====== Grande Deusa ====== //MARKALE, Jean. La grande déesse. Mythes et sanctuaires. De la Vénus de Lespugue à Notre-Dame de Lourdes. Éditions Albin Michel, 1997// 1. Nos sistemas religiosos oriundos do substrato bíblico, judaísmo, cristianismo e islã, domina o conceito de um deus macho, reforçado pela filosofia grega e bizantina e pela espiritualidade iraniana mazdeísta, mas a Bíblia hebraica revela que essa vitória da masculinidade divina não foi imediata, pois testemunha uma luta constantemente renovada entre os partidários da ortodoxia javista e os devotos das ambíguas deusas cananeias, a ponto de o próprio Salomão, construtor do Templo de Iahweh, espalhar pelo país santuários a Ishtar, Tanit ou Ártemis, o que explica a desconfiança de São Paulo, verdadeiro fundador do cristianismo, em relação às mulheres e seu afastamento das cerimônias cultuais. 2. O confronto entre as concepções masculina e feminina da divindade encontra-se em todas as civilizações, e, se vários indícios sugerem a prioridade da concepção feminina, houve num momento indatável e variável segundo as regiões uma inversão em que a passagem de um estado ginecocrático a um estado androcrático transformou a deusa-mãe em deus-pai, passagem cujo melhor testemunho é a lenda fundadora do santuário de Delfos. 3. A lenda conta que um deus vindo do norte, Apolo, combateu e matou a serpente Píton que residia em Delfos, levando os habitantes a abandonar o culto da serpente pelo do deus vencedor, mas foi uma mulher, a Pítia, sacerdotisa instalada numa cavidade profunda sob o templo, que se tornou intérprete do deus e personagem essencial do oráculo mais célebre do mundo mediterrâneo. 4. Essa lenda aparentemente ingênua é rica de ensinamentos, pois Delfos abrigava desde tempos imemoriais uma pedra erguida que marcava o centro sagrado do mundo, tornando o combate um acontecimento cósmico, e o nome Píton, de raiz grega que significa cavidade profunda e origem, de onde o latim puteus, poço, liga a serpente e a Pítia à fossa, aos poços funerários e aos túmulos megalíticos de câmara central, isto é, ao conceito de matriz originária associada à parturição e à regeneração, o que leva a interrogar o sentido da serpente pisada pela Virgem Maria, do combate de São Miguel contra o dragão e de todos os combates de heróis civilizadores como Tristão e Siegfried ou de santos como Efflam e David contra serpentes monstruosas saídas do inconsciente coletivo. 5. O nome de Apolo, talvez comparável ao nome indo-europeu da maçã, provém do grego apéllô, repelir, e designa aquele que expulsa, papel que exerce contra Píton, sendo originalmente não um deus solar, o que só se tornará no sincretismo helenístico por contaminação de Mitra, mas um deus da primeira função indo-europeia, sacerdote, poeta, músico, adivinho e médico, arquétipo dos heróis civilizadores das lendas e contos populares, cuja componente luminosa se desenvolveu naturalmente contra as forças obscuras e telúricas da serpente ou do dragão. 6. A vitória de Apolo sobre Píton, interpretada como substituição de um culto telúrico por um culto celeste, deve ser completada pela consideração da feminilidade da serpente, presente em Melusina e na Vouivre, animal emblemático da deusa Terra, mãe primitiva dos deuses e dos homens, tornando-se assim símbolo claro de uma mudança radical de mentalidade, a passagem do conceito de deusa-mãe ao de deus-pai. 7. A arqueologia e os mitos permitem supor que os homens do Paleolítico e do Mesolítico, sem estabelecer relação causal entre o coito e o parto, ignoravam o papel do macho na procriação e mantinham diante da mulher, aparentemente mais fraca mas capaz de dar misteriosamente a vida, uma atitude ambígua de veneração e terror diante de poderes mágicos ou divinos, como provam as Vênus calipígias do tipo de Lespugue, reconhecimento de um poder materno divino que torna muito provável que a humanidade primitiva concebesse a divindade como feminina. 8. Tudo mudou quando o macho compreendeu que sua participação no ato sexual condicionava a procriação, provavelmente na sedentarização neolítica, entre o oitavo e o quarto milênio, quando a agricultura sucedeu à coleta e a criação à caça, e a observação dos animais e a rentabilidade do rebanho revelaram seu papel, permitindo-lhe libertar-se de antigas frustrações e afirmar solenemente seu poder, como exprimem a lenda de Apolo e muitos mitos análogos, enquanto o sol, antes feminino, se tornou masculino e a feminilidade foi relegada à lua, embora as antigas línguas semíticas e indo-europeias, o alemão e as três línguas celtas ainda faladas conservem o sol feminino e a lua masculina, como restitui a lenda arcaica de Tristão e Isolda, animada por uma divindade solar feminina. 9. Essa inversão não se fez de uma vez, pois os costumes ancestrais são tenazes e as sociedades arcaicas conservaram por muito tempo, mesmo na época dos patriarcas bíblicos, estruturas ginecocráticas, tendo a ideia do patriarcado e da exclusão da mulher se desenvolvido entre a elite, isto é, a classe sacerdotal, de modo que foram os sacerdotes que impuseram o conceito de um deus-pai criador e procuraram eliminar o da deusa-mãe, como revela a lenda de Delfos. 10. O Gênesis confirma esse processo, desde que seus onze primeiros capítulos, redigidos tardiamente segundo a tradição patriarcal mosaica, sejam lidos como mistura de mitos fundamentais e reminiscências históricas reduzidas a símbolos, pois no episódio do pecado original é uma mulher que comete a falta antes de fazê-la cometer ao homem, como a grega Pandora, responsabilizada por todos os males embora seu nome a designe como dispensadora de todos os dons, isto é, a própria deusa-mãe, e sobretudo é sob a influência da Serpente que Eva peca. 11. A identificação quase unânime da Serpente do Gênesis com Satã, apoiada no grande serpente do Apocalipse combatido por São Miguel, ignora deliberadamente o aspecto feminino da serpente, agravado pela interpretação fálica dos psicanalistas, quando a serpente, como Píton, é a imagem da divindade-mãe telúrica, frequentemente representada no Oriente Próximo e no Egeu entre serpentes ou segurando-as, sendo significativo que a palavra serpente fosse muitas vezes feminina na Idade Média e o seja ainda no latim anguis, no alemão Schlange, no bretão naer e no galês neidr, assim como sua presença sob os pés da Virgem na iconografia cristã. 12. Considerada a feminilidade da serpente, o pecado original muda de sentido, pois Eva transgride o interdito patriarcal de YHWH, símbolo do Deus-pai, e escuta a Serpente, figura da deusa-mãe, num retorno ao culto antigo que constitui verdadeira apostasia contra a religião patriarcal, primeiro episódio da longa luta do Deus-pai contra a deusa-mãe, severamente punido, e cujas maldições, além da expulsão do Paraíso, revelam uma realidade histórica, sociológica e teológica. 13. A maldição contra a serpente, isto é, contra a deusa-mãe, condena-a a rastejar e estabelece inimizade entre ela e a mulher, que não poderá mais honrá-la e deverá combatê-la, enquanto o célebre parirás com dor pune as mulheres naquilo que fazia sua glória, a gravidez e a maternidade, reduzindo-as, antes triunfantes como únicas procriadoras, à condição de escravas que devem dar filhos ao homem e que, em vez de suscitar o desejo masculino, símbolo do culto sexual da deusa, passam a desejar os homens, ficando à disposição deles apenas para a procriação. 14. Trata-se de uma virada considerável na história das mentalidades, e não de uma guerra entre duas divindades, já que a divindade é uma, eterna, infinita, inefável e inominável, revestida de traços antropomórficos e sexuais apenas para tornar-se compreensível, pois o homem só percebe o concreto, concebendo-a feminina enquanto atribuía só à mulher o poder de procriar e masculina quando compreendeu o papel do macho, rebaixando a mulher, despojada de mistério e sacralidade, a mãe portadora de uma linhagem masculina vingativa, numa luta secular entre visões ginecocrática e androcrática de que o Gênesis é o testemunho mais irrecusável. 15. O relato mosaico vai além, pois, enquanto as religiões femininas faziam os homens desejar as mulheres e as tornavam senhoras deles, a religião masculina faz a mulher desejar o marido, que dominará sobre ela, iniciando uma civilização de predominância masculina, e amaldiçoa o solo, a Terra-Mãe, por ter o homem escutado a voz da mulher, isto é, retornado ao culto da deusa, inaugurando o reinado da agricultura e da criação, origem histórica da sociedade masculina, no seio da qual se travará depois a luta sangrenta entre o pastoreio de Abel e a agricultura de Caim, ainda presente no inconsciente coletivo nos westerns que opõem criadores e colonos. 16. A maldição contra a serpente estende-se às mulheres, justamente suspeitas de serem devotas da deusa, suspeita que está na origem das advertências dos Padres da Igreja contra elas, de sua exclusão do sacerdócio e da participação ativa no culto e, de modo aberrante, da feroz caça às bruxas que se estendeu do século XIII ao fim do XVII na Europa ocidental. 17. O episódio do Gênesis parece justificar a posteriori um estado social resultante de uma especulação religiosa, pois apoiar um interdito numa intervenção divina reforça sua autoridade e ajuda a classe sacerdotal dominante a assegurar seu poder, numa época que não separava temporal e espiritual, mas a reação de Adão, que chama a mulher Hava, Vivente, mãe de todo vivente, exprime a primazia feminina e presta indireta homenagem à antiga deusa-mãe, natura naturans, enquanto a eliminação de Lilith, mãe ou primeira mulher de Adão, conhecida apenas por alusões depreciativas e por uma obscura tradição rabínica, mostra um texto truncado que impede saber o papel exato da mulher e da deusa antes do suposto pecado original, astuciosamente recuperado para dominar os povos pela culpa. 18. A componente sexual era essencial no culto da deusa-mãe, fonte de toda vida, cujos órgãos de procriação eram sagrados, representados e cultuados, como mostram as estatuetas pré-históricas, e, quando o macho se impôs como procriador indispensável e consciente de uma linhagem paterna, foi preciso ocultar o sexo feminino ligado às liturgias da Grande Deusa, razão pela qual o mosaísmo e outras teologias antigas combateram a idolatria, isto é, os cultos anteriores e sobretudo sua forma sexual, apanágio quase exclusivo das mulheres. 19. O termo prostituição, recorrente na Bíblia, designa toda atividade sexual não orientada para a procriação no quadro conjugal ou do concubinato legítimo dos patriarcas, pois a sexualidade, obrigatória para a continuidade da raça e boa aos olhos do Criador, embora sujeita a condições estritas e fonte de impureza, só é banida em suas outras formas não por pudor, mas por lembrar demais os cultos anteriores, chamados prostituições. 20. Babilônia é chamada a Grande Prostituta por causa da prostituição sagrada descrita por Heródoto, que obrigava toda mulher a unir-se uma vez na vida, no templo de Ishtar, a um desconhecido, aceitando qualquer soma, tornada sagrada pelo ato que a santificava aos olhos da deusa, Grande Deusa primitiva que se transformará em Cibele, Deméter, Ártemis-Diana, Afrodite-Vênus e Dana-Anna no mundo celta, e, sobretudo, pelas hieródulas, sacerdotisas organizadas sob uma grande sacerdotisa que se prostituíam ritualmente como encarnações da deusa, num ato litúrgico pelo qual os homens se uniam à divindade e participavam dela numa verdadeira iniciação, concepção magnificamente ilustrada pelos poetas barrocos do século XVI, como Agrippa d'Aubigné, cujas estâncias celebram a mortalidade consumida e a imortalidade alcançada pelo contato com a beleza divina da amada. 21. Essa profissão de fé lírica e amorosa de um poeta calvinista é uma ressurgência inconsciente do culto da Grande Deusa, muito distante da desconfiança de Ulisses diante de Calipso, Circe e das sereias, modelo ideal de uma sociedade androcrática que reduz a antiga deusa-mãe, reconhecível em Penélope, a esposa passiva e fiel à espera do macho, embora as prostitutas sagradas ainda oficiassem, reduzidas à escravidão, nos templos de Ártemis em Éfeso e de Afrodite em Corinto, consideradas santas e até virgens sagradas, o que desacredita a noção estreita de virgindade física. 22. O mesmo ocorria na Índia, onde a deusa Shakti, emanação feminina do divino, residia em cerimônias noturnas no corpo nu de uma jovem virgem com quem se podia unir santamente, e na Pérsia anterior à reforma zoroastriana, no culto de Anahita, em que uma hetaira consagrada, encarnando a deusa sobre um trono no alto do santuário, se unia publicamente a um amante escolhido entre os escravos, sinal de cinco dias de uniões coletivas orgiásticas em que cada mulher era a imagem da deusa, findas as quais o amante era queimado, ilustração cruel do rebaixamento do homem diante da mulher, exemplos de rituais universais que repetiam por um gesto sagrado o ato primitivo da criação da vida. 23. As fronteiras entre orgia sagrada e depravação são ambíguas, o que explica a severidade dos censores gregos e romanos contra os cultos dionisíacos, que ameaçavam a sociedade masculina e a ordem pública, e, como nos primeiros séculos muitos cristãos passavam da missa aos cultos de Cibele, Diana e Ísis, compreende-se a condenação obstinada da sexualidade pelos Padres da Igreja e o afastamento da mulher, vista como imagem encarnada da Grande Deusa tentadora, obsessão que, embora fizesse do ato sexual o pecado por excelência, se justificava no contexto como condição de sobrevivência do cristianismo diante do sincretismo neopagão do Baixo Império e das seitas gnósticas que devolviam à mulher o primeiro lugar. 24. A imposição do cristianismo sobre os destroços do Império não se fez sem vicissitudes, pois quanto mais se combatia em nome do Deus-pai a noção de deusa-mãe, mais ela resistia nas camadas populares, e, não podendo extirpá-la, a Igreja fez como todas as religiões diante das crenças anteriores, recuperando-a e modificando-a conforme a nova ideologia, de modo que no século V a Virgem Maria suplantou oficialmente a antiga deusa-mãe como Theotokos, Mãe de Deus, virando-se uma página de coloração diferente da mesma narrativa. 25. Essa permanência, natural na história das mentalidades, é problemática do ponto de vista teológico, pois foram precisos cerca de vinte séculos para fazer da misteriosa Maria de Lucas um ser excepcional e divinizado, em três etapas, o concílio de Éfeso de 431, que a proclamou Theotokos num lugar não escolhido ao acaso, o dogma da Imaculada Conceição de 1854 e o dogma da Assunção de 1950, decisões sempre precedidas pelo culto popular, como se os fiéis tivessem imposto às elites a imagem da Mãe universal, não deusa-mãe, mas Mãe de Deus, o que no plano do inconsciente equivale exatamente ao mesmo. 26. Na base está uma personagem considerada histórica, sem documentos, mas sem razão objetiva para negar sua realidade, uma galileia noiva de José chamada Myriam, Maria, cuja historicidade levanta mais problemas do que resolve, pois os Padres da Igreja manifestaram desconcerto e desaprovação diante do culto idólatra que os fiéis lhe rendiam, de mesma essência que o da Magna Mater de Éfeso, onde oportunamente se descobriu sua suposta casa com o apóstolo João, insistindo Santo Epifânio que seu corpo é santo mas não divino, Santo Ambrósio que ela é templo de Deus e não Deus do templo, serva e não senhora do Senhor, e São João Crisóstomo que era vaidosa como todas as mulheres, rebaixando a mulher mesmo Theotokos. 27. Sem ridicularizar a fé secular em Nossa Senhora, trata-se de mostrar como, através das incoerências dos textos canônicos e dos comentários divergentes dos Padres, o conceito da deusa-mãe, Virgem-mãe e Mãe inumerável, se manteve e adquiriu forma concreta e acessível, condição de toda transmissão, e continua a evocar algo no fim do século XX, apesar dos zombadores que ironizam a Maria sempre virgem sem refletir sobre o sentido dos termos e o lugar desse conceito na evolução espiritual da humanidade. 28. Nada se sabe da Myriam histórica, pois o apóstolo João, que segundo a tradição viveu com ela, silencia sobre a concepção, o nascimento de Jesus e o papel de sua mãe, salvo detalhes que revelam a pouca consideração de Jesus por ela, absurdidade maior dos Evangelhos, já que o informante essencial é Lucas, que não conheceu Jesus nem Maria, enquanto Mateus é mais sucinto, dois dos quatro Evangelhos canônicos calam o nascimento de Jesus, nenhum menciona encontro de Jesus ressuscitado com a mãe e só os Atos, atribuídos a Lucas, relatam encontros de Maria com os discípulos. 29. Lucas, segundo a tradição discípulo de Paulo, que tampouco conheceu Jesus fisicamente, embora tenha sido o verdadeiro criador da Igreja, não oferece testemunho de primeira mão, sendo um letrado helenizado, provavelmente grego, talvez médico, pagão convertido pelo contato com Paulo, ele próprio helenizado apesar da origem judaica. 30. O Evangelho de Mateus, escrito em aramaico, língua do povo, perdeu-se no original e só subsiste numa tradução grega tardia inspirada em Marcos, pouco confiável pelas interpolações e pela dificuldade de passar de uma língua semítica sem vogais escritas ao grego, de modo que Marcos parece o mais antigo e João o mais próximo de Jesus, mas ambos silenciam sobre a concepção virginal, o nascimento, a infância e a adolescência de Jesus, informações fornecidas apenas pelos textos mais helenizados, Mateus traduzido e Lucas originalmente grego, permitindo supor que Lucas, antigo pagão, quis superar em maravilhoso as histórias religiosas de sua infância e encontrar em Myriam os traços dominantes da Virgem-mãe pagã de Éfeso, despojados de toda componente sexual, daí a Anunciação de Gabriel e a idílica Sagrada Família, que nunca existiu, já que nenhum texto canônico menciona casamento de Myriam com José. 31. José é inútil no esquema original, cujo papel principal cabe a Myriam, de maternidade autêntica partenogênese, explicada pela sombra do Espírito Santo, mas essa partenogênese e a relação essencial entre Jesus e a mãe arriscavam ser mal compreendidas por adeptos habituados aos mitos da deusa-mãe e seu filho, e Lucas racionalizou e historicizou o esquema para torná-lo compreensível e conforme ao dogma nascente, não adaptando a infância de Cristo aos mitos das deusas-mães, mas mostrando que esses mitos, idealizações das tendências profundas do ser humano, se realizaram historicamente em Jesus, síntese da religião masculina, Deus pai da história, e da feminina, Deusa mãe da natureza, centro da história e princípio da criação, encarnando Myriam a natureza em parturição permanente, a Mãe inumerável confiada por Jesus na cruz à humanidade inteira através de João, momento capital que reconhece o conceito de mãe universal. 32. Myriam é ainda mais enigmática, pois, levando-se a sério a filiação davídica de Jesus, pertencia a uma família de alta nobreza e linhagem real, gozando de privilégios contrários aos costumes que submetiam a mulher ao pai e ao marido, como viver em casa de José sem ser casada e passar meses com a prima Isabel, mulher livre, disponível e plenamente senhora de si, traços que as tradições antigas atribuem à virgindade, não física, mas estado de consciência de uma mulher que não depende de homem, já que o latim virgo, da raiz indo-europeia werg, de onde vir, macho, virtus, coragem, o gaélico fer e o grego ergon, força, exprime força e poder, e a virgem, forte, livre e disponível a todos, é a Mãe inumerável, características tradicionais que Myriam possui plenamente, apesar das escassas e talvez voluntariamente truncadas informações evangélicas. {{tag>Markale feminino deusas}}