====== 1 Seres remotos ====== //CALASSO, Roberto. O ardor. São Paulo: Companhia das Letras, 2010/2021.// 1. Os homens védicos são seres tão remotos, não só do homem moderno mas de seus próprios contemporâneos antigos, que a distância de observação se torna irrelevante, e mesmo para os nascidos na Índia o que deles sobrevive são apenas fragmentos de um sonho cuja história foi apagada. 2. Sem data nem território precisos, situados há mais de três mil anos no norte do subcontinente indiano, os védicos não deixaram objetos nem imagens, apenas palavras rituais centradas no soma, planta inebriante jamais identificada e já para eles coisa do passado. 3. A Índia védica, sem grandes figuras históricas nem acontecimentos registrados, foi a civilização em que o invisível prevaleceu sobre o visível, restando dela apenas o Veda, o Conhecimento, feito de hinos e prescrições inseridos em ações rituais que iam da libação doméstica diária ao grandioso sacrifício do cavalo. 4. Os Ārya ignoraram a história com um desdém sem paralelo, sem registrar reis nem conquistas, de modo que o pouco que deles se sabe diz respeito não a façanhas, mas ao conhecimento. 5. Concebendo os "atos" sobretudo como atos rituais, os védicos jamais buscaram fundar um império e concentraram sua lucidez na essência da soberania, dividida entre brâmanes e kṣatriya, auctoritas e potestas, diarquia cuja tensão entre harmonia e conflito atravessa toda a história. 6. A divisão terrena entre culto brâmane e governo kṣatriya tinha modelo celeste na aliança entre Indra e Bṛhaspati, perturbada desde o início por Soma, rei e suco inebriante, cujo rapto de Tārā, esposa do brâmane dos deuses, revela que as guerras entre Deva e Asura se travavam pela mais perigosa das mulheres. 7. Sem templos, muralhas nem reinos definidos, os védicos viviam em torno de três fogos rituais, usando tijolos apenas para o altar em forma de ave, num modo de vida absorto em murmúrios e cantos cuja abundância de imagens mentais talvez explique o desinteresse por esculpir deuses. 8. Ao descer à Terra dos Sete Rios e à planície do Ganges, o povo védico abriu caminho na floresta com o fogo divino Agni, vivendo em aldeias provisórias e seguindo os rebanhos para o leste, na idade de ouro dos ritualistas. 9. Pequenos grupos de oficiantes moviam-se em espaços nus em torno de fogos sempre acesos, num murmúrio de vozes e cantos em que se decidia cada detalhe da vida e da morte, sem que isso fosse perceptível a um estranho. 10. Na ausência quase total de vestígios materiais, os védicos ergueram um Partenon de palavras, a língua sânscrita, cujo nome significa "perfeito". 11. A falta de vestígios não decorre do clima, como supõe o evemerismo ocidental, mas da concepção de que toda construção, inclusive o altar do fogo, é um veículo provisório que, concluído o sacrifício, pode ser abandonado como carcaça enquanto Agni ascende ao sol, razão pela qual a ideia de templo nunca se desenvolveu. 12. Num mundo dividido entre aldeia e floresta e sem lugares sagrados fixos, o espaço sagrado era o palco do sacrifício, escolhido a cada vez segundo critérios precisos de elevação, firmeza e orientação em relação aos deuses, aos homens e aos antepassados. 13. Os requisitos do lugar sacrificial definem uma superfície neutra, origem do palco como espaço apto a acolher todos os significados, na qual em poucas palavras se diz como o mundo é feito, para onde foram os deuses e onde jaz a morte. 14. O sacrifício, quase nada visível no terreno nu, é uma viagem arriscada ao invisível comparável às travessias de Conrad, nas quais, como no mar, um único erro pode significar desastre. 15. O céu era para os védicos o verdadeiro oceano, contínuo com a terra, e o sacrifício era pensado como barco rumo ao mundo celeste, que um único sacerdote indigno bastaria para afundar. 16. As forças do palco sacrificial concentram-se em fragmentos do vajra de Indra, repartidos entre brâmanes, detentores da espada de madeira e do poste, e kṣatriya, detentores do carro e da flecha, numa divisão que explica por que o poder, desde a origem, nunca é inteiro. 17. As relações complementares e por vezes hostis entre poder espiritual e temporal, tema perpétuo da Índia do Ṛgveda aos Purāṇa, nunca se reduziram à oposição entre espírito e força, pois o ardor dos videntes ancestrais dos brâmanes superava em destruição qualquer exército real. 18. Os kṣatriya, por sua vez, não aspiravam apenas ao poder, e nos Upaniṣad e Brāhmaṇa chegam a iluminar ilustres brâmanes sobre doutrinas extremas que estes não alcançavam. 19. A enorme desproporção entre a rudimentaridade material da civilização védica e a complexidade e ousadia de seus textos revela um mundo em que tudo, mesmo reduzido ao mínimo, carregava significados avassaladores, num estado de pânico em que os hinos nasciam de disputas de enigmas cuja derrota podia significar a morte. 20. Da imensa civilização do Indo, extinta por razões desconhecidas por volta de 1600 a.C., resta um único nome, o do intérprete Su-ilisu, tradutor de uma língua até hoje indecifrada. 21. As tentativas de provar a origem indiana autóctone do cavalo, do sânscrito e do Ṛgveda não encontram apoio arqueológico nem textual, permanecendo a civilização do Indo e o mundo védico como dois universos paralelos de contato ainda obscuro. 22. Para os védicos a história não era digna de registro, e as raras referências a algo "antiquado" dizem respeito apenas a mudanças rituais, pois somente o ato litúrgico era um factum ligado a um verum, enquanto tudo o que se fazia fora do rito pertencia ao vasto reino da inverdade. 23. A Índia védica funda-se ao mesmo tempo numa exclusividade rigorosa, segundo a qual só se salva quem participa do sacrifício, e numa exigência de redenção total que admite ao sacrifício todos os seres vivos, partícipes de um antigo banquete outrora visível e agora invisível. 24. Nada era mais grave do que ser excluído do sacrifício, pois a vida sozinha não bastava para salvar a vida e a salvação, jamais individual, exigia uma forma ritual capaz de arrastar consigo homens, animais, plantas e deuses. 25. Essa visão de salvar todos os seres vivos admitindo-os ao sacrifício não tem equivalente em nenhuma outra grande civilização antiga e pertence paradoxalmente aos cruéis védicos, devotados aos sacrifícios sangrentos. 26. O mundo védico apresenta-se como autossuficiente e isolado, a ponto de os grandes vedistas, de Bergaigne a Renou, o estudarem como totalidade justificada em si mesma, um corpus inigualável em rigor formal, exclusão do tempo histórico, invasividade litúrgica e refinamento de suas conexões internas. 27. Reduzida aos poucos dados certos, a existência histórica dos Ārya, pequenos grupos seminômades vindos da Ásia Central, torna ainda mais assombrosa sua empresa, voltada não à conquista territorial nem à fundação de cidades, mas a um culto de textos complexíssimos e a uma planta inebriante, do encontro entre liturgia e êxtase nascendo mitologia e especulação. 28. A fórmula recorrente "aquele que assim sabe" exprime a supremacia do conhecimento sobre qualquer outro caminho de salvação, servida por um vocabulário extremamente sutil do pensamento e da inspiração, como dhī, que desafia toda tradução. 29. A obsessão védica pelo rito explica-se pelo desejo de viver apenas em certos estados de consciência, pensando e sobretudo tendo consciência de pensar, como na atenção concentrada sobre o gesto, que lhe confere sentido. 30. Diferentemente de Roma, onde o rito foi canalizado para a prática e o direito, na Índia védica a mais alta concentração do pensamento recaía sobre o gesto sem nenhum fim ulterior, segundo a doutrina de que pensar o brahman é ser o brahman. 31. O Ocidente nascido na Grécia foi secular desde o início, sem classe sacerdotal nem promessa de redenção, e a distância intransponível entre modernidade e gregos está em que estes não apenas criam em seus deuses, mas os encontravam, enquanto o moderno, injetando sub-repticiamente o sagrado no secular, o torna venenoso. 32. Índia védica e Grécia espelham-se em oposição, textos sagrados e sacerdotais de um lado, seculares e autorais de outro, mas quando suas figuras convergem, como em Helena e os Dióscuros e em Saraṇyū e os Aśvin, revelam histórias de simulacros e reflexos inscritas em toda mente, rios de histórias que desembocam no mesmo oceano. 33. A atenuação recente da imagem dos védicos como conquistadores, transformados em migrantes pacíficos, é correção legítima mas por vezes excessivamente zelosa, já que os únicos verdadeiros arianos da Europa, os ciganos, foram justamente vítimas do nazismo. 34. Ainda que talvez sem conquistas esmagadoras, os Ārya dominam o reino das imagens com o trovão de seus cavalos e carros de guerra, precedidos pelos Marut, cujo esplendor e terror cantados no Ṛgveda desmentem a figura de mansos pastores seminômades. 35. A epígrafe escolhida por Renou para suas traduções do Ṛgveda sugere que a poesia foi mallarmeana desde o nascimento, pois a "explicação órfica da Terra" buscada por Mallarmé encontra-se sobretudo nos hinos védicos. 36. A história indiana, frustrante para o filólogo ocidental pela incerteza de datas e transições entre gêneros, só se deixa compreender pela via autorreferencial, cada corpus explicado por si mesmo, enquanto a passagem do Ṛgveda aos Brāhmaṇa permanece território inexplorado. 37. Vista do Iluminismo, a Índia védica é escura, densa, autossuficiente e convulsiva, atravessada por desejos violentos mas sem sede de objetos ou poder, emblema do que é totalmente alheio à modernidade e a contemplaria com indiferença. 38. Para Schopenhauer, o acesso aos Vedas pelos Upaniṣad, graças à edição latina de Anquetil-Duperron, foi a maior vantagem do jovem século XIX sobre os anteriores. 39. A singularidade védica manifesta-se no fato de o primeiro comentário completo do Veda, o de Sāyaṇa, datar do século XIV, como se o primeiro comentário a Homero viesse dois milênios depois da Ilíada. 40. O mundo do Veda compõe-se de poucos elementos, fogo, água, gado, um oceano celeste, terrestre e mental, palavra, eros e liturgia, rochas, ornamentos e guerreiros. 41. As palavras-chave do Veda, aparentemente monótonas, possuem uma profusão de sentidos codificados, como padá, que da pegada da vaca se estende ao passo, ao pé métrico, à palavra e ao mistério por excelência que o poeta tenta revelar. 42. A história começa com o ardil do brâmane Gotama, que, mencionando a manteiga clarificada, fez o fogo Agni saltar da boca do rei mudo Māthava e queimar a terra rumo ao leste, mostrando que o primeiro ato histórico é do brâmane e que a civilização é antes de tudo um rastro de chamas que os homens seguem, pois quem conquista é Agni. 43. O ardil de Gotama tinha precedente na escolha de Prajāpati pelos Deva em vez dos Asura, que sacrificavam na própria boca, porque aqueles aceitaram que a oferenda fosse externa e passasse de um ser a outro, rompendo a membrana da autossuficiência. 44. Os védicos não buscaram poder, mas o êxtase do soma, que os fazia sentir imortais e próximos dos deuses, um êxtase que não era descontrole, mas invólucro protetor e coesão do corpo, unindo possessão e domínio supremo num só estado e projetando o desejo final de uma vida infinita como lenta expansão da luz. {{tag>Calasso mito Veda}}