, pois Tu és o Senhor do reino e dás ao sentido espiritual algo que lhe é próprio, de modo que esse sentido exerce sua soberania sobre todos os sentidos. * Não se trata mais de um aumento de conhecimento, mas de uma transformação da própria essência: quando o pão inanimado se associa à vida, o pão se torna vivo e é transformado na substância dessa vida. * Assim, Djili podia falar do nível mais elevado do conhecimento como de uma transubstanciação. * A alma que ainda não está madura é muitas vezes comparada por Rumi ao embrião, que deve sofrer uma metamorfose para passar de um nível a outro: é preciso mover-se como o embrião para receber os sentidos que contemplam a luz, e então se estará fora deste mundo semelhante à matriz, indo da terra para uma vasta extensão. * Rumi afirma que a palavra “a terra de Deus é vasta” se relaciona com essa vasta extensão onde entraram os santos, e pede: “Fala, ó príncipe dos crentes, para que minha alma possa mover-se em meu corpo, como o embrião”. * Questiona o místico como o embrião tem a possibilidade de se mover durante o período em que é governado pelos astros, e responde que ele se vira longe das estrelas em direção ao sol; quando chega o tempo de o embrião receber o espírito vital, o sol se torna seu auxiliar, pois o sol rapidamente o dota de um espírito. * Rumi indaga de que maneira o embrião se relaciona, na matriz, com o magnífico sol, e responde que é de maneira oculta, distante da percepção sensorial, pois o sol no céu possui vários meios: o meio pelo qual o ouro recebe seu alimento, o meio pelo qual a pedra se torna uma jacinta, o meio pelo qual o rubi se torna purpúreo, o meio pelo qual a ferradura brilha como um relâmpago, e o meio pelo qual o fruto amadurece e dá coragem ao homem amedrontado. * Rumi fala de “uma maravilhosa relação, um maravilhoso elo oculto”: o coração possui o selo de Salomão, de sorte que exerce seu controle sobre os cinco sentidos; os cinco sentidos externos são fáceis de dirigir para ele, e os cinco sentidos internos estão sob seu comando. * Então, “Aquele que diz a palavra, aquele que ouve a palavra e as próprias palavras, todos três se tornam espírito no fim”. ** 3. A unidade do espírito ** A unificação da alma (djamîyyat) consiste em esquecer todo o resto e permanecer totalmente absorvido na contemplação do Ser Único, enquanto a distração ou desunião (tafriqah) consiste em dividir o coração prendendo-o a diversos objetos. * É na medida em que a alma se reúne que ela encontra o eidos; entrando assim em si mesma, ela se liberta do corpo, dos sentidos exteriores, da matéria; pura então, seu olho se abre à visão das formas puras. * As diferentes etapas da viagem mística conduzem a uma simplificação cada vez maior do ser: apreensão intuitiva que opera uma fusão do consciente e do inconsciente, na imediatidade de uma visão sintética, simbiose dos sentidos e das faculdades onde se abole a distinção, e onde exterioridade e interioridade se confundem. * A contemplação só poderá exercer-se quando for realizada essa unificação da psique, a henosis de Plotino, o Tawhid do ponto de vista subjetivo, que Ibn ul-cArabî define como um silêncio interior. * Rumi afirma que a parte precedente de seu discurso foi expressa conforme a inteligência do vulgo, e o resto foi ocultado; o ouro, que é a inteligência, está em fragmentos, sendo preciso unir essas partes dispersas por meio do amor. * Quando se tornar uno, grão por grão, então será possível colocar sobre si a impressão da tintura do Rei. * Uma prece atribuída pelos Sufis ao Profeta faz dizer: “Ó Senhor! Reúne minha dispersão!”; Djami diz: “Ó peregrino (salik) sobre a ‘Via’... negligencia todas as estradas exceto a da Unidade. ‘Reúne’ teu próprio coração”. * O ato de contemplação, que requer a unidade do espírito, é por sua vez unificante, sendo transcendida toda dualidade de sujeito e objeto. * Rumi afirma que, quando o espírito é iluminado pela Razão Universal, a Luz divina se torna a luz dos olhos, e tanto a questão quanto a resposta vêm de nós mesmos. * Se se olha de través, o disco da lua parece duplo: olhar assim as coisas com perplexidade é como uma questão; mas olhar retamente no claro da lua, para ver a lua em sua unidade, tal é a resposta; se o pensamento é justo, ele é o irradiamento da Luz divina.