====== 3.1 Amor ====== //BOTTÉRO, Jean. Au commencement étaient les dieux.// **O amor livre na Babilônia** 1. Junto com o Egito antigo, a antiga Mesopotâmia é o país mais antigo a conhecer e usar a escrita, legando, entre 3000 a.C. e as proximidades da era cristã, um monumental acúmulo de cerca de meio milhão de tabuletas que abrangem os mais diversos gêneros, desde as contas mais minuciosas de boticários até as criações mais desenfreadas do imaginário. 2. Seria surpreendente que nesse gigantesco emaranhado, examinado há mais de um século pelos assiriólogos, não se encontrasse material capaz de dar uma ideia da vida sexual e amorosa dos antiquíssimos habitantes do país onde nasceu, na passagem do IV para o III milênio, a primeira grande civilização verdadeiramente digna desse nome, complexa e refinada em todos os setores da existência. 3. Embora ignorassem muitos dos tabus modernos relativos ao sexo, os mesopotâmicos não gostavam de alardear por escrito suas preocupações, capacidades e proezas nesse domínio, naturais demais para merecer dissertação, e mesmo em sua correspondência, a parte mais pessoal de sua literatura, guardavam estranho pudor quanto aos sentimentos íntimos, sem declarações de amor nem efusões de ternura, apenas raramente sugeridas, como na carta em que a rainha de Mari, por volta de 1780 a.C., deseja ao esposo em campanha que regresse logo, tranquilo e satisfeito, e o convida a usar as roupas de lã que lhe prepara e envia. 4. Se a herança literária revela pouco das experiências, alegrias e dramas pessoais desencadeados pelo amor, seja sentimento, paixão ou simples divertimento, ela permite entrever amplamente como esses ancestrais o compreendiam e praticavam e os prazeres e penas que trazia à vida, tanto mais que, tendo imaginado os deuses à sua própria imagem elevada ao superlativo, muitas peças sobre essas altas personagens informam tão bem ou melhor do que se tratassem de simples mortais. 5. Na Mesopotâmia, como hoje, os impulsos e capacidades amorosos eram tradicionalmente canalizados pela coerção coletiva para assegurar a família, célula do corpo social, e sua continuidade, de modo que o casamento era a vocação fundamental, o destino de cada homem e mulher, referido à vontade radical dos deuses, sendo considerados marginais, votados a uma existência lânguida e infeliz, o jovem solitário que não tomara mulher nem criara filhos e a jovem nunca desvirginada nem fecundada, a quem nenhum marido despira para estreitá-la e fazê-la provar o prazer até que seus seios se enchessem de leite e se tornasse mãe. 6. O casamento, normalmente monogâmico, era arranjado muito cedo pelos pais dos noivos desde a infância destes, às vezes até antes do nascimento, reunindo-os somente quando a esposa se tornava núbil, momento em que deixava sua família para ser introduzida na casa paterna do marido, onde permaneceria até a morte, salvo se fosse estéril e incapaz de cumprir sua função essencial, caso em que podia ser repudiada. 7. Essa instituição não esgotava todas as possibilidades amorosas, como mostra a faculdade concedida a cada homem, segundo suas fantasias e sobretudo seus recursos econômicos, de tomar uma ou várias esposas secundárias ou concubinas, e sobretudo a quantidade de incidentes, aventuras e dramas conjugais registrados nos manuais de casuística jurisprudencial impropriamente chamados códigos de leis, nas peças de processos judiciais e nos tratados divinatórios, cujos presságios apenas transpunham o já vivido. 8. Nesses textos aparecem homens que se lançam em plena rua sobre mulheres para seduzi-las ou violentá-las, ou que dormem com elas em segredo, casadas ou não, sob o risco de flagrante do marido, do pai ou de testemunhas, e mulheres que levam vida leviana e dão o que falar, outras tidas por fáceis, outras que traem o marido abertamente ou às escondidas com a ajuda de amigas complacentes ou alcoviteiras, outras que abandonam o lar até oito vezes ou se prostituem, e outras que chegam a se livrar do marido incômodo denunciando-o, mandando assassiná-lo ou matando-o com as próprias mãos. 9. Uma vez descobertas, essas faltas eram severamente punidas pelos juízes, inclusive com a morte, as dos homens na medida em que causavam grave dano a terceiros e as das mulheres porque, mesmo secretas, podiam prejudicar seriamente a coesão familiar, sem contar que, nessa cultura profundamente patriarcal, o homem era de pleno direito senhor absoluto da esposa, assim como de seus servos, gado e bens. 10. Ao lado do amor submetido às necessidades da sociedade havia lugar para o amor livre, praticado livremente por cada um para seu próprio prazer e assegurado, para não prejudicar ninguém, por especialistas que exerciam o que hoje se chamaria prostituição, profissionais de ambos os sexos, já que, segundo os gostos e concepções da época e do país, o amor não era forçosamente heterossexual. 11. Ao contrário do que ocorre hoje, o ofício desses profissionais era provavelmente impregnado de religiosidade, pois participavam como tais de cerimônias litúrgicas, sobretudo em certos santuários, e tinham por padroeira e modelo a deusa chamada Inanna em sumério e Ishtar em acádio, a mais notória do panteão, que levava o título de Hieródula, prostituta sobrenatural. 12. Esses oficiantes do amor livre eram aparentemente numerosos, sobretudo em torno de certos templos, e eram tratados como marginais, relegados à fronteira do espaço socializado das cidades, na região das muralhas, pouco protegidos contra maus-tratos, afrontas e desprezo, porque, segundo sugere um mito sumério, cada um deles havia falhado em seu destino específico, as mulheres o de ter um só marido para lhe dar filhos e os homens o de desempenhar no amor o papel masculino. 13. Esse juízo depreciativo sobre o pessoal a serviço do amor livre não impedia que essa atividade humana fosse tida na mais alta estima como prerrogativa essencial da cultura refinada, como explica sem rodeios outro mito sumério e como prova a história de Enkidu, futuro amigo e companheiro de Gilgamesh, no início da Epopeia de Gilgamesh em acádio. 14. Nascido e criado na estepe, tendo por única companhia os animais selvagens, espécie de bruto poderoso e de belo animal, Enkidu descobre o amor verdadeiro, não mais bestial, mas com uma mulher experiente e lasciva, graças a uma prostituta enviada para amansá-lo, que se despe diante dele, beija-o ousadamente e mostra ao selvagem o que uma mulher é capaz de fazer, enquanto ele a cobre de carícias. 15. Após seis dias e sete noites de enlace, Enkidu fica completamente subjugado por essa encantadora e pronto a segui-la a toda parte, e ela o faz deixar a estepe natal e os companheiros animais, que agora fogem dele, levando-o à cidade, onde, graças a ela, se torna um homem no sentido pleno, culto e civilizado, de modo que é o amor livre que o conduz da natureza à cultura, prova máxima da estima por esse privilégio da alta civilização, a possibilidade de exercer livre e plenamente, se necessário com a ajuda de especialistas, as capacidades amorosas inatas. 16. Nenhuma proibição explícita nem inibição consciente ou inconsciente freava o exercício dessa prerogativa, pois fazer amor era atividade natural, culturalmente enobrecida como o comer magnificado pela culinária, e ninguém se sentiria rebaixado, diminuído ou culpado diante dos deuses ao praticá-lo de qualquer maneira, desde que não prejudicasse terceiros nem infringisse algum dos interditos costumeiros que esquadrinhavam a vida cotidiana, como a desaconselhada ou proibida união em certos dias do ano, por exemplo o 6 do mês de Tashrit, em setembro-outubro, por razões ignoradas, ou a grave falta de dormir com certas mulheres reservadas total ou parcialmente aos deuses ou de engravidá-las. 17. À parte essas restrições, a prática do amor não só não levantava qualquer problema de consciência como os próprios deuses estavam prontos a contribuir para seu êxito, desde que solicitados segundo os ritos, como atestam orações e exercícios devotos para favorecer o amor de um homem por uma mulher, de uma mulher por um homem ou de um homem por outro homem, sendo o amor sáfico conhecido por outras fontes, além de outros para seduzir uma mulher, para conseguir fazer amor, literalmente rir, um dos numerosos sinônimos imagéticos da linguagem erótica, para o homem que ainda não conseguira deitar-se com uma mulher ou para que uma mulher se deixasse seduzir. 18. Outros procedimentos análogos, espécies de encantos quase sempre subordinados à ajuda implorada dos deuses e por isso mais sacramentais que mágicos, são ainda mais eloquentes, recenseados em pelo menos setenta por um catálogo parcialmente perdido e recuperados em pouco mais de trinta, muitas vezes danificados, todos postos na boca da parceira, a mulher e não a esposa, com o fim de obter que o amante, resistindo até o fim, lhe assegure todo o prazer físico a que tinha direito, capacidade masculina de conduzir sem falha a amante ao orgasmo chamada na linguagem erótica nîsh libbi, literalmente levantar do coração, metáfora transparente. 19. Essas orações dirigidas a deuses e deusas são notáveis por mostrarem quanto prazer sexual e sentimento religioso eram compatíveis e por atestarem que, numa sociedade aparentemente tão machista, a mulher era no amor verdadeiramente igual ao homem, com o mesmo direito ao prazer, não objeto nem instrumento, mas autêntica parceira. **"Sou ardente"** 1. O conteúdo dessas devoções, particularmente saboroso, introduz na intimidade do casal em ação, revelando uma amante inflamada, desenfreada e um tanto louca, que delira e ruge de desejo e prazer, como numa prece feita apenas de gritos eloquentes em que exige do parceiro excitação e vigor comparáveis aos do cervo, do touro selvagem, do muflão e do macho da perdiz, animais famosos por sua potência sexual, invocando sua juventude e seu ardor e prometendo apaziguá-lo sob a proteção do deus Ningirsu. 2. Um documento inesperado e muito sugestivo permite permanecer na alcova: o capítulo dedicado às relações sexuais e conjugais de um volumoso tratado divinatório, que trata não dos aspectos rotineiros, banais e constantes, como as posições universalmente adotadas, mas apenas das fantasias menos habituais e dos acidentes que podiam ocorrer durante os folguedos amorosos. 3. Por vezes se escolhia um cenário excêntrico em vez do lugar de eleição, o quarto de dormir, fazendo amor no telhado-terraço da casa, na soleira da porta, em pleno campo ou pomar, num lugar deserto, num beco sem saída ou em plena rua, com uma mulher qualquer sobre a qual se lançava ou com uma prostituta, ou ainda indo com esse fim, só ou acompanhado, à taberna, que servia ao mesmo tempo de botequim e de lupanar. 4. Diversas posições pouco habituais podiam ser adotadas, de pé, numa cadeira, atravessado na cama ou sobre a parceira, por trás ou por sodomia, montado pela mulher ou até assumindo talvez o papel feminino, e praticava-se também o amor homossexual, sodomizando alguém do próprio meio, isto é, um não profissional, ou um dos próprios criados ou servos, quando não se recorria a um invertido qualificado, ou preferindo-se tão deliberadamente submeter-se a outros homens que se acabava passando por profissional. 5. Nenhuma alusão ao uso sexual da boca foi jamais encontrada nesses documentos ou em outros, o que leva a supor que felação e cunilíngua, bem conhecidas na época em outros lugares como o Egito, fossem objeto de aversão particular ou de interdito costumeiro, ao passo que a sodomia era corrente, com mulheres e com homens, atestada por numerosas figurinhas e mencionada sem rodeios nos textos, chegando a ser escolhida como prática contraceptiva, como no tratado de extispicina que menciona uma sacerdotisa que se faz sodomizar para evitar engravidar. 6. Os textos médicos acrescentam a esse quadro doenças contraídas, aparentemente por contágio, na cama com uma mulher, e afecções propriamente venéreas, chamadas doenças do coito, e descrevem até o mal de amor, com traços ainda familiares, como tosse contínua, falta de palavras, solilóquios, risos sem motivo, depressão, garganta apertada, ausência de prazer em comer e beber e suspiros constantes pelo pobre coração, observando excepcionalmente, num texto que normalmente só trata do sexo masculino, que para o homem e para a mulher é a mesma coisa. **Suspiros e arroubos** 1. Isso ultrapassa o simples erotismo e introduz no domínio do amor-sentimento, cujos ecos de suspiros, arroubos, chama, doçura, ternura, por vezes tempestades e fúria, expressões do apego visceral ao outro e da necessidade irreprimível dele, encontram-se sobretudo na literatura propriamente dita, especialmente na poesia, onde o verdadeiro amor do coração, capaz de despertar e apoderar-se do erotismo sem dele precisar para se nutrir, o anima e o torna nobre e realmente à medida do homem. 2. Poemas e cantos de amor profanos são raros nas belas-letras mesopotâmicas recuperadas, e a única peça quase inteira, de cerca de cento e cinquenta linhas conservadas em dois terços, composta por volta de 1750 a.C. num acádio arcaico e ultraconciso, de vocabulário particular e frequentemente obscuro, dividida em curtas estrofes que formam o diálogo entre dois amantes, situa-se inteiramente no plano dos sentimentos, sem qualquer alusão ao sexo, desenvolvendo o tema da amante que suspeita de fraqueza do amado por outra, queixa-se, proclama um amor que floresce em ciúme terno e veemente e se diz convencida de reconquistar o volúvel por sua lealdade, jurando-lhe fidelidade diante de Ishtar, a Soberana, e prometendo que seu amor prevalecerá sobre a rival maledicente. 3. A amante nega que a rival ame verdadeiramente o amado e deseja que Ishtar, a Soberana, a confunda e a faça perder o sono como ela, passando noites transtornada e abatida. 4. A amante promete abraçar e beijar o querido sem cessar e devorá-lo com os olhos, para assim vencer a rival e reencontrar o bem-amado. 5. A amante declara buscar o encanto do amado e ter sede de seu amor. 6. Diante dessas declarações tocantes e ardentes, o amante, como todos os homens nesses casos desde a noite dos tempos, não tem o papel mais bonito, limitando-se a negações, mau humor e rejeições que não desencorajam a interlocutora, mandando-a calar, recusando discursos vazios, negando mentir e afirmando ser vão esperar seriedade de uma mulher. 7. O amante pede que ela não acredite nos boatos de que deixou de ser a única a seus olhos, mas confessa que o amor dela se tornou para ele apenas perturbação e aborrecimento. 8. Vencido por fim pela fidelidade, pela discrição e pela ternura da amante, o homem volta a ela como esperava, declarando-a a única que conta, de rosto belo como outrora, quando se estreitavam e ela repousava a cabeça sobre ele, prometendo chamá-la apenas Encantadora e Sábia e jurando diante de Ishtar que a rival será dali em diante inimiga do casal. **"É para esta noite!"** 1. Esse documento único, consagrado a exaltar o amor puro e desinteressado de uma mulher lançando alguma sombra sobre o sentimento do homem amado, não foi isolado, pois um catálogo do fim do II milênio a.C. reunia pelos títulos, isto é, pelas primeiras palavras, quase quatrocentos poemas ou cantos amorosos, dos quais resta cerca de um quarto, títulos eloquentes que compõem por si sós um belo quadro dos sentimentos amorosos. 2. Um dos títulos expulsa o sono para que a amante possa estreitar o querido nos braços. 3. Outro título exprime que a palavra do amado dilata o coração da amante a ponto de morrer. 4. Outro título anuncia a piscadela do olho direito dirigida ao amado. 5. Outro título declara a amante apaixonada pelos encantos do amado. 6. Outro título confessa a noite inteira passada em claro, em vigília pelo querido. 7. Outro título celebra a felicidade de um dia que só trouxe boas notícias. 8. Outro título denuncia uma rival sem valor que pretende suplantar a amante. 9. Outro título marca o encontro para aquela mesma noite, para aquela tarde. 10. Outro título exclama o encanto e a beleza da amada. 11. Outro título evoca a mulher que busca o belo Jardim do prazer que o amante lhe dará. 12. A maior parte dos poemas e cantos de amor conservados gira em torno da deusa vista ao mesmo tempo como Protetora e Modelo sobrenaturais do amor livre, Inanna/Ishtar. 13. Imaginados segundo o modelo humano, os deuses tinham cada um sua esposa e até concubinas, fundavam famílias e tinham filhos, e nesse plano tudo corria entre eles sem incidentes, sem mitos ou lendas que, como entre os gregos, repercutissem tempestades e desventuras conjugais entre divindades. 14. Os deuses praticavam também o amor livre, sobretudo Inanna/Ishtar, personalidade excepcional, totalmente independente, sem vínculo conjugal ou materno, entregue apenas a seus caprichos e paixões, a quem se atribuíam muitas aventuras, a mais lembrada e documentada em textos mitológicos e líricos sendo a primeira, seu amor de juventude com Dumuzi em sumério, Tammuz em acádio, provavelmente um soberano arcaico heroicizado e depois divinizado, considerado pastor, depois de uma hesitação entre ele e o deus agricultor Enkimdu, eco provável de uma situação econômica e social remota de rivalidade entre agricultores e criadores de gado miúdo, principais agentes da produção local. 15. Uma peça suméria descreve Inanna sonhando antecipadamente com o amor, imaginando-se banhada, enfeitada, com o rosto coberto de creme e os olhos pintados de kohl, envolvida pelas mãos encantadoras de Dumuzi, acariciada nos seios e no sexo, recebendo dele a vida e acariciando-o longamente por sua vez, e exaltando a doçura de dormir de mãos dadas e o prazer suave de estreitar o coração dele contra o seu. 16. Inanna também fugia furtivamente, como uma adolescente apaixonada, para encontrar o querido sob as estrelas que cintilavam como ela, demorando-se em suas carícias até perceber o avanço da noite e perguntar-se que mentira contaria à mãe, Ningal, para explicar a ausência e o atraso, enquanto Dumuzi lhe sugeria dizer que as companheiras a haviam levado para ouvir música e dançar, cena que parece dos dias de hoje. 17. Os amores de Inanna e Dumuzi foram celebrados também na liturgia, especialmente na passagem do III para o II milênio, num Casamento sagrado em que a união dos dois amantes sobrenaturais era ao mesmo tempo figurada e realizada não por meio das imagens dos deuses, como ocorreria mais tarde, mas por uma verdadeira noite de amor entre o soberano do país, representando Dumuzi, e uma sacerdotisa no lugar de Inanna. **Um prazer doce como o mel** 1. Existe todo um dossiê sobre esse rito, e os arqueólogos que escavavam Uruk em 1935 exumaram até o colar de certa Kubatum, querida do rei Shu-Sin (por volta de 2030 a.C.), que ao menos uma vez desempenhou esse papel, ocasiões para as quais se compunham cantos ou recitativos de circunstância, por vezes ainda cativantes apesar dos clichês inevitáveis nesses poemas de corte. 2. Um exemplar conservado inteiro, que evoca o Cântico dos Cânticos bíblico, datado do mesmo rei Shu-Sin e talvez posto nos lábios da encantadora Kubatum, celebra o amante querido e leão do coração, cujo prazer é doce como o mel, confessa a amante arrebatada e trêmula desejosa de ser levada ao quarto, de acariciá-lo e mergulhar em suas delícias, e, após o prazer partilhado, pede que ele o conte à mãe, que lhe oferecerá guloseimas, e ao pai, que lhe dará presentes, convidando-o a dormir na casa até o raiar do dia. 3. Da ternura à paixão e da doçura à volúpia, esses folguedos de Inanna e Dumuzi são apenas a projeção numa tela sobrenatural dos arroubos que agitavam os homens no coração e na carne, traduzindo não só os amores dos velhos ancestrais mesopotâmicos, mas também os de hoje, já que ainda se vibra diante desses quadros lascivos e ternos, desses murmúrios e gritos de paixão imortalizados em belos poemas de quase quatro milênios. 4. Esses povos haviam penetrado tão bem os segredos do coração que já sabiam que os grandes amores sempre terminam mal, como contam os mitos em que Inanna/Ishtar acaba abandonando covardemente o amante, condenando-o à morte e enviando-o ao Reino das Sombras, onde ela própria um dia se extraviara imprudentemente e de cujo Cárcere poeirento só se libertara com a condição de deixar um substituto, ao passo que uma série de elegias, recuperadas quase inteiras, lamentava as angústias e torturas do infeliz Dumuzi/Tammuz perseguido pelos esbirros infernais que reclamavam sua presa e sublinhava o sacrifício heroico de sua irmã Geshtinanna, que se oferecia para partilhar com ele a estada no Império dos Mortos, opondo já o verdadeiro amor, desinteressado e nobre, à embriaguez ruidosa, porém frágil e enganosa, da paixão. {{tag>Bottéro Mesopotâmia religião mito deuses amor sexo}}