====== 4 Górgona ====== //VERNANT, Jean-Pierre. Figures, idoles, masques. Paris: Laffont, 1990.// **A figura dos deuses I: Górgona** 1. Depois da figura dos mortos vem a dos deuses, e a investigação sobre os tipos de figuração das potências divinas na Grécia começa pela máscara, suas formas, valores e funções como expressão simbólica de certos aspectos do sobrenatural, em três níveis de análise, a Potência que age pela máscara e não tem outra forma senão ela, a Górgona, a divindade que, sem ser máscara, lhe reserva papel privilegiado em seu culto, Ártemis, e a Potência de afinidades tão profundas com a máscara que é o deus da máscara, Dioniso, entidades cujas distâncias, contrastes, conivências e deslizamentos permitem colocar o problema geral da máscara no universo religioso grego. **1. A máscara da Górgona** 1. O curso do ano foi dedicado à primeira parte da pesquisa, a máscara da Górgona. 2. O modelo plástico da Górgona, como gorgóneion, máscara isolada, ou como figura feminina de rosto gorgônico, aparece desde a época arcaica não só nos vasos, mas nos frontões dos templos, acrotérios, antefixas, escudos, utensílios, oficinas, fornos, casas e moedas, e, surgido no início do século VII e fixado no segundo quarto do século, apresenta duas características principais, a frontalidade, pois, contra as convenções arcaicas, a Górgona é sempre representada de frente para o espectador, e a monstruosidade, que mistura sistematicamente o humano e o animal, cabeça leonina, olhos arregalados, cabeleira de crina ou serpentes, orelhas bovinas, chifres, boca rasgada mostrando dentes e presas, língua para fora, queixo barbudo, pele enrugada, careta mais que rosto, que oscila entre o horror do aterrador e o ridículo do grotesco, como mostram os contrastes e conivências com Silenos e Sátiros, capazes de provocar tanto angústia sagrada quanto riso libertador. 3. Frontalidade e monstruosidade levantam o problema das origens do esquema plástico da Górgona, buscadas no Oriente Próximo, no mundo creto-micênico ou sumero-acádio, no Bes egípcio e no demônio Humbaba assírio, estudos que, embora interessantes, não captam o essencial, a especificidade de uma figura que, quaisquer que tenham sido os empréstimos, se apresenta como criação nova, cuja originalidade só se compreende nas relações com práticas rituais, temas míticos e uma potência sobrenatural que se afirma no próprio momento em que se fixa seu modelo simbólico na forma da máscara gorgônica. 4. São vãs as tentativas de Jane Harrison de reunir Harpias, Erínias e Górgonas num mesmo fundo religioso primitivo de Queres e espíritos nefastos, pois não é bom método confundir figuras diferentes ignorando os desvios que dão a cada uma significado e posição próprios, já que as Erínias não têm asas nem máscara, as Harpias têm asas mas não máscara e só as Górgonas têm ambas, sendo mais sugestivas as afinidades com a Senhora dos animais, a Pótnia, de que a Górgona parece a face inquietante herdada por Ártemis, embora também aqui as divergências desaconselhem a assimilação, importando sobretudo compreender como os gregos elaboraram uma figura que, unindo frontalidade e monstruosidade, se distingue de todas as outras e se reconhece imediatamente como o rosto da Górgona. 5. No vaso François, todos os deuses aparecem de perfil, exceto a Górgona nas faces internas das alças, Dioniso com uma ânfora e a Musa Calíope, cuja frontalidade se explica por tocar flauta dupla, já que soprar a flauta equivale a assumir o rosto da Górgona, e às Górgonas internas correspondem nas faces externas imagens da Senhora dos animais, associadas e opostas por vários traços, frontalidade contra perfil, corrida de joelhos dobrados contra imobilidade hierática, quíton curto contra túnica longa, cabeleira hirsuta contra cabelos presos, de modo que o rosto gorgônico vem acompanhado de indícios que marcam ambiguamente um desvio em relação ao modelo da Pótnia. 6. Um estudo iconográfico deveria explorar a rede de indícios e a combinatória dos elementos significativos da imagem nas séries homogêneas, limitando-se aqui ao papel dos animais, serpentes, lagartos, aves, feras, hipocampos e sobretudo o cavalo, que se associa à Górgona como prolongamento ou emanação, filhote que ela nutre, prole que ela dá à luz, montaria ou Pégaso saído de sua cabeça cortada, revelando na figuração um excesso de sentido em relação à lenda. 7. Os textos, com suas indicações sobre mitos e elementos rituais ligados à Górgona, esclarecem a personalidade, os modos de ação, os domínios de intervenção e as formas de manifestação da potência feita máscara. 8. Desde Homero o teatro da Górgona já está construído, e na Ilíada a cena é guerreira, com a Górgona na égide de Atena e no escudo de Agamêmnon e no olhar de Heitor semeando a morte, Potência do terror associada a Espanto, Derrota e Perseguição, terror não normal nem motivado por um perigo, mas primário e sobrenatural, produzido pela aparição de um prodígio monstruoso em forma de cabeça de olhar terrível, máscara e olho gorgônicos que integram o armamento e a mímica do guerreiro possuído pelo furor bélico, menos, simbolizando a potência de morte que irradia dele, unidos ao brilho do bronze e à boca aberta que evoca o grito de guerra de Aquiles, voz de bronze como trombeta que aterroriza o inimigo. 9. As conotações sonoras da máscara da Górgona, sem necessidade de aceitar a derivação sânscrita proposta por Thalia Phillies Howes, aparecem em Píndaro, para quem das mandíbulas das Górgonas e de suas serpentes que perseguem Perseu se eleva um lamento agudo e desumano como o grito dos mortos no Hades, e no ranger dos dentes de Aquiles, que Françoise Bader ligou ao guerreiro indo-europeu reconstruído por Dumézil, expressão retomada por Hesíodo no Escudo para as serpentes das Górgonas que rangem os dentes de furor, de modo que Aquiles, flamejante, de olhos chamejantes, fazendo caretas, batendo as mandíbulas e lançando um grito desumano como Atena portadora da égide, apresenta um rosto que é a máscara da Górgona. 10. Na Odisseia o cenário torna-se infernal, e Ulisses, ao chegar ao Hades entre o clamor prodigioso dos mortos, teme que Perséfone lhe envie do fundo a cabeça gorgônica de um monstro terrível e foge, pois a Górgona está em casa entre os mortos e impede o acesso dos vivos, em papel simétrico ao de Cérbero, que impede o retorno dos mortos, localizada também por Aristófanes e Apolodoro no Hades, guardiã das fronteiras de Perséfone cuja máscara simboliza a alteridade radical do mundo dos mortos, cuja soleira só se transporia enfrentando o rosto do terror e tornando-se, como ela, o que são os mortos, cabeças vazias e sem força. 11. O rosto do vivo, em sua individualidade, é elemento da pessoa, mas a cabeça a que se reduz o morto, inconsistente e impotente como sombra ou reflexo, está envolta em trevas, vestida de noite, como o rosto que heróis como Perseu cobrem com o capacete de Hades, capuz de pele de cão que contém as trevas da Noite e torna quem o usa, como um morto, invisível. 12. As afinidades infernais da Górgona levam primeiro aos vasos e pinturas etruscos e à tese de Franz Altheim, retomada por Baldi e Croon, que derivava o latim persona do etrusco Phersu e o igualava a Perseu, como Phersipnai a Perséfone, figura mascarada que aparece na tumba dos Áugures em Tarquínia lutando com um adversário encapuzado atacado por um cão e depois fugindo dele, cenas de interpretação difícil, vistas como luta ritual em jogo fúnebre, dança que encarna a Potência do além, Héracles vencendo Hades ou identidade entre Phersu, Perseu e Hades, enquanto em pinturas de Orvieto e Corneto Hades usa um capuz de pele de lobo ou de cão que evoca a kynē de Perseu e a máscara de Phersu. 13. Mais seguro é seguir Hesíodo até os confins do mundo onde a Teogonia situa as Górgonas, filhas de Fórcis e Ceto, nomes que evocam enormidade monstruosa e abismos ocultos, cuja prole partilha a monstruosidade e a habitação longe de deuses e homens, além do Oceano, junto à Noite, como guardiões de lugares proibidos, as Greias, virgens grisalhas desde o nascimento, unindo juventude e velhice, com nomes ligados a uma rã que escava e ao grito de guerra, as Górgonas, que unem mortalidade e imortalidade, das quais Medusa, unida a Poseidon num prado florido como o do rapto de Kore, gera ao ser decapitada Crisaor e Pégaso, Crisaor pai de Gerião de voz retumbante, Équidna metade moça metade serpente, mãe de Ortro e Cérbero de voz de bronze, guardião das moradas ressonantes de Hades, nos mesmos lugares onde corre o Estige, água primordial do juramento dos deuses que impõe aos perjuros um coma de um ano sem fôlego nem voz, sendo para os deuses o que a Górgona é para os homens, objeto de horror, e também nome da coruja-das-torres de grande cabeça, olho maligno e grito noturno. 14. Nas regiões infernais, Treva, Espanto, rostos e gritos monstruosos exprimem a alteridade de potências estranhas tanto aos deuses celestes quanto aos homens, seres inteiramente separados com os quais, como diz Ésquilo das Greias, não se misturam nem deus, nem homem, nem animal. 15. As sonoridades inquietantes pertencem tanto ao universo das Górgonas que Hesíodo, no Escudo, acrescenta à descrição visual o grande estrondo agudo e vibrante do escudo sob seus pés, além do bater das mandíbulas das serpentes. 16. Na descendência de Fórcis e Ceto as serpentes ocupam lugar de honra, e os gritos das Górgonas são também os das serpentes que rangem os dentes, sendo a serpente, o cão e o cavalo os animais cujas formas e vozes compõem mais especificamente o monstruoso, como a voz de bronze de Cérbero e os rosnados, grunhidos e ganidos das Erínias comparadas às Górgonas, voz de cão que lembra o grito dos mortos e o das Górgonas. 17. O cavalo, por seu comportamento e suas sonoridades, pode traduzir a presença de uma Potência infernal em forma animal, com seu nervosismo, os sustos súbitos provocados por Taraxipo, o Terror dos cavalos, o frenesi que o leva a devorar carne humana, a espuma, o relincho, o martelar dos cascos, o ranger dos dentes e o ruído sinistro do freio, e no vocabulário equestre gorgós ganha sentido quase técnico, designando o cavalo nervoso e impetuoso, terrível de ver, sobretudo em manada. 18. Certos instrumentos musicais usados para provocar o delírio orgiástico exploram essa gama de sonoridades infernais, tanto mais aterradoras quanto mais parecem surgir do invisível, com músicos e instrumentos ocultos, como voz mascarada de uma Potência do além, como mostra o fragmento dos Edones de Ésquilo, com a flauta que provoca delírio, os címbalos de bronze, o rombo que muge como touro invisível e o tamborim que ressoa como trovão subterrâneo. 19. De todos os instrumentos, é a flauta que mantém relação mais estreita com a máscara da Górgona, pois Atena a inventou para imitar os sons agudos das Górgonas e de suas serpentes, mas imitar a Górgona é tornar-se ela, num mimo que é tomar sua máscara, e, quando Atena viu refletido num rio seu rosto deformado pelo sopro como careta gorgônica, lançou fora a flauta, apropriada por Mársias, monstro cuja face disforme convinha ao instrumento, que, pretendendo elevar-se a Apolo numa competição musical, foi vencido pela lira, que acompanha o canto e a palavra humana, e esfolado, sua pele pendurada numa gruta como a pele da Górgona que Atena leva como égide, relatos que ensinam que a flauta é estranha à palavra articulada, que o rosto do flautista é o de um possuído pelo furor e, segundo Aristóteles, que a flauta não forma a inteligência, mas é instrumento orgiástico e catártico, próprio do transe báquico, como mostram Platão, para quem as mães acalmam os filhos como quem toca flauta e os coribantes creem ouvir flautas, e Jâmblico, para quem certas melodias provocam e outras acalmam o transe. 20. Há diversos modos de ser bacante, e o bacante de Dioniso, com Mênades, Sátiros e Silenos, distingue-se do "bacante de Hades" de Eurípides, que a lyssa faz dançar ao som da flauta do terror, possuído pela Górgona, filha da Noite com suas víboras ruidosas, e por Lyssa de olhar petrificante, como Héracles, que, sem tamborins nem tirso, quer sangue e não vinho, revira os olhos com pupilas gorgônicas e espuma ao som de uma melodia horrível, testemunho ligado por Jeanmaire aos fenômenos de possessão, ao qual se somam Xenofonte, para quem os possuídos por certos deuses têm olhar mais gorgônico, Platão, para quem crianças insones e bacantes sofrem de medo acalmado por um movimento exterior, e o autor do Mal sagrado, que atribui terrores, delírios e fugas noturnas a ataques de Hécate e de heróis, isto é, mortos, sendo Hécate, próxima da Górgona, Potência do terror vinda do outro mundo. 21. Segundo Platão, esses terrores remontam à infância, pois em nós persiste uma criança que teme que o vento disperse a alma ao sair do corpo, medo da morte semelhante ao dos papões, os mormolykeia, que deve ser acalmado por um encantador sério e encantamentos diários. 22. Por enraizarem-se no que resta da infância, esses medos irracionais levam a retomar o dossiê de Erwin Rohde em Psyché e a buscar nas superstições populares e no mundo infantil a expressão da Potência do terror como categoria do sobrenatural encarnada pela Górgona, traduzida para as crianças por Lâmia, Empusa, Gelo e sobretudo Mormo, sendo o mormolykeion o equivalente do gorgóneion. 23. Para a criança, Mormo é máscara e cabeça, como Hermes coberto de cinza que se faz Mormo para assustar as crianças no hino de Calímaco, rosto noturno e irreconhecível equivalente ao Ciclope de olho gorgônico e estrondo ampliado pelo eco, ou, em Teócrito, a cabeça de um cavalo que morde, monstros que devem raptar e devorar as crianças e pertencem ao domínio da morte mesmo quando erram entre os vivos. 24. Esses monstros são espíritos, fantasmas, duplos, eídola e phásmata como os enviados por Hécate, e o homem possuído pela lyssa que imita os gestos, o rosto e os gritos da Górgona torna-se dançarino dos mortos, bacante do Hades, agitado por um terror vindo do mundo infernal, potência de um morto ou demônio vingador, alástōr, que o persegue, como tratam os magos e purificadores segundo o Mal sagrado e como mostra Orestes em Eurípides, agitado como bacante pelo sangue da mãe, ambivalência mostrada por Louis Gernet, em que a mesma potência demoníaca de terror une o fantasma da vítima e o assassino, perturbados e aterrorizados um pelo outro. 25. A investigação volta-se então para o ritual das Praxídicas, deusas-cabeça executoras da vingança e garantes do juramento, pois Praxídice, segundo Hesíquio, é um dáimōn que leva palavras e ações ao seu termo, razão pela qual suas imagens e sacrifícios são cabeças e dela se ergue apenas a cabeça. 26. Um hino órfico descreve Praxídice como divindade ctônia e infernal, assimilada a Perséfone, mãe das Eumênides de rosto terrível que encarnam na cidade o Espanto e o terrível, rainha dos subterrâneos que traz os frutos da terra quando esta não está maculada. 27. Pausânias conta que Menelau, de volta, ergueu agálmata de Tétis e de Praxídice no lugar da primeira união de Páris e Helena, que em Haliarto, junto ao monte e à fonte Tilfussa, havia um santuário de Praxídice onde se jurava não levianamente, como no santuário das Eumênides de Cerínia, onde quem entra impuro enlouquece de terror, como Orestes em Maníai, e que em Feneo se jurava sobre o petroma de Deméter Eleusina, encimado por uma esfera com a máscara de Deméter Cidária, usada pelo sacerdote para golpear os subterrâneos, epíclese ligada à kídaris, máscara e dança errante arcádica. 28. Praxídice, deusa-cabeça, e Deméter Cidária, deusa mascarada, garantem juramentos que devem inspirar aos homens o terror sagrado que a água do Estige, água primordial ogígia, inspira aos deuses, adjetivo derivado de Ógiges, ser primordial duplo do Oceano, primeiro rei dos deuses e tempo de um dilúvio anterior ao de Deucalião, conhecido na Beócia e ligado às Praxídicas, chamadas suas filhas e ninfa ogígia. 29. As Praxídicas beócias ligam-se também à fonte Tilfussa, de água mortal como a do Estige, que matou Tirésias, correspondente à fonte de Ares na fundação de Tebas, guardada por uma serpente nascida de Ares e da erínia Tilfussa, que, segundo Calímaco, unida em forma de égua a Poseidon, gerou o cavalo Árion, assim como Medusa, unida ao mesmo deus, gerou Pégaso, cujo nome evoca as fontes do Oceano. 30. Pégaso, nascido além do Oceano, voa ao céu de Zeus mas circula entre o éter e a região ctônia como portador do trovão, o Estige corre nas profundezas da terra junto às fontes misturadas de Terra, Tártaro, Mar e Céu, abismo caótico que horroriza os deuses, e ao mesmo tempo habita uma morada de rochas elevadas e colunas de prata, reunindo os extremos como as Greias e as Górgonas, e o Estige arcádico de Heródoto e Pausânias goteja de uma rocha altíssima como do céu, água mortal que nenhum recipiente contém senão o casco de cavalo, enquanto Jean Croon observou que a maior parte dos lugares com fontes termais apresenta o gorgóneion, como Serifo, e a fonte e a erínia Tilfussa têm seu duplo arcádico em Deméter Erínia de Telfusa, que, unida como égua a Poseidon cavalo, gera Árion e uma filha de nome secreto equivalente a Kore e tem duas faces, furiosa e acalmada como Deméter Lúsia após banhar-se no Ladon, polaridade presente também em Deméter Melaina de Figália, de corpo de mulher e cabeça de cavalo com serpentes, comparável às divindades negras e brancas de Orestes em Maníai, e em Licosura, onde a Despoina, filha de Deméter égua, tinha estátua com figuras femininas de cabeça animal tocando instrumentos e um espelho que refletia não os rostos humanos, mas apenas as estátuas dos deuses, à qual corresponde a polaridade das águas, como a gruta das Prétidas sob Nonácris, curadas por Melampo em Lusói no santuário de Ártemis Hemerásia, e as fontes de Feneo e Cineta, o Estige maléfico e a fonte Alisso que cura a raiva. 31. O mito de Perseu, examinado nos testemunhos de Hesíodo a Ovídio, apresenta o esquema heroico tradicional da exposição do recém-nascido e da prova imposta após uma bravata no banquete, o jogo do olho, do olhar e da reciprocidade entre ver e ser visto nas Greias com seu olho e dente únicos, na kynē e na morte de Medusa com o olhar desviado, o espelho e o reflexo, o papel dos objetos mágicos, o capacete que dá ao vivo a máscara do morto e o protege das potências da morte, a harpe e a kíbisis para a caça de cabeças, as sandálias aladas que lhe dão estatuto análogo ao das Górgonas, a rivalidade com Dioniso e seus delírios, e o jogo entre beleza e feiura em Medusa, com a acentuação do espelho e do reflexo em Ovídio. 32. Ao contrário das figuras divinas e dos rostos humanos, a máscara da Górgona, como cabeça isolada, compõe traços estranhos que confundem as classificações habituais, masculino e feminino, jovem e velho, belo e feio, humano e animal, celeste e infernal, situando-se numa zona do sobrenatural que questiona a distinção entre deuses, homens e animais e entre os níveis cósmicos, numa mistura inquietante análoga à de Dioniso, mas realizada não pela alegria e libertação da idade de ouro, e sim pelo horror e pelo Espanto, na confusão da Noite. 33. O choque do que normalmente está separado, a deformação estilizada dos traços e a decomposição do rosto em careta constituem a categoria do monstruoso, ambivalente entre o aterrador e o grotesco, com oscilação de um a outro. 34. A frontalidade deve ser interrogada nesse contexto, pois o monstruoso só pode ser enfrentado de frente, num confronto direto que a Potência exige para ser vista e para que se entre em seu campo de fascinação com risco de perder-se, já que ver a Górgona é olhá-la nos olhos e, no cruzamento dos olhares, deixar de ser si mesmo e vivo para tornar-se, como ela, Potência de morte, pedra cega e opaca. 35. No face a face imposto pela frontalidade, o homem está em posição simétrica ao deus, sobre seu eixo, numa reciprocidade que implica dualidade e inseparabilidade, até identificação, pois a fascinação significa que o homem não pode desviar o olhar, que seu olho se perde no da Potência que o olha e que ele é projetado num mundo governado por ela. 36. No rosto da Górgona opera-se um desdobramento, pelo qual quem olha é arrancado a si mesmo, despossuído do próprio olhar e invadido pelo da figura que, pelo terror de seus traços e de seu olho, se apropria dele e o possui. 37. Usar uma máscara é deixar de ser si mesmo e encarnar, enquanto se usa, a Potência do além que se apodera de nós e cujo rosto, gestos e voz imitamos, de modo que a sobreposição de um segundo rosto ao primeiro pressupõe alienação de si e sujeição total ao deus que nos põe cabresto e rédeas e nos cavalga a galope, estabelecendo contiguidade e troca de estatuto entre homem e deus até a confusão, mas também a maior distância e a perda mais completa na própria intimidade. 38. O rosto da Górgona é uma máscara que produz o efeito de máscara apenas olhando-nos nos olhos, como se nunca tivesse deixado nosso rosto e só se separasse dele para fixar-se diante dele como sombra ou reflexo inseparável, capturando nosso olhar, o outro, o duplo de nós mesmos, o Estranho em reciprocidade com nossa figura como imagem no espelho, mas menos e mais do que nós, mero reflexo e realidade do além, imagem que nos agarra porque, em vez de reproduzir nosso olhar, representa com sua careta o horror de uma alteridade radical em que nos identificamos tornando-nos pedra. 39. Olhar a Górgona nos olhos é estar face a face com o além em sua dimensão aterradora, cruzar o olhar de um olho que é a negação do olhar e acolher uma luz cujo esplendor ofuscante é o da noite, pois ela faz de quem a fita o espelho em que, transformando-o em pedra, admira o próprio rosto terrível e se reconhece no duplo em que ele se tornou, de modo que a máscara da Górgona mostra, na fascinação, nós mesmos no além, cabeça vestida de noite, rosto mascarado de invisível que se revela como a verdade de nossa imagem, a mesma careta que nos mascara quando, possuídos pela lyssa, dançamos ao ritmo da flauta no bacanal do Hades. {{tag>Vernant mito deuses Górgona máscara}}