====== Hermes da vida e da morte ====== //[[..:start|KERÉNYI, Károly]]. [[.:start|Miti e misteri]]. Torino: Bollati Boringhieri, 2017.// ** 1. Hermes e Eros ** * Hermes representa a fonte supra—individual de uma experiência particular do mundo que transcende a consciência sensorial puramente científica. * Abertura para uma guia ou companheiro suprassensível capaz de prover impressões coerentes e diversas. * Mundo hermético definido pelas estradas como campo de ação e pelo acaso como matéria prima. * Transformação do achado em obra de arte por meio do furto e da ilusão. * Realidade que abrange desde o elemento fálico até a função de guia das almas para além da vida. * Divindade como origem de um mundo que se torna visível e evidente apenas através de sua presença. * O mitologema de Poros e Pênia no Banquete de Platão revela a natureza de Eros como um demônio marcado pela penúria e pela astúcia inventiva. * Diotima de Mantineia como a sábia sacerdotisa que narra a origem de Eros a Sócrates. * Poros como filho da Inteligência e portador da capacidade de encontrar caminhos. * Eros como herdeiro da aspereza materna e da tenacidade viril paterna. * Natureza intermediária que oscila perpetuamente entre a plenitude e a carência. * Afinidade estrutural entre o demônio erótico e a figura de Hermes. * Poros representa a plenitude universal em movimento e atividade viril, distinguindo—se do Caos amorfo descrito por Hesíodo. * Menção por Álcman como uma das divindades mais antigas ao lado de Aisa. * Identificação de Poros com o Caos primordial em um sentido de potência ativa e direcional. * Caráter de agressão e agudo instinto de caça voltado para o criativo e o fecundo. * Eros compartilha com Hermes a amplitude da esfera hermética, atuando como o primeiro momento viril e psíquico do cosmos. * Monumento primitivo em Tespias consistindo em uma pedra bruta. * Aparição na Teogonia de Hesíodo como o terceiro ser após o Caos e Gaia. * Capacidade de libertar os membros e subjugar o conselho sensato de deuses e homens. * Diferença entre a memória dos arquétipos de Eros e a sagacidade calculista de Hermes. * Tradições secretas identificam Eros como filho de Hermes com Ártemis ou Afrodite, unindo elementos fálicos, psíquicos e espirituais. * Relatos preservados por Cícero referentes aos estudos de letras recônditas. * Cupido primus como filho de Mercúrio e da primeira Diana. * Cupido secundus como filho de Mercúrio e da segunda Vênus. ** 2. Hermes e as deusas ** * A relação entre Hermes e as ninfas é um dado da tradição clássica que posiciona o deus como senhor das ocasiões e companheiro de divindades da natureza. * Oferenda de Eumeu às Ninfas e a Hermes na Odisseia. * Convivência com Silenos em grutas profundas segundo o Hino Homérico a Afrodite. * Nutrição de crianças divinas e participação em danças corais. * Hermes como eterno senhor das ocasiões femininas em vez de servidor. * Hermes atua como acompanhante constante de tríades femininas em relevos que revelam o mistério da fecundidade selvagem. * Associação com as três Graças na Acrópole de Atenas. * Manifestação do feminino em figuras separadas que derivam de uma divindade trimorfa original. * Revelação do mistério das profundezas das grutas, fontes e montanhas. * Conexão com Deméter e Perséfone nos bosques sagrados. * Versões pré—olímpicas apresentam Hermes como filho de Urano e Hemera, possuindo um caráter priápico despertado pela visão de uma deusa. * Mitologema da primeira evocação do princípio puramente masculino pelo feminino. * Localização do evento na Grécia setentrional. * Natureza noturna de Hermes em tensão com a luminosidade diurna de Hemera. * O ser primordial andrógino reflete a união original entre Hermes e Afrodite, onde a masculinidade é ativada por uma deusa evocadora. * Afrodite como irmã de Hermes na linhagem de Urano. * Culto cipriota de Afrodito como aspecto masculino da própria deusa. * Hermafrodito concebido como filho da união ou aspecto original do deus antes da excitação masculina. * Brimo aparece como a divindade trimorfa que unifica as figuras de Deméter, Perséfone e Hekate no encontro primordial com Hermes. * Propércio e o relato das núpcias sagradas nas águas do lago Bebeide. * Brimo como a deusa virginal que provoca e exige a virilidade. * Hermes como o deus—servidor da mulher primordial. * A relação de Hermes com as águas e fontes remete ao seu papel de amante secreto e senhor das águas virgens. * Fonte com peixes sagrados em Faras. * Ermas que indicam o caminho para fontes na Arcádia. * Estátua de Hermes em Ainos pescada no mar. * Hekate como parceira de Hermes ou do Tritão itimorfo. * Hekate representa o aspecto mais hermético da divindade primordial, compartilhando com Hermes funções de guia de espíritos e proteção de portas. * Hekateia construídos sobre base triangular. * Sacrifícios de focáceas e incenso realizados na lua nova. * Proteção das estrebarias e concessão de riqueza ao lado de Hermes. * Conciliação entre o erotismo e a esfera das almas no mundo grego setentrional. ** 3. O mistério da erma ** * A forma itifálica das ermas tem origem nos mistérios de Samotrácia e nos ensinamentos dos pelágios sobre a origem da vida. * Testemunho de Heródoto sobre a adoção da forma pelos atenienses via empréstimo pelágio. * Poesia de Calímaco referente ao relato mistérico dos tirrenos. * Localização da esfera geográfica entre Samotrácia e o lago Bebeide. * A base quadrada das ermas constitui uma expressão arquetípica da totalidade e do enraizamento ctônico no fundamento do mundo. * Quadrado como forma de expressão da totalidade divina radicada no solo. * Uso do quadrado em monumentos sepulcrais e no lado ctônico das moedas gregas. * Zeus Teleios em Tegeia como exemplo de totalidade realizada pelo matrimônio. * Paralelismos com o culto de Príapo na Frígia revelam a conexão entre o princípio vitalizador e o reino da morte. * Príapo como filho de Hermes em tradições recentes. * Local da morte e da vida como definição do campo de ação priápico. * Função de conduzir e reconduzir as almas mencionada por Petrônio. * O monumento de Lisandra em Esmirna ilustra a esfera de Hermes e Hekate como fonte primordial de imortalidade. * Presença de cães e figuras de Psiquê com asas de borboleta. * Serpente que recorda os mistérios do trono de Deméter. * Psiquês masculinas que entregam símbolos de imortalidade a uma mulher morta. * Falos de pedra como geradores perpétuos e origem eterna da vida. * O conceito de sêmen como alma na época arcaica vincula o elemento fálico à origem da imortalidade. * Vaso ático representando a queda de sêmen como borboletas em direção ao voo da alma. * Nome grego para mariposa (phalaina) como forma feminina de falos. * Imortalidade concebida sob o aspecto do elemento móvel masculino. * A visão da origem da vida nos mistérios de Samotrácia confere uma dimensão atemporal ao ser através do símbolo fálico. * Abertura de uma quinta dimensão além do tempo e do corpo. * Os Cabiros como divindades masculinas centrais nos mistérios samotrácios. * Representação do Kabirion de Tebas com a linhagem de Kabiros, Pais, Pratolaos e Mitos. * O cabirismo de Hermes fundamenta sua função de mensageiro e guia de almas na mediação entre morte e vida. * Iniciação de Hermes nos inferos para assumir a carga de mensageiro. * Purificação da Angelos pelos Cabiros no lago Aquerúsio. * Caduceu com serpentes entrelaçadas como símbolo da mediação entre os reinos. * Linhagem dos arautos (kerykes) em Elêusis vinculada ao deus. * A etimologia de Hermes deriva da pedra erguida (herma), servindo como suporte e símbolo primordial da ideia dos Cabiros. * Hermaias como derivado da pedra individual colocada em pé. * Identidade entre procriador e procriado na masculinidade absoluta. * Hermes como o Cabiro jovem, Kasmilos, ou como o progenitor Barburas. * Hermes é identificado com o Cabiro jovem em Imbros, representando a masculinidade em sua mobilidade lúdica e protótipo do efebo. * Culto em Imbros dedicado a Hermes Imbramos. * Inscrição de conhece—te a ti mesmo no Hermes de Alcamenes. * Papel de protetor da juventude masculina nas palestras. ** 4. Hermes e o carneiro ** * O culto doméstico grego incluía estátuas de Hermafrodito como representação da fonte inesgotável de vida da família. * Prática do homem supersticioso de coroar os Hermafroditos em dias sagrados. * Hermafrodito como fundamento primordial da união conjugal que precede a individuação. * Divindades paternas vinculadas à origem da estirpe e das almas. * Hermes atua como mediador na entrada da casa, reconduzindo as almas do mundo das estradas para o calor da família. * Epítetos de Propylaios, Pylaios e Epithalamites. * Relação com Héstia no centro do lar e no focolar. * Cardines da porta como pontos de irrupção para as almas sob controle divino. * As festas de Hermes celebram a irrupção do elemento ínfero e a ascensão da vida reduzida à noite do sêmen. * Inversão de papéis entre senhores e escravos em festivais cretenses. * Festa de Hermes Caridotes em Samos marcada por furtos e rapina. * Fortalecimento do fraco e retorno da vida ínfera para a luz. * O tipo do crióforo e a festa em Tanagra simbolizam o transporte do novo sol e a regeneração da vida. * Jovem que carrega um carneiro ao redor das muralhas da cidade para afastar epidemias. * Geração de Saos, herói de Samotrácia, por Hermes em forma de carneiro com Rhene. * Carneiros de ouro como presentes divinos para as casas de Atreu e Frixo. * A conexão com o deus—carneiro pré—histórico vincula Hermes à origem da luz que nasce em cada alma. * Apolon Karneios e a divindade Amon em Gítio como paralelos mediterrâneos. * Hermes como progenitor do lunare—obscuro Pan. * Geração simultânea da luz e do seu espelho nas profundezas do ser. ** 5. Sileno e Hermes ** * A linguagem e a interpretação constituem facetas da sabedoria hermética que espiritualiza a obscuridade animalesca das origens. * Etimologia relacionando herma ao termo sermo e ao ato de explicar. * Hermes como hermeneus e mediatore por meio da língua articulada. * Espiritualização do mutismo animalesco através do sussurro e da interpretação. * Hermes e Sileno compartilham a função de portadores do menino divino, unindo o espiritual ao animalesco na totalidade perfeita. * Estátua de Praxíteles representando Hermes com o menino Dioniso. * Sileno como educador tradicional do deus do vinho e portador de crianças divinas. * Hermes como deus das vinhas em Lesbos. * Representações em vasos revelam a fusão entre o simbolismo silênico e a função de guia de almas durante as festas das Antestérias. * Silenos com atributos de Hermes em um psykter de Dúris. * Silenismo como representação da origem da vida que se expande abertamente. * Quinta feira das Antestérias como dia dedicado a Hermes e às almas. * A ânfora de Berlim sintetiza a relação entre Sileno e Hermes como sosias que evocam a vida luminosa a partir do fundo obscuro. * Troca de atributos: Sileno com a lira de Hermes e Hermes com o recipiente de vinho de Sileno. * Presença de um cervo simbolizando o mundo selvagem pacificado pelo encanto divino. * Hermes como guia comum para todos aqueles que veem a vida como uma aventura espiritual ou amorosa.