====== ABERRAÇÕES ====== //Pierre Gordon. La nuit des noces. Vieilles coutumes nuptiales. Leur signification — Leur origine. Paris: Dervy, 1950// ** COSTUMES ABERRANTES RELATIVOS À DEFLORAÇÃO ** * O desejo de obter a defloração da jovem sem recorrer ao ato sexual normal do marido conduziu a desvios explicados pelo antigo caráter sagrado da cessação da virgindade. * Explicação fundamentada no reconhecimento da perda da virgindade como um ato sacro-santo. * A defloração por meio de objetos diversos fundamenta-se na utilização de instrumentos originalmente considerados sagrados em diferentes culturas. * Utilização de ossos preparados para esse uso entre os Jivaros do Equador. * Emprego de um pedaço de madeira pelos indígenas de Alice Springs na Austrália central. * Prática frequente na Índia onde as virgens são defloradas em templos por um phallos que encarna a divindade. * Reconhecimento do caráter transcendente e do valor divino do ato operado pelo próprio deus. * A defloração pode ser efetuada manualmente por diversos agentes sociais específicos em contextos rituais. * A defloração realizada pela mãe da jovem ocorria em contextos públicos e litúrgicos ou como forma de evitar reprovação futura dos maridos. * Realização do ato no Peru em local público diante da parentela. * Caracterização da cerimônia como um evento litúrgico. * Mães Kamtchadales defloravam as filhas na infância para evitar críticas dos maridos. * Costume semelhante em Madagascar entre os Sakalaves em idade muito precoce. * Relação com o conceito de talisme — a defloração anterior à puberdade. * A prática executada por mulheres mais velhas do grupo é descrita como uma iniciação que envolve a dilatação vaginal forçada. * Registros da prática nas Filipinas e em grupos da África central como Wamegi e Wayao. * Necessidade da união sexual após o procedimento de dilatação. * Utilização eventual de um rasoir pela mulher idosa entre os Jatt do Baluchistão. * Os contextos culturais matriarcais atribuíam à mulher o poder iniciático de realizar a defloração como um sacramento sagrado. * Interpretação do ato como uma operação sagrada que registrava os resultados de uma iniciação no organismo feminino. * Rejeição da ideia de que a defloração fosse concebida como ato de prazer ou luxúria pelos antepassados neolíticos. * Definição da prática como o sacramento por excelência. * A autodefloração pelas próprias meninas constitui um caso raro interpretado como uma degeneração do costume original. * Ocorrência entre os Sakalaves de Madagascar quando a mãe omite a tarefa durante a infância. * A defloração executada pelo marido com o dedo representa uma verdadeira liturgia em certas sociedades. * Cerimônia pública em Samoa realizada pelo marido com o dedo. * Subsistência de rito análogo no Egito do século XIX descrito por Clot-Bey. * Uso do dedo indicador da mão direita envolto em lenço de musselina branca para realizar o ato. * Apresentação do lenço tingido de sangue aos pais e convidados como prova de castidade. * Continuidade do costume entre os fellahs egípcios segundo observações de Westermarck. * A virgindade possui um valor religioso eminente que supera sua condição de obstáculo físico ao cumprimento do ato conjugal. * O marido gradualmente assumiu o privilégio da defloração extranatural que pertencia anteriormente a figuras sagradas ou parentes. * Atribuição anterior do privilégio à mãe, às mulheres velhas, a personagens sacro-santos ou a convidados. * A intervenção de outros homens antes da união sexual é um fenômeno raro registrado em ritos preparatórios. * Prática em Queensland na Austrália onde homens operam no órgão feminino com os dedos antes do coito. * A defloração normal realizada por outros homens remete a categorias de indivíduos inicialmente sagrados na comunidade. * Diferentes tipos de defloradores sagrados incluem sacerdotes, feiticeiros, reis, chefes, anciãos, padrinhos e parentes. * A defloração pelo pai da jovem baseia-se em vínculos de fato vigentes em períodos anteriores a laços jurídicos formais de parentesco. * Uso atestado na Índia e na península de Malacca. * Discussão sobre a possibilidade de um incesto divinizante que aciona o sagrado. * Interpretação relacionada ao princípio exogâmico em culturas de faceta matriarcal. * A contratação de perfuradores profissionais sugere a sobrevivência de antigas confrarias ou seitas iniciáticas. * Existência de homens nas Filipinas cujo ofício pago era retirar a virgindade das moças. * Recurso a perfuradores oficiais na Nova Caledônia por parte do marido. * O recrutamento de homens para a defloração ritual após danças de iniciação reflete a continuidade de papéis sagrados ancestrais. * Contratação de um homem pelo pai entre os Azimba da África central mediante pagamento com frango, arroz e cerveja. * Interdição de relações posteriores entre o deflorador e a jovem. * Analogia entre o papel do deflorador e a figura de Zeus junto a Dânae. * Escolha de homens robustos e idosos entre os Yao para realizar o rito antes da puberdade e evitar a concepção. * A cessação da virgindade é entendida como um sacramento e uma liturgia religiosa totalmente distinta do casamento em diversas culturas. * Consideração do ato de deflorar como impuro entre certos povos. * Identificação do impuro como um aspecto derivado do sagrado. * A separação ritual impede que o sêmen masculino entre em contato com o sangue da defloração para prevenir males futuros. * Crença de que a mistura afligiria a criança com diversas doenças. * A ruptura divinizante do hímen pelo marido pode ocorrer deliberadamente sem a consumação do ato carnal pleno. * Distinção fundamental entre immissio penis e immissio seminis. * Manifestações sanguíneas femininas e o sangue da noite de núpcias possuem um poder dinâmico e exigem ritos de purificação. * Visão do sangue nupcial como uma espécie de veneno na literatura védica. * Necessidade de purificação com água virginal consagrada por um personagem santo na Nova Caledônia. * Relatos históricos descrevem defloradores profissionais cujo ofício era cercado de perigos sobrenaturais e riscos de vida. * Denominação de cadeberiz para os homens que exerciam essa ocupação no Extremo Oriente segundo Sir John Maundeville. * Crença na existência de serpentes que matavam aqueles que tomavam a virgindade no passado. * A função dos perfuradores profissionais vincula-se a personalidades sagradas e ritos de iniciação habilitados por provações. * O auxílio de amigos do noivo na defloração ritual configura a prática denominada arkismo. * Ritual praticado em tribos da África Central britânica próximas a Fort-Johnston. * Emprego da expressão Kudia ujebvu — comer coisas novas — para designar o ato do amigo que rompe a jovem. * A análise sociológica permite distinguir modalidades terminológicas como nasamonismo, arkismo e cadebérismo a partir de uma origem comum. * Nasamonismo referente a relações com parentes e amigos na boda e arkismo referente aos padrinhos. * Cadebérismo definido como o recurso a defloradores profissionais. * O pérégrinisme manifesta-se quando o estrangeiro assume a função sacralizadora do sacerdote como agente da defloração. * Senhores de Calicut pagavam brâmanes ou homens brancos para passar a primeira noite com suas esposas. * Estrangeiros estabelecidos em certas regiões eram preferidos e remunerados com quantias elevadas para realizar o ato ritual. * Escolha de estrangeiros em Cochin em detrimento dos compatriotas mediante presentes consideráveis. * A primazia de estrangeiros sobre agentes locais ou religiosos na defloração verifica-se em diversas regiões orientais. * Prevalência do uso na Birmânia, Pegu, Tibete e Malaca. * Preferência do rei de Tenasserim por estrangeiros brancos em vez de brâmanes. * A ausência de valorização da virgindade em certas culturas leva à contratação de marinheiros estrangeiros para realizar a defloração. * Relato de Richard sobre os habitantes de Aracan onde a virgindade não era estimada. * Pagamento a marinheiros holandeses para realizar o que o autor chamou de prostituição infame. * Os estrangeiros eram equiparados a iniciados portadores de uma substância dinâmica ou mana capaz de sacralizar a mulher. * Atribuição de um mana próprio especialmente aos brancos devido à cor iniciática da pele. * A santificação exigia que as mulheres fossem defloradas por seres divinos do grupo ou por indivíduos externos com substância vivificante. * Práticas de hospitalismo e troca de mulheres possuem fontes religiosas e origens estritamente sociológicas. * Oferecimento da esposa a um hóspede de forma análoga à oferta a personagens sacro-santos. * Tradições celtas e francesas medievais exemplificam a cessão de mulheres a visitantes de distinção. * Costume entre os Maoris de oferecer uma mulher ao chefe estrangeiro de alto escalão. * O costume de oferecer mulheres a hóspedes é uma prática universal verificada em numerosos continentes e etnias. * Presença entre Guaranis, indígenas do Brasil, Apaches, Esquimós, Aleutas, Masais e iorubás. * Registro da prática entre os antigos árabes. * O desejo de gerar descendentes mais nobres motivava o empréstimo de mulheres a estrangeiros de passagem na América do Norte. * A hospitalidade sagrada em culturas antigas conferia ao hóspede um status imediatamente inferior aos deuses. * Respeito aos hóspedes na Grécia, Roma e Índia. * Provérbio Ainu sobre não tratar o estrangeiro de forma leve. * Referência bíblica na Epístola aos Hebreus sobre acolher anjos sem o saber. * A troca de mulheres funciona como um processo de sacralização para renovar o mana ou afastar calamidades iminentes. * Troca efetuada pelos Wiimbaio na Austrália para evitar grandes doenças. * Ordem dos anciãos Kurnaï diante da aurora austral como sinal de ira celeste. * Determinação do angakok ou xamã entre esquimós para evitar enfermidades. * A união temporária com outro homem reativa as condições de iniciação e renova o sacramento feminino. * Certos contextos culturais viam a união sexual como a revelação suprema de Deus e participação na energia transcendental. * Conceituação da união como uma ressurreição mística do homem no seio do dinamismo eterno. * Observam-se formas simplificadas e profanas da prática ritual na troca de mulheres durante visitas recíprocas entre casais. * Exemplos entre os Banyankole da África central e nas ilhas Havaí. * A troca de mulheres evoluiu para se tornar um sinal de amizade entre grupos como os Déné e esquimós. * No estágio final de evolução profana, a troca ocorre por prazer, razões práticas ou sentimentos pessoais. * Uso para diversão ou conveniência em viagens. * Realização da troca por motivos de raiva ou como sinal de reconciliação.