====== MAÇÃS DO JARDIM DAS HESPÉRIDES ====== Para compreender a conquista dos pomos de ouro por Hércules, é preciso, como sempre, representar-se um circundado sagrado situado no topo de uma montanha, e, mais baixo uma gruta, na qual se mantém um dragão. O herói deve então triunfar deste último, que, neste trabalho se denomina Ladon, lembrando assim a designação de um rio da Arcádia, e também de um pequeno rio de Elide, e enfim da antiga Mãe Divina Lada, que se tornou por um lado Leda, por outro Leto: estas aproximações demonstram que cremos que houve no Peloponeso, em uma data muito antiga, um Digestor divinizante notável, no qual se encarnava a Mãe iniciática, e que foi tomado como tipo dos dragões; talvez mesmo o cenário dos pomos de ouro se passava aí, em um posicionamento sacrossanto. — Uma vez desembaraçado do «monstro», Hércules sobre para a macieira cósmica, e colhe as três maçãs. Segundo certas versões, as maçãs são pegas por Atlas, que não é outro que a hipóstase da montanha sacrossanta, sobre a qual cresce a árvore dos frutos transcendentes; enquanto Atlas vai buscar as maçãs, Hércules porta nos ombros, em seu lugar, o peso do céu; é ajudado, nesta dura ocupação por Atena; o sentido destas variantes é de uma rara profundidade; o mana da montanha divina (= Atlas) se funda na substância do herói, que se torna por isso um meio de comunicação entre a terra e o céu; deste fato, as três maçãs iniciáticas devem ser concedidas, posto que seu dom sanciona a posse das qualidades espirituais requeridas. É provável, além do mais, que a luta contra Atlas substituiu, em diferentes centros iniciáticos, o combate contra Ladon, e não mais se juntou. Segundo um outro ciclo de variantes, que devem ser mantidas igualmente por exatas. eram as Hespérides que pegavam as maçãs para Hércules. Elas ajudam este a fazer adormecer o dragão. Encontramos assim a personalidade feminina que ajuda o heróis, e cuja presença constitui, desde a mais alta antiguidade, um traço característico das iniciações: esta mulher benfazeja foi primeiramente a Mãe Divina, sob sua forma Liberadora. Como nos contos de fadas se põe em cena uma velha, que ensina ao herói os meios de vencer o ogro ou o gigante. As Hespérides estendem os frutos de ouro a Hércules, e este detalhe permite entender porque as maçãs são em número de três: cada uma das mulheres sagradas dá uma ao vencedor. Certas figurações fornecem um número outro que três como número das Hespérides. Mas acreditamos ser três Hespérides o dado mais primitivo do mito. As Hespérides como as Virgens-Cisnes, como as Valquírias são com efeito as hipóstases nórdicas da tríade lunar (a Mãe Divina e seus dois filhos celestes). Em definitivo a questão das Hespérides é complexa, e o mito de Hércules pouco elabora. O que é certo é que temos primitivamente três mulheres sacrossantas, residindo em um ilha do noroeste da Europa , e junto as quais os neófitos se qualificavam como grandes iniciados; em seguida que recebiam três maçãs de ouro. Apenas de volta dessa longínqua expedição, Hércules recebeu de novo a missão de partir para perto do lugar em que o Sol desaparece. Deveria colher ali e levar a Micenas os "pomos de ouro do jardim das Hespérides. Filhas da estrela da Noite, as Hespérides habitavam, com efeito, um parque maravilhoso, cujas árvores eram, em todas as estações, carregadas de frutos dourados. Dócil às ordens recebidas, Hércules retomou o caminho do Ocidente, mas não sabia onde encontrar o misterioso lugar das filhas da Noite. Após haver longo tempo errado, chegou um dia às margens do Erídano. Ninfas graciosas aconselharam-no a dirigir-se a Nereu, o ancião profético dos mares, que lhe conhecia todos os segredos. Hércules ouviu o conselho. Tendo encontrado Nereu adormecido na praia o Herói o amarrou e intimou-o a revelar o esconderijo em que se ocultavam as belas Hespérides. Para amedrontar Hércules, Nereu transformou-se, sucessivamente, em leão, em serpente e em chamas. Mas nada conseguiu. O filho de Alcmena não largou sua presa antes de haver obtido ganho de causa. Quando soube para onde precisava dirigir-se, foi para a África, alcançou os confins do mundo ocidental e atingiu as portas de ouro do jardim feliz. Ali, não longe das harmoniosas Hespérides, relegado por lei inflexível às extremidades da Terra, um gigante formidável, Atlas, sustentava com a cabeça e as mãos infatigáveis a abóbada imensa do Céu. Como um dragão cor de fogo guardasse a entrada do parque, não deixando quem quer que fosse atravessar suas portas temidas, Hércules perguntou a Atlas qual o meio de apoderar-se dos pomos. O carregador do Céu ofereceu-se para ir colhê-las, desde que o Herói se dispusesse, durante esse tempo, a segurar o firmamento sobre seus sólidos ombros. O filho de Alcmena aceitou e, enquanto Atlas estava ocupado em despojar as macieiras de seus frutos, ele suportava o peso da abóbada celeste. Quando o gigante voltou, declarou querer levar, pessoalmente, seu saque a Micenas. Hércules fingiu estar de acordo com o desleal Atlas: — Concordo — disse-lhe — em que leves a Euristeu os pomos que ele reclama, mas antes de partir, torna a sustentar um pouco o Céu sobre tua espádua até que eu faça uma rodilha para aliviar a cabeça e amortecer o peso desta pesada carga. Sem desconfiar, Atlas deixou-se embair e tornou a carregar o Céu sobre os ombros. Hércules, uma vez livre, apoderou-se dos pomos e correu para levá-los ao seu senhor, Euristeu. - As diversas localizações das Hespérides representam diferentes opiniões sobre aquilo que constituía o Ocidente Remoto. Um relato situava o cenário deste Trabalho em Berenice, anteriormente chamada de cidade das Hespérides (Plínio: História natural V. 5), Eusperides (Heródoto: IV. 171), ou Euesperites (Heródoto: IV. 198), mas que mudou de nome pelo da esposa de Ptolomeu Euergetes. Ela foi construída em Pseudopênias (Estrabão: XVII. 3. 20), o promontório ocidental do golfo de Sirte. Essa cidade, banhada pelo rio Latão, ou Letão, tinha um bosque sagrado conhecido como "Jardins das Hespérides". Ademais, o Latão desembocava num certo Lago Hespério e, nas redondezas, havia outro, o Tritônis, que encerrava uma ilhota com um templo de Afrodite , que por vezes era considerada a dona da macieira (Sérvio sobre a Eneida de Virgílio: IV. 485). Heródoto o descreve como um dos poucos lugares férteis da Líbia, pois, nos melhores anos, a terra produzia cem vezes mais. - Além dessas disputas geográficas, existiam várias explicações racionais do mito. Uma opinião era a de que as maçãs eram, na verdade, belas ovelhas (melon significa tanto "ovelha" quanto "maçã"), ou ovelhas com uma peculiar lã vermelha que parecia de ouro, as quais eram apascentadas por um pastor chamado Dragon, a quem as filhas de Héspero, as Hespérides, costumavam levar comida. Hércules levou as ovelhas (Sérvio sobre a Eneida de Virgílio: loc. cit.; Diodoro Sículo: IV. 26) e matou ou raptou o pastor (Palefato: 19). Palefato descreve Héspero como natural da Mileto cária, que ainda era famosa por suas ovelhas, e diz que, embora Héspero houvesse morrido muito tempo antes da incursão de Hércules, suas duas filhas ainda sobreviviam. - Outra opinião era a de que Hércules resgatou as filhas de Atlas, que haviam sido sequestradas no horto de sua família por sacerdotes egípcios, e Atlas, em sinal de gratidão, não só lhe deu o objeto que devia obter com esse Trabalho, mas também ensinou-lhe a astronomia sem pedir nada em troca, pois Atlas, o primeiro dos astrônomos, tanto sabia que carregava nos ombros a abóbada celeste; por isso se diz que Hércules tomou dele o céu (Diodoro Sículo: III. 60 e IV. 27). Hércules transformou-se certamente no Senhor do Zodíaco, mas o titã astrônomo que ele substituiu foi Ceo (cognome de Tot) e não Atlas (vide 1. 3). - A verdadeira explicação deste Trabalho, contudo, deve ser procurada mais no ritual do que na alegoria. Será demonstrado (vide 148. 5) que o candidato à dignidade de rei tinha de vencer uma serpente e apoderar-se de seu ouro, e esse Hércules cumpriu ambas as tarefas, tanto nesse caso como na luta com a hidra. Mas o ouro do qual ele se apoderou não precisava ter necessariamente a forma de pomos de ouro — aqueles que lhe foram dados ao fim de seu reinado pela deusa tripla como passaporte para o Paraíso. E, nesse contexto fúnebre, a Serpente não era sua inimiga, mas a forma que sua alma oracular assumiria após haver sido sacrificado. Ladão tinha cem cabeças e falava em diversas línguas porque muitos heróis oraculares podiam chamar a si mesmos de "Hércules", ou seja, podiam dizer que haviam sido representantes de Zeus e que haviam se dedicado ao serviço de Hera. O Jardim das três Hespérides — cujos nomes as identificam com o pôr do sol (vide 33. 7 e 39. 1) — está situado no Ocidente Remoto, pois o pôr do sol era o símbolo da morte do rei sagrado. Hércules recebeu as maçãs ao término de seu reinado, corretamente registrado como um Grande Ano de cem lunações. Ele havia recebido de seu predecessor o encargo do reinado sagrado e, com ele, o título de "Atlas", "o que sofre por muito tempo". É provável que esse encargo fosse originalmente representado não pelo globo, mas pelo disco solar (vide 67. 2). - O comportamento de Nereu segue o modelo do de Proteu (vide 169. a), que Menelau consultou em Faros . Diz-se que Hércules remontou o Pó porque ele conduzia ao país dos hiperbóreos (vide 125. b). Sabemos que os presentes embrulhados em palha que os hiperbóreos enviavam a Delos seguiam por essa rota (Heródoto: IV. 33). Mas, embora o seu país fosse, num certo sentido, a Bretanha — como centro do culto de Bóreas —, noutro sentido, era a Líbia e, noutro ainda, o Cáucaso; e o Paraíso se encontrava no Ocidente Remoto, ou atrás do Setentrião, na misteriosa zona para onde voavam os gansos selvagens no verão (vide 161. 4). As andanças de Hércules ilustram essa dúvida. Se ele fosse atrás do Paraíso líbio, deveria consultar-se com o rei Proteu de Faros (vide 169. a); se fosse atrás do Paraíso caucasiano, com Prometeu (que, de fato, constitui a versão de Apolodoro); se fosse atrás do nórdico, com Nereu, que vivia próximo às nascentes do Pó e cujo comportamento se parecia com o de Proteu. - Os ossos de Anteu eram provavelmente os de uma baleia encalhada em torno da qual nasceu uma lenda em Tânger: "Isso deve ter sido um gigante, e só Hércules pode tê-lo matado! Hércules, aquele que ergueu essas enormes colunas em Ceuta e Gibraltar!" A luta entre o candidato à dignidade de rei e os campeões locais era um costume muito difundido: a luta com Anteu pela posse do reino, como a luta de Teseu com Cirão (vide 96. 3), ou a de Odisseu com Filomélides (vide 161. f ), devem ser entendidas nesse contexto. Praxíteles, o escultor do Partenon, considerava a derrota de Anteu como um Trabalho à parte (Pausânias: IV. 11. 4). - Uma antiga associação religiosa unia Dodona a Ámon; e o Zeus adorado em cada uma dessas cidades era originalmente um rei pastor sacrificado anualmente, como nos montes Pélion e Lafístio. Hércules fez bem em visitar seu pai Zeus quando passou pela Líbia. Perseu havia feito o mesmo durante sua viagem ao Oriente, e Alexandre, o Grande, seguiu também o exemplo séculos mais tarde. - O deus Set era ruivo, por isso os busírios necessitavam de vítimas com cabelo dessa cor para oferecê-las a Osíris, que Set assassinou. Os ruivos eram escassos no Egito, mas comuns entre os helenos (Diodoro Sículo: I. 88; Plutarco: Sobre Ísis e Osíris 30, 33 e 73). O fato de Hércules ter assassinado Busíris pode se referir a alguma ação punitiva tomada pelos helenos, cujos compatriotas haviam sido assaltados e assassinados. Há evidências que demonstram a existência de uma colônia helênica primitiva em Chemmis. - As maldições proferidas durante os sacrifícios a Hércules (vide 143. a) evocam o arraigado costume de maldizer e insultar o rei do alto de uma colina próxima enquanto ele é coroado, com o fim de o proteger dos ciúmes divinos. Os generais romanos eram igualmente insultados durante a celebração de seus triunfos enquanto assumiam a personalidade de Marte. Mas os semeadores também amaldiçoavam as sementes enquanto as disseminavam pelos sulcos. - A libertação de Prometeu parece ter sido uma fábula moral inventada por Ésquilo, não um mito autêntico (vide 39. h). O fato de que portava uma grinalda de salgueiro, o que está corroborado num espelho etrusco, indica que ele havia sido dedicado à deusa-Lua Anata, ou Neith, ou Atena (vide 9. 1). Talvez, originalmente, ele fosse atado com tiras de salgueiro ao altar do sacrifício no festival outonal da deusa (vide 116. 4). - Segundo uma lenda, Tífon matou Hércules na Líbia, e Iolau devolveu-lhe a vida segurando uma codorniz sobre as suas narinas (Eudóxio de Cnido: Circuito da terra I, citado por Ateneu: IX. 11); mas foi o Hércules tírio Melkarth que o deus Esmun ("o que evocamos"), ou Asclépio, ressuscitou dessa maneira. Isso significa que o ano começava em março, com a chegada das codornizes do Sinai, e que só então eram celebradas as orgias em homenagem à deusa (vide 14. 3).