====== DEUSA TRÍPLICE ====== //A Deusa Tríplica, Adam McLean// * A deusa constitui um arquétipo eterno da psique humana que persiste mesmo quando desprezado, reprimido ou negado exteriormente — presente desde os primórdios da civilização em desenhos rupestres, esculturas primitivas e grandes mitologias, manifestando-se na cultura atual sob os mais diversos disfarces. * Faz parte do tecido do ser humano, com o qual toda a humanidade precisa se relacionar interiormente para que haja equilíbrio de base na alma. * Mesmo que a humanidade venha a deixar a Terra rumo às estrelas, encontrará a deusa nas escuras profundezas do espaço. * Nos tempos antigos, a deusa era projetada no exterior — vista nos Reinos da Natureza, no corpo da Terra ou agindo por trás do destino humano — e vivenciada como um poder além e acima da humanidade, ao mesmo tempo transformador, desafiador, nutridor e preservador. * Ao longo do século XX, reconheceu-se uma estrutura ou estratificação da consciência humana que permite ver a deusa habitando, como arquétipo, o espaço interior — tão essencial quanto o coração físico —, embora seu exílio nos recessos profundos da alma faça com que sua ação sutil seja frequentemente ignorada, só percebida quando ela se manifesta no exterior de maneira potente e destrutiva. * Os últimos 2.500 anos testemunharam a ascensão de poderosas divindades masculinas que usurparam o lugar da deusa no esquema das coisas e tentaram destruir suas manifestações exteriores, levando-a a se envolver na substância da alma interior e a agir a partir de dentro. * As religiões patriarcais triunfaram exteriormente, impondo à humanidade sua vontade. * Esse período patriarcal produziu: o domínio do mundo físico via imperialismo; uma tradição científica materialista vinculada à cultura tecnológica; a exploração e o desperdício dos recursos da Terra; e a organização da agressão por meio de guerras nacionalistas. * A deusa permaneceu presente ao longo de todo o período de sua repressão — agindo de maneira sutil, por vezes vindo à superfície na história exterior nas épocas em que seus atributos foram projetados em personalidades ou movimentos da sociedade. * A tradição patriarcal acentuou o desenvolvimento da consciência via sentido masculino da apreensão e do domínio de forças no mundo. * Quando surge na história um desenvolvimento que não pode ser compreendido nesses termos, reconhece-se um novo fator emergindo do solo interior da alma humana, do qual a deusa foi banida — ela ainda age no interior da humanidade, embora a fonte dessas energias transformadoras nem sempre seja consciente. * A partir da metade do século XX, a humanidade começou a se ligar de modo consciente com o lado feminino da psique, e a deusa começa a surgir de novo — visível na ecologia, no pacifismo, nos serviços sociais de saúde e educação, na emergência da comunidade gay e no movimento de mulheres. * Para compreender os possíveis modos de manifestação da deusa no íntimo e no corpo coletivo da humanidade, torna-se necessário examinar as tradições passadas e as representações nas mitologias antigas — não para recapturar o passado, mas para aprender acerca das realidades interiores atuais com esses padrões antigos. * As mitologias antigas, parcialmente derivadas das religiões de mistério e das tradições de iniciação, projetaram a estrutura interior da psique no mundo exterior. * Um dos mais importantes desenvolvimentos do século XX foi a revelação de uma psicologia que reconhece as energias formadoras dessas representações mitológicas — mediante a contemplação das mitologias antigas, é possível ver o tecido da própria alma. * A tarefa proposta é esboçar algumas manifestações da deusa na mitologia com o propósito de oferecer maior compreensão de seu impacto atual na alma — a mitologia não deve ser estudada de maneira abstrata, mas contemplada, meditada e deixada irromper nos sonhos e na imaginação criadora. * A deusa é tríplice, manifestando-se sob três aspectos, pois une em si os complementos e os opostos da psique — sendo ao mesmo tempo delicada e implacável, plena de luz e capaz de conduzir às trevas e a terríveis horrores. * Essas polaridades são parte essencial da arquitetura da alma humana — cada polo se confunde com o outro e volta a se distinguir dele. * Das relações e dos encontros entre as polaridades vem a energia dinâmica da psique — o mercúrio interior da substância anímica que se move constantemente de um polo ao outro, descobrindo e explorando criativamente. * Sem essa polaridade, a vida interior murcharia num reino fossilizado. * O impulso preponderante do patriarcado — iniciado há 2.000 ou 3.000 anos com a negação do feminino — não podia preservar uma mitologia que unisse essas polaridades, preferindo negar um dos polos e produzindo a terrível doença do dualismo, em que um polo é identificado como bom e outro como mau. * Esse dualismo forneceu o sentido de justiça absoluta necessário a civilizações patriarcais fundadas no poder militar e no imperialismo. * Uma civilização dessa espécie sempre pode projetar a imagem do mal na raça ou povo que deseja conquistar, certa de que seu Deus está do seu lado. * O dualismo Leste-Oeste, Capitalismo-Comunismo ainda fornece combustível a conflitos e competições absurdos entre nações e povos. * Em termos mitológicos, a estrutura patriarcal só podia incorporar seu oposto dual na forma de divindades rivais — uma hierarquia de deuses bons, plenos de luz, e uma hierarquia invertida de deuses maus do mundo inferior. * Durante o conflito entre muçulmanos e cristãos, cada parte via a outra como incrédulos infiéis; tanto o cristianismo como o islamismo perseguiram os judeus ao longo da história. * Uma mitologia masculina não pode integrar as polaridades do dualismo — continuar trabalhando com esses arquétipos condenaria a humanidade e seus descendentes à luta interpessoal e internacional, além de impedir a integração dos opostos na psique e a liberação de enormes recursos de energia criativa. * O feminino é capaz de unir os opostos — sua imagem cósmica é a Lua, com sua fase sombria de Lua Nova, sua fase luminosa de Lua Cheia e seus crescentes e minguantes intermediários. * Os deuses masculinos, identificados com a luz do Sol, não podiam passar por tal ciclo — suas mitologias eram forçadas ao dualismo entre deuses celestes bons e deuses do mundo inferior maus. * A deusa tríplice traz em si todas as polaridades — mutável, desafia o pensamento unidimensional com contradições e aparentes inconsistências, mudando de forma a cada volta de seu ciclo. * Ao se relacionar com a faceta deusa tríplice, há uma perturbação inicial causada por sua mutabilidade — séculos de pensamento abstrato, unidimensional e patriarcal lutam contra ela, rejeitando seu impulso por considerá-lo caótico. * Ao mudar interiormente e ao adaptar os padrões da alma às suas energias formadoras, torna-se possível valorizar uma consciência da mudança cíclica interior. * Dessa Conjunção — integração e encontro íntimos entre as facetas masculina e feminina da alma — pode surgir uma poderosa corrente de energia criativa que poucos experimentaram. * Se a humanidade pudesse se dedicar coletivamente a essa viagem, uma grande energia criativa seria liberada — tornando-se verdadeiros recipientes das energias espirituais do futuro. * Para encontrar a deusa tríplice na mitologia, é necessário remontar ao substrato do mito — bem antes da ascendência do mito de Cristo, os mitos primais da deusa foram esmagados sob o peso de gerações de deuses masculinos que usurparam seu lugar. * No Antigo Egito, Neith/Nut e, mais tarde, Ísis a representam — o culto de Ísis se mantém forte até que, em dinastias posteriores, começa uma masculinização da hierarquia dos deuses com Ámon-Rá. * Na Grécia Antiga, no início do primeiro milênio a.C., o deus celeste Zeus-Dyeus foi levado por uma nova onda migratória — a partir de então, Zeus, por meio da violação e da astúcia, destronou a deusa de muitos de seus centros de culto. * A mitologia grega mostra especial transparência quanto a esses processos, provavelmente por ter sido registrada enquanto eles se desenvolviam. * O caráter tríplice da deusa não é mera multiplicação por três, mas manifestação sob três aspectos correspondentes aos três planos do microcosmo humano — corpo, alma e espírito — e aos três domínios do macrocosmo — céu uraniano, superfície da Terra e profundezas ctônicas. * O reino do tempo também é tríplice — Passado, Presente e Futuro — e algumas deusas correspondem triplicemente a essa divisão. * Em algumas manifestações, uma das facetas é positivamente inclinada aos seres humanos, outra tem disposição negativa e uma terceira serve de mediação e decide o curso de ação. * O aspecto tríplice mais importante da deusa é sua manifestação como Virgem/Mãe/Anciã — correspondente às três fases da vida da mulher, ao ciclo das fases lunares e ao ciclo menstrual, à ovulação e à possível gravidez. * Outra maneira de considerar a deusa tríplice advém de suas relações com o masculino: como Virgem sem vínculo com o masculino — caso de Atena —, como esposa madura e fiel — caso de Hera — ou como a Prostituta que escolheu seus muitos amantes — caso de Afrodite. * Uma trindade semelhante está na figura de Ísis como Irmã, Esposa e Viúva de Osíris. * A concepção hermética dos Três Princípios — Sal, Enxofre e Mercúrio — fornece também uma imagem das três facetas da deusa. * O Sal é o princípio contrátil, sombrio e terreno; o Enxofre é o princípio radioso, expansivo, luminoso e celeste em ação; o Mercúrio serve de mediação e de ligação entre os dois — sobe até o Enxofre e traz uma essência para a esfera do Sal, em eterna circulação. * Esse tríplice aspecto pode ser reduzido, embora com grosseira simplificação, à trindade Corpo, Alma e Espírito da natureza humana. * A escolha metodológica do livro é enfocar o arquétipo da deusa tríplice — e não a deusa em si — concentrando-se na tradição ocidental e nos mitos gregos em particular, sem pretensão de estudo exaustivo que abarque mitologias africanas, sul-americanas, da Oceania e do Oriente. * Afrodite foi vista como Virgem, como Esposa e como Prostituta — trindade análoga à de Ísis como Irmã, Esposa e Viúva de Osíris. * Esse arquétipo permanece sendo a chave para a descoberta do reservatório de energias antigas e de sabedoria espiritual acumulado e reprimido na alma ocidental — herdeira dos problemas de uma raça cuja alma coletiva acumulou profundas feridas resultantes de milênios de estruturas patriarcais dualistas e unilaterais. * Se homens e mulheres conseguirem se religar com o arquétipo da deusa no solo do seu ser, ela poderá ajudar a curar essas feridas do dualismo e a abrir a porta da alma para o encontro e o casamento interiores entre os componentes masculino e feminino. * Tudo está dentro, se houver coragem de empreender a jornada.