====== LOMBARD ====== ~~NOCACHE~~ //René-André Lombard. L'Enfant de la nuit d'orage// Antes de empreender a descida que se propõe, ao fundo de um passado muito remoto, é necessário que se compreendam plenamente dois fatos sobre os quais raramente se reflete na vida cotidiana: O primeiro é que as necessidades da existência obliteram literalmente o senso histórico. Orgulhosos dos progressos técnicos, os homens creem-se ingenuamente os únicos capazes de pensar, de modo que, no que tange ao passado, há grande dificuldade em enxergar além do tempo imediato. As descobertas arqueológicas e paleontológicas obrigam, a todo instante, a recuar de forma espetacular traços de cultura ou de civilização que se imaginavam muito mais recentes. Dez mil anos são, afinal, pouca coisa, e há muito tempo os grupos humanos pensam, apreendem relações no universo que os cerca e as exprimem à sua maneira, que não é a do século XX. Roma, seus quarteirões, suas passagens para pedestres, suas instalações de aquecimento central, seus bancos e seu arrivismo, já representam o hoje. Os compêndios geométricos das pirâmides, as especulações sideralistas dos tetos astronômicos egípcios, representam o ontem. O anteontem é uma imensa fermentação de tradições e de saberes não escritos que puderam atingir um alto nível de intuição sobre certos pontos e que se perdem, para o observador atual, no vago da proto-história e da pré-história. Compreenda-se que tudo o que chega até a atualidade provém de tempos muito remotos, através de múltiplas modificações. Assim, as imagens teatrais ainda vivas podem ter sido concebidas sobre ritos de trinta mil anos de idade e ter chegado até o presente sob um traje de Commedia dell’Arte que é apenas a sua última metamorfose, e não o seu ponto de partida. Tudo é sempre mais antigo do que se pensa. O segundo fato é que, ao menos no Ocidente, perdeu-se o senso do rito, em particular da representação gestual e vocal dos movimentos e das vibrações do universo. Já no tempo do classicismo grego, Odisseus, o Luminoso, o Loiro, faz passar as flechas de seu arco sobre-humano pelos doze anéis apenas para impressionar os concorrentes que desejam arrebatar-lhe a esposa, enquanto o grande Zeus, lançador de raios, assume a forma do Touro noturno apenas para escapar da vigilância conjugal. Já as forças que se entrecruzavam ao redor do homem haviam se tornado pequenos heróis de romance, presos a seus pequenos problemas humanos. A ruptura com a atitude mágica estava consumada. Ora, houve um tempo em que o homem ainda integrado, mimético, concebia perfeitamente inserir-se ainda mais nos fenômenos que o cercavam e tentava fleti-los em sua vantagem por meio de gritos e imagens corporais, por mais minúsculos que fossem seus órgãos vocais e seus deslocamentos em relação à amplitude das forças evocadas: o pequeno e o grande estão em um mesmo comprimento de onda e uma estreita garganta humana pode ressoar com toda a potência do Trovão, se a vibração for justa. Há nisso um modo de ser que se tornou tão estranho à maioria que se torna quase impossível imaginar o cadinho sagrado onde se moldou essa ação (drama) exaltada que deveria, mais tarde, florescer e diferenciar-se (e também anemicar-se) em canto, dança, música, teatro e poesia. Seja-se sensível, portanto, nesta pesquisa, às imagens e às sonoridades dos vocábulos que a ela se ligam, com interesse nos mais antigos, fora de toda conotação histórica ou cultural recente. Ver-se-ão, então, desenharem-se pistas que permitirão talvez entrever a natureza profunda do fenômeno teatral. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}