====== 2 ====== //CALASSO, Roberto. LA TAVOLETTA DEI DESTINI. Milano: ADELPHI, 2020.// 1. Atordoado novamente por nomes estranhos e sons estrangeiros, Sindbad ouvia alguém falar como se conhecesse cada detalhe de sua vida, sem compreender a urgência daquelas histórias e preferindo saber onde estava. 2. Sindbad, que conhecera portos, tavernas, mercados, bordéis e palácios, jamais vira nada como Dilmun, nome ausente de toda carta náutica, lugar onde tudo poderia ser encontrado em outra parte, não fosse o brilho da luz e a sensação de que tudo poderia dissolver-se de um momento para outro. 3. Utnapishtim retomou sua narrativa. 4. O Dilúvio veio ao fim de uma longa história atormentada, quando os homens se multiplicaram e seu barulho irritou os Anunnaki, que enviaram por Namtar uma peste e, diante do conselho secreto de Ea, único deus capaz de falar contra os deuses, para que os homens fizessem ainda mais barulho e deixassem de reverenciá-los, enviaram a fome, secando a terra até parecer coberta de sal e levando mães e filhas a se devorarem, dias de desespero em que Utnapishtim falava em vão a Ea junto aos bambus até levar sua cama à margem do rio para ouvir, no silêncio da noite, a voz do deus vinda da água. 5. Utnapishtim tinha ouvido para Ea, cuja voz única reconhecia com a nitidez de uma voz humana, e falava-lhe em voz baixa diante de uma parede de bambu de sua cabana, muitas vezes sem resposta, mas às vezes ouvindo-o do outro lado, pois Ea nunca o chamava pelo nome e se dirigia à parede, ordenando ao bambu que escutasse, enquanto Utnapishtim ouvia na escuridão. 6. Na terra de Utnapishtim, dizia-se escuta para dizer atenção, pois se tinha o hábito de ouvir mais do que ver, sendo as cabeças tronos vazios onde se aglomeravam vozes, formas e vibrações, e só em Dilmun ele descobriu a maravilha de algo que se deixa ver sem fazer ruído, sua única companhia. 7. Não satisfeitos com os estragos da fome, os Anunnaki reuniam-se continuamente em conselho jurando agir em uníssono, como se fossem os primeiros a duvidar disso, com a única exceção de Ea, que, sentado em seu canto como hóspede recém-chegado, um dia caiu na gargalhada. 8. Cada vez mais furioso, Enlil anunciou o Dilúvio, com o qual os outros concordaram, mas Ea, recompondo-se, perguntou se poderia erguer a mão contra aqueles que criara, lembrando aos Anunnaki que só ele e Mami haviam estado na câmara do destino e que as águas subterrâneas dependiam dele. 9. Decidido o Dilúvio sem o apoio de Ea, castigo destinado a nivelar tudo numa imensa extensão de lama, Ea avisou Utnapishtim a tempo de construir o navio salvador e, antes disso, enviou-o numa missão secreta a sua cidade natal, Shuruppak, onde, conforme o cálculo de Ea sobre o alcance das águas, ele escondeu numa vala as tabuletas de argila que testemunhariam o que acontecera antes do Dilúvio, parte da história conhecida apenas pelos que transmitem as escrituras, dos quais Sindbad é o mais recente. 10. Dos detalhes esquecidos do Dilúvio, sempre úteis, resta que os Anunnaki primeiro percorreram a terra incendiando tudo com tochas, mas, quando as águas desabaram do céu e a terra emudeceu, aterrorizados, se encolheram no céu como cães, sem ter compreendido o que fariam, e a primeira a lamentar-se foi Mami, criadora dos primeiros homens, gritando o que os outros pensavam sem ousar dizer, como haviam podido jurar a devastação da terra. 11. Sem o Dilúvio, Utnapishtim teria continuado a ser um homem astuto entre muitos e o favorito de Ea, mas o capricho temerário de Enlil, logo lamentado pelos Anunnaki, levou Ea a ordenar-lhe a construção de um estranho navio quadrado, selado como cofre e repleto de animais, cujo projeto o deus desenhou na areia, de modo que, após o Dilúvio, homens e mulheres reencontraram a terra, enquanto ele desapareceu em Dilmun, lugar magnífico e afastado de toda vida, onde, chamado Utnapishtim, o Distante, não tem com quem falar, sendo Sindbad o primeiro visitante desde Gilgamesh. 12. Ao ver o navio encalhado no monte Nimush, Enlil foi tomado por nova fúria, perguntando-se se tudo fora em vão e quem conspirara contra ele, e o único suspeito era Ea, aquele que sabe. 13. Num instante, privilégio dos deuses, Enlil mudou e, subindo solenemente ao navio, abençoou Utnapishtim e sua esposa, declarando que deixariam de ser homens para tornar-se semelhantes aos deuses e habitar na confluência dos rios, de modo que Utnapishtim soube que sua vida jamais terminaria, embora ainda se pergunte o que significa ser semelhante aos deuses, sabendo bem demais o que o afasta dos homens e ainda desejando o que perdeu, razão pela qual não consegue parar de falar a Sindbad. 14. Após o Dilúvio, os Anunnaki calaram-se sobre a aceitação dos homens, e, tendo-os matado como moscas, voaram como moscas em torno do primeiro sacrifício celebrado por Utnapishtim ao descer do navio, enquanto Anu deu a Nintu, outro nome de Mami, um colar de lápis-lazúli em forma de moscas, que ela prometeu jamais tirar em memória daqueles dias calamitosos. 15. Caída a noite e com a mente de Sindbad a vagar, Utnapishtim confessou das sombras que gostaria de ter sido alguém que habita no meio de tudo e vê ao longe, mas seu destino foi ver ao longe a partir de um lugar inacessível a todos, exceto a Sindbad, que nem sequer o procurava. {{tag>Calasso mito folktale}}