===== ORPHEUS ===== //[[https://archive.org/details/psyche0000erwi_i2h7/mode/2up|ROHDE, Erwin. Psyche: the cult of souls and belief in immortality among the Greeks]]. London: K. Paul, Trench, Trubner, 1925.// ** Os Órficos ** * A mais antiga autoridade que menciona as seitas órficas e suas práticas é Heródoto (ii, 81), que chama atenção para a correspondência entre certas ordenanças sacerdotais e ascéticas do sacerdócio egípcio e os mistérios órficos e báquicos, afirmando que estes últimos são na realidade egípcios e pitagóricos, não podendo ter vindo à existência antes da última década do século VI. * Heródoto havia ouvido falar, em Atenas ou em outro lugar, de certas sociedades privadas que, ao chamarem a si mesmas pelo nome de Orfeu — o protótipo do cantor trácio tão bem conhecido pela lenda —, reconheciam a origem de seu culto e credo peculiares nas montanhas da Trácia e prestavam honra a Bakos, o deus trácio. * O fato de que os órficos gregos adoravam de fato Dioniso, o senhor da vida e da morte, antes de todos os outros deuses, é claramente demonstrado pelos restos dos poemas teológicos que se originaram em seu meio. * Orfeu mesmo, como fundador da seita órfica, é dito ter sido também o fundador dos mistérios de iniciação dionisíacos. * Essa reunião em nome de Orfeu para oferecer um culto especial a Dioniso foi obra de seitas que, em associação privada, praticavam um culto que o culto público e oficial do Estado ou desconhecia ou desdenhava. * Havia muitas tais associações, de caráter muito variado, que se mantinham afastadas da religião organizada da comunidade e eram toleradas pelo Estado. * Via de regra, eram deuses estrangeiros os que assim eram cultuados, geralmente por estrangeiros que desse modo mantinham o culto especial de suas terras de origem. * Dioniso, o deus das seitas órficas, havia há muito cessado de ser um estrangeiro nos países gregos; desde sua chegada da Trácia havia sido refinado e amadurecido sob o sol humanizador da Grécia, até se tornar um deus grego. * Uma segunda onda de influência rompeu sobre o deus há muito helenizado, e essa onda o culto oficial ou não tinha poder ou não tinha vontade de assimilar. * Não há razão para crer que as seitas órficas foram formadas em estados gregos antes da segunda metade do século VI — aquela era crítica de transição em que modos primitivos e mitológicos de pensamento se desenvolviam em teosofia. * Onomacrito, o fornecedor de oráculos na corte de Pisístrato, fundou o culto secreto de Dioniso — o que parece se referir à primeira fundação de uma seita órfica em Atenas; e a autoria real dos poemas órficos é com muito mais frequência atribuída a certos homens do sul da Itália e da Sicília, ligados às sociedades pitagóricas. * A correspondência da doutrina órfica e pitagórica sobre o assunto da alma não é puramente acidental, mas os vários fluxos cruzados de influência recíproca já não podem ser desembaraçados. * Pitágoras, quando veio para a Itália por volta de 532, pode ter encontrado sociedades órficas já estabelecidas em Croton e Metaponto, e pode ter se associado às suas ideias. * Nos destroços dos poemas órficos, exceto por alguns traços negligenciáveis da teoria mística pitagórica dos números, nada se encontra que deva necessariamente ter sido derivado pelos órficos de fontes pitagóricas. * É possível, portanto, que tenha sido a doutrina órfica desenvolvida de modo independente que exerceu influência sobre Pitágoras e seus adeptos no sul da Itália. ** § 2 ** * Os Órficos, onde quer que sejam encontrados nos países gregos, aparecem sempre como membros de uma sociedade de culto privado mantida unida por um modo de culto especialmente organizado e individual. * O antigo culto trácio de Dioniso, em seu anseio pelo infinito, conduzia seus folguedos sob o céu aberto da noite, buscando encostas de montanhas e florestas desertas onde estava mais distante da civilização e mais próximo da natureza selvagem e sem entraves. * Orfeu mesmo, na tradição, havia sido não apenas o cantor inspirado, mas também o vidente, o médico magicamente dotado e o sacerdote de purificação; e os Órficos, como seus seguidores, eram ativos também em todas essas direções. * Na composição do orfismo grego, as ideias kátharticas que haviam sido desenvolvidas em solo grego foram combinadas em aliança não antinatural com o antigo culto trácio de Dioniso. * A seita órfica tinha um conjunto fixo e definido de doutrinas — o que só isso bastava para distingui-la tanto dos cultos oficiais do Estado quanto de todas as outras associações de culto da época. * A redução da crença a fórmulas doutrinárias distintas pode ter feito mais do que qualquer outra coisa para tornar o Orfismo uma sociedade de crentes; nenhum dos outros teólogos da época — Epimênides, Ferécides etc. — alcançou tanto. * Segundo Aristóteles, as doutrinas de Orfeu foram postas em forma poética pelo fundador da seita órfica em Atenas, Onomacrito. * Onomacrito é distintamente nomeado como o autor do poema chamado Iniciações, que deve ter sido um dos escritos básicos da seita; um poema desse caráter pode muito bem ter tido como incidente central o desmembramento do deus pelas mãos dos Titãs — história que Onomacrito teria posto em verso. * As crenças religiosas e o culto da seita eram fundados sobre as instruções detalhadas de certos escritos muito numerosos que tratavam de matérias de ritual e teologia, reclamando a autoridade da inspiração religiosa e sendo em geral tidos como obra do primitivo bardo trácio Orfeu. * A autoridade canônica estrita nunca pareceu ter pertencido a nenhum desses escritos. * Havia em particular várias Teogonias — poemas que tentavam dar expressão às ideias fundamentais da especulação órfica sobre assuntos religiosos —, e, apesar de muita harmonia no efeito geral, diferiam consideravelmente entre si no modo particular de expressão. * Essas Teogonias descreviam a origem e o desenvolvimento do mundo desde os obscuros impulsos primordiais até a clara e distinta variedade-na-unidade do kosmos organizado, como a história de uma longa série de poderes e figuras divinas que derivam uns dos outros até absorverem o universo inteiro em si mesmos para trazê-lo novamente à existência. * Os deuses do orfismo não são mais divindades do tipo grego familiar; as figuras tomadas de empréstimo do mundo grego das divindades são transformadas em pouco mais do que meras abstrações personificadas. * Zeus — o Princípio, Zeus — o Meio, em Zeus todas as coisas se completam: tal é o enunciado que estica o conceito de personalidade ao ponto de ameaçar destruí-lo por completo. * O envoltório mítico nunca foi inteiramente abandonado; os poetas das Teogonias órficas rivalizavam entre si em suas tentativas de tornar o semivisto e semiconcebido acessível tanto à imaginação quanto à razão. * O clímax dessa especulação parece ter sido atingido em um poema cujos conteúdos são mais conhecidos do que os outros a partir das citações feitas pelos escritores neoplatônicos — o poema Teogônico das Vinte e Quatro Rapsódias. * Nesse poema foi vertido todo o material tradicional de doutrina mitológica e simbólica, e nele tal doutrina alcançou sua expressão final. ** § 3 ** * Essa combinação de religião e especulação quase filosófica era uma característica distintiva dos Órficos e da literatura órfica; nas Teogonias órficas era a especulação abstrata que prevalecia, com pouco respeito pela religião. * Essa especulação abstrata, porém, atingiu seu clímax em uma narrativa religiosa da primeira importância para as crenças e o culto da seita: ao fim da série de divindades genealogicamente conectadas veio o filho de Zeus e Perséfone, Dioniso, a quem foi dado também o nome da divindade ctônica Zagreus. * A ele, ainda em infância, foi confiado por Zeus o governo do mundo; mas os Titãs malvados, incitados por Hera, aproximaram-se dele por um estratagema — fizeram-no confiar neles com presentes, e enquanto ele olhava sua própria imagem em um espelho que lhe haviam dado, lançaram-se sobre ele. * Ele tentou escapar por repetidas transformações de forma; finalmente, na forma de touro, foi por fim dominado e seu corpo despedaçado, sendo as partes devoradas por seus selvagens inimigos. * O coração foi resgatado por Atena, que o levou a Zeus, que o engoliu; de Zeus nasceu o novo Dioniso, filho de Zeus e Sêmele, em quem Zagreus voltou à vida. * O mito do desmembramento de Zagreus pelos Titãs foi já posto em verso por Onomacrito e continuou a ser o ponto culminante da poesia doutrinária dos Órficos; trata-se de um mito religioso no sentido estrito, com caráter etiológico marcadíssimo, cujo propósito é explicar a implicação religiosa do desmembramento ritual do deus-touro nos festivais noturnos báquicos. * Os Titãs malvados pertencem inteiramente à mitologia estritamente grega; como assassinos do deus, representam o poder primordial do mal. * Eles desmembram o Uno em Muitas partes; por sua impiedade, o Único ser divino é disperso na multiplicidade das coisas deste mundo. * Os Titãs que haviam devorado os membros do deus foram destruídos por Zeus com seu raio, e de suas cinzas nasceu a raça dos homens, em quem, em conformidade com sua origem, o bem derivado de Dioniso-Zagreus se mistura com um elemento titânico malvado. * Com o reinado do novo Dioniso nascido e a origem da humanidade, a série de eventos mitológicos na poesia órfica chegou a um fim; os poemas voltam-se então para o tema do homem e a revelação de seu destino, seu dever e seu propósito no mundo. ** § 4 ** * A mistura dos elementos que compõem a totalidade do ser humano prescreve em si mesma para o homem a direção que seu esforço deve tomar: ele deve libertar-se do elemento titânico e, assim purificado, retornar ao deus, um fragmento do qual vive nele. * A distinção entre os elementos titânico e dionisíaco no homem é uma expressão alegórica da distinção popular entre corpo e alma; também corresponde a uma avaliação profundamente sentida do valor relativo dos dois lados do ser humano. * Segundo a doutrina órfica, o dever do homem é libertar-se das cadeias do corpo em que a alma jaz presa como o prisioneiro em sua cela. * A alma tem, porém, um longo caminho a percorrer antes de encontrar sua liberdade; não pode por um ato de violência romper sozinha seus laços. * A morte do corpo libera-a apenas por pouco tempo; a alma deve mais uma vez sofrer aprisionamento em um corpo; ela continua sua jornada, alternando perpetuamente entre uma existência separada irrestrita e uma encarnação sempre renovada — percorrendo o grande Círculo da Necessidade. * A Roda do Nascimento parece retornar sempre sobre si mesma em repetição sem esperança; na poesia órfica ocorre pela primeira vez o pensamento desesperado da repetição exata do passado. * A alma tem, porém, um caminho aberto para escapar dessa recorrência perpétua; pode esperar escapar do círculo e ter um alívio da miséria, pois está formada para a liberdade bem-aventurada. * A salvação vem de Orfeu e seus mistérios báquicos; Dioniso mesmo soltará seu adorador do Mal e do interminável caminho da miséria. * Não seu próprio poder, mas a graça dos deuses libertadores há de ser a causa da liberação do homem; o homem piedoso, em humildade de coração, necessita da revelação e mediação de Orfeu, o Governante, para encontrar o caminho da salvação. * Não são apenas os mistérios sagrados em si mesmos, na forma em que Orfeu os ordenou, que preparam para a liberação; uma vida órfica completa deve ser desenvolvida a partir deles. * O ascetismo é a condição primária da vida piedosa; isso não significa a prática das respeitáveis virtudes burguesas, nem a disciplina e reforma moral do caráter de um homem, mas o retorno ao deus e o afastamento não apenas das fraquezas e erros do ser terreno, mas de toda a vida terrena em si. * A abstinência do consumo de carne foi a espécie mais forte e marcante de autoenegação praticada pelos ascetas órficos. * As antigas ordenanças do ritual sacerdotal de purificação foram absorvidas e elevadas a um plano superior: não se destinam mais a libertar os homens dos efeitos dos contatos daimônicos; a própria alma é por elas tornada pura — pura do corpo e de sua associação poluidora, pura da morte e de seu domínio repugnante. * Em expiação da culpa a alma é confinada no corpo; o salário do pecado é, nesse caso, aquela vida sobre a terra que para a alma é morte. * O misticismo entra assim na mais estreita aliança com as práticas kátharticas; a alma que vem do divino e se esforça por retornar a ele não tem outro propósito a cumprir sobre a terra e portanto nenhuma outra lei moral a obedecer: deve ser livre da própria vida e pura de tudo que é terreno. * Os Órficos eram os únicos que podiam aventurar-se a cumprimentar-se entre si ou diante de estranhos com o nome especial de Puros; e no Hades um julgamento esperava a alma — não uma fantasia instintiva do povo, mas a doutrina sagrada dessas seitas foi a primeira a introduzir e elaborar a ideia de justiça compensatória no mundo dos mortos. * Os ímpios sofrem punição e purgação nas profundezas do Tártaro; os que não foram purificados pelos mistérios órficos jazem na Lagoa enlameada. * Por uma concepção inteiramente singular na religião antiga, a participação no cerimonial órfico permite ao descendente obter dos deuses perdão e purificação para seus ancestrais falecidos que possam estar pagando a pena no outro mundo. * Para o iniciado dos mistérios órficos que foi um verdadeiro Bakcos, sua recompensa é obter um destino mais suave no reino das divindades do mundo inferior e habitar nos belos prados do Aqueronte de profundas correntes. * O lar bem-aventurado de refúgio não se situa mais como o Elísio homérico sobre a terra, mas abaixo, no mundo das Almas; ali os iniciados e purificados viverão em comunhão com os deuses do mundo inferior — e se ouve falar do Banquete dos Puros e da embriaguez ininterrupta de que ali desfrutam. * As profundezas restituem por fim a alma à luz; para os réprobos trata-se de um tempo de punição e purgação — os Órficos não podiam afligir seus ouvintes com a ideia terrível do castigo perpétuo dos danados no Inferno —, e a alma sobe muitas vezes à luz e em corpos continuamente renovados cumpre o ciclo dos nascimentos. * Pelas ações de sua vida passada ela é recompensada na vida seguinte que vive, e cada homem deve agora sofrer exatamente o que fez a outro: a lei três vezes antiga — o que fizeste sofrerás — é assim cumprida para ele de modo muito mais vívido do que poderia ser em quaisquer tormentos do mundo das sombras. ** § 5 ** * A pedra-chave que completa o arco da religião órfica é a crença na vida divina, imortal e permanente da alma, para quem a união com o corpo e seus desejos é um impedimento e uma repressão frustrantes — uma punição da qual seu único desejo, assim que desperta para um pleno conhecimento de si mesma, é escapar. * O contraste entre essas ideias e as do mundo homérico é completo: no mundo homérico, a alma liberada do corpo era creditada apenas com uma existência pobre, sombria e semiconsciente. * As lendas órficas sobre a origem da raça humana não nos dizem a real fonte e derivação das crenças muito diferentes sobre a alma professadas pelos Órficos; essas lendas apenas dão expressão ao modo — e apenas um de muitos modos — pelo qual a confiança já estabelecida na divindade da alma era dedutível da história mais antiga da humanidade. * Essa persuasão — a crença de que um deus vivia no homem e um deus que não podia ser livre até haver rompido a prisão do corpo — estava profundamente enraizada no culto de Dioniso e nos êxtases pertencentes a esse culto. * Os Órficos retiveram, apesar de tudo, a doutrina da transmigração e a combinaram em estranha aliança com sua própria crença na divindade da alma e sua vocação para uma vida de perfeita liberdade. * Heródoto afirma categoricamente que a doutrina da transmigração veio aos gregos do Egito; essa asserção tem tanto a recomendar quanto qualquer outro dos muitos pronunciamentos de Heródoto sobre a origem egípcia de opiniões e lendas gregas, sendo ainda menos provável que nos iluda diante do fato de que não é de modo algum certo nem sequer provável que uma crença na transmigração tenha realmente existido no Egito. * Essa crença surgiu de modo independente em muitos lugares da superfície da terra, sem necessidade de transmissão de um lugar a outro; a suposição mais natural é que esse também foi um dos credos que os Órficos assumiram com o culto de Dioniso da Trácia. * Como outros místicos, os Órficos assumiram a crença na transmigração da tradição popular e a transformaram em membro útil de seu próprio corpo doutrinário, dando expressão marcante e física à sua concepção da inevitável conexão entre culpa e penitência, poluição e o poder refinador do castigo, piedade e bem-aventurança futura. * Mas se acreditavam na transmigração das almas, essa crença não ocupava entre eles o lugar mais elevado: há um reino onde as almas sempre livres e divinas têm seu ser, um reino para o qual a série de vidas em corpos terrenos é apenas transitória, e o caminho até ele foi apontado pela doutrina salvífica dos mistérios órficos, pela purificação e salvação proporcionadas pelo ascetismo órfico.