====== Homem primitivo como metafísico ====== //CAMPBELL, Joseph. The flight of the wild gander: explorations in the mythological dimension : selected essays, 1944-1968. Novato, Calif.: New World Library, 2002.// ** Pensamento de Espírito Brando e Espírito Duro ** * Franz Boas escreveu na primeira edição de A Mente do Homem Primitivo (1911) que as noções metafísicas do homem podem ser reduzidas a alguns tipos de distribuição universal, mas essa observação desapareceu da segunda edição da mesma obra (1938), pois havia se desenvolvido na antropologia americana uma tendência a enfatizar os traços diferenciadores, e não os compartilhados, das sociedades primitivas. * No início dos anos 1950 a maré havia virado novamente, e em Anthropology Today (1953), organizado sob a presidência de A. L. Kroeber, apareceu um artigo substancial de Clyde Kluckhohn intitulado "Categorias Universais da Cultura", bem como referências de outras autoridades à necessidade de avaliações comparativas * Ninguém, porém, retomou a ideia desenvolvida por Paul Radin em O Homem Primitivo como Filósofo (1927), que oferecia uma fórmula pela qual os dois pontos de vista sucessivamente representados por Boas poderiam ter sido reconciliados * A observação eminentemente sensata de Radin de que entre os povos primitivos, assim como entre os altamente civilizados, encontram-se os dois tipos que William James caracterizou como espírito duro e espírito brando — e que os mitos e símbolos de todas as sociedades são interpretados em sentidos diferentes por esses dois tipos — havia aparentemente sido esquecida pelos representantes de uma ciência que, nas palavras do próprio Boas, "não lida com o homem excepcional" * Do ponto de vista do homem de ação — o tipo de espírito duro —, um fato não tem valor simbólico ou estático, e investir o objeto transitório e incessantemente mutável com uma significação simbólica, idealista ou estática representa uma dupla distorção. * O pensador, ao contrário — o tipo de espírito brando —, é impelido por toda a sua natureza a tentar descobrir a razão pela qual há um efeito, qual é a natureza da relação entre o ego e o mundo, e que papel exatamente o eu percipiente desempenha nisso * Radin escreveu: "Um mundo original, em movimento, informe ou indiferenciado deve ser trazido ao repouso e dotado de forma estável... Os filósofos sempre deram a mesma resposta a esse problema e postularam uma unidade por trás desses aspectos e formas em mudança. Os filósofos primitivos estão de acordo com seus irmãos europeus e asiáticos aqui" * Qualquer ciência que leve em conta apenas a interpretação vulgar e de espírito duro dos símbolos estará inevitavelmente comprometida com um estudo em grande parte de diferenciações locais, enquanto aquela dirigida às visões dos pensadores descobrirá que as referências últimas de suas cogitações são poucas e de distribuição universal * Os antropólogos, em sua maioria, são notoriamente de espírito duro — há um provérbio haitiano: "Quando o antropólogo chega, os deuses partem!" ** A Imagem e Seu Significado ** * O primeiro problema a ser enfrentado por quem deseja lidar com as noções metafísicas da humanidade é o de distinguir entre símbolos e seus referentes — entre o que se pode denominar os veículos e seu teor. * As instâncias de "noções metafísicas" enumeradas por Boas em seu capítulo sobre "A Universalidade dos Traços Culturais" não são noções metafísicas em absoluto — são simplesmente imagens, símbolos ou veículos, que por um indivíduo de espírito duro seriam interpretados fisicamente, como referências não a qualquer realização metafísica, mas a fatos, reinos ou terras remotas semelhantes ao nosso mundo * A crença em uma terra das almas dos falecidos, localizada no oeste e alcançada cruzando-se um rio, não é em si uma noção metafísica, embora possa receber uma leitura metafísica; tampouco pode ser chamada metafísica a ideia de uma multiplicidade de mundos sobrepostos e subjacentes ao mundo central do homem * Uma imagem pode significar coisas diversas em contextos diversos e para mentes diversas; além disso, onde uma imagem desapareceu, não se segue necessariamente que o teor de sua referência também tenha desaparecido — este pode estar latente sob uma outra imagem inteiramente diferente * Em comparações transculturais, não se pode assumir com segurança que, porque as figuras simbólicas diferem de cultura para cultura, os teores de suas referências também devam diferir ** Imaginário do Múltiplo e Sua "Causa" ** * Um mito de origem Pima narrado pelo ancião chefe Falcão Pairante a Natalie Curtis, publicado em O Livro dos Índios (1907), apresenta a mesma imagem cosmogônica do gigante primordial de cujo corpo o universo procede, encontrada em diversas culturas do Velho Mundo. * O mito narra: "No princípio havia apenas escuridão — em toda parte escuridão e água. E a escuridão se juntou em lugares, aglomerando-se e então se separando, até que afinal de um dos lugares onde a escuridão havia se aglomerado saiu um homem. Esse homem vagou pela escuridão até começar a pensar; então conheceu a si mesmo e que era um homem; sabia que estava ali por algum propósito" * O homem tirou do próprio coração um bastão, criou formigas de seu corpo, e com a goma da madeira as formigas fizeram uma bola redonda no bastão; o homem então rolou a bola sob seu pé cantando: "Eu faço o mundo, e eis! / O mundo está acabado. / Assim eu faço o mundo, e eis! / O mundo está acabado" * Ao final do canto, a bola havia se tornado o mundo; o homem então criou estrelas, a Via Láctea, a lua e por fim o sol a partir de rochas tiradas de si mesmo; o sol lançado para o leste tocou o chão, quicou e começou a subir — desde então o sol nunca cessou de se mover * A Brihadaranyaka Upanishad sânscrita apresenta a mesma imagem: "No princípio, este universo era apenas o eu, numa forma humana... Ele estava sozinho. Então, no início, exclamou: 'Eu sou ele!' Daí vem o nome Eu"; o eu primordial, por temer a solidão, dividiu-se em dois — homem e mulher — e daí procederam todos os seres vivos, "assim projeta tudo que existe em pares, até as formigas" * Na mitologia bramânica, a projeção do mundo é ora voluntária ora — como no Kalika Purana — uma sucessão de surpresas até mesmo para o criador; na Edda Islandesa, o hermafrodita cósmico Ymir é cortado pelos jovens deuses Wotan, Will e We e transformado em todo o teatro do cosmos; no Épico Babilônico da Criação, o jovem deus Marduk mata, corta e fabrica o universo do corpo do monstro primordial do caos Tiamat; Ovídio afirma que um deus, no princípio, trouxe ordem do caos; a teogonia menfita egípcia narra que o Egito, o universo e todos os deuses procederam de Ptah, "O Grande", "Aquele-de-rosto-belo" * No sistema metafísico indiano do Vedanta, a entidade primordial da qual o universo procede é descrita como uma fusão de Consciência Pura (brahman, vidya) e Ignorância (maya, avidya) — a Ignorância é comparada ao feminino do par mitológico, fornecendo ao mesmo tempo o ventre e a substância da criação; pela sua força de ocultação, a maya vela o Brahman Absoluto, e pela sua força de projeção refrata a sua luminosidade nas formas da miragem do mundo, assim como um prisma decompõe a luz branca do sol nas sete cores do arco-íris * Goethe formulou o mesmo conceito no Fausto: "No reflexo colorido temos a vida" * No Vedantasara do século XV, essa união de Ignorância e Consciência é descrita como ao mesmo tempo a causa eficiente e a causa material de todas as coisas: "assim como a aranha, considerada do ponto de vista de seu próprio ser, é a causa eficiente da teia, e, vista do ponto de vista de seu próprio corpo, é também a causa material da teia" * Traduzido em termos kantianos, a Ignorância assim interpretada corresponde às formas a priori da sensibilidade — tempo e espaço —, que são as fronteiras mais interiores e exteriores e as precondições de toda experiência empírica; Kant formula: "O que possam ser os objetos em si mesmos e apartados de toda essa receptividade de nossa sensibilidade permanece-nos completamente desconhecido" * Falcão Pairante, a Brihadaranyaka Upanishad, o Kalika Purana, as Eddas, o Épico Babilônico da Criação, Ovídio, a teogonia menfita, a filosofia vedântica, Kant e Goethe — por variedades de metáfora — enunciaram e repetiram um único pensamento: o Um, por algum truque da mão ou do olho, tornou-se o Múltiplo * Nenhum dos veículos realmente elucida o mistério do surgimento do Múltiplo a partir do Um — e nesse aspecto a formulação de Kant não é mais satisfatória do que a de Falcão Pairante; o problema é simplesmente não suscetível de elucidação direta, pois é um problema da relação de um termo conhecido (o universo) com um incognoscível (sua chamada fonte) * O Um primordial pode ser representado como masculino (como no caso de Brahma), feminino (como na Mãe do Mundo), hermafrodita (como "Eu" e Ymir), antropomórfico, teriomórfico (como no mito persa do Boi do Mundo desmembrado), botanomórfico (como na imagem éddica da Freixeira do Mundo, Yggdrasil), simplesmente ovoide (como nas histórias do Ovo do Mundo), geométrico (como nos yantras tântricos), vocal (como no caso da sílaba sagrada védica OM e do Tetragrammaton cabalístico), ou absolutamente transcendente (como no Vazio budista e no Ding-an-sich kantiano) * Mesmo a noção da Unidade do primordial é finalmente apenas uma metáfora — apontando para além de si mesma para um termo inconcebível além de todos os pares de opostos como o Um e o Múltiplo, masculinidade e feminilidade, existência e não-existência ** A "Causa" Entendida Como Absolutamente Desconhecida ** * Kant fornece uma fórmula extraordinariamente simples para a leitura adequada de um símbolo metafísico — uma analogia de quatro termos (a está para b assim como c está para x), que aponta não para uma semelhança incompleta de duas coisas, mas para uma semelhança completa de duas relações entre coisas bastante dissemelhantes. * Kant demonstra a fórmula em dois exemplos: (1) "Assim como a promoção da felicidade das crianças está relacionada ao amor dos pais, assim está o bem-estar da raça humana para com aquilo desconhecido em Deus que chamamos de amor de Deus"; (2) "A causalidade da causa suprema é precisamente, em relação ao mundo, o que a razão humana é em relação à obra da arte humana" * Kant comenta: "Com isso a natureza da própria causa suprema permanece desconhecida para mim; comparo apenas seu efeito conhecido e a racionalidade desse efeito com os efeitos conhecidos da razão humana, e, portanto, chamo essa causa suprema de Razão, sem com isso atribuir-lhe como qualidade própria a coisa que entendo por esse termo no caso do homem" * As analogias mitológicas, teológicas e metafísicas não apontam indiretamente para um termo cognoscível apenas parcialmente compreendido, mas diretamente para uma relação entre dois termos — um empírico, outro metafísico; o último sendo, absoluta e eternamente e de todo ponto de vista humano concebível, incognoscível * A afirmação "o Um tornou-se o Múltiplo" resume apenas os dois primeiros termos de uma analogia implícita de quatro termos que, plenamente formulada, seria: "Assim como muitos (a) procedem de um (b), assim o universo (c) procede de Deus (x)" — mas o termo x permanece absolutamente desconhecido e incognoscível; a Unidade não pode ser mais uma qualidade desse x do que o Amor ou a Razão * Os veículos relacionais sugeridos — magia, fissão simples, procriação sexual, desmembramento violento, refração, efusão e ilusão — não são próprios ao mistério da criação em si, mas veículos para carregar a analogia; há uma infinidade de possíveis relações veiculares ** A Teologia Como Má Leitura da Mitologia ** * A menos que os mitos possam ser compreendidos — ou sentidos — como verdadeiros de alguma forma análoga à descrita, perdem sua força, sua magia e seu encanto para o espírito brando e tornam-se meras curiosidades arqueológicas adequadas apenas para algum tipo de classificação redutora. * Os heróis dos próprios mitos apontam continuamente além e através de seu aspecto fenomenal para o universal e transcendental — o Cristo declara: "Eu e o Pai somos Um" (João 10:30); Krishna, na Bhagavad Gita, mostra que todas as formas do mundo estão enraizadas em sua essência metafísica * Krishna enuncia: "Sou o Eu existindo no coração de todos os seres; sou o começo, o meio e também o fim de todos os seres. Dos deuses, sou Vishnu; das luminosidades, o sol radiante; das massas de água, sou o oceano; das medidas, sou o tempo; dos animais, sou o senhor dos animais; dos pássaros, sou o senhor dos pássaros; dos peixes, sou o tubarão; das correntes, sou o Ganges; sou o jogo dos fraudulentos; sou o poder dos poderosos; sou a vitória, sou o esforço, sou a harmonia dos harmoniosos; dos punidores, sou o cetro; e o conhecimento dos conhecedores sou eu" * Killer-of-Enemies, o herói da tribo Jicarilla Apache do Novo México, declara ao partir do povo: "A terra é meu corpo. O céu é meu corpo. As estações são meu corpo. A água também é meu corpo... O mundo é tão grande quanto minha palavra. E o mundo é tão grande quanto minhas orações... Não pensem que estou apenas no leste, no sul, no oeste ou no norte. A terra é meu corpo. Estou lá. Estou em todo lugar" * Ésquilo enuncia: "Zeus é o ar, Zeus é a terra, Zeus é o céu; / Zeus é todas as coisas, e tudo o que é mais alto que todas as coisas" * Black Elk, o curandeiro sioux e Guardião do Cachimbo Sagrado de sua tribo, disse: "Deveríamos entender bem que todas as coisas são obras do Grande Espírito. Deveríamos saber que Ele está dentro de todas as coisas: as árvores, as ervas, os rios, as montanhas, e todos os animais de quatro patas, e os povos alados; e ainda mais importante, deveríamos entender que Ele está também acima de todas essas coisas e povos" * Onde os mitos ainda são símbolos vivos, as mitologias são mundos oníricos fervilhantes de tais imagens; mas onde teólogos sistematizadores ganharam o dia, as figuras se petrificaram em proposições — a mitologia é então mal lida como história direta ou ciência, o símbolo torna-se fato, a metáfora dogma, e surgem as disputas das seitas, cada uma confundindo seus próprios sinais simbólicos com a realidade última * Ramakrishna, mestre indiano do século XIX, disse: "Mas aquele que é chamado Krishna é também chamado Shiva e carrega os nomes Shakti, Jesus e Alá igualmente — o único Rama com mil nomes... A substância é uma sob diferentes nomes e todos buscam a mesma substância; nada além do clima, do temperamento e dos nomes varia" ** Antropologia Esotérica e Exotérica ** * Apresenta-se então a questão de saber se a mitologia pode ter se originado nos acampamentos do espírito duro e apenas posteriormente ter sido sublimada e sofisticada em poesia metafísica pelas meditações do espírito brando, ou se seu curso de desenvolvimento não deveria ter sido precisamente na direção oposta — da imagética poética do espírito brando às torpes má leituras das multidões sem talento. * Boas parece ter sido um defensor da primeira visão, escrevendo em "O Significado Etnológico das Doutrinas Esotéricas": "Pode-se dizer que a doutrina exotérica é o fenômeno étnico mais geral, cuja investigação é um fundamento necessário para o estudo dos problemas do ensino esotérico... não devemos, em nosso estudo da vida indígena, buscar apenas a forma mais elevada de pensamento, a do sacerdote, do chefe, do líder" * O professor R. R. Marett, ao contrário, em seu artigo "Mana" na Encyclopaedia Britannica (décima quarta edição), parece adotar a visão oposta: "Por força de sua própria profissão, o curandeiro ou o rei divino deve manter-se apartado daqueles que por posição ou por escolha são noa, leigos. Estes podem viver em contentamento grosseiro; mas até o fim lhes falta iluminação, participando dos mais altos mistérios quando muito de fora" * Quer seja primária ou secundária em termos temporais, a visão esotérica de espírito brando é claramente a que desempenhou o papel principal na conformação significativa das tradições, pois são em toda parte os sacerdotes e xamãs que mantiveram e desenvolveram a herança geral dos mitos e símbolos * Radin, observando o diálogo dos dois tipos na continuidade e no desenvolvimento das tradições primitivas, pergunta: "Como haveríamos de rastrear adequadamente o desenvolvimento do pensamento e, mais especificamente, o de nossas noções filosóficas fundamentais, se começamos com premissas falsas? Se pode ser demonstrado que os pensadores entre os povos primitivos concebem a vida em termos filosóficos... então evidentemente nosso tratamento habitual da história cultural, para não mencionar o da especulação filosófica, deve ser completamente revisado" * A imagem e as percepções poéticas do mito se devem ao gênio do espírito brando; ao espírito duro deve-se apenas a redução da mitologia à religião; nos próprios mitos, as origens de seus símbolos e cultos são sempre atribuídas a visionários individuais — sonhadores, xamãs, heróis espirituais, profetas e encarnações divinas * Falcão Pairante, ao ser perguntado como seu povo fazia suas canções, respondeu: "As sonhávamos. Quando um homem se afastava sozinho — em solidão — então sonhava uma canção" * O tempo certamente chegou, como Paul Radin disse há muito tempo, para que os coletores e classificadores reconheçam as pretensões de seus materiais a um significado profundo — o que as variações estilísticas dos veículos significam será impossível dizer até que os teores de grupos de metáforas análogas tenham sido estabelecidos e compreendidos; pois a pedra fundamental da ciência do folclore e do mito não está nos fragmentos dispersos da metáfora, mas nas ideias às quais as metáforas se referem