====== 4 Conchas ====== //ELIADE, Mircea. Images et symboles. Essais sur le symbolisme magico-religieux, 1952// **Notas sobre o simbolismo das conchas** **A Lua e as águas** 1. As ostras, as conchas marinhas, o caracol e a pérola são solidários tanto das cosmologias aquáticas como do simbolismo sexual, participando todos nas forças sagradas concentradas nas Águas, na Lua e na Mulher, e sendo além disso por diversas razões emblemas destas forças, como a semelhança entre a concha marinha e os órgãos genitais da mulher, as relações que reúnem as ostras, as águas e a lua, e o simbolismo ginecológico e embriológico da pérola formada na ostra. 2. A crença nas virtudes mágicas das ostras e dos moluscos encontra-se no mundo inteiro desde a pré-história aos tempos modernos, e o simbolismo que está na origem de tais concepções pertence muito provavelmente a uma camada profunda do pensamento primitivo, mas ele conheceu atuações e interpretações variadas, encontrando-se ainda a presença das ostras e dos moluscos nos ritos agrários, nupciais ou funerários, na ornamentação de vestuário ou em certos motivos decorativos, mesmo que, mais do que uma vez, metade dos seus significados mágico-religiosos pareçam ter-se perdido ou abastardado. 3. Entre certos povos as conchas continuam a ser motivos de decoração enquanto a sua valência mágica nem sequer já constitui lembrança, e a pérola, outrora emblema da força geradora ou símbolo de uma realidade transcendental, conservou apenas no Ocidente o valor de pedra preciosa, aparecendo a degradação ininterrupta do simbolismo mais nitidamente no fim do mesmo trabalho. 4. O conjunto iconográfico Água-ostras é abundantemente atestado na América pré-colombiana, pois o Tula relief de Malinche Hill representa uma divindade rodeada de Água onde se banham ostras, espirais e círculos duplos, o Codex Nuttall predomina o complexo iconográfico Água-Peixe-Serpente-Caranguejo-Ostra, o Codex Dresdenis representa a Água quer escorrendo de cascas de ostras quer enchendo jarras formadas por serpentes enroladas, o deus mexicano da tempestade usava uma corrente de ouro da qual pendiam pequenas conchas marinhas e o deus da lua tinha por símbolo um grande caracol do mar. 5. Na China antiga o simbolismo da ostra está ainda mais bem conservado, pois as conchas participam na sacralização da Lua ao mesmo tempo que prolongam as forças aquáticas, e no tratado ch'un ts'iu pode ler-se que a Lua é a raiz de tudo o que é yin, que na Lua cheia as ostras pang e ko estão prenhes e todas as coisas yin se tornam abundantes, e que quando a Lua escurece as ostras estão vazias e todas as coisas yin começam a faltar. 6. Mo-tsi, depois de ter notado que a ostra perlífera pang nasce sem intervenção masculina, acrescenta que por conseguinte, se pang pode ter por fruto uma pérola, é porque ela concentra toda a sua força yin, e Liou Ngan escreve que a Lua é o princípio do yin, sendo por isso que os cérebros dos peixes diminuem quando a Lua está vazia e as conchas dos univalves espiralados não estão cheias de partes carnudas quando a lua está morta, acrescentando o mesmo autor que os moluscos bivalves, os caranguejos, as pérolas e as tartarugas crescem e decrescem com a Lua. 7. O yin representa entre outras coisas a energia cósmica feminina, lunar e húmida, e assim o excesso do yin ativo numa determinada região exaspera o instinto sexual feminino e faz com que as mulheres lascivas pervertam os homens, existindo efetivamente uma correspondência mística entre os dois princípios yin e yang e a sociedade humana. 8. O carro do rei era ornamentado com jade, rico em yang, e o da rainha com plumas de pavão e conchas, emblemas do yin, e os ritmos da vida cósmica seguem o seu curso normal enquanto a circulação dos dois princípios opostos e complementares se processa sem entrave, escrevendo Sün-tsi que se o jade está na montanha as árvores da montanha darão fruto e que se as águas profundas produzem pérolas a vegetação da margem não secará, vendo-se mais adiante a mesma polaridade simbólica jade-pérola reaparecer nos costumes funerários chineses. 9. Em relação à influência das fases da Lua nas ostras a antiguidade conheceu ideias análogas, pois Lucilius dizia que a Lua alimenta as ostras, enche os ouriços-do-mar e dá força e vigor aos mexilhões, e Plínio e Aulo Gélio com vários outros escritores pretendiam ter verificado fenômenos semelhantes, devendo esta tradição para-científica, herdada de um simbolismo antigo cuja função deixara de ser compreendida, perpetuar-se na Europa até ao século XVI. **Simbolismo da fecundidade** 1. Mais ainda do que a origem aquática e o simbolismo lunar das ostras e das conchas marinhas, a sua semelhança com a vulva contribuiu muito provavelmente para divulgar até este ponto as suas virtudes, estando a analogia por vezes inscrita nos próprios termos que designam certos moluscos bivalves, como por exemplo o antigo nome dinamarquês da ostra kudefisk, e encontrando-se também no Japão a homologação da concha com o órgão genital feminino. 2. A concha marinha e as ostras participam deste modo nas forças mágicas da matriz, exercendo-se nelas e estando presentes as forças criadoras que jorram como que de uma fonte inesgotável de todo o símbolo do princípio feminino, e assim usadas sobre a pele como amuleto ou ornamento as ostras, conchas marinhas e pérolas impregnam a mulher de uma energia favorável à fecundação ao mesmo tempo que as protegem de forças nocivas e da má sorte. 3. As mulheres Akamba usam cintos ornamentados com conchas a que renunciam após o nascimento do primeiro filho, noutros sítios as ostras constituem o mais apropriado dos presentes de casamento, na Índia meridional as raparigas usam colares de conchas marinhas e a terapêutica hindu moderna utiliza o pó de pérola pelas suas qualidades revigorantes e afrodisíacas, sendo mais uma aplicação científica no plano concreto e imediato de um simbolismo arcaico de que só já se apreende metade. 4. A função cosmológica e o valor mágico da pérola eram conhecidos desde os tempos védicos, e um hino do Atharva Veda exalta-a dizendo que nascida do vento, do ar, do raio e da luz, possa a concha nascida do ouro, a pérola, defender-nos do medo, que com a concha nascida do oceano, a primeira de todas as coisas luminosas, se matam os demônios e se triunfa dos devoradores, que com a concha se triunfa da doença e da pobreza, que a concha é o remédio universal e a pérola preserva do medo. 5. O hino prossegue dizendo que nascida do céu, nascida do mar, trazida por Sindhu, esta concha nascida do ouro é a joia que prolonga a vida, que a joia nascida do mar e o sol nascido da nuvem protegem de todos os lados das flechas dos Deuses e dos Asuras, que a pérola é um dos ouros e nasceu da Lua, enfeita o carro e resplandece na aljava das setas, pedindo que prolongue as nossas vidas, pois o osso dos deuses fez-se pérola e ele toma vida e move-se no seio das águas, tomando-se a pérola para o resto da vida e o vigor e a força para a longa vida, a vida de cem outonos, e que a pérola proteja. 6. A medicina chinesa por seu turno considera a pérola como uma droga excelente pelas suas virtudes fertilizantes e ginecológicas, e de acordo com uma crença japonesa certos mexilhões ajudam no parto, daí a sua designação de mexilhões-parto-fácil, recomendando-se na China que não se dê às mulheres grávidas certa ostra que tem a propriedade de apressar o parto. 7. As ostras, contendo exclusivamente o princípio yin, são favoráveis ao parto e por vezes precipitam-no, e a semelhança entre a pérola que se desenvolveu na ostra e o feto é aliás posta em relevo pelos autores chineses, dizendo-se em Pei ya da ostra pang que, grávida da pérola, ela é como a mulher transportando o feto no seu ventre, eis porque pang se chama o ventre da pérola. 8. Entre os gregos a pérola era o símbolo do amor e do casamento, e as conchas estiveram desde os tempos pré-helênicos em estreita relação com as Grandes Deusas, consagrando-se conchas a Afrodite em Chipre para onde a deusa tinha sido conduzida após ter nascido da espuma do mar, e o mito de Afrodite nascida de uma concha marinha estava provavelmente difundido no mundo mediterrânico, tendo Plauto traduzido um verso de Dífilo com conhecimento dessa tradição. 9. Na Síria a deusa chamava-se a Dama das pérolas e em Antioquia Margarito, e o complexo Afrodite-conchas é confirmado por numerosas gravuras sobre conchas, sendo a assimilação da concha marinha ao órgão genital feminino também sem dúvida do conhecimento dos Gregos, ilustrando o nascimento de Afrodite dentro de uma concha este laço místico entre a deusa e os seus princípios. 10. Este simbolismo do nascimento é que inspirava a função ritual das conchas, e graças ao seu poder criador, na sua qualidade de emblemas da matriz universal, as conchas têm o seu lugar nos ritos funerários, não se anulando facilmente tal simbolismo de regeneração, pois as conchas que simbolizam a ressurreição em muitos monumentos funerários romanos passarão para a arte cristã. 11. Aliás muitas vezes a morte é identificada com Vénus, sendo esta representada sobre o sarcófago de tronco nu tendo aos pés a pomba, e por esta identificação com o arquétipo da vida em perpétua renovação a morte assegura a sua ressurreição. 12. Em toda a parte a concha marinha, as pérolas e o caracol figuram entre os emblemas de amor e de casamento, sendo a estátua de Kámadeva ornamentada com conchas e anunciando-se na Índia a cerimônia nupcial soprando num grande búzio marinho. 13. Esta mesma concha é aliás um dos dois principais símbolos de Visnu, e uma oração ilustra estas valências religiosas dizendo que na boca desta concha está o deus da Lua, nos seus lados mora Varuna, no seu dorso Prajapati, no seu cimo o Ganges, o Sarasvati e todos os outros rios sagrados dos três mundos, onde segundo o mandamento de Vâsudeva se fazem abluções, que dentro desta concha está o chefe dos brâmanes, e por isso adoremos esta concha sagrada, glória a ti concha sagrada, bendita sejas tu por todos os deuses, ó tu nascida do mar e que Visnu segura na mão. 14. Entre os Astecas o caracol simbolizava correntemente a concepção, a gravidez e o parto, e a propósito da gravura XXVI do Codex Vaticanus Kingsborough transcreve a explicação dada pelos indígenas acerca da associação do molusco e do parto, dizendo que tal como este animal marinho sai da concha assim o homem nasce do ventre da sua mãe, encontrando-se a mesma interpretação autóctone a propósito da gravura XI do Codex Tetteriano Remensis. **Funções rituais das conchas** 1. A partir do que foi dito explicam-se facilmente pelo mesmo simbolismo a presença da concha marinha, das ostras e das pérolas em muitos ritos religiosos e nas cerimônias agrárias e iniciáticas, pois as ostras e as pérolas que favorecem a fecundação e o parto têm também uma feliz influência nas colheitas, manifestando-se a força expressa por um símbolo de fertilidade a todos os níveis cósmicos. 2. Na Índia soprava-se num búzio durante as cerimônias realizadas nos templos e por ocasião também das cerimônias agrícolas, nupciais e funerárias, e na costa de Malabar quando da colheita dos primeiros frutos o padre sai do templo precedido por um homem que sopra num búzio, no Sião os padres sopram em conchas no início das sementeiras e a mesma função ritual da concha se encontra entre os Astecas, representando certos manuscritos o deus das Flores e do Alimento levado em procissão precedido de um padre que toca uma concha. 3. Viu-se com que precisão o búzio, as conchas bivalves e as ostras exprimem o simbolismo do nascimento e do renascimento, e as cerimônias de iniciação incluem uma morte e uma ressurreição simbólicas, podendo a concha significar o ato de renascimento espiritual tão eficazmente como assegura e facilita o nascimento carnal. 4. Daí o rito que consiste em certas tribos algônicas em tocar o neófito com uma concha ao longo da cerimônia de iniciação e a mostrar-lha enquanto lhe contam os mitos cosmológicos e as tradições da tribo, e as conchas têm aliás um lugar importante na vida religiosa e nas práticas mágicas de numerosas tribos da América. 5. Nas cerimônias iniciáticas da Société Grande-Médecine dos Ojibwa e de Médecine Rite dos Winnebago as conchas intervêm como elemento indispensável, sendo a morte e a ressurreição ritual do candidato conduzidas pelo entrechocar de conchas mágicas conservadas em sacos de pele de lontra. 6. Os mesmos laços místicos que ligam as conchas às cerimônias de iniciação e de modo mais geral aos diversos ritos religiosos encontram-se na Indonésia, na Melanésia e na Oceania, e a entrada das aldeias do Togo é decorada com ídolos cujos olhos são feitos de conchas e perante os quais se amontoam oferendas das mesmas, oferecendo-se noutros locais conchas aos rios, às fontes e às árvores. 7. As virtudes mágico-religiosas das conchas explicam igualmente a sua presença na administração da justiça, pois como na sociedade chinesa nas sociedades primitivas o emblema que encarna um dos princípios cósmicos assegura a justa aplicação da lei, e na sua qualidade de símbolo da Vida cósmica a concha tem o poder de descobrir toda a infração à norma e todo o crime contrário aos ritmos e implicitamente à ordem da sociedade. 8. Devido à sua semelhança com a vulva o búzio e muitas outras espécies de conchas passam por preservar de toda a magia, da jettatura ou do mau-olhado, e os colares de conchas, as pulseiras, os amuletos ornados com as mesmas ou até a simples imagem destas defendem mulheres, crianças e gado da má sorte, das doenças e da esterilidade. 9. O mesmo simbolismo da assimilação à própria fonte da Vida universal alimenta a eficiência variada da concha, quer se trate de perpetuar as normas da vida cósmica ou social, de promover um estado de bem-estar e a fecundidade, de assegurar parto fácil à mulher ou renascimento espiritual do neófito durante uma cerimônia de iniciação. **O papel das conchas nas crenças funerárias** 1. O simbolismo sexual e ginecológico das conchas marinhas e das ostras implica como bem nos lembramos um significado espiritual, o segundo nascimento realizado pela iniciação e tornado possível graças à mesma fonte inesgotável que sustenta a vida cósmica, daí também a missão das conchas e das pérolas nos costumes funerários, pois o defunto não se separa da força cósmica que alimentou e regeu a sua vida. 2. Assim nos túmulos chineses encontra-se jade, e impregnado de yang, o princípio masculino, solar e seco, o jade pela sua natureza própria opõe-se à decomposição, escrevendo o alquimista Ko Hung que se se fechar com ouro e jade os nove orifícios do cadáver este será preservado da putrefação. 3. No tratado T'ao Hung-Ching encontram-se as seguintes indicações: se na abertura de um túmulo antigo o cadáver parece vivo lá dentro saiba-se que tanto no interior como no exterior do corpo existe uma grande quantidade de ouro e de jade, e segundo as regras da dinastia Han os príncipes e os senhores eram enterrados com as suas vestes ornamentadas de pérolas e caixas de jade destinadas a preservar o corpo da decomposição, tendo as recentes escavações confirmado a afirmação de Ko Hung sobre o jade que tapa os nove orifícios do cadáver. 4. O jade e as conchas concorrem para criar um destino excelente no além, pois se o primeiro preserva o cadáver da decomposição as pérolas e as conchas preparam ao defunto um novo nascimento, e segundo Li Ki o caixão era enfeitado com cinco fileiras de conchas preciosas e de placas de jade. 5. Além da ostra pei o culto funerário chinês utilizava ainda o maior e mais fino dos mexilhões, shen, sendo mexilhões e moluscos bivalves colocados no fundo do túmulo, e Cheng Hüan comenta assim este costume dizendo que antes de descer o caixão deve cobrir-se de shen o fundo do túmulo a fim de evitar a humidade. 6. Metiam-se pérolas na boca do morto e o ritual funerário utilizado para os Soberanos da dinastia Han precisa que as suas bocas são enchidas com arroz, pérolas e jade como manda o costume de há muito estabelecido para estas cerimônias, e encontraram-se cauris até nas estações pré-históricas do Pu-Chao, tendo a cerâmica chinesa proto-histórica sido também muito influenciada pelo simbolismo da concha. 7. O papel das conchas nas cerimônias funerárias da Índia não é menos importante, pois sopra-se num búzio e semeia-se de conchas o caminho que leva da casa do morto ao cemitério, e em certas províncias enche-se de pérolas a boca do morto. 8. O costume reencontra-se em Bornéu onde a influência hindu se implantou nitidamente num rito autóctone, em África estende-se uma camada de conchas no fundo do túmulo e este costume era frequente entre muitas populações americanas antigas, tendo-se encontrado conchas de toda a espécie, pérolas naturais ou artificiais em quantidades consideráveis nas estações pré-históricas, mais frequentemente nos túmulos. 9. Na caverna de Laugérie pertencente ao paleolítico as escavações fizeram aparecer numerosas conchas de espécies mediterrânicas, Cypraea pyrum e C. lurida, dispostas simetricamente aos pares sobre o esqueleto, quatro na testa, uma sobre cada mão, duas sobre cada pé e quatro junto dos joelhos e tornozelos, e a gruta de Cavillon continha cerca de oito mil conchas na sua maior parte pintadas de vermelho e um décimo das quais estava perfurada. 10. Por seu lado Cro-Magnon revelou mais de trezentas conchas de Littorina littorea perfuradas, algures foi encontrado um esqueleto de mulher coberto de conchas junto de um esqueleto de homem com ornamentos e coroa feitos de conchas perfuradas, e o homem de Combe-Capelle estava igualmente enfeitado com um colar de conchas perfuradas. 11. O que leva Mainage a interrogar-se por que razão o esqueleto de Laugerie-Basse usava um colar feito de conchas mediterrânicas e o esqueleto de Cro-Magnon um ornamento confeccionado com conchas oceânicas, porque é que em Grimaldi os túmulos forneceram conchas apanhadas no litoral do Atlântico e como é que em Pont-à-Lesse se encontram conchas terciárias recolhidas nos arredores de Reims, bastando só o nomadismo dos quaternários muito provavelmente para explicar estes fatos, mas sendo mais uma prova da importância mágico-religiosa das conchas nos povos pré-históricos. 12. Também se encontraram conchas de moluscos nos túmulos do Egito pré-dinástico, e as conchas do mar Vermelho forneceram durante muito tempo amuletos aos Egípcios, tendo as escavações de Creta revelado uma profusão análoga de restos conquíferos. 13. Em Phaestos encontraram-se num depósito neolítico ao lado de uma imagem feminina em argila conchas de petunculus cujo significado religioso não deixa dúvidas, e as escavações de Sir Arthur Evans permitiram definir mais claramente o valor mágico e a função cultural das conchas, sendo aliás frequentes os desenhos com motivos de conchas e devendo a sua persistência menos ao valor decorativo do motivo do que ao seu simbolismo. 14. Uma descoberta notável deste ponto de vista, e que segundo a opinião autorizada de Andersson asseguraria a transição entre o ciclo cultural euro-africano e a Ásia oriental, foi feita por Pumpelly em Anu, e por seu turno Andersson encontrou conchas em Yang Chao Thun e em Sha Ching, isto é, nas estações pré-históricas onde as urnas funerárias atestam os desenhos tão característicos que foram designados por death pattern e cowrie pattern e cujo simbolismo morte-renascimento não deixa sombra de dúvida. 15. Um antiquíssimo costume japonês explica-se por crenças semelhantes, pois ungindo o próprio corpo com pó de conchas assegura-se o renascimento. 16. O papel funerário das pérolas e das conchas parece ter sido de uma importância decisiva entre as populações autóctones das duas Américas, sendo a documentação recolhida por Jackson a este respeito bastante eloquente. 17. A propósito dos índios da Florida, Streeter escreve que tal como no Egito de Cleópatra na Florida os túmulos dos reis eram enfeitados com pérolas, que os soldados de Soto num dos grandes templos encontraram urnas de madeira onde jaziam mortos embalsamados e junto deles havia pequenos cestos de pérolas, que o templo de Tolomecco era o mais rico em pérolas com as paredes altas e o teto em nácar e colares de pérolas e de plumas pendendo das primeiras, e que sobre os caixões dos reis estavam pousados os respectivos escudos ornamentados de pérolas e no meio do templo se encontravam jarras cheias de pérolas preciosas. 18. Willoughby mostrou já o papel essencial das pérolas nas cerimônias funerárias descrevendo as solenidades de mumificação dos reis índios de Virgínia, e Zelia Nuttall descobriu no cimo de uma pirâmide do México uma camada espessa de conchas no meio da qual estavam túmulos. 19. A presença em certas regiões de bocados de ferro ao lado das pérolas e das conchas prova que se entendia aproximar o defunto de todas as formas de energia mágica de que então se dispunha, desempenhando o ferro como em Creta o papel pertencente na China ao jade e ao ouro. 20. Na caverna de Mahaxay, Madeleine Colani descobriu machados, cristais de rocha e muitas conchas de Cypraea e conseguiu ao mesmo tempo demonstrar o caráter funerário e a função mágica dos machados, sendo todos estes objetos colocados no túmulo a fim de assegurar ao defunto as melhores condições no além. 21. Importantes depósitos conquíferos de ostras e outros moluscos foram encontrados em muitas estações pré-históricas muito afastadas uma das outras, pois algumas Cypraea moneta por exemplo foram descobertas na famosa necrópole de Kuban no norte do Cáucaso, outras conchas nos túmulos citas dos arredores de Kiev que pertencem à civilização Ananino do Ural ocidental, e depósitos análogos foram encontrados na Bósnia, em França, em Inglaterra e na Alemanha, na costa báltica sobretudo onde os antigos já procuravam o âmbar. 22. A função capital das pérolas na elaboração dos diferentes rituais mortuários avalia-se também pela presença de pérolas artificiais, tendo Nieuwenhuis estudado estas últimas executadas em pedra ou em porcelana de que se servem frequentemente os habitantes de Bornéu, sendo a origem das mais antigas incerta e vindo as mais recentes de Singapura mas sendo na maior parte das vezes fabricadas na Europa. 23. Madeleine Colani explica assim o papel destas pérolas nas solenidades agrícolas, nos sacrifícios ou nas cerimônias funerárias do Laos: os mortos são providos de pérolas para a vida celeste, aquelas são introduzidas nos orifícios naturais do cadáver, e nos nossos dias os mortos são enterrados com cintos, bonés ou fatos enfeitados com pérolas, destacando-se as pérolas depois da corrupção do corpo. 24. O mesmo autor encontrou enterradas junto dos megalitos do Tran Ninh uma quantidade destas pequenas jóias em vidro, centenas por vezes, dizendo que estas pérolas antigas desempenhavam de acordo com todas as probabilidades uma função importante na vida dos povos e que as que descobriu tinham sido enterradas no solo para servir aos defuntos, sendo muito mais simples do que as representadas por Nieuwenhuis e ignorando-se se teriam unicamente uma atribuição funerária. 25. Junto destas pérolas arcaicas do Alto-Laos havia guisos em bronze, e a associação metal-pérolas é aliás frequente e manteve-se em certas regiões do Pacífico, recordando Madeleine Colani que no Bornéu dos nossos dias mulheres dayak usam colares com muitos guisos. 26. O caso das pérolas artificiais é um exemplo certo de degradação do sentido metafísico original e da sua evicção por um sentido secundário exclusivamente mágico, pois o poder sagrado das pérolas vinha da sua origem marinha e de um simbolismo ginecológico, sendo pouco provável que todas as populações que utilizaram pérolas e conchas nas suas cerimônias mágicas e funerárias tenham tido consciência deste simbolismo. 27. Supondo mesmo que tenha havido uma consciência dessas relações esta deve ter-se limitado a alguns membros da sociedade e este conhecimento não se conservou sempre intacto, pois quer tenham tomado de empréstimo a noção mágica da pérola às populações de cultura superior com as quais se viram em contato quer a sua própria noção tenha com o tempo sofrido pela intervenção de elementos estranhos um abastardamento, o fato é que certas populações fizeram entrar nas suas cerimônias objetos artificiais que pretendiam assemelhar-se aos modelos sagrados. 28. O caso não é único, pois conhece-se o valor cosmológico do lápis-lazúli na Mesopotâmia, sendo o azul desta pedra exatamente igual ao do céu estrelado em cuja força sagrada ela participa, e uma concepção análoga encontra-se aliás na América pré-colombiana. 29. Em alguns túmulos antigos de uma ilha do Equador encontraram-se vinte e oito bocados de lápis-lazúli talhados em forma de cilindro e maravilhosamente polidos, mas depois foi provado que esses bocados de lápis-lazúli não pertenciam aos aborígenes da ilha, tendo com toda a certeza sido deixados pelos visitantes do continente que se dirigiram à ilha com a finalidade de praticar certos ritos ou cerimônias sagradas. 30. É importante salientar que na África ocidental se atribui também valor excepcional às pedras artificiais azuis, tendo Wiener recolhido ali uma documentação muito rica, e é certo que o simbolismo e o valor religioso destas pedras têm a sua explicação na ideia da força sagrada em que por virtude da sua cor celeste elas participam. 31. Essa ideia é frequentemente ignorada, ou mal entendida, ou degradada por certos elementos destas populações que frequentemente tomaram de empréstimo o objeto do culto ou do símbolo de uma cultura avançada sem lhe adoptarem o significado normal, na maioria das vezes inacessível a essas populações, podendo assim supor-se que as célebres falsas gemas coloridas que do Egito, da Mesopotâmia e do Oriente romano penetraram até ao Extremo-Oriente tiveram em dado momento um significado mágico derivado sem dúvida alguma do seu modelo natural ou do simbolismo geométrico que elas implicam. 32. A virtude sagrada das conchas transmite-se à sua imagem como aos motivos decorativos de que a espiral é elemento essencial, encontrando-se no Kansu numerosas urnas funerárias decoradas com cowrie-pattern, e Andersson por outro lado interpreta a figura que predomina nas urnas de P'an Shan como um jogo de quatro magníficas espirais. 33. Fato digno de relevo, este motivo é reservado quase exclusivamente às urnas funerárias e nunca aparece nas cerâmicas de utilização profana, ficando assim bem estabelecido o valor metafísico e ritual do cowrie-pattern e do death-pattern, e este motivo de decoração típico da cerâmica chinesa tem papel ativo no culto dos mortos. 34. A imagem da concha ou os elementos geométricos derivados da representação esquemática da concha põem o defunto em comunicação com as forças cósmicas que comandam a fertilidade, o nascimento e a vida, pois o que tem valor religioso é o simbolismo da concha, sendo a imagem por si só eficiente no culto dos mortos quer esteja presente através da concha quer atue simplesmente através do motivo ornamental da espiral ou de cowrie-pattern. 35. A função mágica deste motivo decorativo funerário não se verifica aliás apenas na China, pois Hanna Rydh assinalou semelhanças entre o death-pattern da cerâmica pré-histórica chinesa e os desenhos gravados nas urnas pertencentes à cultura megalítica escandinava, e por outro lado Andersson nota certas analogias entre as urnas de Kansu e a cerâmica pintada da Rússia meridional, analogias essas igualmente estudadas pelo professor Bogajevski. 36. Este motivo da espiral encontra-se aliás em muitos pontos da Europa, da América e da Ásia, sendo necessário acrescentar todavia que o simbolismo da espiral é bastante complexo e a sua origem ainda incerta, mas pelo menos pode-se provisoriamente captar a polivalência simbólica da espiral e as suas relações estreitas com a Lua, o raio, as águas, a fecundidade, o nascimento e a vida de além-túmulo. 37. A concha afinal, se bem nos lembramos, não se liga exclusivamente ao culto dos mortos, pois ela aparece em todos os atos essenciais da vida do homem e da coletividade: nascimento, iniciação, casamento, morte, cerimônias agrícolas e cerimônias religiosas. **A pérola na magia e na medicina** 1. A história da pérola é um testemunho mais do fenômeno de degradação de um sentido inicial metafísico, pois o que num dado momento foi símbolo cosmológico e objeto rico em forças sagradas benfeitoras torna-se por obra do tempo em elemento decorativo cujas qualidades estéticas e valor econômico são apreciados, mas da pérola-símbolo da realidade absoluta à pérola-objeto-de-valor dos nossos dias a mudança operou-se em várias etapas. 2. Na medicina tanto oriental como ocidental a pérola desempenhou um papel importante, e Takkur analisa em pormenor as qualidades medicinais da pérola que se emprega contra as hemorragias e a icterícia e que cura os possessos e a loucura, nada mais fazendo o autor hindu do que continuar uma longa tradição médica, pois médicos ilustres como Caraka e Suçruta recomendam já o seu uso. 3. Narahari, médico de Cachemira, escreve que a pérola cura os males dos olhos, que é um antídoto eficaz nos casos de envenenamento, que cura a tísica e que enfim garante força e saúde, e está escrito na Kathāsaritsāgara que a pérola como os elixires da alquimia expulsa o veneno, os demônios, a velhice e a doença. 4. A Harshacarīta lembra que a pérola nasceu das lágrimas do deus da Lua e que a sua origem lunar, sendo a mesma Lua fonte de ambrosia eternamente curativa, faz dela o antídoto de todos os venenos, e na China a medicina utilizava unicamente a pérola virgem não perfurada que passava por curar todas as doenças dos olhos, reconhecendo a medicina árabe à pérola virtudes idênticas. 5. A partir do século VII a utilização medicinal da pérola divulga-se também na medicina europeia e em breve se verifica uma grande procura desta pedra preciosa, recomendando Albertus Magnus o seu emprego e preocupando-se Malachias Geiger na sua Margaritologia exclusivamente com a utilização medicinal da pérola e afirmando que a empregou com êxito no tratamento da epilepsia, da loucura e da melancolia, enquanto um outro sublinha a eficácia da pérola para fortificar o coração e tratar a melancolia e Francis Bacon inclui a pérola nas drogas da longevidade. 6. É escusado dizer que o lugar da pérola na medicina de tantas civilizações diferentes mais não faz que suceder à importância que teve primeiramente na religião e na magia, pois por ter sido símbolo da força aquática e geradora a pérola torna-se numa época posterior tônico geral e afrodisíaco e ao mesmo tempo remédio para a loucura e melancolia, duas doenças de influência lunar portanto sensíveis à ação de todo o símbolo de Mulher, de Água e de Erotismo. 7. O seu papel na cura de doenças dos olhos e como antídoto de venenos é uma herança das relações míticas entre pérola e serpentes, pois em muitas regiões pensava-se que as pedras preciosas caíam da cabeça das serpentes ou estavam escondidas na garganta dos dragões, e na China a cabeça do dragão continua a passar por incluir uma pérola ou qualquer outra pedra preciosa e mais do que uma obra de arte representa um dragão com uma pérola na boca, derivando este motivo iconográfico de um simbolismo muito antigo e assaz complexo que nos levaria muito longe. 8. Significativo enfim é o valor da longevidade que Francis Bacon atribui à pérola, pois é justamente uma das virtudes primordiais desta pedra preciosa, e a sua presença sobre o corpo do homem como aliás a da concha projeta este nas próprias fontes de energia, de fecundidade e de fertilidade universais, e quando esta imagem interior deixou de corresponder ao novo Cosmos descoberto pelo homem ou quando a sua recordação por outros motivos se abastardou, o objeto antes sagrado conservou o seu valor mas esse mesmo valor definiu-se a um outro nível. 9. Nos confins da magia e da medicina a pérola desempenha o papel ambíguo de talismã, pois o que antes dava fertilidade e assegurava um destino ideal post-mortem torna-se pouco a pouco fonte constante de prosperidade, e na Índia esta concepção conservou-se até bastante tarde, dizendo Budahabatta que a pérola deve sempre usar-se como amuleto dos que desejam prosperidade. 10. A prova de que a pérola entrou na medicina por ter tido primeiro o seu papel na magia e no simbolismo erótico-funerário é que as conchas em certas regiões possuem uma virtude medicinal, sendo na China tão familiares ao médico como preciosas para o mágico e o mesmo acontecendo em certas tribos da América. 11. Além do valor que lhe é reconhecido pela magia e pela medicina, as conchas marinhas e outras foram frequentemente utilizadas como moeda, sendo as informações fornecidas a este propósito por Jackson e alguns outros autores suficientes para o provar, e Karlgren, que demonstrou o emprego monetário das conchas na China, pensa que o costume de colocar uma moeda sobre a testa não é mais do que uma reminiscência dos tempos em que a concha era ainda correntemente usada como amuleto. 12. O valor sagrado simbólico da concha marinha e da pérola torna-se pouco a pouco profano, mas a natureza preciosa do objeto em nada é atingida por este deslocamento de valor, pois nele se concentrou em todos os momentos a força, ele é força e substância e enfim ele permanece constantemente solidário da realidade, da vida e da fertilidade. **O mito da pérola** 1. As imagens arquetípicas guardam intactas as suas valências metafísicas a despeito das eventuais valorizações concretas, pois o valor econômico da pérola não anula de maneira alguma o seu simbolismo religioso, sendo este continuamente redescoberto, reintegrado e enriquecido. 2. Recordemos efetivamente o papel considerável que a pérola desempenha na especulação iraniana, no cristianismo e na gnose, pois uma tradição de origem oriental explica o nascimento da pérola como fruto do raio penetrando no mexilhão, sendo a pérola o resultado da união entre o Fogo e a Água, e Santo Efrém utiliza este mito antigo para ilustrar tanto a Imaculada Conceição como o nascimento espiritual de Cristo no baptismo de fogo. 3. Por outro lado Stig Wikander mostrou que a pérola era o símbolo iraniano por excelência do Salvador, e a identificação da Pérola com o Salvador salvado tornava possível um duplo simbolismo, pois a Pérola tanto podia representar Cristo como a alma humana, retomando Orígenes a identificação de Cristo com a pérola e sendo nisto seguido por inúmeros autores. 4. Num texto do pseudo-Macário a pérola simboliza por um lado Cristo-Rei e por outro o descendente do Rei, o cristão, dizendo-se que a Pérola grande, preciosa e real pertencente ao diadema real convém unicamente ao rei, que só ele pode usar esta pérola e que não é permitido a nenhum outro usar pérola semelhante, e que assim um homem que não nasceu de espírito real e divino, que não se tornou membro da raça celeste e real e que não é filho de Deus não pode usar a preciosa pérola celeste, a imagem da indizível Luz que é o Senhor. 5. No famoso escrito gnóstico os Atos de Tomé a busca da pérola simboliza o drama espiritual da queda do homem e da sua salvação, pois um Príncipe do Oriente chega ao Egito para procurar a Pérola defendida por serpentes monstruosas e o Príncipe deve vencer uma série de provas iniciáticas para obtê-la e só consegue vencer aliás com a ajuda de seu pai, o Rei dos Reis, imagem gnóstica do Pai celeste. 6. O simbolismo deste texto é bastante complexo, pois a Pérola representa por um lado a alma humana caída no mundo das trevas e por outro o próprio Salvador salvo, e a identificação do homem com a pérola encontra-se em muitos textos maniqueístas e mandeístas, tendo o Espírito Vivo retirado o Primeiro homem para fora da luta como uma pérola é tirada do mar. 7. Santo Efrém compara o mistério do baptismo com uma pérola que não pode voltar a ser adquirida, dizendo também o mergulhador tira a pérola do mar, mergulhai e deixai-vos baptizar, tirai da água a pureza que nela está escondida, a pérola de onde saiu a coroa da divindade. 8. Numa outra ocasião, discorrendo a respeito de ascetas e de monges, Santo Efrém compara a ascese a um segundo baptismo, pois tal como o caçador de pérolas deve mergulhar nu no oceano e abrir caminho por entre os monstros marinhos, assim também os ascetas penetram nus por entre os homens deste mundo. 9. Além do simbolismo da nudez pode decifrar-se neste texto alusão aos monstros marinhos que espreitam o catecúmeno durante a sua imersão baptismal, pois a gnose está escondida e é difícil de atingir e o caminho da salvação está semeado de obstáculos. 10. A pérola simboliza tudo isto e outras coisas ainda, pois a sua aparição neste mundo fenomenal é miraculosa e a sua presença entre os seres caídos é paradoxal, significando a pérola o mistério do transcendente tornado sensível e a manifestação do Deus no Cosmos. 11. Graças ao gnosticismo e à teologia cristã este antigo símbolo da Realidade e da Vida-sem-Morte adquire novas valências, a alma imortal, o Salvador salvo e o Cristo-Rei, sublinhando-se uma vez mais a continuidade das diversas significações da pérola desde as mais arcaicas e elementares aos mais complexos simbolismos elaborados pela especulação gnóstica e ortodoxa. {{tag>Eliade imagem símbolo tempo concha}}