====== Apresentação das "Mil e Uma Noites ====== * A versão editada das Mil e Uma Noites encontra justificativa não apenas em sua extensão, mas na hostilidade fundamentalista islâmica ao prazer narrativo, embora a riqueza humana da obra desarme qualquer impulso reformador. * Ali Aboulhusn el Mesoudi, historiador do século X, classificou a obra como vulgar e insípida * Carlyle proibiu o livro de sua casa como literatura prejudicial à saúde moral * A comédia humana da obra equilibra o espírito crítico pelo vigor narrativo, pela revivificação de uma era dourada e pela leitura aguda do coração humano * Shehrzad operou como sacerdotisa da psique, conduzindo o rei Shehriyar de sua fixação mórbida ao reingresso na humanidade por meio de doses calculadas de sabedoria narrativa. * A escolha de não revelar o melhor conto na primeira noite revela sofisticação estratégica * O rei gerou três filhos com Shehrzad enquanto sua atenção estava absorvida pelas histórias * O abandono da postura hamletiana do rei simboliza a ruptura do feitiço letal da indignação * A alegoria de redenção das Noites corresponde ao mito paulino da Lei Antiga e da Nova, em contraste com o puritanismo islâmico ou cristão que recusa o mundo encarnado. * Javé no Jardim escolheu o papel do ofendido, criando uma calamidade cósmica * A encarnação divina rompe o interdito ao absorver a culpa sobre si * O puritanismo de Cromwell e de Maomé retorna à retidão javista e decapita os filhos da terra * A melhor resposta humana à retidão puritana é o amor como condescendência misericordiosa do espírito à multiplicidade da vida, celebrada pelos grandes poetas persas do islã. * Omar Khayyam (1050-1120), Nizami (1140-1203) e Hafiz (1325-1389?) proclamam essa resposta * Khayyam afirma preferir comungar com o divino nas tabernas a falhar em vê-lo nas mesquitas * Hafiz declara-se escravo do amor e livre dos dois mundos * Os contos populares que fluíam da Pérsia para o mundo islâmico carregavam a mesma celebração da vida * A origem da estrutura narrativa das Noites remonta ao persa Hezar Efsan, conforme relatado por Mesoudi, com a figura de Shehrzad já presente no protótipo original. * O rei persa original executava suas esposas após a primeira noite * Shehrzad, dotada de inteligência e saber, interrompia as histórias ao amanhecer para garantir sua sobrevivência * O livro persa compreendia mil noites, mas menos de duzentas histórias; a versão árabe chega a duzentas e sessenta e quatro * A coleção árabe das Noites enraíza-se no humanismo persa romântico e místico que floresceu após a queda do califado omíada e a fundação de Bagdá pelos abássidas, embora o texto resultante seja profundamente arabizado. * O califado omíada durou de 661 a 750 d.C.; os abássidas, apoiados pelos persas, governaram de 750 a 1258 * Nenhum manuscrito do Hezar Efsan sobreviveu * John Payne demonstrou a ausência de heróis românticos persas antigos como Feridoun e Rustem * A introdução da obra conserva apenas os nomes persas dos protagonistas; tudo o mais é muçulmano * Os fragmentos mais antigos da coleção formam aproximadamente um quinto do total e apresentam similaridade estilística suficiente para sugerir composição ou adaptação coletiva no século XIV. * O grupo inclui a Introdução, O Mercador e o Gênio, O Pescador e o Gênio, O Carregador e as Três Damas de Bagdá, entre outros * O estilo predominante é o árabe iraquiano de Mossul * A autoria provavelmente envolveu várias pessoas da mesma nacionalidade atuando em conjunto * A coleção foi ampliada ao longo do tempo por histórias de origens diversas, algumas compostas originalmente de forma independente e depois incorporadas. * A Malícia das Mulheres e Jelyaad e Shimas existiam antes do século XI * A Rainha das Serpentes é persa, mas foi adaptada ao islamismo por autores árabes * Marouf, o Sapateiro e Jouder e Seus Irmãos pertencem ao início do século XVI * O conto de Aboukir e Abousir é provavelmente o mais moderno de toda a coleção, por mencionar o tabaco * As fábulas de animais foram acrescentadas principalmente de fontes gregas, persas, indianas e possivelmente chinesas e japonesas, enquanto muitas lendas de santos derivam de tradições cristãs, judaicas, bramânicas e budistas. * O Quinto Irmão do Barbeiro, A Esposa do Mercador e o Papagaio e outros foram rastreados até a Índia * O Ouriço e os Pombos possui protótipos na Índia, China e Japão * O Gato e o Corvo e O Falcão e os Pássaros parecem derivar de Esopo * O conto 84, versão de Susana e os Velhos, foi emprestado do livro apócrifo de Daniel * Uma grande quantidade de anedotas históricas deriva de historiadores e geógrafos árabes conhecidos, com passagens identificáveis em obras como o Kitab el Aghani e escritos de El Cazwini e El Mesoudi. * Yehya e o Falsário aparece quase identicamente em Fekhreddin Razi * O Campeão Muçulmano encontra-se em Et Teberi * As Viagens de Simbad e Seif el Mulouk estão em El Cazwini * Haroun er Reshid é o herói incontestável das Noites, e seu reinado representa o califado em sua idade de ouro segundo os historiadores muçulmanos. * Haroun governou de 786 a 809 e foi o último califa a governar o império sem diminuição significativa * Seu nome ocorre com frequência quatro vezes superior a qualquer outro na coleção * Os Barmecidas eram seus vizires; Abou Yousuf, seu cádi; Abou Nuwas, Isaac de Mossul e outros poetas e músicos frequentavam sua corte * Bagdá no tempo de Haroun er Reshid era a metrópole do prazer islâmico, cercada de jardins e descrita pelos poetas como paraíso terrestre. * A cidade situava-se às margens do Tigre, cercada de laranjeiras, tamarindeiros e murtas * Os poetas descreviam suas ruas como regadas com água de rosas e empoadas de almíscar * A cidade era conhecida como Dar es Selam, a Morada da Paz * As mulheres das classes superiores desfrutavam de liberdades que contradizem o conceito ocidental dos costumes orientais, enquanto a corte praticava um ateísmo refinado de origem persa sob aparência de ortodoxia. * Os contos 3 e 6eb ilustram a licenciosidade da época * A família Barmecida parece ter sido a origem dessa tendência na corte * A prática persa do ketman, ou dissimulação religiosa, era bem compreendida e reconhecida * As classes baixa e média eram fanaticamente devotas à fé islâmica, enquanto o próprio Haroun er Reshid estava sob controle eclesiástico do xeque Abou Yousuf. * Abou Yousuf aparece nos contos 34 e 75 e é descrito como mais cortesão que sacerdote * O filho do califa tornou-se eremita-santo, provavelmente por repúdio à crueldade paterna e à licenciosidade da corte, conforme o conto 90 * O mundo oriental inteiro do califado vive nas páginas encantadas da obra, que representa todas as classes sociais sem rejeitar nada como comum ou impuro. * Escravos, reis, cortesãos, camponeses, piedosos e livres-pensadores, ignorantes e letrados habitam a coleção * Os árabes são retratados como corajosos, sóbrios, hospitaleiros e sensíveis ao amor e à piedade, mas também capazes de excessos de brutalidade seguidos de arrependimento * A fórmula corânica "Não há poder nem virtude senão em Deus o Altíssimo" expressa a resignação característica desse povo * A obra é longe de ser persa em essência, mas foi enriquecida pelo cosmopolitismo persa dos Barmecidas e dos abássidas, e conserva sob sua superfície islâmica uma alegoria pré-muçulmana da alma. * O ouro, o poder régio e a mulher são símbolos indo-iranianos tradicionais de plenitude espiritual * Os djins perigosos e auxiliares são divindades pré-islâmicas, personificações de forças cósmicas e psíquicas * Assim como os deuses celtas tornaram-se as fadas do folclore irlandês cristão, divindades persas, egípcias, babilônicas e indianas tornaram-se os djins da crença popular muçulmana * El Khizr, o Anjo Verde, aparece em três contos como guardião divino muçulmano cuja manifestação transcende a mera magia, introduzindo um matiz islâmico em material fundamentalmente alheio ao islã. * No Corão, sura XVIII, El Khizr iniciou Moisés nos insondáveis desígnios da justiça divina * Nas Noites, El Khizr aparece fora da esfera histórica do islã, em épocas anteriores ao Profeta ou em terras ainda não conquistadas pela fé * O Anjo da Morte também aparece nos contos 113, 114 e 115 com efeito profundo * Os contos árabes de maravilhas são menos sutis que seus equivalentes indianos, com ênfase econômica e atmosfera mágica em lugar de mística, ainda que resquícios da conotação espiritual das alegorias secularizadas permaneçam perceptíveis. * O valor em dinheiro de tudo, da ceia do pobre ao enxoval da filha do rei dos djins, é sempre precisado * Os temas típicos são os bazares, as viagens, os festins e as mansões de mercadores ricos * O fundamentalista muçulmano que receia ler as Noites completas morreria como puritano para renascer como homem * O herói nos contos alegóricos da coleção é geralmente alguém separado por disposição ou acidente que encontra por acaso uma situação de encantamento e a rompe pelo poder que existe dentro de si. * O encantador é frequentemente um persa, figura perigosa * O herói pode ser rei, filho de rico mercador, pescador ou vadio; o poder de romper o feitiço reside igualmente em todos * Após superar obstáculos, ignorância, malícia e o instinto de autopreservação, o herói manifesta o princípio espiritual crucial e o encantamento se dissolve como miragem * O professor William A. Nitze aponta correspondência entre essa alegoria oriental e os romances do Graal medievais europeus, pois a mesma atmosfera encantada perpassava as duas civilizações em confronto. * A idade das lendas cristãs do Rei Artur coincide precisamente com a das Mil e Uma Noites * A mesma poesia do amor à loucura, da cavalaria em batalha e do zelo pelo reino de Deus animava os dois mundos fundados na Bíblia hebraica * O judeu era paradoxalmente isolado em ambos os mundos como possuidor anterior do Livro mas resistente ao cumprimento de sua própria tradição * O islã e o cristianismo expandiram-se a partir do mesmo berço no Oriente Próximo durante dez séculos, chocando-se na Terra Santa, no sul da Itália e na Espanha, enquanto se interpenetravam comercial e culturalmente. * O islã avançou pelo mediterrâneo sul tomando a África; o cristianismo consolidou-se na Europa e saltou para o Novo Mundo * O islã recuou para o leste em direção à Índia e os dois voltaram a chocar-se nas Filipinas * A rivalidade obscureceu o caráter e a tradição comuns às duas religiões * A intercomunicação entre muçulmanos e cristãos nas Noites abrange cavalaria, comércio, diplomacia, erotismo e acidente, contrariando a imagem de separação absoluta entre os dois mundos. * Tecidos levantinos vestiam senhores e damas da Europa medieval * Frederico II convivia com filósofos islâmicos em sua corte siciliana * O alaúde oriental inspirou os trovadores e minnesingers * O conto 159, O Homem do Alto Egito e Sua Esposa Franca, e a cantilena francesa de Aucassin e Nicolette ilustram esse entrecruzamento * O alinhamento do sultão do Cairo e do imperador cristão-grego de Constantinopla contra o rei cristão-franco de Cesareia no conto 9 exemplifica a complexidade das alianças * O islã estava simultaneamente conectado à Índia e à China por rotas comerciais e diplomáticas, o que explica a presença de temas e contos de origem indiana na coleção. * Sind e a Tartária chinesa faziam parte do império dos califas omíadas * O califa El Mensour mantinha aliança com o imperador Sou-Tsong da dinastia Tang * Quatro mil soldados árabes enviados para auxiliar o imperador chinês estabeleceram-se na China, onde seus descendentes ainda poderiam ser encontrados * O dispositivo do conto-moldura e a ideia do amor romântico podem ter chegado da Índia através da Pérsia * A coleção reúne duzentas e sessenta e quatro histórias de extensões muito variadas, distribuídas desigualmente pelas noites, e foi classificada por John Payne em cinco grandes categorias. * As primeiras cinquenta ou sessenta noites têm quase três vezes o comprimento médio das demais * As categorias de Payne são: histórias ou romances longos; anedotas e histórias curtas; ficções românticas; fábulas e apologos; contos de aprendizagem heterogênea * O conto 9, O Rei Omar e Seus Filhos, sozinho ocupa quase um oitavo de toda a obra * A poesia distribuída ao longo da coleção varia entre grande beleza e extrema trivialidade, apresentando como característica persistente a engenhosidade, herdada pelos euphuistas britânicos e pelos poetas barrocos europeus via poetas muçulmanos da Espanha e Portugal. * Quase todos os grandes poetas do califado estão representados, além de muitos anteriores ao Profeta * Parte dos poemas são meras amplificações rimadas do texto em prosa compostas pelos compiladores ou copistas * Góngora, o Cavaleiro Marino e os euphuistas britânicos provavelmente tomaram emprestados os concetti e agudezas dos poetas muçulmanos da Península Ibérica * A monocrinia árabe, frequentemente muito extensa, constitui dificuldade técnica considerável para tradutores * A característica mais saliente da prosa das Noites é a extrema simplicidade, oposta à ideia de esplendor bárbaro geralmente associada ao nome da obra. * Os textos parecem compostos a partir de ditados para recitação pública em estilo conversacional vulgar * A obscuridade do árabe clássico corânico e o refinamento do estilo ornado estão geralmente ausentes * As descrições são ingênuas, às vezes quase infantis, com repetições e amplificações características de histórias contadas a crianças * A recorrência dos mesmos elementos não produz monotonia, pois o jogo de sentimento e circunstância induz continuamente novas permutações de cor e fantasia * A graça do pathos representa talvez o maior encanto da coleção, mas outras qualidades de grande obra romântica se manifestam igualmente quando a ocasião o exige. * Os Amantes dos Benou Udhreh (conto 144) e O Amante Louco (conto 101) exemplificam a simplicidade triste * O Varredor e a Dama Nobre (conto 31) ilustra a intensidade dramática quase trágica * A Cidade de Bronze (conto 133) e A Cidade de Irem (conto 20) sustentam a exaltação romântica * As cenas de batalha dos longos romances históricos 9 e 136 revelam energia severa comparável a Homero ou Dante * O humor perpassa a obra desde a pilhéria rabelaisiana de Ali e o Ladrão Curdo (conto 33) até a ironia boccacciana das anedotas de Abou Nuwas * A tradução francesa de Antoine Galland (1704-1717) impactou a Europa com força suficiente para inaugurar uma nova era do romance ocidental, embora a versão de Galland não correspondesse precisamente aos manuscritos árabes sobreviventes. * Galland, nascido em 1646 e falecido em 1715, recorreu a contos narrados por Youhenna Diab, sírio cristão de Aleppo que passou a primavera e o verão de 1709 em Paris * Aladim e os Quarenta Ladrões de Ali Babá estão entre os contos fornecidos por Diab * Nenhum original árabe de Ali Babá foi encontrado até hoje * O editor de Galland acrescentou sem autorização dois contos turcos de M. Pétis de la Croix ao volume oitavo, provocando a ira de ambos os eruditos * Galland entrou tão bem no espírito dos rawis que transformou o Oriente em França quando necessário, e sua influência se estendeu das literaturas criativas aos estudos eruditos sobre manuscritos árabes. * Lesage, Voltaire, Defoe, Swift e Johnson produziram obras imediatamente após o sucesso de Galland * Romances persas, turcos, chineses e incas fluíram das penas europeias, de Vathek a Os Novos Contos Árabes de Stevenson e O Bagdá do Metrô de O. Henry * Carlyle proibiu a obra em sua casa; Scott era devoto da coleção * O interesse renovado estimulou a busca por manuscritos, raros porque os letrados árabes desprezavam o estilo popular e os contadores profissionais relutavam em cedê-los * Três edições impressas em árabe foram publicadas no século XIX, com a edição Calcutá de 1839 de Sir William Macnaghten oferecendo o texto menos corrompido e mais abrangente. * A edição de Breslau (1824-25), baseada em manuscrito tunisiano corrupto, é inferior e incompleta * A edição de Boulac (Cairo, 1835) foi desfigurada pelas tentativas do editor de melhorar o estilo * A edição Calcutá de 1839 parece ter sido impressa a partir de cópia superior ao manuscrito seguido por Boulac * A tradução de John Payne (1881), primeira versão completa em língua europeia com quatro vezes mais material que Galland, foi apropriada pelo capitão Richard F. Burton, que a reeditou com ligeiras modificações e abundantes notas antropológicas sob seu próprio nome em 1885. * Payne dedicou doze anos ao trabalho e agradeceu a Burton por revisar o manuscrito * Burton reconheceu que Payne acertava nas passagens mais difíceis e que tradutores futuros seriam obrigados a usar as mesmas expressões * As principais alterações de Burton incluem os versos, grafias de nomes próprios, reintrodução das fórmulas de abertura e fechamento de cada noite e reintrodução da prosa rimada árabe * Burton seguiu Payne palavra por palavra, vírgula por vírgula, praticamente ao longo de toda a obra * A presente edição portátil visa devolver ao leitor a atenção para Payne e abrir uma perspectiva renovada sobre a compilação, deslocando a ênfase do sobrenatural gallandiano para o mundo vivo e variado do islã. * O conto do Rei Omar e Seus Filhos foi mantido integralmente para introduzir um gênero oriental pouco conhecido no Ocidente * O Cavalo Encantado foi incluído como um dos mais belos e possivelmente mais antigos contos mágicos da coleção * Sinopses dos contos restantes sugerem ao leitor moderno o que aguarda no palácio dos tesouros da prosa oriental * O terceiro objetivo da edição é expor os laços que uniram a Europa medieval à vasta civilização islâmica ao sul, corrigindo a ficção historiográfica ocidental da virtual inexistência da dívida cultural além das fronteiras europeias. * Em lista recente de Grandes Livros, nenhum volume além da Bíblia provém a leste de Suez; Calvino está presente, mas não Maomé; Hobbes, mas não Confúcio; a Ilíada, mas não o Mahabharata * Nenhum texto budista, nenhum filósofo oriental, nenhum poeta ou romancista das tradições chinesa, japonesa, árabe ou hindu figura na lista * O awe infantil diante da sabedoria misteriosa do Oriente correu como contratema desde Heródoto * Emile Mâle demonstrou a inspiração oriental das catedrais francesas dos séculos XII e XIII * A filosofia escolástica foi aberta por textos clássicos recebidos dos muçulmanos * Dante, Boccaccio, Chaucer e o início da ciência ocidental refletem essa influência