====== ANIMAIS-SÍMBOLOS ====== //[[.:start|Marius Schneider]]// * A hierarquia de planos concêntricos organiza tripartições místicas que relacionam alma, corpo e cosmos a tipos animais com funções simbólicas distintas no Africa equatorial. * Alma imortal, alma mortal e corpo correspondem a cabeça, peito e ventre, e ao mundo superior, intermediário e inferior. * Três tipos animais principais: o que vive entre o céu e a terra (águia), o que anda sobre a terra (pantera) e o que vive rente ao solo, sob a terra ou na água (crocodilo ou vaca). * Cada animal possui uma hora mística determinada e qualidades características derivadas de sua posição normativa. * A águia, ave do meio-dia, distingue-se pelo voo em direção ao sol, rapidez, altivez e familiaridade com o trovão. * A pantera ou o leão, animais da manhã, expressam força e valentia pelo ritmo elástico e pelo grito majestoso. * O crocodilo é o animal noturno, encarnação do espírito da água e símbolo da fecundidade. * Fenômenos negativos substituem cada animal positivo: o abutre substitui a águia, a hiena o leão e a serpente o crocodilo, configurando aspecto negativo tanto da tese quanto da antítese, não uma negação. * A escolha dos animais varia conforme a geografia zoológica e os critérios de ritmo predominantes em cada civilização, com a tradição indiana apresentando seleção própria ligada a timbres vocais e horários místicos. * Na tradição indiana, o tigre corresponde à manhã, o ganso ao meio-dia e à tarde, e o pavão e o kokila (koil, chamado cuclillo da Índia) à noite. * O Rik-prâticâkhya XIII, 10 e 17 prescreve três timbres vocais ou tessituras — mandra, mandhyama e tara (uttama), isto é, voz baixa, média e alta — a serem observados conforme o horário místico. * Pela manhã canta-se com voz de peito semelhante à do tigre; ao meio-dia com voz de garganta como o ganso; à noite com voz de cabeça no estilo do pavão. * A eficácia dos sacrifícios rituais dependia da exatidão da imitação do timbre vocal animal prescrito. * O hino védico VII, 103, destinado a produzir chuva, era ineficaz se não recitado com o timbre adequado, croando como as rãs. * O timbre e o ritmo animal tinham primazia sobre a linha melódica nos cantos mágicos. * O costume de imitar vozes animais permanece vivo em muitas partes do mundo, e a incompreensão científica desse fenômeno decorreu da insuficiente observação dos animais pelos pesquisadores. * O hino védico VII, 103 menciona duas rãs, uma gritando como vaca e outra como cabra, o que não é fantasia, mas observação precisa da variação de timbre vocal na família dos anfíbios. * J. Cardús observou na América do Sul uma variedade de rãs cuja voz era semelhante à dos bezerros. * As rãs, por viverem entre água e terra, são símbolo da terra fecundada pela água, e a imitação de seu ritmo e timbre visa atrair a chuva. * Para o pensamento místico primitivo, a imitação da voz animal pela voz humana pressupõe um parentesco rítmico entre o ser humano e o animal imitado. * Indivíduo com faculdade de coaxar como rã descende da família das rãs; indivíduo com voz de leão possui ascendência leonina. * Essa concepção é básica nas culturas pré-totêmicas, nas quais os animais são encarnações místicas dos antepassados ou deuses protetores da tribo. * Nas culturas totêmicas propriamente ditas e nas civilizações agrícolas, os animais passam a ser encarnações de espíritos com qualidades determinadas, como valentia guerreira e potência de fecundação, coexistindo com a crença anterior. * Nas culturas agrícolas médias, o indivíduo mantém com os animais uma relação biológica e afetiva que pode entrar em tensão com os valores coletivos da sociedade. * Esses homens parecem não considerar o ser humano como senhor absoluto da terra, admitindo direitos iguais entre homens e animais sobre o governo do mundo. * Um forte afeto une o indivíduo ao seu animal-tótem, cuja sangue é a dos antepassados ou do espírito protetor. * Como membro da sociedade, um sentimento difuso e de ordem diferente opõe-se ao ritmo comum que une o indivíduo ao seu animal-tótem. * A sociedade se apodera do totemismo individual e impõe a forma do totemismo de grupo ou de tribo (Gruppentotemismus, Stammestotemismus). * Na China antiga e atualmente na Africa equatorial, o primeiro grito do recém-nascido é observado com extremo cuidado para reconhecer, pelo timbre e ritmo da voz, a melodia de sua pessoa e o antepassado ou tipo animal que nele se manifesta. * Com base nessa identificação, a criança recebe um nome secreto, desconhecido até a iniciação. * Na puberdade, com a muda de voz, o jovem recebe novo nome correspondente ao animal que melhor se expressa em sua voz nova. * Ritmo ambulatório, fisionomia, dentição, forma das mãos e dos pés, cor e aspecto geral também servem como índices de parentesco animal. * O indivíduo frequentemente imita seu animal-tótem no andar, no comer e em outros traços característicos de seu modo de vida. * Para tornar-se digno de seu ascendente místico e obter sua proteção, o indivíduo deve imitar o timbre, o ritmo vocal e os traços característicos do animal-tótem, cantando e dançando em sua hora mística. * A hora de cantar corresponde à hora mística do animal-tótem: o meio-dia para a águia, a manhã para o tigre, a tarde ou a noite para o crocodilo. * Os baule iniciam essas conversações com uma canção de louvor que trata da família do animal, de suas façanhas, de sua liberalidade e grandeza. * O poeta zomba dos inimigos do animal-tótem e poetiza com humor as miudezas cotidianas. * Após os louvores vêm a imitação dos gritos do animal-tótem, os pedidos de auxílio e as preces. * Alguns cantores conseguem fazer os animais aproximar-se das fronteiras do povoado; outros preferem encontrá-los na floresta. * A canção de tambor traduz, em linguagem secreta, uma poesia geralmente de louvor, executada em linguagem de tambor secreta e filtrada pelo prisma do provérbio correspondente. * O tamborileiro designado ao tótem do tigre imita com o tambor o ritmo do grito, do andar, do correr e do saltar do animal, ao mesmo tempo que arranha e morde a pele do tambor, saltando e gritando à maneira de seu animal-tótem. * A canção própria não é uma melodia com direito de autor, mas a parte estritamente individual que se manifesta na maneira de cantar, impregnada do ritmo do animal-tótem. * Qualquer melodia pode ser uma canção própria quando cantada de maneira original e impregnada do ritmo do animal-tótem respectivo. * É costume não cantar a melodia preferida de uma pessoa enquanto ela ainda vive; após a morte, entoar sua canção própria é um dever para com o morto. * A canção própria era originalmente considerada como o nome secreto do indivíduo, e imitar a canção alheia equivalia a tentar subjugá-la. * Nas danças com máscaras de animais, a imitação atinge sua realização mais completa: os participantes identificam-se com seus animais-tótem a ponto de constituírem perigo real para os demais presentes. * Nesses momentos, declaram receber de seu animal-tótem um saber místico que em outras horas só pode ser entrevisto. * O animal-tótem representa espírito protetor, fonte de força e legitimação do indivíduo, sincronizado e identificado com ele por nome e ritmos. * O animal-tótem não pode ser morto nem sua carne consumida, pois a morte de um poderia acarretar imediatamente a morte do outro. * A imitação rítmica constitui a base de quase toda a atividade espiritual e material primitiva, estendendo-se da prática religiosa totêmica à caça e ao domínio da natureza. * O caçador primitivo, sem a superioridade da arma de fogo, deve aproximar-se do animal e atraí-lo com gritos de cio ou de perigo. * Existem caçadores que, com palavras místicas, conseguem paralisar temporariamente os animais, sendo a flecha apenas a ratificação de uma vitória já obtida. * Possuir o ritmo essencial de um indivíduo ou animal equivale a capturá-lo e dominá-lo pelo conhecimento de seu nome, isto é, da lei íntima desse ser. * A imitação completa de um indivíduo vivo é impossível por definição: dois ritmos executados por dois homens diferentes nunca são fenômenos idênticos. * A imitação puramente exterior facilmente carrega má intenção; a imitação interior só pode realizar-se com base em simpatia. * Essas duas formas de imitação estão na base da distinção corrente entre magia negra e magia branca. * Indivíduos com pouca personalidade própria são mais facilmente submetidos aos efeitos da magia imitativa, pois sua maneira de ser é quase inteiramente formada pelo ritmo coletivo. * A humanidade moderna, em sua maioria massa uniforme de seres não individualizados, sofre essa sujeição com intensidade extraordinária. * O poder do caçador-mago pode explicar-se pela ausência de individualidade nos animais, cujos membros de uma mesma raça obedecem a modelos de ação ainda mais uniformes que os da sociedade humana primitiva. * O poder do mago emana de autoridade e intuição, não de grau elevado de inteligência discursiva. * O homem primitivo não é um ser de pouca inteligência ou cultura espiritual, mas apenas um ser humano com poucos objetos de civilização material. * Dentre os ritmos que estabelecem o parentesco místico entre o homem e os animais, a voz é o critério mais substancial e provavelmente o mais antigo, constituindo a manifestação mais clara da lei interior de um indivíduo. * Para o místico primitivo, o plano acústico é o plano mais alto de toda a criação. * A maioria dos homens envergonha-se de cantar quando observada, mas não de falar nas mesmas condições (agni), o que revela o grau em que a voz expõe o dinamismo fundamental do caráter. * Timbre, ataque, expansão do som, inflexão de cada palavra, ondulações da frase, seleção e interpretação de ritmos, movimentos estereotipados, interjeições, pausas e a maneira individual de cantar formam o ritmo sonoro pessoal, reflexo mais fiel de cada indivíduo. * A percepção desses ritmos fundamentais não se alcança por cálculo, mas por faculdade seletiva intuitiva, obra mais de artista que de sábio. * A música imitativa, reduzida em culturas modernas a papel puramente estético, constitui a ciência por excelência nas culturas primitivas, sendo considerada instrumento de ação direta e a mais profunda fonte de sabedoria. * As verdadeiras substâncias dos fenômenos são os ritmos sonoros; o espaço e os objetos visíveis são recipientes de significação secundária. * Os objetos no espaço são invadidos por ritmos que os animam conforme o lugar e a hora, produzindo vida e mudança perpétua. * A inconstância dos objetos impede a mística primitiva de considerá-los como realidades; somente o ritmo que os invade os eleva à realidade. * A transposição de todas as propriedades dos fenômenos para o plano acústico realiza-se pela unidade dos sentidos, fenômeno verificado diretamente na audição de canções descritivas por negros senegaleses. * Ao ouvir a canção da cegonha cantada por senegaleses, sem qualquer aviso prévio, tornou-se visível com clareza o movimento preparatório do corpo para voar, os movimentos das asas e do pescoço, a partida, o voo, os seus giros, a descida, a tentativa de pouso, o rebote e o repouso final. * A correspondência entre as anotações feitas durante a audição e as explicações detalhadas fornecidas posteriormente pelos cantores foi exata, sem nenhum erro. * A letra da canção era considerada pelos próprios negros como coisa puramente acidental, sem a menor importância. * A visualização dessas canções é impossível pela leitura da partitura; exige audição direta e impressão sensorial imediata. * Baule e berberes, ao tocar flauta ou tambor, explicam histórias longas misturando palavras tamboriladas, frequentemente imitadas pela voz, com ritmos puramente descritivos.