====== Guerras celestes e a gnose ====== //[[.:start|PSYCHANODIA]]// * Os anjos celestiais dos povos, que no período final dos Tanaítas se tornarão responsáveis por todos os fenômenos físicos, abrangendo tanto a natureza quanto a história, sofrem um processo de demonização causado pela ocupação romana e intensificado pela destruição do Templo. * O líder desses anjos torna-se inevitavelmente o anjo de Roma, dado o domínio romano sobre o mundo. * Em decorrência da percepção de Roma como potência maligna, Satanás é identificado como o anjo de Edom. * Satanás recebe, na qualidade de chefe dos anjos das nações, o título de "Príncipe do mundo". * A análise dos materiais religiosos judaicos a partir do período tanaíta permite acompanhar a formação de uma doutrina pré-dualista, cujas origens remontam a elementos anteriores aos primeiros dois séculos da era cristã. * A coerência interna dessa doutrina sugere a ausência de qualquer influência estrangeira determinante em sua formação. * A hipótese de uma origem judaica para o dualismo gnóstico, proposta por estudiosos do século XIX a partir de H. Graetz, é reavaliada a partir da distinção fundamental entre diteísmo e dualismo, mostrando-se insustentável em sua formulação original. * Graetz e seus sucessores, incluindo contemporâneos, incorreram na confusão entre diteísmo e dualismo. * Certas doutrinas judaicas não ortodoxas veiculavam a ideia de uma divindade secundária, geralmente um anjo do Senhor subordinado e sem intenções malignas, responsável pela criação do mundo. * O diteísmo judaico, rejeitado pelos rabinos e anteriormente discutido por Fílon de Alexandria, postula duas divindades sem qualquer antagonismo ou concorrência entre elas, diferindo do dualismo, seja ele radical ou mitigado. * Apesar da incompatibilidade fundamental, a ideia de um anjo criador do mundo presente no diteísmo judaico encontra paralelo em sistemas gnósticos, o que sugere a possibilidade de uma transformação dessa noção em dualismo por meio de uma inversão negativa do anjo criador, condicionada por um clima ideológico propício. * A conclusão da análise sobre a escatologia celeste na Grécia aponta que sua origem não reside em elaborações pitagóricas ou influência iraniana, mas sim em crenças arcaicas sobre a relação entre almas e astros e nas primeiras teorias sobre a natureza ígnea ou aérea da alma. * A generalização da escatologia celeste, com a consequente transferência do inferno para os céus, não pode ser atribuída exclusivamente a Heráclides do Ponto, sendo mais provável que a incompatibilidade entre a doutrina animológica estoica e a ideia de descida da alma aos infernos tenha contribuído para essa nova síntese. * A demonização do cosmos, fenômeno central a partir do século I d.C. e característico dos sistemas gnósticos, é explicada pela conjugação da generalização da escatologia celeste, da extensão do purgatório aéreo aos céus, da influência de doutrinas dualistas órfico-pitagóricas e de motivos pré-dualistas judaicos. * Os desenvolvimentos doutrinários que resultam no dualismo são projetados sobre um esquema cosmológico previamente elaborado em meio grego, que combinava crenças arcaicas sobre descidas aos infernos com as novas teorias astronômicas, contando ainda com a importante contribuição da astrologia nesse processo de transformação. * As doutrinas dualistas gregas, tanto em sua forma arcaica órfico-pitagórica quanto em sua expressão na ontologia platônica, exerceram um papel fundamental como catalisador subterrâneo do clima dualista que caracteriza o período, constituindo um elemento de primeiro plano na nova síntese.