====== Mysteria ====== //[[..:start|KERÉNYI, Károly]]. [[.:start|Miti e misteri]]. Torino: Bollati Boringhieri, 2017.// == 1. O significado do termo mysteria == * A investigação socrática sobre a essência das coisas permanece fundamental diante das transformações nos objetos de estudo da historiografia das religiões. * Necessidade de questionar o significado de nomes divinos e formas religiosas em contextos históricos específicos. * Risco de anacronismo ao atribuir definições modernas a termos como Hermes, Hélios, mitologia ou gnose. * Perigo de deturpação semântica especialmente elevado no estudo dos mistérios. * O conceito de mística contemporâneo foca na união com o único e na fuga do mundo sensível, divergindo da tradição clássica. * Definição de Plotino como a fuga do só para o só — phygé mónou pròs mónon. * Evasão da multiplicidade da existência natural em direção a um ser sobrenatural ou universal. * Objetivo de redenção do homem por meio do rompimento com todos os vínculos naturais. * O uso original do termo mistério na Grécia pagã não implica distanciamento da natureza, mas refere—se a uma experiência festiva concreta. * Aura mística associada ao odor de tochas ardentes na obra as Rãs, de Aristófanes. * Identificação do místico com a atmosfera sensível de celebrações noturnas. * Caráter calendárico e festivo do fenômeno místico na história religiosa grega. * Mysteria designava festividades específicas em Atenas consagradas a divindades como Deméter, Core ou Perséfone. * Uso gramatical do plural para designar o conjunto de eventos e celebrações do período. * Relação entre o nome da festa e a divindade que se manifesta como um acontecimento. * Analogia com os Dionysia e os Pithoigia, onde o rito de abrir os vasos determina a denominação do dia. * A nomenclatura festiva grega frequentemente deriva de raízes verbais que descrevem ações rituais ou eventos divinos. * Soteria vinculada aos termos salvador — Soter — e salvadora — Soteira. * Lampteria e Anthesteria relacionados ao brilho e ao florescimento de Dioniso — Anthios ou Antheus. * Plynteria e Kallynteria associados ao banho e ao adorno da imagem de Palas Atena. * O termo Mysteria engloba o período festivo integral e não apenas os atos rituais isolados conhecidos como telete. * Distinção feita por oradores atenienses entre o rito e a festa propriamente dita. * Observação de Plutarco sobre a permanência da reunião festiva em Elêusis após o encerramento dos ritos. * O iniciado — mystes — participa simultaneamente como sujeito e objeto das transformações rituais. * O calendário ático registrava os Mistérios em dois períodos distintos do ano, vinculados às estações e a locais específicos. * Grandes Mistérios celebrados no outono, durante o mês Boedromion, em Elêusis. * Pequenos Mistérios realizados na primavera, no mês Anthesterion, em Agra. * Omissão frequente dos nomes de Deméter e Perséfone por serem as divindades autoevidentes dessas festas. * A natureza do segredo nos mistérios gregos possui um caráter negativo e involuntário, tratando—se do que é essencialmente indizível. * Diferença entre o simples ocultamento intencional e o mistério autêntico que permanece oculto mesmo quando vivido. * Conceito de arreton como aquilo que não deve ser pronunciado por ser inerente à profundidade da experiência. * Transformação posterior do indizível em proibido — aporreton — através de imposições externas. * O silêncio sobre as origens da vida justifica—se pela profundidade existencial que transcende a descrição puramente conceitual. * Insuficiência da terminologia biológica para captar a dimensão pessoal do acontecimento vital. * Função da representação cultual em elevar o fato individual à universalidade sem despojá—lo de sua natureza única. * O paradoxo dos cultos secretos que são, ao mesmo tempo, públicos. * A Fivela Indizível constitui o centro dos mistérios áticos, reinando sobre a festa sob a designação de Arretos Kura. * Perigo de que a divulgação banal prive o arreton de sua atmosfera sagrada e gestual. * Criação de um corpo atmosférico composto por silêncio, vozes, escuridão e luz. * Risco da arretologia em falsificar o sentido originário do mystikon. * A etimologia do termo místico remete ao ato ritual de fechar os olhos ou a boca para ingressar na própria escuridão. * Derivação do verbo muein ou myein para os termos mystes e iniciação — myesis. * Representações da iniciação de Héracles com a cabeça velada para o ingresso no escuro. * Uso latino do termo initia para designar os mistérios como atos de entrada. * Os mistérios proporcionavam o acesso aos princípios fundamentais da vida e uma nova perspectiva sobre a finitude humana. * Identificação ciceroniana entre os initia e os principia vitae ou princípios da vida. * Definição de Píndaro sobre o conhecimento do fim da existência e do início dado por Zeus. * Recondução à gênese natural da vida por meio da imersão noturna. * A temporalidade dos mistérios coincidia com fases lunares específicas para intensificar a relação entre fechamento e florescimento. * Realização dos ritos durante a lua minguante, após preparativos no plenilúnio. * Contraste entre o caráter de fechamento dos mistérios e o caráter de abertura dos Anthesteria. * Identidade terminológica entre o fechar das flores e o fechar dos olhos. * Os Anakalypteria representam o oposto ritual dos mistérios, focando—se no ato de desvelar Perséfone. * Complementaridade entre o velar dos mistérios e o descobrir — anakalyptein — das núpcias divinas ou Theogamia. * O casamento de Perséfone com Hades como arquétipo do matrimônio humano e da entrega à morte. * Velamento da noiva como símbolo de imersão na noite antes do estado nuzial. * O iniciado busca o reequilíbrio nas raízes naturais da existência através da vivência de imagens míticas e atmosféricas. * Vivência de uma maternidade passiva e concipiente por iniciados de ambos os sexos. * Contato com o mundo dos antepassados e fontes de energia vital não exauridas. * Oposição consciente do cristianismo a essa esfera de raízes naturais em favor de fundamentos sobrenaturais. * A transição para o uso singular da palavra mistério sinaliza uma mudança de foco para o conteúdo oculto ou para os meios sacramentais. * Mysterion como meio de velamento ou objeto mantido em segredo. * Crítica cristã à simplicidade dos objetos eleusinos, como a espiga de trigo ou a invocação — chue kye — para que chova e se frutifique. * Perda do sentido original do arreton pagão diante das novas doutrinas da salvação.