====== LOKI ====== //DUMÉZIL, Georges; SERGENT, Bernard. Mythes et dieux des Indo-Européens précédé de Loki, et Heur et malheur du guerrier. Paris: Flammarion, 2011.// * Loki é um dos mais singulares entre os deuses escandinavos, tendo desconcertado, esgotado ou extraviado sucessivamente todas as escolas de exegetas. * As principais aporias e antinomias que convergem sobre esse personagem podem ser assim enumeradas: * Loki é um deus importante, presente em grande número de relatos, e contudo, tanto quanto se sabe, era no tempo do paganismo um deus sem culto — isto é, um deus sem função — e nenhum lugar em nenhum país escandinavo recebe seu nome * Coloca-se então a questão: trata-se de uma figura propriamente religiosa, de um deus autêntico, ou antes de uma personagem de conto, um tipo folclórico introduzido posteriormente na mitologia? * Se Loki for excluído da mitologia, torna-se impossível manter a forma tradicional de muitas histórias de Ódinn e de Thórr — as divindades menos contestáveis enquanto "divindades de culto" * No início ou no curso de certos relatos, Loki parece manter relações especiais com Thórr; outros pesquisadores notam que suas relações com Ódinn são mais íntimas; e vários relatos em que Loki desempenha papel essencial não são centrados nem em Ódinn nem em Thórr * Loki é ao mesmo tempo o amigo e auxiliar mais precioso dos deuses e seu pior inimigo; coloca-se a questão de saber se essas duas atitudes são igualmente primitivas, ou se o "mau Loki" surgiu apenas ao cabo de uma longa evolução * O risco de tal perspectiva cronológica é expor-se a toda sorte de amputações arbitrárias, dado que o mau Loki é mais abundantemente atestado do que o bom * Amigo ou inimigo dos deuses, confidente engenhoso ou formidável farsante, Loki move-se à vontade na pequena mitologia; e, bruscamente, em certos mitos — o assassinato de Baldr, seu próprio suplício, sua epifania no fim do mundo — adquire uma grandeza quase cósmica, incomensurável com o trasgo de tantos relatos cômicos * Levanta-se a hipótese de modelos cristãos — ou iranianos — que teriam imposto ao pequeno deus maligno escandinavo uma transfiguração satânica ou ahrimaniana; a história da exegese dos mitos escandinavos está, porém, repleta de apostas em que escrituras apócrifas, o cristianismo latino ou celta, a Bíblia ou um dualismo degenerado pretendiam explicar as imaginações "tardias" dos pagãos do Norte * Ainda hoje, camponeses da Noruega, da Escânia, da Dinamarca, das Ilhas Faroe e da Islândia conhecem Loki: fórmulas, provérbios e alguns relatos contêm seu nome; em várias dessas regiões, Loki é associado a pequenos fenômenos naturais e a certos incidentes da vida social * Discute-se se essas marcas são posteriores ao rico Loki da tradição literária medieval, derivadas ou deformadas a partir dela, ou se conservam um Loki mais rústico, mais puro e mais antigo, do qual a tradição literária medieval teria sido apenas um embelezamento, uma amplificação e talvez uma falsificação efêmera * A extrema diversidade das soluções propostas resulta da dificuldade de cercar e centrar o problema. * Os primeiros defensores da exegese naturalista afirmavam: Loki é o fogo * Outros corrigiam: Loki é a água ou o vento * Discípulos de Wilhelm Mannhardt revestiram-no do uniforme dos "Espíritos da Vegetação" * Foi visto como um deus infernal, ctônico, ou — a partir de uma etimologia — o "fechador" da história do mundo * Folcloristas saudaram nele uma espécie de suboficial sortudo do exército de gênios, trolls e elfos que sempre povoaram o horizonte escandinavo * Outros folcloristas reconheceram ao mesmo tempo o "herói civilizador" dos relatos mitológicos de certos povos semicivilizados e o "enganador" que por vezes o dobra — o culture-hero and trickster * Contra todos esses sistemas afluem objeções: ou reduzem a essência de Loki a um de seus aspectos, do qual não se pode deduzir os demais sem artifício evidente; ou apagam diferenças fundamentais entre Loki e o tipo mitológico ou folclórico ao qual pretendem aproximá-lo * Há três quartos de século, certas escolas de filólogos reduziram literalmente a pó a maioria dos documentos, mostrando que alguns são apenas combinações — hábeis ou desajeitadas — de "motivos de contos", e que, consideradas ou reconstituídas as formas primitivas dos demais, Loki sequer neles intervinha * Eugen Mogk é o nome associado à escola que mais radicalmente aplicou essas reduções e deslocamentos à matéria do estudo * Aborda-se aqui o problema de Loki com a convicção de que ele existe, pode ser formulado e, em certa medida, elucidado. * A crença em sua existência implica que os enxugamentos e as dislocações operados por Eugen Mogk e alguns outros sobre a própria matéria do estudo são sofísticos, tanto no princípio quanto nas aplicações * A crença em que o problema se deixa formular implica que as aporias e antinomias assinaladas, longe de velar ou diluir a personalidade de Loki ou de provar uma "evolução histórica" que tivesse inflectido ou invertido seu sentido, a definem constitutivamente, enquanto complexa e contraditória * A crença de que se pode avançar na elucidação implica que existem certos meios de exegese ainda não empregados — em particular um importante dossier comparativo, brevemente assinalado em 1939 numa nota de Mythes et dieux des Germains * O estudo se reparte naturalmente em dois momentos. * Nos capítulos I e II, procede-se a um exame dos documentos escandinavos, para mostrar como, na grande maioria dos casos, a crítica filológica ou folclórica ultrapassou seus direitos e concluiu além de seus meios, e para restaurar, contra as simplificações e as perspectivas arbitrárias dos teóricos, a rica e móvel figura de Loki * Nos capítulos III e IV, examina-se o personagem homólogo da epopeia narta dos ossetas — Syrdon —, e, confrontando Syrdon com Loki, busca-se compreender, senão a função, ao menos a significação desse tipo de herói ou de deus