====== CAPÍTULOS INTERIORES ====== Segundo A. C. Graham, os chamados Capítulos Interiores: Consistem em episódios independentes agrupados em torno de um tema comum, resumido no título do capítulo, composto por três palavras. Esta série é homogênea em pensamento e estilo e é geralmente reconhecida como sendo, em grande parte, obra do próprio Chuang-tzŭ. Para Brook Ziporyn, o sete capítulos interiores podem ser assim resumidos: * O pequeno e o grande, o útil e o valioso, as identidades e posições reconhecidas são todos relativos às condições circundantes e à posição que se ocupa — e os detentores de ideias divergentes sobre o que é certo, ao criticarem uns aos outros mutuamente, ignoram essa dependência da valoração em relação às suas condições e a relatividade de todo julgamento de valor, fechando a possibilidade de maior flexibilidade para se transformar de uma função e valor a outra. * A relatividade do valor em relação à posição e à condição prévia é profunda e abrangente — estende-se além das questões de valor até as questões ontológicas mais fundamentais, a questão de quem ou o que é qualquer entidade dada. * Pensando com rigor, com alguma ajuda das perplexidades apontadas pelos lógicos da época mas levando-as ao ponto de sua reversão, essa relatividade mina as noções convencionais sobre o que causa o quê, o que fundamenta o quê, o que determina o quê, o que subsume o quê, e que entidade está ou não presente tornando uma ação, característica ou entidade subsequente como é * Isso mina conclusões que se possam abraçar sobre um self particular ou uma identidade como causa fixa de ações ou características particulares, sobre identidades em geral, sobre a existência ou não-existência de um único self real, de uma única causa celestial de todas as coisas, ou de um fato privilegiado sobre qualquer estado de coisas contestado * A impossibilidade de desenredar qualquer posição de sua negação, embutida nas estruturas mais profundas da linguagem e do pensamento, não leva ao solipsismo do cético ordinário, mas à transformação mútua de qualquer identidade provisoriamente postulada e seu suposto oposto — a abertura de cada posição a todas as outras * Esse agnosticismo total possibilita assim uma abertura à transformação com consequências amplas e atraentes * Não deixar que o suposto conhecimento dirija o processo de transformação, da vida e da atividade, pode ser visto num certo sentido como algo que aprimora dramaticamente as habilidades adaptativas de vida e concomitantemente liberta da preocupação com a fama e o descrédito, e até mesmo com a vida e a morte — que aparecem anedoticamente como alguns dos principais bloqueios a um viver verdadeiramente virtuoso. * Isso se aplica também a outros projetos, como a reforma política e a persuasão — também aí é melhor não fazer da mente o próprio mestre, e esquecer de ser útil ou valioso de qualquer maneira determinada. * Há histórias sobre pessoas que abandonaram completamente todo suposto conhecimento sobre valores, sobre o que é certo, sobre fatos e sobre o que é assim, e com isso também todos os projetos e planos — e que ainda assim parecem exercer um efeito misteriosamente dramático sobre os outros, mesmo quando tudo o mais nelas — física, mental e moralmente — é, para todas as aparências, completamente sem valor. * A ausência total e abrangente de todo mérito, beleza, habilidade e propósito atrai e transforma as pessoas, assim como a água parada permite que as pessoas vejam seus próprios reflexos, fascinando-as, revelando-as e transformando-as * Esse agnosticismo total permite também identificar-se com toda transformação, esconder o mundo no mundo, seguir simultaneamente tanto o Céu quanto o humano, nunca sabendo odiar a morte ou amar a vida — avançando no grande Abertura Transformadora sem jamais saber quem ou o que a causa ou por quê, ou o que ela realmente é. * Se alguém vier perguntar sobre política ou melhoria da sociedade, é melhor evitar responder — pois é exatamente ignorar isso, continuando o agnosticismo abrangente sobre todas as identidades e a disposição de se transformar em qualquer identidade, ora um boi e ora um cavalo, que é a melhor coisa possível a fazer, até mesmo para a sociedade. * Do contrário, será necessário negar algo sobre o escopo pleno dos semelhantes humanos e não-humanos em todas as suas transformações desconhecíveis * Isso também dissolverá as pretensões de videntes, xamãs e sábios que afirmam saber quem se é ou deveria ser, ou quem ou o que qualquer outra coisa é ou deveria ser * Ser como um espelho e não deixar que o caos primordial seja morto por essas pretensões de conhecer e fixar as coisas em uma identidade definida ou outra