====== Ardor ====== //CALASSO, Roberto. O ardor. São Paulo: Companhia das Letras, 2010/2021.// //SBROJAVACCA, Elena. Letteratura assoluta. Le opere e il pensiero di Roberto Calasso. Milano: Feltrinelli, 2021.// A analogia, grande paixão de Baudelaire, é o motor cognitivo do que Calasso chama de “pensamento védico”, ou seja, “a tentativa mais ousada e consequente de ordenar a vida obedecendo exclusivamente à modalidade analógica” (A, p. 421). Ele aborda esse tema em //L’ardore//, um comentário marginal a uma obra imensa como o //Śatapatha Brāhmaṇa//, retomando o fio da discussão a partir das histórias de [[..:ka:start|Ka]]. Entre os textos que a civilização védica nos transmitiu, não se encontram relatos de natureza historiográfica; apenas o ritual encontra espaço, o que demonstra, segundo Calasso, a importância exclusiva do universo litúrgico — um universo que parece não ter paralelo em toda a história da humanidade. Calasso compara, por exemplo, a liturgia védica à romana, destacando uma diferença abismal: se em Roma o fas, a esfera do sagrado, foi absorvido pelo ius, isso não aconteceu com os ritualistas védicos; o gesto litúrgico era para eles “desprovido de funções adicionais” (A, p. 31), desvinculado da necessidade de servir à sociedade, à qual já existia anteriormente. Esses “seres remotos” (A, p. 17) conceberam cerimônias sacrificiais que não têm paralelo, pois, de maneira superior a qualquer outra civilização, segundo Calasso, possuíam a consciência absoluta de que o sacrifício é uma morte ritual com a qual se conquista o domínio sobre a morte. São, portanto, inúmeros os pontos de contato de //Ardore// com as obras anteriores. Há, em primeiro lugar, algumas concepções já expressas em //[[..:ka:start|Ka]]//: a centralidade da mente, cuja “proximidade com a origem faz com que a mente sempre duvide de sua própria existência” (A, p. 145); a atenção absoluta à esfera da consciência; a dualidade do sujeito, no difícil equilíbrio entre o Eu e o Ser, expressa pela imagem oferecida pelo Ṛg Veda de dois pássaros agarrados ao mesmo galho, dos quais um come, enquanto o outro o observa comer (A, p. 157). 59 Retorna, além disso, um desafio, já narrado em //Literatura e os deuses//, entre Gārgī, teóloga tecelã, e o vidente Yājañavalkya, que passa a postular o caráter imortal da sílaba. Diz-se também de Yājañavalkya que ele antecedeu Baudelaire na ousada comparação entre a amada e a carniça de um animal (cf. A, pp. 60-61). Aliás, assim como os exemplos mais brilhantes da poesia decadente, os videntes védicos eram hábeis em captar o mal com suprema perspicácia. […] Era o mal metafísico, inerente a tudo o que é obrigado a destruir uma parte do mundo para sobreviver, portanto, em primeiro lugar, ao homem. (A, p. 71) Eu poderia citar ainda inúmeros pontos de ligação entre este volume e os anteriores, mas limito-me a acrescentar aos já mencionados um nó conceitual particularmente significativo em //A Ruína de Kasch//, mas intrínseco à própria natureza da narrativa calassiana. Trata-se da alternância entre o “polo analógico” e o “polo digital”, que distingue os dois modos pelos quais o pensamento pode proceder: Conectivo e substitutivo: as duas formas de funcionamento da mente podem ser assim definidas com base em seu caráter dominante. Mas, se nos referirmos à execução de suas operações, elas também poderiam ser definidas como analógicas e digitais. (A, p. 422) Remetendo para as páginas seguintes, onde se encontra uma abordagem mais aprofundada do tema, gostaria, no entanto, de ressaltar aqui que foi justamente a propensão para o primeiro desses dois pólos que permitiu a Calasso construir, com seus livros, uma estrutura especulativa de tal amplitude. Foi na crença na existência de um vínculo — em sânscrito, bandhu — entre o manifesto e o imanifesto que ele baseou sua rede de correspondências, na firme convicção de que nada menos do que isso era a tarefa da literatura. {{tag>Calasso mito Veda}}