====== Corpo dos Deuses ====== //VERNANT, Jean-Pierre, “Cuerpo oscuro, cuerpo resplandeciente”, in Michel Feher, Fragmentos para una historia del cuerpo humano. Madrid: Taurus, 1990.// * A expressão "corpo dos deuses" coloca imediatamente o problema metodológico de saber se é legítimo atribuir existência corporal a seres divinos, e a crítica de Xenófanes aos deuses antropomorfos de Homero, retomada por Clemente de Alexandria, não oferece o ponto de partida mais adequado para abordar a questão no interior do próprio politeísmo grego. * Xenófanes denuncia que os homens medem o divino pela escala de sua própria natureza, e que etíopes imaginam deuses de nariz chato e pele negra enquanto trácios os imaginam de olhos azuis e cabelos ruivos. * Xenófanes leva a ironia ao extremo: se bois, cavalos e leões pudessem desenhar, representariam os deuses à semelhança de suas próprias espécies. * Clemente de Alexandria usa as críticas de Xenófanes para mostrar que os mais sábios dos antigos reconheceram pela razão a vanidade do culto idólatra, mas esse uso apologético cristão não é o caminho adequado para compreender o problema do corpo divino desde dentro do politeísmo. * O problema do corpo dos deuses deve ser recolocado a partir de uma investigação sobre o próprio corpo como noção problemática e categoria histórica pertencente ao imaginário, não como dado natural universal e evidente. * A ilusão de evidência do conceito moderno de corpo provém da oposição radical entre alma e corpo estabelecida pela tradição ocidental e, correlativamente, da objetivação científica do corpo em termos de anatomia e fisiologia. * Os gregos contribuíram para essa objetivação de dois modos: elaborando nas seitas pitagóricas e platônicas uma noção de alma imortal que deve ser purificada e separada de um corpo reduzido a receptáculo ou tumba, e desenvolvendo na medicina uma investigação naturalista sobre os órganos, humores e funcionamento do corpo. * Tanto a afirmação de um elemento não corporal em nós aparentado ao divino quanto a abordagem naturalista do corpo marcam na cultura grega não apenas uma virada, mas uma espécie de ruptura. * Xenófanes é testemunho privilegiado do que se pode chamar a corporeidade pré-socrática, pois ao criticar os deuses homéricos não dissocia radicalmente a natureza divina da realidade corporal nem postula um deus incorpóreo, mas sustenta que o corpo do deus é diferente do dos mortais no mesmo plano em que é diferente o pensamento divino. * A fórmula de Xenófanes solda corpo e pensamento em sua comum diferença em relação aos humanos: o deus ouve, vê e compreende sem necessidade de órgãos especializados, sendo ele todo visão, audição e entendimento. * Sem esforço nem fadiga, o deus move todas as coisas sem necessitar mover-se nem mudar de lugar. * Para abrir o fosso entre deus e homem, Xenófanes não precisa opor o corporal ao incorpóreo ou ao puro espírito: basta acentuar o contraste entre o constante e o mutável, o imóvel e o móvel, a perfeição do que permanece eternamente realizado em si mesmo e a imperfeição do que é parcial, transitório e perecível. * Na época arcaica, a corporeidade grega ignora ainda a distinção alma-corpo e não estabelece um corte radical entre natureza e sobrenatureza, de modo que o corporal no homem abrange tanto realidades orgânicas quanto forças vitais, atividades psíquicas e influências divinas. * A palavra soma, traduzida por corpo, designa originariamente o cadáver, ou seja, o que resta do indivíduo quando, abandonado por tudo o que nele encarnava a vida, fica reduzido a uma figura inerte e objeto de lamentação antes de desaparecer no invisível. * O termo demas designa não o corpo mas a estatura, a talhada e a aparência externa de um indivíduo constituído de partes reunidas, e é frequentemente associado a eidos e phue, o aspecto visível e o porte do que cresceu bem. * Chros também não é o corpo, mas a aparência externa, a pele, a superfície de contato consigo mesmo e com o outro, bem como a carnação e a tez. * Enquanto o homem está vivo, habitado por força e energia, seu corpo é plural: guîa designa os membros em sua flexibilidade e mobilidade articulada; mélea, os membros como portadores de força; kára, a cabeça com valor metonímico pelo todo. * O vocabulário grego das dimensões corporais é uma multiplicidade de termos que designam sem sempre distingui-los partes ou órgãos do corpo, sopros, vapores ou fluidos, sentimentos, pulsões, desejos, pensamentos e operações concretas da inteligência, de tal modo que, como observa James Redfield, nos heróis de Homero o eu interior coincide com o eu orgânico. * Os termos stêtos, etor, kardía, phrén, prapídes, thumós, ménos e nóos têm valores frequentemente muito próximos entre si e cobrem ao mesmo tempo partes ou órgãos corporais como coração, pulmões, diafragma, peito e entranhas, e realidades psíquicas como sentimentos, pulsões e operações da inteligência. * Esse vocabulário constitui o código pelo qual o grego exprime e pensa suas relações consigo mesmo, sua presença a si mesmo mais ou menos unificada ou dispersa, suas relações com o outro através de todas as formas de aparência corporal, e suas relações com o divino, cuja presença dentro de si e cujas manifestações externas nas epifanias dos deuses são expressas no mesmo registro simbólico. * Colocar o problema do corpo dos deuses não é perguntar como os gregos revestiram suas divindades de um corpo humano, mas buscar como funciona esse sistema simbólico que permite pensar a relação entre o homem e o divino sob a dupla figura do mesmo e do outro, do próximo e do distante, do contato e da separação. * O sistema simbólico corporal codifica as relações consigo mesmo, com o outro e com o divino, articulando o que associa o humano e o divino por similitudes, aproximações e encavalamentos e o que os dissocia por contraste, oposição, incompatibilidade e exclusão recíproca. * O corpo humano é marcado por signos de limitação, deficiência e fragmentariedade que o constituem como um subcorpo compreensível apenas em referência ao que supõe: a plenitude corporal do sobrecorpo divino. * Levando às últimas consequências todas as qualidades e valores corporais que se apresentam no homem sempre sob forma diminuída, derivada e precária, chega-se necessariamente a dotar as divindades de um conjunto de traços que, mesmo em suas manifestações epifânicas no mundo terreno, situam sua presença num além inacessível e fazem transgredir o código corporal mediante o qual são representadas em relação aos humanos.