====== FELINO E BASTÃO ====== //René-André Lombard. L'Enfant de la nuit d'orage// * A presença do bastão no arquétipo de Arlequim, figura de felino noturno manchado ligada ao Além, encontra explicação no encontro recorrente do Bastão-Trovão com o Felino bigarré. * A Batte d'Arlequim era construída de dois meios-bastões ocos que estalavam ao se chocar, produzindo o máximo de barulho possível. * O bastão de Arlequim é primeiramente um cômico de barulho, mas sua origem é mais profunda. * O encontro do Domador com o Felino, ao Circo, reproduz ao vivo esse arquétipo: o Domador provoca com o cabo do chicote ou do tridente as fauces e os bigodes de seus leões ou tigres empoleirados em banquetas altas, e o Circo mergulha nos arquétipos rituais das origens do espetáculo. * Virgílio descreve Éolo golpeando para desencadear a tempestade com sua reversa cuspide, o tridente invertido. * Nos livros e vasos de cerâmica dos museus, o encontro do Leopardo e do Bastão é o leitmotiv dos monumentos dionisíacos. * Ao contemplar essas imagens é preciso mudar de estado de espírito, pois o que hoje se chama Arte tornou-se pretexto para sensação individual, simples objeto disparador de emoção a serviço do eu como árbitro do mundo, enquanto quanto mais se recua no passado, mais a imagem se afasta do indivíduo para exprimir a intuição coletiva, o saber do grupo em sua comunhão com o Sagrado. * Mesmo na cerâmica grega clássica, a transmissão do tema às origens sagradas permanece minuciosa, sem nenhum detalhe fortuito: a posição das figuras, suas proporções mútuas, orientação, sobreimpressão, vizinhança imediata e valor luminoso são todos portadores de sentido. * A marcha sagrada das grandes entidades míticas Zeus, Herakles e Teseu em seu encontro com o Oponente é invariavelmente da esquerda para a direita, joelho esquerdo avançado dobrado, longa perna direita fletida para trás. * Essa postura reproduz a procissão dos astros sobre a eclíptica, já identificada anteriormente. * Mesmo quando as taças se tornaram objetos de arte oferecidos ou trocados na época de Roma, o canevas visual permaneceu fiel ao essencial das imagens concebidas para marcar a celebração de um ritual em uma circunstância sazonal precisa. * O encontro do Felino e do Bastão marca o culto de Dioniso em um ritual e num momento do ano bem determinados. * O personagem que os reúne é a Menade ou Tíade, a possuída de Dioniso, que se lança da esquerda para a direita, joelho esquerdo avançado, a cabeça virada brandindo o Tirso. * O Tirso é definido pelas próprias imagens: sua extremidade verdejante e inchada se sobreimprime ao sexo ereto de um Sátiro, enquanto o pomo se sobreimprime à cabeça do Felino Sacrificado. * O Tirso é o grande bastão de Vida e de Morte, a Árvore de toda vida. * Tecido de Hera sempre verde que mostra a perenidade da vida sob a aparente morte do inverno, é a renascença pela fecundação. * Golpeando, pelo outro polo, a cabeça-vítima, é a morte sacrificial, o desaparecimento provisório e doloroso que faz passar para outro mundo de forças. * A questão da razão pela qual o animal manchado é o Leo-Pard, o Felino tacheté, encontrará resposta no estudo do mito de Dioniso. * Quando a Menade apresenta o corpo inteiro ou desmembrado do jovem Leopardo, seus ombros se drapejam na Pardalide, a pele de Leopardo que marca a identificação mágica entre o ator e o felino, abolindo pela magia sacrificial a distinção entre sujeito e objeto, eu e não-eu que caracteriza a vida corrente, e a dança dionisíaca faz a mulher-felino passar a outra ordem de existência enquanto o felino sacrificado detém, pela dança da mulher, a potência que mantém a vida através da aparência da morte. * Em outras representações, a Menade pode ainda amamentar ou fazer beber o felino, iluminando de forma diferente o aspecto vital do fenômeno evocado pela imagem do Leopardo na vara da fecundidade. * A pista sugerida pela imagem de um Arlequim-felino manchado manuseador de bastão conduz diretamente ao santo patrono do Teatro para os atenienses do século V. * Aristote registra que a tragédia em Atenas era encenada somente por ocasião das festas de Dioniso, e que ela é oriunda do ditirambo, canto executado em honra de Dioniso por cantores disfarçados de sátiros. * O ditirambo em si mesmo é verossimilmente a transformação civilizada e oficial de uma sessão de possessão dionisíaca. * Nota de rodapé: referência à obra de Jeanmaire, Dionysos (edit. Payot), considerada soma considerável de informações sobre Dioniso e a natureza de seus cultos orgiásticos. * O Patrono do Teatro, mesmo nas épocas tardias em que sua imagem é suavizada e lênificada, como se vê no mosaico de Pela, permanece ligado ao seu duplo, o Felino malhado de cabeça redonda e orelhas abaixadas. * Tanto quanto a Menade, forma feminina na qual Dioniso gosta de se encarnar, ele é visto acariciando ou fazendo beber numa taça o Leopardo. * Todo o ritual da possessão báquica está sob o signo do Felino: caça de corrida e salto, desmembramento da vítima pelas unhas e devoração a plenas dentadas. * Nota de rodapé 2: Diasparagmos. * Nota de rodapé 3: Omofagia. * Dioniso, que liberta as forças enclausuradas (Bacchos-Liber), é um Felino que se manifesta como Lince, Leopardo, Leão e Tigre. * Nota de rodapé 4: Bacchos-Liber. * Em Atenas, segundo Aristófanes, as Máscaras suspensas de Dioniso são cabeças de Lince. * Nota de rodapé 5: Mormolyceia. * Em Samos, Dioniso (de boca aberta) é um Leão que reina sob essa forma nas moedas da ilha, e numa pedra gravada, imagem irmã da esfinge, aparece como Leão de cabeça humana. * Nota de rodapé 6: Dioniso Kekhenos. * Em sua lenda, Dioniso luta como Felino contra os Gigantes, depois contra as Mínias, e naquele episódio célebre da navegação que o aparenta a Osíris, contra os Piratas. * O ditirambo pindárico de Tebas é uma evocação impressionante do desencadeamento de Dioniso sob forma de felino. * Nota de rodapé 7: citado por Ateneu e reproduzido em Jeanmaire, op. cit. * Nas Bacantes de Eurípides, espírito fascinado pela conduta irracional dos antigos ritos, as metamorfoses de Dioniso, as feitiçarias das Menades e a transformação de Agavê, mãe de Penteu que recusou reconhecer sua potência em mulher-pantera assassina de seu próprio filho, culminam no relâmpago e no incêndio do palácio de Penteu sob o Raio, curto-circuito brutal das energias invisíveis. * O Felino, besta convulsiva e instantânea, sensível às mínimas vibrações, cujo pelame lança faíscas visíveis, é a besta elétrica por excelência, o que revela a importância do campo de reflexão simbólica que, do Tigre das cavernas ao Gato dos Egípcios, se ofereceu ao homem de outrora cheio de reverência pelos segredos do felino fulminante. * Dioniso, o lânguido de poses aveludadas, pode de repente tornar-se o grande Urrador, aquele que ruge no Trovão, e o coro tebano em Sófocles declara que é ele quem faz aparecer o relâmpago surgido de sua fumaça. * Nota de rodapé 8: ERI-BOAS, da raiz W.R., a atração-repulsão que pode ser também EROS, o amor, ou ERIS, WAR, a Guerra, marcando a potência absoluta. * Nota de rodapé 9: Dioniso BROMIOS, tema BRM, barulho do trovão (Bramah, Prome-Thée).