====== AMATERASU ====== //GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.// [[SANSÃO]] E AMATERASU * Como Sansão, Amaterasu se esconde em uma caverna, e a lenda de Amaterasu é a descrição minuciosa de um cenário ritual tardio que substituiu cerimônias iniciáticas anteriores. * A mitologia japonesa provém diretamente dos ritos neolíticos. * O culto xintoísta se aproxima do culto neolítico. * Ritos importados do estrangeiro podem fundar uma religião nacional porque o contato com o mana sobrenatural torna-se o centro da vida e a quintessência da alma nacional. * O mito de Amaterasu é narrado da seguinte forma: seu irmão Susanô, o deus das tempestades, a aterrorizou e a atormentou até que ela se feriu com uma lançadeira e se refugiou em uma caverna. * O mundo ficou mergulhado nas trevas; os deuses chamaram, cantaram e gritaram diante da gruta, mas Amaterasu permaneceu encerrada. * A deusa Uzume executou uma dança com um traje chocante e gestos indecentes, que fez os deuses rirem. * Amaterasu, cedendo à curiosidade, olhou por uma fenda; apresentou-se-lhe um espelho, no qual ela avançou para se olhar. * O deus da força, escondido perto da porta, a pegou pela mão e a trouxe para fora, e a luz reapareceu com ela. * Susanô foi excluído da sociedade dos deuses, teve as unhas das mãos e dos pés arrancadas e foi exilado na terra. * Na terra, matou um dragão de oito cabeças que estava prestes a devorar uma virgem, casou-se com ela e fundou um império na província de Izumo. * Na cauda do monstro, encontrou a famosa espada, que enviou a Amaterasu, que a deu a seu neto Ninighi. * A espada, com o espelho e o colar de pedras preciosas, é um dos talismãs do império japonês. * A lenda é sacrossanta no Japão porque o mikado atual descende diretamente do sol por intermédio de Jimmu Tennô. * Essa pretensão é sem dúvida fundada, se se entende por sol uma mulher sagrada que se identificou com o astro divino pelo cumprimento dos ritos iniciáticos e exerceu o poder em tempos antigos. * Trata-se de um cenário ritual tardio, substituído às cerimônias iniciáticas anteriores, onde cada detalhe constitui um elemento dramático e nada é inventado. * Susanô desempenha o papel do personagem sagrado tormentador, que assusta os neófitos e os empurra para o mundo subterrâneo. * O retiro na caverna é o período de reclusão iniciática, correspondente à catábase. * Os apelos, gritos, danças e indecências são o prolongamento das festas que marcavam o fim do período probatório e acompanhavam as iniciações sexuais. * O fogo aceso diante da gruta é a continuação do fogo novo, cuja produção constituía um dos ritos mais solenes. * O riso dos deuses continua o riso litúrgico que coroava a iniciação, mostrando o iniciado admitido a compartilhar a alegria divina. * O traje grotesco de Uzume lembra que, nas iniciações, os rapazes se disfarçavam de moças e vice-versa, para exprimir a força regeneradora dos ritos. * O espelho atesta que o fogo novo era obtido por concentração dos raios luminosos. * O recurso ao deus da força para tirar Amaterasu da gruta é a sobrevivência de um antigo rito de captura ou luta. * A expulsão de Susanô responde à do personagem sagrado tornado personagem emissário. * O caráter iniciático de Susanô revela-se porque, como Apolo ou Héracles, mata um dragão, o que resulta na posse de um objeto sacrossanto. * Como Perseu, Susanô arranca ao dragão uma virgem com quem se casa. * Os menores elementos do mito japonês traduzem uma realidade ritual, sem nada imaginário, ligando-se ao domínio do sagrado neolítico. * O mikado atual desce dos deuses antigos, dos quais recebe seu poder, deuses que vieram de longe para as ilhas do Japão. * A Grécia os celebrou sob o nome de Olímpicos, e a Bíblia fala deles ao mencionar Noé. * Eles foram grandes santos, herdeiros da teocracia pastoral anterior. * A religião nacional do Japão tem sua fonte longínqua nas iniciações neolíticas, que vivificaram o antigo fundo totêmico e matriarcal. * Foram essas cerimônias rituais que fizeram do mikado o Grande Iniciado, depositário da energia sobrenatural. * Elas ainda constituem o atrativo e a beleza do xintoísmo, que conservou elementos neolíticos distantes. * O santuário estatal (Miya) lembra o recinto sagrado de quatro ou cinco mil anos atrás. * Os Torii (dois postes unidos por uma travessa) respondem às concepções sobre postes e estacas sagrados derivados da árvore sagrada. * O interior da Miya, completamente nu, contém três objetos sagrados: um espelho de metal, o Gohei e uma bola de cristal de rocha. * A difusão da mesma liturgia fundamental de morte e ressurreição iniciática pela Grande Igreja Neolítica criou deuses e heróis nacionais. * Os ritos diluvianos desenvolveram em cada povo as aspirações latentes, os poderes de reflexão e os ímpetos místicos. * Conduziram a humanidade a tomar consciência de si mesma, dando-lhe a noção de sua grandeza. * O mito de Sansão será mais bem compreendido à luz dessa interpretação iniciática. * A interpretação habitual da mitologia japonesa é inexata, pois não remonta às iniciações antigas. * A lenda de Amaterasu na caverna não reflete ritos de eclipse, mas sim os ritos iniciáticos. * Susanô e Amaterasu constituíam, originalmente, um par dioscúrico (gêmeos lunares).