====== PANORAMA ====== //GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.// Encontram-se na história religiosa e no folclore numerosos fatos desconcertantes, cuja solução deve ser buscada no cerne das crenças e práticas religiosas. * Pergunta-se sobre a origem de sacrifícios ao Dragão, que em toda parte implicam uma luta contra um Dragão. * Questiona-se por que outros animais substituem frequentemente o Dragão ou a Serpente. * Indaga-se por que as vítimas exigidas por essas personagens míticas são quase sempre jovens virgens. * Pergunta-se de onde vem a obrigação, em tantos lugares, de a jovem se prostituir ou se dar a um homem que não fosse seu marido antes do casamento. * Questiona-se sobre a origem da instituição da hierodulia, ou prostituição sagrada. * Busca-se explicar o acasalamento com animais. * Indaga-se, nos ritos matrimoniais, como compreender a origem do casamento por rapto. * Pergunta-se por que, em tantos casos, os casamentos foram acompanhados de lutas. O fundamento da explicação para os problemas religiosos reside nos misturadouros culturais ocorridos no neolítico, entre a civilização agrícola de origem matriarcal e a civilização pastoril ou dos criadores nômades. * Os grupos matriarcais, que antes inauguraram a pequena cultura com o bastão cavador e depois com a enxada, puderam utilizar o gado dos pastores para o trabalho nos campos, o que levou à invenção do arado e a uma prodigiosa extensão da agricultura. * Os criadores nômades, provenientes de regiões nórdicas, eram detentores das tradições primordiais, que puderam conservar graças à sua organização em grandes famílias patriarcais. * No paleolítico, uma poderosa teocracia fizera reinar entre eles a ordem e a coesão, cuja lembrança deu origem ao conceito da idade de ouro. * Os primeiros contatos com a civilização do sul levaram a uma decadência, quando os “deuses” ou os “filhos de Deus” se uniram às “filhas dos homens”, isto é, às mulheres agricultoras, e os princípios de ascese da grande teocracia pastoril fraquejaram. Após uma época sombria que terminou com o Dilúvio bíblico, a teocracia pastoril se reorganizou a partir da região caucasiano-armênia, espalhando-se sobre os grupos matriarcais e instaurando uma era de equilíbrio e prosperidade. * A “Grande Montanha” neolítica (Cáucaso-Armênia) tornou-se uma verdadeira Igreja, de onde civilizadores, que eram verdadeiros apóstolos, sacralizaram montanhas, grutas, pedras, árvores e águas entre todos os povos. * Difundiu-se universalmente, assim, a bela religião neolítica que se esforçava por santificar a natureza a fim de santificar os homens. * A idade de prata, de Zeus, marca a tomada de posse da Terra pelo homem e o casamento da humanidade com o solo. * A data do neolítico varia conforme o país, não se devendo confundir a instrumentalidade neolítica com os elementos espirituais da civilização neolítica (como as iniciações). * O desastre espiritual chamado Dilúvio parece ter se produzido no quinto milênio a.C., ligada a cataclismos físicos do fim das eras glaciais. O grande instrumento de ação dessa Igreja neolítica, seu método de “infiltração” em relação à civilização feminina e totêmica, foi a instauração do ritual iniciático. * As iniciações de classes de idade ou iniciações da puberdade, e as iniciações de confrarias, constituem ainda hoje o próprio fundamento da vida social entre os “primitivos” e as nações ditas “selvagens”. * Essas cerimônias, que exigem às vezes anos de preparação, marcam a data essencial nas tribos etnográficas. * Busca-se raramente por que uma comunhão com o sagrado, uma absorção em um mana transcendente, efetua-se dessa maneira em toda parte e se traduz por uma liturgia iniciática de morte e ressurreição. * Essas noções fundamentais constituem a essência das religiões mais evoluídas e estão presentes, por exemplo, na primeira comunhão católica. * Ao se querer discernir a origem desses ritos, remonta-se, na antiguidade, inevitavelmente ao neolítico, e todos os indícios orientam para um foco único de difusão na região caucasiano-armênia, além de um foco anterior mais distante no noroeste da Europa (Atlântida, Ogygie, Tula, país dos hiperbóreos). Os grandes princípios que estavam na base dos ritos iniciáticos neolíticos foram se desvirtuando gradualmente, levando, com a intenção de aplicá-los, a aberrações como as prostituições sagradas. * Nas prostituições sagradas de meninas ou de rapazes, não foi originalmente um desencadeamento de bestialidade ou lubricidade que esteve em causa, nem o desejo de influenciar a natureza, nem o de uma comunidade hipotética de mulheres, nem o da exogamia como princípio fundamental. * Deve-se pensar nas relações do ser humano com a energia sacrossanta, tal como eram consideradas nas iniciações longínquas. A jovem virgem, ao final das cerimônias de iniciação tribal, era admitida à vida sexual e oferecia as primícias de sua nova existência à divindade, sendo desflorada por uma personagem sagrada. * O mundo divino terminava de penetrá-la e santificá-la sob a forma de um desflorador sacrossanto, marcando sua atividade genital futura com uma marca divina. * Ela se tornava, ao mesmo tempo, uma mulher completa e uma mulher divina, sendo que, em muitos casos, o rito se cumpria durante a reclusão iniciática. * O mito de Danaé é citado como exemplo, onde Danaé, enclausurada, foi visitada por Zeus (personagem sagrada desfloradora), que a tornou mãe de Perseu, mostrando a evolução do resumo das cerimônias para a noção de hierogamia e depois para rito de fertilidade. * A noção de hierogamia remonta ao desfloramento da jovem iniciada por uma personagem sagrada, e não a uma decisão arbitrária de um homem encarnar um deus e uma mulher uma deusa. Do lado do jovem homem, vitalizado pelas cerimônias de regeneração e transbordando de força transcendente, ele estava em condições de comunicar essa potência superior à mulher, seja pelo ato sexual, seja golpeando-a com a mão ou com instrumentos sagrados. * Essas noções, próprias a um complexo cultural neolítico onde o ciclo matriarcal entrava como elemento preponderante, não correspondiam aos costumes mais antigos dos pastores nômades. * A união da personagem sagrada (divinizada pela pele sacrificial) e da jovem iniciada (divinizada pela reclusão e provas) era a união de dois seres sobrenaturais, de um deus e uma deusa. * Esse caráter subsistiu mais tarde, quando a personagem sagrada foi um sacerdote e a jovem iniciada foi substituída por uma prostituta sagrada. As representações e os cultos fálicos tiveram origem nos desfloramentos sagrados transformados em hierogamias, e a própria ideia de uma sexualidade divina está ligada a esse rito. * Não se tratou de concepções primitivas que figuravam Deus como um falo e a deusa como um kteis por falta de imagem mais adequada; partiu-se sempre de um rito. * A imagem da Mãe Divina propagou-se no neolítico posteriormente às fusões culturais e em ligação com o deus do céu dos criadores, tendo sido as cerimônias iniciáticas que levaram a elaborar essa representação. * O antropomorfismo divino tem sua fonte principal nesses ritos, que operaram a junção do divino e do humano. * A degradação religiosa resultante foi tal que, entre os povos que conseguiram conter a influência do matriarcado, as iniciações das virgens púberes foram suprimidas bem antes das dos garotos, coincidindo essa supressão com um progresso. * Paralelamente, admitiu-se, após o neolítico, em favor do jovem homem, uma verdadeira período de devassidão sob o pretexto da difusão da energia sobrenatural condensada pelos ritos. As diferentes espécies do casamento matriarcal, que se opunham à coabitação do marido e da mulher, não conferiam à união sexual o caráter considerado inseparável da mentalidade religiosa. * O homem nunca pertencia à família de sua mulher, permanecendo um estrangeiro para ela. * É o espírito especial da civilização agrícola e animizada de base feminina que fornece a explicação profunda das práticas singulares estudadas. * Um grupo social onde predominasse o princípio patriarcal, próprio da civilização dos pastores nômades, jamais teria tolerado o desfloramento ritual ou a prostituição das jovens, mesmo sob as formas mais sagradas.