====== TEMPO ====== //JULLIEN, François. Du "temps": éléments d'une philosophie du vivre. Paris: Grasset, 2001.// * Este texto parte de uma questão simples e elementar, mas que não se viu formulada em lugar algum com tamanha radicalidade: era necessário pensar o tempo? — não como, mas para quê um conceito de "tempo"? * O "tempo" habita o pensamento cotidiano a título de evidência e o molda; toda a história da filosofia, recebendo-o como dado, não cessou de interrogar seu enigma sem sair do quadro nocional que, desde o início, a língua lhe impunha. * Mesmo os que no século XX buscaram distância em relação à concepção comum aristotélica do tempo — Henri Bergson tentando reencontrar sob o tempo a "intuição" da duração, Martin Heidegger buscando remontar a uma concepção mais "originária" da experiência — não o fizeram de fato. * A filosofia, desde seus começos, bate-se contra o conceito de tempo sem dele sair — instalada nele como em sua morada, e é a partir dele que se concebe o que faria a essência da "vida". * Seguindo a própria estratégia filosófica, tentou-se, passando pelo pensamento chinês, sair da grande dobra do "tempo" — pois a China pensou o "momento" sazonal e a "duração", mas não um envelope que os contivesse igualmente, o "tempo" homogêneo e abstrato. * O pensamento chinês não pensou os "corpos" em "movimento" — de onde vem a concepção de um tempo físico como "número do movimento" —; não opôs o temporal ao eterno, nem o ser ao devir — de onde nasce a metafísica —; e sua língua, não conjugando, não dá a opor tempos — futuro, presente e passado. * Desdobrar essa alternativa ao pensamento do tempo leva a considerar, em face do "tempo", o que pode ser a estação, e, em face da distensão temporal, qual é a transição contínua que faz o processo das coisas. * O tempo, concebendo-se sempre entre "início" e "fim", mantém uma sobranceria em relação ao curso dos processos e à sua lógica de imanência. * Por baixo da questão do tempo, é a questão do "viver" que se propõe trazer à luz — para abordá-la a novos custos e descolá-la do tempo — assim como as condições de possibilidade de sua assunção pela filosofia. * Viver — não uma vida, da qual se fala de fora — não se passa entre início e fim; viver em si não é da ordem do deslocamento do móvel e da travessia. * Como viver no "presente" se este, segundo sua definição física, não é mais que um ponto sem extensão, um ins-tante sem agora possível? Ou se, segundo sua descrição fenomenológica, a intenção que lhe confere consistência só é concebida na dependência de um objeto temporal — como a melodia percebida, de Agostinho a Edmund Husserl? * Michel de Montaigne, ao término dos Ensaios, sugere, numa fórmula de substituição, não viver no presente, mas "a propósito" — e esse a propósito faz entrever o momento não como lapso de tempo, mas como ocasião ou "ocorrência", conceito ainda a forjar. * O desvio pela China serve, no fundo, a trazer à reflexão o que não cessa de ser implicado pela experiência — e mesmo o que não se cessa de dizer no cotidiano —, mas que a filosofia, por seus próprios partidos tomados, não pôde pensar. * Tentou-se assim delinear uma perspectiva diferente da sobranceria do tempo e do grande drama existencial que ela organiza, adotando a título de ensaio o partido de uma sabedoria que, em sua abertura ao "momento" e diante da angústia da morte, diria uma despreocupação que não fosse uma fuga. * Essa sabedoria, em vez de levantar a questão do tempo e desdobrá-la como aventura — revelando a contradição fecunda, o trágico, a subjetividade —, a reabsorveria no silêncio de um Céu-natureza. * Confrontadas, a questão do "tempo" e o pensamento do "viver" se refletem e se trabalham — mas não se integram: não se vislumbrou como superar, sobre tal tema, a antinomia da sabedoria e da filosofia. * A resistência persiste entre seguir cada nova grande filosofia desenvolvendo uma nova concepção do tempo e orientar-se por uma não-questão — a não-questão do tempo — em torno da qual fazem girar as breves indicações que o pensamento chinês entregou desde a Antiguidade sobre o "momento" e seu a propósito. * Como operar — articular — o encontro dos dois? Como superar o clivagem entre o trivial e o teórico — ou, dito ao inverso, entre o Sentido e o natural — em que se encontra preso o pensamento, para além mesmo do vis-à-vis da China e da Europa? * Essa resistência se junta a outra, já enfrentada a propósito da sabedoria: que mediação tentar entre o partido do no como e o de debater — em todo caso, de falar? Pois o filósofo fala, constrói, articula, afirma — impõe, tem razão. Mas o que perde com isso? * Estas não são, portanto, senão primeiros "elementos" sobre a questão do "viver".