===== CULTO DAS ALMAS ===== //[[https://archive.org/details/psyche0000erwi_i2h7/mode/2up|ROHDE, Erwin. Psyche: the cult of souls and belief in immortality among the Greeks]]. London: K. Paul, Trench, Trubner, 1925.// * A civilização grega refletida nos poemas homéricos apresenta uma cultura característica que parece atingir o ponto mais alto possível sob as condições de caráter nacional e circunstâncias externas. * Poemas homéricos como fronteira entre o amadurecimento de um desenvolvimento antigo e uma nova ordem constituída. * Retrato idealizado de um passado prestes a desaparecer inteiramente. * As profundas transformações dos séculos seguintes podem ser medidas por resultados finais e forças subjacentes deduzidas de sintomas individuais. * Reconhecimento das condições necessárias para uma reorganização completa da vida grega. * Ascensão de raças anteriormente menos importantes e estabelecimento de novos reinos por direito de conquista sobre ruínas antigas. * Colonização em ampla área como expansão da vida grega e aceleração do desenvolvimento nas colônias. * Evolução do comércio e da indústria para satisfazer novas demandas. * Surgimento de novos elementos populacionais e transição da monarquia para a aristocracia, tirania e democracia. * Contato intensificado com povos estrangeiros e influências diversas em várias direções. * Os grandes movimentos históricos produziram novas correntes na vida intelectual e o esforço para se libertar da tradição consolidada na cultura homérica. * Rompimento da tirania da convenção épica na esfera da poesia. * Abandono do ritmo de verso formal e do vocabulário de fórmulas e imagens prontas. * Mudança de perspectiva com o poeta tornando-se a figura central de sua própria obra. * Invenção de ritmos naturais para expressar emoções em aliança estreita com a música. * Descoberta da plenitude das capacidades gregas e uso livre das mesmas. * Progresso das artes plásticas na capacidade de dar forma visível ao mundo imaginado da beleza. * Ruínas do mundo clássico como revelação mais impressionante do valor permanente da arte grega do que as realizações literárias. * A religião grega não permaneceu inalterada diante da atmosfera geral de mudança, embora a realidade interna dessas transformações permaneça parcialmente oculta. * Multiplicação dos objetos de culto religioso em comparação ao período homérico. * Desenvolvimento de cerimoniais mais suntuosos e elaborados em conjunção com as belas artes. * Testemunho de templos e esculturas sobre o aumento do poder e importância da religião. * Mudança no pensamento religioso evidenciada pela fama e autoridade do oráculo de Delfos. * Nova interpretação da religião sob influência de um senso moral aprofundado em Ésquilo e Píndaro. * Período de mentalidade mais religiosa em que a mente recua para crenças em poderes invisíveis em busca de consolo diante da adversidade. * A obscuridade do período de crescimento esconde a origem de crenças sobre a alma que diferem fundamentalmente da concepção homérica. * Construção de um culto regular à alma desencarnada e de uma crença na imortalidade. * Ressurgimento de elementos religiosos submersos em conjunção com novas forças para criar uma terceira via. * O culto às divindades ctônicas que habitam o interior da terra constitui a principal característica nova no desenvolvimento religioso pós—homérico. * Divindades ctônicas como posses antigas da fé grega e verdadeiras divindades locais da pátria. * Transferência épica desses deuses para uma região subterrânea distante e inacessível além do Okeanos. * Domínio de Aïdes e da terrível Persephoneia como guardiões dos mortos sem influência direta na vida terrena. * Cultos locais que ignoram a sistematização uniforme de um reino geral dos deuses estabelecida pela épica. * Natureza dos deuses do mundo inferior ligada a uma população agrícola e sedentária. * Bênção ao cultivo do solo e recebimento das almas dos mortos no submundo. * Zeus Chthonios como o nome mais exaltado entre os habitantes do interior da terra. * Uso de Zeus como termo generalizado para deus combinado a adjetivos particularizantes em cultos locais. * Referência a Zeus do mundo inferior na Ilíada e na Teogonia de Hesíodo. * Oração ao Zeus Ctônico prescrita para o camponês beócio durante o preparo dos campos para a semeadura. * Os deuses do mundo inferior eram frequentemente referidos por apelidos afetuosos ou eufemismos conciliatórios para velar o lado sombrio de sua natureza. * Títulos lisonjeiros para Hades e adoração de Zeus do submundo como Zeus Eubouleus, Bouleus ou Klymenos. * Zeus Amphiaraos e Zeus Trophonios como divindades da terra que perderam parte do status de deuses para desenvolver poderes oraculares como heróis. * Hades como manifestação local de Zeus Chthonios variando de nome conforme o local de culto. * Centros de culto em Élis e Triphylia contribuindo para a propagação do culto ctônico. * Hades como deus da fertilidade da terra e senhor das almas sob nomes como Plouton, Plouteus ou Zeus Plouteus. * Ge ou Gaia representava a divindade feminina do submundo preocupada com o bem—estar dos vivos e dos mortos. * Atribuição de frutificação dos campos e domínio sobre as almas dos mortos. * Templos em honra em Atenas e Olímpia. * Personalidade marcada pela imprecisão natural das divindades primitivas. * Suplantação por deusas da terra de forma mais inteligível e recente. * Retenção de poderes mânticos exercidos a partir do abrigo de espíritos e almas. * Deméter e Coré ocupam o lugar mais importante no culto do submundo, aparecendo frequentemente associadas a divindades masculinas variadas. * Culto solene de Deméter e Zeus Klymenos em Hermione. * Associação constante das duas deusas em oposição à variação dos nomes dos deuses masculinos. * Mudança na emoção e serviço religioso comprovada pela popularidade do culto de Deméter e Persephoneia. * Visão homérica de Persephoneia apenas como rainha sombria dos mortos e de Deméter unicamente como deusa da fertilidade. * Associação estreita pós—homérica onde ambas protegem as colheitas e cuidam das almas. * Propagação da fé por migrações e missões regulares a partir de centros como Elêusis. * Tendência de Deméter assumir o papel de Gaia e entrar em conexão próxima com o reino das almas. * O aumento do número de seres do submundo e a expansão de seu culto aproximaram os mundos superior e inferior para os gregos. * Reaparecimento da crença de que cavernas terrestres eram moradas acessíveis da divindade. * Vestígios de cultos em cavernas como as de Amphiaraos, Trophonios e Zeus no Monte Ida. * Existência de entradas diretas para o submundo e fendas para a passagem de almas em diversos locais. * Tradição de seres do submundo habitando um abismo no Areópago em Atenas. * Negação da separação homérica entre vivos e mortos em Hermione, onde a proximidade do mundo espiritual dispensava o pagamento ao barqueiro Caronte. * A localização do submundo tornou—se menos uma questão de fantasia e mais uma presença próxima aos sentidos por meio de festivais e veneração constante. * Deuses inferiores desejando e retribuindo a veneração de indivíduos e cidades. * Culto às almas dos mortos expandido além dos costumes da era homérica em estreita ligação com os deuses ctônicos. * O dever primordial dos sobreviventes é enterrar o corpo conforme o costume, prática levada com maior seriedade do que no período homérico. * Devolução dos corpos de inimigos caídos como dever religioso. * Negação de sepultamento considerada um ultraje extremo, exemplificado pela vingança popular contra generais após Arginousai. * Obrigação legal e religiosa de filhos enterrarem seus pais e oferecerem presentes no túmulo. * Invocação de maldições contra quem deixa cadáveres insepultos no festival de Demeter Bouzyges. * Obediência a leis não escritas da religião para evitar o abomínio, conforme ilustrado por Antígona. * Crença fundamental de que a alma do insepulto não encontra descanso e assombra a região. * Punição severa de criminosos e traidores com a negação de sepultamento no solo pátrio para impedir o culto familiar. * As cerimônias fúnebres preservaram essências primitivas com novos detalhes que acentuavam a solenidade do ato. * Lavagem, unção e vestimenta do corpo por mulheres da família. * Exposição cerimonial em um leito no interior da casa. * Uso de manjerona e ramos de videira por razões supersticiosas em Atenas. * Colocação de vasos de unguento de formato fino nos túmulos. * Presença de água pura na porta para purificação de quem entrava em contato com o cadáver. * Ramos de cipreste na porta como aviso de presença de corpo na casa. * Uso de guirlandas e faixas na cabeça do morto como sinal de respeito à santidade do falecido. * O propósito real da exposição do corpo era a realização do lamento fúnebre, que sofreu restrições legais para evitar excessos. * Aumento da pompa fúnebre sob o governo dos Eupatridai. * Legislação de Sólon para limitar a lamentação extravagante e o número de participantes. * Proibição de expressões violentas de dor e de cantos fúnebres profissionais. * Crença antiga de que a alma presente se agradaria de demonstrações violentas de luto. * Restrições derivadas de razões religiosas ou supersticiosas para conter o culto ao espírito do morto. * O cortejo fúnebre ocorria na manhã do terceiro dia, transportando o corpo e o leito para fora da casa. * Necessidade de controle legal sobre a ostentação excessiva nas procissões. * Representação de funerais em vasos do estilo Dipylon com carros puxados por cavalos e acompanhantes armados. * Restrição da presença de mulheres ao parentesco imediato até a terceira geração em Atenas. * Uso de companhias contratadas de carpideiras cárias em alguns contextos. * Exigência de silêncio durante o trajeto em Ceos. * A prática de enterrar o corpo sem queimar coexistiu com a cremação homérica, visando a preservação parcial dos restos. * Coleta cuidadosa dos ossos após a pira para sepultamento em urnas ou caixas. * Uso de caixões de argila cozida ou madeira como costume de origem estrangeira. * Uso nativo mais antigo de depositar o corpo diretamente na terra sobre um leito de folhas ou em câmaras de rocha. * A alma mantém conexão com o corpo habitado, motivando a provisão de implementos domésticos e vasos no túmulo. * Ausência de métodos para preservação perpétua como o embalsamamento, exceto como arcaísmo em reis espartanos. * Após o sepultamento, a alma integra a companhia invisível dos seres superiores, crença de antiguidade primordial na Grécia. * Formação de um grupo de culto especial composto exclusivamente pelos descendentes e família. * Memória de tempos em que o sepultamento ocorria dentro das casas. * Inexistência de sensibilidade dolorosa à purificação ritual em eras mais remotas. * Sepultamentos dentro das muralhas permitidos em certos estados dóricos. * Manutenção de túmulos familiares em terrenos murados ou propriedades rurais. * O túmulo é considerado um local sagrado onde gerações posteriores adoram as almas dos antepassados. * Colunas funerárias, árvores e bosques circundando o túmulo como refúgios agradáveis para as almas. * Oferendas de libações de vinho, óleo e mel iniciadas no momento do funeral. * Sacrifício de animais como bois e ovelhas, por vezes proibido ou limitado por leis como as de Sólon. * Banquete fúnebre realizado pela família após ritos de purificação. * Presença invisível da alma do morto como anfitriã do banquete. * Costume de proferir apenas elogios ao falecido por temor à sua presença. * Refeições oferecidas no túmulo no terceiro e nono dias após o funeral. * Encerramento do período de luto no nono dia em geral, ou no décimo primeiro em Esparta. * O dever de cuidar da alma do falecido estende—se além das cerimônias imediatas por meio de ritos recorrentes. * Oferenda de coisas costumeiras pelo herdeiro como dever mais sagrado. * Banquete tradicional dos mortos no trigésimo dia de cada mês. * Celebração anual nos Genésia, no aniversário do morto, importante para a psique do falecido. * Inexistência de abismo intransponível entre a vida e a morte na concepção familiar. * Festivais públicos em Atenas, como os Genésia e os Nemésia, homenageavam coletivamente as almas dos mortos. * Antestéria como principal festival dos mortos na primavera, época em que as almas subiam ao mundo dos vivos. * Dias de impureza inadequados para negócios, com templos fechados. * Uso de medidas de proteção como mastigar folhas de espinheiro e passar piche nos umbrais das portas. * Oferendas individuais de cada família aos seus próprios mortos. * Sacrifício de vegetais cozidos e sementes no dia das Chytrai, dedicado a Hermes como guia dos mortos. * Entretenimento doméstico dos fantasmas seguido de expulsão ritual ao fim do festival. * Uso da fórmula Begone ye Keres para despedir as almas, preservando um nome primevo esquecido por Homero. * O culto aos ancestrais assemelha—se à adoração de divindades e heróis, distinguindo—se pela limitação do círculo de adoradores pela natureza. * Evolução do culto em direção à piedade e intimidade em períodos de civilização avançada. * Representações em frascos de óleo fáticos mostrando o adorno de monumentos com coroas e fitas. * Oferendas de objetos de uso diário, música, bolos e frutas sem derramamento de sangue. * Relevos arcaicos em Esparta mostrando o morto em atitude inspiradora de temor e tamanho superior aos vivos. * Oferendas de flores, romãs e sacrifícios de animais queimados integralmente para o submundo. * O culto material fundamenta—se na premissa de que a alma é capaz de receber e necessita de satisfação física. * Capacidade de percepção sensorial da alma mesmo no túmulo. * Recomendação de silêncio ao passar por túmulos para não atrair atenção. * Crença popular de almas flutuando sobre os túmulos, representadas como pequenas figuras aladas em vasos. * Visibilidade ocasional das almas sob a forma de serpentes. * Visitas das almas às antigas habitações fora dos dias festivos. * Proibição legal de linguagem abusiva contra os mortos para evitar a ira de espíritos potentes. * As almas são tratadas como poderes invisíveis e pertencentes à classe dos abençoados, capazes de auxiliar ou prejudicar os vivos. * Busca de ajuda das almas para prosperar os frutos da terra e auxiliar no nascimento de novas vidas. * Libações aos ancestrais em casamentos para garantir fertilidade. * Tritopatores como almas de ancestrais invocadas em celebrações matrimoniais. * Conexão entre almas libertas e espíritos do vento ou do ar em fragmentos de crenças antigas. * A sorte da alma é determinada pela natureza do culto prestado pela família sobrevivente, criando uma dependência do morto em relação aos vivos. * Divergência total em relação ao pensamento homérico de almas banidas e isoladas em Hades. * Distinção das crenças de mistérios onde o mérito religioso ou moral garantia a posição na vida futura. * Direito de toda alma ao cuidado atento da família, independente de feitos em vida. * Preocupação com o estado futuro da alma levando à criação de fundações ou legados em testamentos. * Adoção como meio original de garantir a continuidade do culto por quem não possuía filhos biológicos. * Discursos de Isseu como prova do sentimento profundo da burguesia ateniense quanto ao cuidado das almas. * A família é a raiz da crença na vida futura da alma, sendo os ancestrais considerados os deuses particulares do grupo familiar. * Adoração familiar dos mortos como raiz religiosa possivelmente mais antiga que o culto aos deuses do estado ou heróis nacionais. * Subsistência dessa crença à sombra dos grandes deuses mesmo com o aumento do poder estatal. * Ausência de equivalente exato ao Lar familiaris italiano entre os gregos. * Bom Daimon como espírito de antepassado tornado protetor da casa, embora o sentido original tenha sido esquecido. * O reavivamento do culto às almas no período pós—homérico variou conforme as regiões e regimes políticos da Grécia. * Culto praticado com maior pompa sob regimes aristocráticos. * Tendência à piedade afetuosa em Atenas com a expansão da democracia. * Manutenção de noções mais sérias sobre espíritos em Lacônia e Beócia devido à preservação de costumes primitivos. * Enfraquecimento do culto em locais como Lócrida e Ceos. * Surgimento de dúvidas teóricas sobre a sobrevivência da alma em oradores e filósofos, coexistindo com a prática do culto. * Persistência do culto mesmo entre descrentes, como exemplificado no testamento de Epicuro. * O oráculo de Delfos desempenhou papel decisivo na renovação do culto aos mortos e na proteção dos direitos das almas. * Ordens divinas para sacrifícios aos mortos em dias determinados após portentos celestes. * Consulta aos Exegetai em Atenas para questões de direito sagrado sobre os falecidos. * Confirmação da santidade do culto pelo deus contribuindo para o temor reverencial dos vivos. * A mudança nas crenças sobre os mortos é evidente no tratamento de casos de homicídio e na evolução da vingança de sangue. * Ausência de intervenção estatal no homicídio durante o período homérico, sendo dever dos amigos e parentes a vingança. * Possibilidade de compensação financeira no período homérico, indicando enfraquecimento da crença no poder da alma da vítima. * Concepción homérica da alma como sombra fraca sobreposta a uma visão mais antiga de alma sensível e influente. * A justiça ateniense transformou o dever da vingança de sangue em processo legal, mantendo o laço religioso entre o parente e o morto. * Dever exclusivo do parente mais próximo em processar o assassino sob o código de Drácon. * Crença de que a alma da vítima de violência vaga sem descanso e com raiva até ser vingada. * Alma do morto como espírito vingador capaz de afetar gerações. * Proibição estatal da justiça pelas próprias mãos, substituída por tribunais que consideram o desejo de vingança da alma. * Cessação do poder do espírito do morto nos limites das fronteiras do país em caso de exílio voluntário do assassino. * Punibilidade do homicídio involuntário por banimento temporário, dependendo do perdão dos parentes em nome do morto. * Satisfação da alma da vítima como objetivo central da punição do assassino. * O caráter religioso do julgamento de homicídio é reforçado pela sede no Areópago e pela conexão com as deusas da maldição. * Juramentos em nome das Erínias e sacrifícios às deusas por aqueles que eram absolvidos. * Erínias como daimones formidáveis que surgem das profundezas para vingar crimes dentro da família. * Atuação da Erínia de pais assassinados para perseguir o próprio filho que deveria ser o vingador. * Origem das Erínias ligada diretamente à alma do homem assassinado, indignada com seu destino. * O processo criminal por homicídio era essencialmente um ato religioso de purificação e expiação para satisfazer poderes invisíveis. * Necessidade de purificação mesmo em casos de homicídio justificável para restaurar a limpeza ritual perante a comunidade. * Uso de ritos de expiação similares aos sacrifícios para deuses do submundo como Zeus Meilichios. * Influência de Delfos nos detalhes da purificação, exemplificada pelo próprio mito da purificação de Apolo. * Papel dos Exegetai como administradores oficiais do ritual de expiação em Atenas. * A convicção na existência contínua e no poder das almas dos assassinados alcançou o status de artigo de fé em instituições políticas e religiosas. * Uso do terror e temor às almas em discursos de tribunais por Antífona. * Mitologia fantasmagórica em torno de almas incapazes de encontrar descanso. * Sobrevivência de costumes selvagens materialistas sobre a vingança da alma. * Culto às almas como principal fonte da crença popular em uma vida após a morte, fundamentada no poder ativo dos que sofreram injustiça.