====== 1 Orfeu do mar Negro ====== //DETIENNE, Marcel. Les dieux d’Orphée. Paris: Éditions Gallimard, 1989, 2007// 1. Orfeu nasce como poeta e “pai dos cantos”, encarnando uma potência incomparável da voz e da música que, sem ser eclipsada pelas Musas ou por Apolo, encanta os seres mais selvagens e atrai árvores, pedras, peixes e aves, estabelecendo sua singularidade entre deuses e homens. 2. A primeira aparição conhecida de Orfeu citaredo, representada por volta de 570 a.C. em um pequeno vaso de figuras negras, apresenta o Encantador atravessando com sua lira o espaço dominado pelas Sereias, cuja natureza híbrida e sexualidade oscilante acompanham uma voz mortífera sobre a qual seu canto afirma a própria superioridade. 3. A voz de Orfeu manifesta uma potência primordial, anterior à palavra articulada e ao canto narrativo dos aedos, capaz de abranger todas as formas de existência sem dissolvê-las na confusão e de promover a aceitação de cada vida e de cada coisa, recusando um mundo submetido à fragmentação e ao despedaçamento. 4. Os guerreiros trácios reunidos em torno de Orfeu conservam os sinais exteriores da guerra e da selvageria, mas aparecem apaziguados por seu canto, enquanto o Encantador, vestido à maneira grega e coroado de louros, aproxima-se da figura de Apolo, diferentemente das representações do sul da Itália, nas quais assume trajes trácios ou orientais em suas viagens ao mundo dos mortos. 5. As representações de Orfeu no mundo dos mortos associam seu poder musical à esperança de uma vitória sobre a morte compartilhada pelos seguidores, contrapondo o destino dos condenados a penas intermináveis à promessa de banquete e felicidade reservada aos iniciados, cuja ligação com os livros órficos aparece simbolizada pelo rolo de papiro nas mãos de um morto heroizado. 6. Desde o século VI a.C., o canto de Orfeu prolonga-se em escrita e constitui um conjunto de livros que narram a origem do mundo e dos deuses, ao mesmo tempo que prescrevem regras alimentares e sacrifícios puros, com oferendas sem sangue e fumigações aromáticas, formando uma tradição religiosa e literária posteriormente discutida por Platão. 7. A singularidade de Orfeu reúne transgressões e experiências extremas, como a descida ao mundo dos mortos, o despedaçamento por mulheres enfurecidas, as teogonias delirantes, as proibições alimentares e as fantasias sexuais, compondo uma pretensão ao absoluto cuja emergência se vincula ao universo cultural e mítico em que o Encantador se constitui. 8. Na Grécia antiga, Orfeu atua como mediador entre as narrativas mitológicas e a circulação das potências divinas, inscrevendo-se em um universo no qual os deuses, sempre plurais, se cruzam, se articulam e se entrelaçam em configurações próprias das sociedades politeístas. 9. As narrativas da fundação de Tebas, da desventura de Édipo, dos combates heroicos, da dor de Níobe e das aventuras de Hefesto e Dioniso integram uma tradição antiga que sobrevive às catástrofes e constitui a matéria expansiva da mitologia, preservando acontecimentos memoráveis na continuidade cultural posterior a Homero. 10. Narrar histórias constitui uma necessidade fundamental da experiência humana e uma das formas mais antigas de “mitologizar”, exemplificada na Odisseia pela passagem do canto de Demódoco à narrativa de Ulisses, cuja recusa em repetir uma história já contada evidencia o valor da criação e do desempenho singular do narrador. 11. A transmissão tradicional não implica uma aceitação invariável da herança recebida, sendo possível distinguir uma “mitologia-quadro”, constituída por conhecimentos culturais compartilhados e por uma rede duradoura de narrativas, de uma “mitologia-saber”, enquanto a articulação entre relatos míticos e potências divinas plurais estrutura a cultura grega e encontra correspondências em outras sociedades. 12. No interior da “mitologia-quadro”, a “mitologia-saber” desenvolve reflexões sobre a tradição e diferentes formas de escrita, como genealogias, memórias locais e interpretações de narrativas e imagens, sem destruir a unidade do horizonte mítico compartilhado, no qual os poetas desempenham uma função educativa essencial e elaboram composições progressivamente diferenciadas em gêneros. 13. A cidade grega de Ólbia, estabelecida junto ao mar Negro em território próximo aos citas, torna-se cenário do conflito entre aproximação cultural e fidelidade coletiva quando o rei cita Ciles, familiarizado com a língua grega e atraído pelo culto de Dioniso Baco, participa de experiências de possessão que provocam a indignação de seus compatriotas e culminam em sua decapitação. 14. As descobertas arqueológicas de Ólbia, especialmente pequenas plaquetas de osso que registram a autodesignação “órficos” e associam Dioniso aos termos “vida–morte–vida”, “verdade”, “paz–guerra”, “verdade–engano” e “corpo–alma”, revelam um meio filosófico e religioso no qual Orfeu, ligado à tradição dos poetas como sábios e educadores, se singulariza por fundar um modo de vida, em vez de limitar sua atuação ao banquete, à praça pública ou à organização de uma cidade. 15. Orfeu e Pitágoras aproximam-se como fundadores de modos de vida, mas o caminho órfico conduz à vida verdadeira mediante a travessia da morte, enquanto o projeto pitagórico, desenvolvido na Magna Grécia, procura reformar a existência política dentro da cidade por meio de exercícios físicos e espirituais destinados inicialmente aos discípulos e, de maneira ampliada, aos participantes dos assuntos comuns. 16. Enquanto Pitágoras situa seu modo de vida no âmbito político da cidade, Orfeu institui uma existência que recusa seus valores e se expressa na abstenção de derramamento de sangue, entendida como rejeição dos sacrifícios animais e da alimentação carnívora, de modo que os órficos assumem a condição de renunciantes e oferecem aos deuses apenas alimentos incruentos, considerando impuro consumir carne e ensanguentar os altares. 17. A recusa órfica em sacrificar animais ultrapassa a adoção de uma alimentação vegetariana e implica o afastamento voluntário da comunidade cívica, cuja vida política se organiza também pela participação em sacrifícios públicos, pelo financiamento das vítimas e pela regulamentação do calendário religioso, dimensão amplamente presente na legislação atribuída a Sólon. 18. O ensinamento de Orfeu associa a proibição do derramamento de sangue às iniciações que conduzem à salvação, impondo práticas como o uso de roupas brancas e a recusa de sepultamento em lã, enquanto sua opção pela escrita, contraposta à de Pitágoras, preserva o relato do assassinato e da devoração de Dioniso criança pelos Titãs, primeiro sacrifício sangrento que esclarece a origem humana e fundamenta o modo de vida órfico. 19. A dissidência órfica rompe com os costumes religiosos compartilhados pelas cidades gregas e estabelece, sob o signo de Dioniso e da verdade, um caminho de salvação pelo qual a alma se liberta do corpo, concebido como túmulo e prisão, alcançando a vida verdadeira após a morte, enquanto a oposição entre paz e guerra exprime a rejeição tanto da violência guerreira quanto do sangue derramado nos sacrifícios. 20. Os testemunhos disponíveis sugerem uma reduzida importância das mulheres no meio órfico e não apresentam mulheres identificadas como órficas, ao passo que o projeto pitagórico de reforma da cidade inclui expressamente a participação feminina e a reorganização da casa, dirigindo ensinamentos às mulheres casadas e reconhecendo sua função essencial na constituição social, religiosa e política da comunidade. 21. A morte de Orfeu pelas mãos de mulheres e sua descida ao mundo dos mortos por amor a Eurídice vinculam-se à importância da sexualidade e das relações entre masculino e feminino para uma reflexão sobre a origem humana, marcada pela separação entre deuses e mortais e pela condição de seres condenados a matar uns aos outros, mesmo sem o saber, tornando decisiva a reelaboração órfica dos deuses cultuados pela cidade. {{tag>Detienne Orfeu mito}}