====== SONHO ====== //[[..:start|JAMES HILLMAN]]. [[.start|PAN AND THE NIGHTMARE]]. THOMPSON, CONN: SPRING PUBLICATIONS// * O estudo de Roscher sobre Pã e o pesadelo deve ser situado no contexto da teoria dos sonhos tal como se desenvolvia cem anos antes, quando o sonho era objeto de interesse para muitos além de Freud, gerando uma vasta literatura que se dividia em três abordagens distintas. * O monógrafo de Roscher pertence ao conjunto de obras sobre sonhos que Freud examina cuidadosamente na primeira seção de sua revolucionária Traumdeutung — os dois trabalhos foram publicados com poucos meses de diferença. * O século XIX foi testemunha de uma enxurrada de escritos sobre o sonho, especialmente na França, na Alemanha e nos Estados Unidos. * A primeira abordagem era materialista e sustentava que o sonho era um eco na mente de eventos fisiológicos no corpo, sendo as imagens oníricas a tradução psicológica de eventos físicos. * A pesquisa investigava as origens físicas dos sonhos em sensações de frio, umidade, percepções subliminares e óxido nitroso, bem como os estados fisiológicos durante o sonhar. * Essa visão persiste hoje quando se atribui um sonho a algo que se comeu, a um estímulo tardio de televisão ou a cobertores pesados — e também em níveis mais sofisticados, quando se supõe que os correlatos fisiológicos dos estados oníricos são condições necessárias e suficientes dos sonhos. * A segunda abordagem era racionalista e sustentava que o sonho não fazia sentido algum, sendo uma espécie de desordem das funções mentais durante o relaxamento do sono — fragmentos de mosaico que se desfazem sem o cimento coesivo da vontade e da associação conscientes. * Nessa visão, os sonhos eram afins à loucura — uma miscelânea sem sentido de fragmentos que diziam menos, e não mais, sobre quem os sonhava, sendo portanto impróprios para atenção séria ou investigação científica. * A terceira abordagem, a romântica, encontra-se principalmente nas obras de poetas, escritores e pensadores de inclinação mística — Novalis, Gérard de Nerval, Coleridge, Schubert —, conforme discutido por Albert Béguin. * A visão romântica reflete, em linguagem poética e filosófica, a perspectiva religiosa mais antiga dos povos arcaicos e tradicionais: durante o sono, a mente ou alma está aberta a poderes ocultos, e o sonho é uma via de comunicação com os deuses, fonte de inspiração e conhecimento de significado pessoal real. * Uma das grandes realizações de Freud foi fundir essas três iluminações contemporâneas da vida onírica numa teoria brilhante e abrangente. * Em concordância com os racionalistas, Freud sustentava que o sonho não fazia sentido prima facie — era de fato nonsense no nível manifesto, com sinais de dissociação, distorção e condensação análogos aos produtos da mente insana. * Como os românticos, porém, entendia que o sonho podia ser decifrado — continha uma mensagem pessoal e era uma via regia para "outro mundo", o inconsciente. * Também aceitava em parte a posição dos materialistas, ao encontrar o propósito último do sonho na psicofisiologia do sono e sua fonte última em estímulos somáticos, como as tensões sexuais. * Durante os primeiros cinquenta anos após Freud, quase toda a literatura sobre o sonho foi publicada por psicanalistas — os novos românticos eram os intérpretes profissionais dos sonhos, enquanto a pesquisa experimental laboratorial encolheu. * A tendência atual parece ser a de sair do consultório e retornar ao laboratório como lugar de investigação dos sonhos, aguardando talvez uma nova síntese capaz de vincular as interpretações do sonho como manifestação de um substrato arquetípico da personalidade. * O estudo de Roscher sugere um movimento nessa direção, pois reúne fantasia e experiência física, sonho e reações corporais, por trás dos quais se ergue a figura de Pã. * O arquétipo se expressa como padrão de comportamento — pânico e pesadelo — e como padrão de imagens — Efialtes, Pã e seu séquito. * O trabalho de Roscher sugere ainda um método de investigação psicossomática baseado na psicologia arquetípica, que confere lugar primário aos padrões de fantasia tal como precisamente descritos pela mitologia. * O monógrafo de Roscher é, assim, uma obra paralela à Traumdeutung de Freud, oferecendo um caminho para a abordagem do sonho distinto do elaborado por Freud — e vai mais fundo, ainda que seja menos explicitamente psicológico, porque a abordagem do evento onírico por meio de Pã vai além da psicodinâmica pessoal. * A diferença entre Roscher e Laistner — e o que acabou se tornando a tradição freudiana da teoria dos sonhos — esclarece a questão central em jogo. * Ernest Jones, em seu livro Sobre o Pesadelo, refere-se a Laistner trinta e uma vezes, a Freud trinta e cinco vezes e a Roscher apenas três — embora tivesse tempo suficiente para utilizar o estudo de Roscher sobre o mesmo tema. * Roscher critica Laistner por sua tentativa — que não obteve êxito — de elevar o sonho, "e em particular o pesadelo, ao princípio principal e fundamental de toda a mitologia." * Laistner (1845–1896) formou-se primeiro em teologia, depois migrou para os estudos germânicos e editou oito edições das obras de Goethe em Stuttgart, interessando-se particularmente por mitos e gramática alemães, folclore, contos de fadas e figuras mitológicas europeias, incluindo as "Mittagsfrauen" e outros demônios do meio-dia. * Suas ideias sobre o pesadelo aparecem em sua obra em dois volumes Das Rätsel der Sphinx (O Enigma da Esfinge), publicada em Berlim em 1889 — principalmente uma investigação dos sonhos, do folclore e do conto de fadas. * Jones afirma sobre esse trabalho: "Laistner tomou as características clínicas do Pesadelo e, com extraordinária engenhosidade, as rastreou através de uma série muito ampla de mitos. [...] antes da tentativa de Freud, deve ser contado como talvez o esforço mais sério de situar a mitologia numa base naturalista inteligível." * Para Laistner, assim como para Freud e Jones depois dele, há um fundamento psicológico e naturalista para o mito e a religião — Laistner aponta o caráter erótico desses sonhos, comparável à redução freudiana da mitologia e da religião a mecanismos psicológicos ligados à sexualidade. * Roscher, ao contrário, é primariamente um mitólogo que não reduz o mítico a processos intrapessoais — sua abordagem se alinha, de maneiras distintas e em época diferente, à de Jung, Kerényi e Eliade. * Mito e religião não são redutíveis aos sonhos, mas ambos têm sua fonte em algo transpessoal — uma realidade que não é pessoalmente humana, ainda que humana num sentido arquetípico. * Assim como a sexualidade é uma função sui generis da psique, também o são as funções de sonhar, de criar mitos e de experienciar o religioso — elas se narram mutuamente por meio de analogias, não por compartilharem uma raiz comum. * A base não é naturalista — como afirma Jones —, pois a natureza é ela mesma uma metáfora; por isso, para compreender o sonho é preciso falar como ele fala: não em conceitos naturais, mas em imagens. * A metáfora fundamental do ensaio, assim como a de Roscher, seja para o sonho ou para Pã, não é "natural", mas "imaginal".