====== Coisa e Poder ====== //VAN DER LEEUW, G. La religion dans son essence et ses manifestations. Phénoménologie de la religion. Paris: Payot, 1970.// * A conceituação da "coisa" e sua "potência" na visão primitiva e moderna * A percepção moderna das coisas como inertes, passivas e mortas, contrastando com a defesa poética de Rilke: "Gosto tanto de ouvir as coisas cantarem! Tocam-se nelas: elas estão rígidas e mudas. Todas as coisas, as matamos". * O reconhecimento filosófico da potencialidade e vida própria das coisas, apesar da "perda de potência" infligida desde os gregos. * A redução das coisas a material inanimado pelo espiritualismo, culto da personalidade e máquinas modernas. * A coisa como suporte de potência no pensamento primitivo * A coisa como suporte de uma potência com vida própria, que se manifesta empiricamente. * Exemplos etnográficos da descoberta de potência em objetos: * O africano que encontra uma pedra e, ao levá-la consigo, obtém sucesso. * O Ewe que adora um pedaço de ferro no qual um tro (ser divino) manifesta sua potência. * A analogia com as histórias de Rilke, onde "toda coisa pode ser o bom Deus, basta dizê-lo", ilustrando a disposição de espírito do fetichismo. * O fetichismo: definição e características essenciais * Definição do fetichismo como a consideração regular da potência que vive nas coisas e o conformar das práticas a essa crença. * Origem do termo com os portugueses (feitiço) e sua posterior ampliação semântica por de Brosses. * Aplicação do termo a objetos naturais ou artificiais, desde que sejam "operantes". * A importância da particularidade do objeto (forma de um galho, pedra redonda) como sinal da potência. * A característica fundamental de ser um objeto portátil, que pode ser levado consigo. * Exemplos: o cliente de Horácio que foge "levando os deuses no seio"; os israelitas que buscam a arca da aliança; os peregrinos muçulmanos com o machmal. * O exemplo do tjurunga australiano como "o próprio segredo", um fetiche que contém uma potência relativa ao indivíduo e ao seu totem. * A natureza da potência no fetichismo e sua relação com o dinamismo * A discussão sobre se a força do fetiche é um espírito residente ou uma potência impessoal. * A posição de que o fetichismo é essencialmente dinamista, pois sua essência é a potência residindo numa coisa. * A independência da questão da origem da potência em relação à estrutura do fetichismo. * A transição do fetiche para o ídolo e a persistência do fetichismo * A evolução de amontoados de pedras (herma) para a figura divina de Hermès. * A origem de Pallas no palladion (duplo escudo) e as representações mistas de Deméter e Afrodite. * A preferência popular pelas formas antigas e informes (xoana, "Pallas attica e Ceres rharia") sobre as obras de arte antropomórficas de Fídias. * A associação primitiva de imanência e transcendência no fetichismo. * A persistência do fenômeno nas "virgens negras" do catolicismo e nas mascotes dos desportistas modernos. * O episódio da exposição missionária em Nice (1915), onde fetichismos foram cobiçados e quase roubados. * A potência da ferramenta e da arma * O trabalho primitivo como ato criador, onde a potência não é propriedade do artesão, mas por ele canalizada. * A sacralidade do trabalho da forja em África e na Indonésia, com tabus e rituais associados. * A fabricação de ferramentas segundo modelos fixos para não prejudicar a potência, incluindo a ornamentação essencial. * Exemplos de sacrifícios a ferramentas entre os Toba-Batak, Ewes e Tlingit, e o juramento do Cigano pela bigorna. * A potência especial das armas: * O culto cretense do machado duplo. * A evolução do bastão para cetro real e sua potência no Egito (shm) e entre os germânicos. * O sacrifício ao cetro de Agamemnon, a lança de Alexandre de Feres (chamada Tychon) e a lança e o ancile (escudo) como fetichismos de Marte em Roma. * Objetos potentes como protetores da coletividade * O ancile romano e o palladium troiano como garantias da soberania e proteção da cidade. * A arca da aliança para os israelitas. * Exemplos etnográficos de objetos protetores tribais: * O "feixe sagrado" dos índios Fox. * Os "medicine-bundle" dos índios Zuni, "alimentados" ritualmente. * O "mamchali" dos Amandebele. * Os objetos sagrados enterrados em Taliabu para purificação. * A concentração do poder territorial nos insígnias reais na Indonésia (Macassares e Buguis) e a supressão da revolta em Luwu através da sua posse. * As insígnias imperiais do Sacro Império Romano-Germânico como "pignora imperii" e o oriflamme dos reis de França. * A transferência do poder com as relíquias de São Vito de Saint-Denis para Corvey. * A potência da linhagem e os objetos familiares * Os "pusaka" na Indonésia, objetos sagrados transmitidos por herança que concentram a potência e a prosperidade da família ou do Estado. * O exemplo da corrente de Goa, cujo peso é prognosticador. * A associação da prosperidade da linhagem a objetos potentes, como a espada invencível do herói na tradição germânica e nas lendas. * Amuletos como recipientes de potência em miniatura * Definição de amuleto como objeto portátil que afasta o perigo e atrai a bênção. * A variedade de formas: reproduções de objetos sagrados, cordas com nós, pequenas pedras. * A observação de que muitas ornamentações de coquetaria masculina e feminina tiveram origem como amuletos. * A distinção em relação às relíquias, que derivam a sua potência de uma pessoa santa ou local sagrado.